Primavera Árabe: um processo em andamento

seg, 31/03/2014 - 15:12
A Primavera Árabe que começou na Tunísia, em 2011, trouxe para todos os árabes, de todos os rincões, uma esperança de que iremos reconquistar nossos direitos sobre nossas terras por séculos ocupadas e nossa dignidade como um povo merecedor de respeito. A Primavera Árabe é um processo em andamento e que já trouxe realizações que só encorajam a prosseguirmos na luta.

A ocupação da Palestina, num projeto elaborado por potências imperiais e executado por um arremedo de estado, continua tentando obstruir e arrasar mesmo a Primavera Árabe. Só que estamos em alerta para que a ela continue a gerar vitórias e que o povo árabe se liberte de seus inimigos.

Nossa história, depois de todo o brilho e a extensão de nossos impérios árabe-muçulmanos e de nossa contribuição para o saber universal, afirma que desde o extremo Maghrib até o mais distante Mashriq, foram as ingerências de potências estrangeiras através dos séculos, que nos reduziram a vítimas de divisões confessionais. Esta história, no entanto, nos gritou aos ouvidos que a era da subserviência teria que chegar a um termo.

A Primavera Árabe foi um desabafo gigante e ela hoje está viva e renovando suas energias. Se a Síria vive o pior dos cenários, a Tunísia afirma que a aspiração à cidadania e a procura de comprometimentos podem levar a avanços reais.

O chamado Ocidente com as opressões a que nos submeteram durante séculos criou por seu Orientalismo apatetado o preconceito da incapacidade congênita dos árabes a conceber um regime democrático e a convicção de que os árabes não poderiam aspirar a nada mais satisfatório do que serem governados por déspotas os quais, por sua vez, dependiam da inteligência mendigada às grandes potências, ontem apenas internacionais e hoje também de árabes. Estas vêm tentando a todo custo tornar sombria e turba uma Primavera que tem sido a expressão maior das aspirações árabes à independência política e à justiça social. Há nuvens escuras no horizonte primaveril que requerem o sopro de nossa luta para que elas se dispersem na entrada desta nova fase que se inicia.

A primeira fase começou na Tunísia com a imolação de Muhammad Buazizi, no dia 17 de dezembro de 2010, se estendeu por todo o ano seguinte de 2011, assistiu a um tsunami colossal clamando por cidadania e dignidade, que provocaram manifestações populares massivas de erupção espontânea.

A segunda fase que se seguiu, em 2012, foi notável pela concentração das lutas em seu contexto local e seu ajustamento à herança histórica de cada país.  Foi quando, nesta mesma segunda etapa, as forças externas começaram a reorientar os conflitos para direções extremamente perigosas, o que redundou na situação na qual se encontram os povos árabes.

A terceira fase, ano passado, foi a fase da internacionalização e da ingerência cada vez mais agressiva de potencias regionais e ocidentais. O agravamento mais prejudicial à causa dos povos árabes foi a generalização das rivalidades entre sunitas e xiitas, em toda a região do Oriente Médio, um problema que estava de certa forma, em berço calmo, e que as potências regionais e internacionais souberam atiçar a ponto de fazer com que a maioria das sociedades passou a se distinguir através de suas identidades confessionais. Não bastasse esta situação calamitosa para a causa dos povos árabes cresceu enormemente o antagonismo entre islamismo e secularismo.

A ameaça embutida nestas particularidades opostas geopolíticas e as tensões religiosas se sobrepujaram à especificidade de cada país e acabaram por reduzir os atores locais a marionetes nas mãos de potências estrangeiras.

Estas influências internacionais, a exemplo do camaleão, mudam de cor, mas também se adaptam ou modificam suas atitudes, comportamentos ou opiniões, de acordo com a aplicação que querem dar com relação a cada país e em função de seus interesses e conveniências.

A quarta fase coincide com o quarto ano da Primavera Árabe, com o ano atual de 2014. Ingerências internas, mais uma vez árabes e internacionais, continuarão crescendo, mas as frentes geopolíticas, religiosas e ideológicas vão se adaptando ao avanço pretendido.

Vasculhando opiniões e estudando cada situação em todos os países árabes, acabamos chegando à conclusão, que felizmente não é só nossa, de que estas aplicações da ingerência internacional são mais distintas e mais compreensíveis quando comparamos as situações vividas por Síria, Barein, Egito e Tunísia.
   
