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Com o andamento das eleições no Egito, em decorrência da primavera árabe, e em vista dos resultados já divulgados que indicam a vitória de uma maioria de inspiração religiosa - Fraternidade Muçulmana e Movimento Salafista -, aproveitei a oportunidade e fui buscar na minha pasta “O Islã e suas seitas” algo sobre o “Movimento salafyia e salafin”.

seg, 12/12/2011 - 14:26

Essa resenha é um estudo crítico