Síria e Barein são os dois países onde a ingerência estrangeira mais criou situações de guerra civil e permitiu que se exorbitassem ao extremo os lados mais radicais dos insurgentes. Há, no entanto, nos dois países, profundas diferenças entre os papeis representados pelos respectivos governos e as características dos opositores.

Já no Egito, o apoio ocidental à política autoritária do novo regime conseguiu aplacar, de certa forma, os impulsos democráticos iniciais.

Diferente dos países acima, somente a Tunísia está seguindo firme para a realização dos ideais de seu levante original dada a ausência relativa de enfrentamentos geopolíticos, religiosos e ideológicos, o que representa uma exceção em toda a região.

Em cada um desses países, no entanto, a Primavera Árabe deixou uma marca a fogo de uma mobilização popular na qual os cidadãos tomaram consciência de sua força. Passou a ser ponto pacífico, para os povos destes quatro países, que as intervenções externas pagam preço alto para conseguir seus objetivos.


Síria

Na Síria, sou testemunha, as reivindicações populares se faziam ouvir. Estive em Damasco poucas semanas antes do agravamento da situação e vi e ouvi, com alegria, em duas praças contíguas, duas manifestações reivindicando as mesmas reformas, porém uma apoiando o regime e a outra contrária ao regime. Traduzindo: tratava-se de um jogo democrático desagradável aos inimigos dos árabes.

O agravamento se deu depois que potências árabes e internacionais, incomodadas com a posição firme da Síria, na vanguarda da resistência contra a interferência direta dos Estados Unidos e de seus aliados, e indireta de Israel, financiaram grupos de manifestantes que geraram um ciclo devastador de manifestações.

Logo vieram os financiamentos aos rebeldes, armas de todo tipo foram atravessando as fronteiras sírias e verdadeiros exércitos mercenários entraram na luta.

Um movimento popular pacífico se transformou assim, devido a cálculos geopolíticos estranhos e a jogos confessionais irreconhecíveis, em uma guerra civil que está sendo vencida, mas a custa do sacrifício do povo sírio que não a quer, resultando no lastimável sacrifício do povo sírio.

Esta guerra, que nos foi impingida, é sanguinária e complexa. No final de 2013 havia deslocado algo como nove milhões de crianças, mulheres e idosos. A maioria, calculada em 6.500.000, ficou na própria Síria indo para lugares menos perigosos; uma pessoa de cada quatro fugiram desesperadas para escapar da violência e do caos e da crescente falta de alimentos, medicina e outras necessidades.  O pior é que segundo as Nações Unidas, 2.320.000 se refugiaram no Líbano, Jordânia, Turquia, Iraque e Egito.

Chegará o dia da contagem certa e inequívoca das mortes na Síria, logo que o povo sírio ganhar esta guerra civil.

A Síria sempre se caracterizou pela diversidade de suas tradições religiosas e comunitárias. Porém, como seria possível em qualquer lugar deste planeta, como se tratava de religião e comunidade, foi fácil para as potências externas, explorar as tensões crescentes e quebrar a convivência que sempre foi pacífica entre os sírios.

Quando se olha para os distúrbios atuais na Síria, quer seja chamado de revolução, guerra civil ou movimentos reivindicatórios, tanto faz, não mudaram a natureza do Estado, pois as forças que o orientam e a forma como ele reage não mudaram a sua natureza, o que difere da situação reinante entre Povo e Estado em outros países árabes.

Os problemas na Síria são maiores e mais complicados tanto pela violência que vêm demonstrando quanto pela sua própria composição social, ou política, ou religiosa, ou experiência partidária anterior acumulada, a essência de suas reivindicações, a natureza de suas experiências, sua capacidade organizacional, moral e financeira.

Não poderá haver análise da situação na Síria, sem olharmos para o passado:

- a atuação do governo tem respaldo da população do ponto de vista da segurança interna e aplaina de certa forma o rigor com o qual sempre atuou o regime, o que compensa a falta relativa de liberdade à disposição do povo;

- a política árabe firme pela qual se destaca o governo sírio, que nunca aceitou ceder um milímetro dos objetivos políticos não somente da Síria, como de países árabes em geral e principalmente da Palestina;

- daí a solidariedade do povo com as forças armadas, muito diferente da imposição e intromissão de forças armadas da região na condução política do Estado, como foi o caso no Egito;

- uma firmeza diante das tentativas de intromissão estrangeira nos assuntos internos da Síria, o que ficou mais evidente inclusive com a interferência da Arábia Saudita, Catar e outros países do Golfo Arábico/Pérsico, países estes que o povo sírio vê, e é suficientemente politizado para analisar e constatar que estes países árabes não têm conseguido resolver seus próprios problemas internos e vêm querer interferir na Síria de forma que não permitem internamente em seus próprios países;

- há também a tentativa externa de evidenciar o caráter religioso da rebelião na Síria, onde o regime sempre atuou como Estado laico e onde nunca houve superposição da religião em qualquer aspecto da vida do povo sírio e nem tampouco de seu governo.

Sobre a falta de divisão confessional na sociedade síria cite-se o presidente sírio, Dr. Bachar al-Assad, em pronunciamento para membros da Igreja Anglicana, mês passado, afirmou aquilo que tem representado a posição firme na nação síria, resumindo numa frase: “A sociedade síria que se distinguiu através de longos séculos pela coexistência harmoniosa, pelo amor, pela irmandade entre todos os seus filhos, na totalidade de suas confissões e suas etnias nunca aceitou e jamais aceitará ideias que lhe são estranhas. Esta ideia perigosa está ameaçando não somente a Síria, mas também todas as nações da região, em sua firme ligação entre seus componentes sociais.”

Um dos problemas básicos do que ocorre na Síria é a forma como os Estados Unidos e o Ocidente em geral se intrometem nas questões regionais devido à ignorância crassa de seus líderes da realidade e natureza da região e das aspirações de seus povos e atuam de acordo com seus próprios objetivos estreitos, longe dos interesses de seus próprios povos e de suas respectivas nações.

Os inimigos da Síria, encabeçados por Estados Unidos e Israel, seguidos de perto pela Turquia e com a participação de Arábia Saudita e Catar, conseguiram exacerbar uma divisão ancestral desta parte do mundo entre duas tendências rivais do Islã, sunismo e xiismo – que haviam de certa forma conseguido se acomodar, a fim de fazer crescer a sua influência.

Se a maioria dos rebeldes é sunita é porque seus financiadores diretos, Arábia Saudita, Catar e Jordânia têm maiorias sunitas, e os indiretos interesseiros, Estados Unidos, Israel et caterva comungam com estes árabes por incentivar uma guerra tendo a religião como desculpa.

Em nenhum outro país árabe, tal como na Síria, os cristãos se sentem em casa, na sua pátria milenar, o que é motivo de tentativas inúteis de criar mal estar entre sírios, qualquer que seja a sua religião. A França tentou fazer da Síria uma colcha de retalhos usando as religiões e não conseguiram a ajuda dos cristãos. Hoje, além da França, há outro atores, cada um pior que o outro, principalmente Israel que pretende ser reconhecido como estado judeu e nada é mais conveniente para esta barbaridade que uma Síria dividia em cantões alauitas, cristãos, drusos, sunitas e tudo o mais. No pasarán!

Ocorre que os aspectos geopolíticos acabam causando paradoxos que contradizem uma leitura estritamente confessional do conflito.  Um exemplo disto é que a Arábia Saudita saudou o golpe militar no Egito contra a Irmandade Muçulmana, que tem ligação com os mesmos grupos que os sauditas apoiam na Síria. O recente degelo do relacionamento entre Estados Unidos e Irã torna igualmente relativa a visão binária sempre apontada pela mídia ocidental: Arábia Saudita e Israel estão ambos se sentindo abandonados por Washington em comparação com Teerã e acabam se sentindo, Riade e Tel Aviv, de uma hora para outra como aliados de facto.

As contradições entre as forças laicas e islâmicas da oposição que luta na Síria também têm um peso enorme. O autodenominado Exército Sírio Livre diz ser de orientação secular e a maioria dos outros grupos forma um mosaico religioso que vai dos islâmicos moderados ao jihadistas ligados à al-Qaida e aos salafistas.

Não creio que exista quem possa afirmar que as facções mais radicais, como Ahrar al-Cham ou Estado Islâmico do Iraque e do Levante, tenham uma verdadeira convicção religiosa ou se estão utilizando os seus rótulos para fins mais prosaicos. Estes desentendimentos, dentro do campo rebelde, lutando entre eles, acabam favorecendo ao regime legal sírio.

O regime sírio tem uma vantagem enorme sobre os rebeldes, quando se leva em consideração que dinheiro e armas sozinhos não ganham guerra e uma guerra necessita de recursos humanos e a Síria tem contado, contrariamente a seus inimigos, com forças de unidades do Hizbullah, do Líbano, e das forças al-Quds, do Irã, além das milícias locais como a Chabiha. Isto, de certa forma, elimina a necessidade de recursos tais como armas químicas das quais o governo sírio abriu mão.

Houve recentemente um racha no CCG Conselho de Cooperação do Golfo (também chamado Conselho de Cooperação dos Estados Árabes do Golfo), com a retirada dos Embaixadores dos demais países acreditados junto ao governo do Catar devido à falta de adesão do governo deste país a um acordo de não interferência nos assuntos internos dos demais. Catar recusou aderir, mas não foi somente isto, a repercussão na Síria deve ser notada. Isto porque a Arábia Saudita decretou a classificação da Irmandade Muçulmana como organização terrorista, por ser este grupo financiado quase na totalidade pelo Catar, em suas operações na Síria.

Não satisfeita, a Arábia Saudita aumentou sua ajuda às organizações al-Nusra e Estado Islâmico, relacionados à al-Qaida e também a outras organizações não ligadas a Ussama Bin Ladin projetando assim as divergências internas do CCG para a Síria.

É por estas razões que os Estados Unidos principalmente não se interessam realmente pela cessação do conflito, mesmo porque não têm mais capacidade de abrir mais um frente de guerra e seus aliados ocidentais, inclusive a cativa Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN), de qualquer forma, dificilmente iriam querer entrar em mais uma aventura. Estados Unidos está deslocando sua atenção para a Ásia e também para a Europa; e é nas duas direções que eles vão cometer seus erros habituais daqui para frente.

Diante de tantas contradições e discrepâncias nos campos inimigos, árabes e não árabes, a Síria vai caminhando para a vitória.

Bareine

Em Bareine, as potências estrangeiras mostram saber como influenciar tensões locais, mas de maneira diferente daquela que vêm demonstrando na Síria.

As reivindicações autênticas e justas da população bareinita procurando colher frutos de sua contribuição para o avanço econômico da minúscula ilha mobilizou quase um quinto de toda a população nas demonstrações. A intervenção militar do Conselho de Cooperação do Golfo matou no nascedouro esta aspiração coletiva.

O fracasso do movimento teve também uma contribuição não armada dos interventores da CCG: infiltrar elementos estranhos que desviaram as palavras de ordem dos manifestantes para assuntos confessionais. O fato de a grande maioria, quase a totalidade da população bareinita ser xiita, menos a cúpula real que é sunita, acabou motivando as massas, também perseguidas devido à sua pertença religiosa.

No início, inclusive uma minoria sunita participava das manifestações, lado a lado com os xiitas, na mesma linha de reivindicações democráticas e sociais, o que durou somente até à intervenção saudita.

A internacionalização do conflito acabou com a chance histórica de se ver a sociedade bareinita resolver suas antigas tensões confessionais através do diálogo democrático. Seria um exemplo para os demais países.

Egito

O Egito se destaca com relação a Síria e Bareine por ser um país forte e autônomo capaz de enfrentar as pressões externas.

Em julho de 2013 um governo legítimo e democraticamente eleito originário da Irmandade Muçulmana foi derrubado por um golpe militar. Em qualquer outro lugar deste planeta tal fato levantaria uma indignação unânime; mas não, os Estados Unidos e seus aliados europeus, mas também a Arábia Saudita e seus aliados do Golfo, assim como a Jordânia, Marrocos e sem dúvida Israel, todos avalizaram o golpe de força que os livrava de Muhammad Mursi, democraticamente eleito como eles não gostam, mas toleraram, até que se tornou incontrolável.

Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos e Kuwait não titubearam e entregaram ao novo regime uma ajuda econômica de 12 bilhões de dólares, nove vezes maior que a ajuda estadunidense de 1,3 bilhões. Os sauditas matavam dois pássaros com uma cajadada: acabavam com os velhos desafios da Irmandade para com o regime do Egito e evitavam que a democracia islâmica pretendida pela Irmandade no Egito acabasse incentivando os islâmicos dentro do próprio território saudita a se aventurarem em projeto semelhante.

Se árabes e estrangeiros apoiam o regime militar, seu prestígio junto ao povo egípcio não foi influenciado. O povo viu na derrubada do antigo regime uma possibilidade de abertura para uma solução da desastrosa situação econômica, já que a Irmandade no governo havia perdido a confiança de seus eleitores por não responder aos problemas de desemprego e da corrupção. A Irmandade Muçulmana havia desagradado a “gregos e troianos”, a esquerda e os salafistas.

As organizações trabalhistas aproveitaram para ganhar fôlego e os salafistas preferiram o pragmatismo aliando-se ao regime militar.

A Primavera Árabe causa mais uma derrota aos islâmicos. A vitória “primaveril” no Egito não tardará. Os militares podem até serem eleitos, mas o ajuste de contas virá, pois o regime militar não passa de um arremedo do regime de Husni Mubarak.

O que o povo egípcio vai querer, sem demora, é uma prestação de contas, bastante ampla. Ela vai desde o cumprimento das reivindicações sociais pela qual o povo egípcio luta há decênios, mas certamente inclui também o grau e o tipo de relacionamento com Israel, já que os sucessivos governos militares egípcios, todos entreguistas vêm divergindo da opinião do povo que considera o estado patife de Israel seu inimigo e jamais seu parceiro, como sempre quiseram os militares.

Tunísia

A transição na Tunísia, comparada ao que vem ocorrendo nos demais países, mais parece uma tarde no parque. Levada adiante pelo povo tunisiano, cioso de estabilidade e democracia, as manipulações externas pouca influência tiveram. Deve-se isto mais por sua geografia: ainda que vigiada de perto pela antiga potência colonial francesa, a Tunísia quase nunca serviu para campo de competições geopolíticas dos interesses das grandes potências. Sua população é homogênea com relação a vários fatores, inclusive o religioso. A discórdia maior, depois da queda do ditador Zine al-Abidine Bin Ali, foi a luta entre islâmicos e laicos.

O partido an-Nahda, de inspiração islamita, ganhou as primeiras eleições e cometeu os mesmos erros que a Irmandade Muçulmana no Egito interpretando a concessão do mandato popular como chave para o poder ditatorial, deteriorando rapidamente a situação política, agravada pelo assassinato de diversos políticos de esquerda e a permissão do aumento do poder dos elementos salafistas, o que desagradou grandemente à população.

O povo tunisiano finalmente deu um basta ao governo sob a liderança da União Geral Tunisiana do Trabalho, uma organização que engloba o operariado, aqueles que ainda mantêm um trabalho, os estudantes e intelectuais, as organizações femininas, o povo em geral, levou o governo a se comprometer com um programa de prazo curto e vigiado, para a realização dos objetivos de democracia e justiça, razões máximas da Primavera Árabe.

Aprovada a nova Constituição, o governo transitório vem cumprindo com as tarefas que o povo lhe atribuiu, permitindo assim que o presidente em exercício, Dr. Moncef Marzouki, declarasse, dia 24 de fevereiro de 2014, que “a Tunísia terá um novo presidente eleito e um primeiro ministro [oriundo do resultado das eleições livres] no próximo mês de setembro".

A nova Constituição tunisiana foi adotada no dia 26 de janeiro deste ano. O primeiro benefício foi representado, antes de qualquer outro, por um alívio político em toda a Tunísia.

As questões relativas ao estatuto das mulheres, ao papel da religião, à liberdade de consciência foram previstas no texto constitucional, o que dará ao futuro governo tempo para se dedicar àquilo que de certa forma ficou para trás: os grandes problemas econômicos. Estes, certamente dominarão o futuro próximo na Tunísia.

Primavera é sorriso e alegria, mas ela não trouxe ainda muita felicidade nem na Síria, nem no Egito, e nem tampouco em Bareine, mas fez com que a Tunísia passasse a representar uma razão de esperança para toda a Nação Árabe. É na Tunísia que procurarão inspiração. O caminho está aberto.

Assim é que a Primavera Árabe entra em seu quarto ano. Não estão afastadas as ingerências externas, mais uma vez árabes e internacionais, com o crescimento de suas tentativas nocivas. Mas as frentes geopolíticas, religiosas e ideológicas vão se adaptando ao avanço pretendido.

Para este quarto ano da Primavera Árabe, tudo indica que a tentativa de interferência dos outros países árabes será cada vez maior, principalmente dos países do Golfo, ricos em petróleo, comparativamente à interferência das grandes potências; os pactos entre as partes envolvidas nos projetos de liberdade deverão ficar sob acompanhamento permanente, para que não continuemos na eterna luta pelo poder, pelo poder em si; os elementos perniciosos, locais, regionais e internacionais não deixarão de tentar sabotar os processos de libertação; e, finalmente, devemos nos sentir felizes por termos acordado para a realidade de sermos cidadãos dignos que merecem respeito, não mais massa de sujeitos sem rumo.


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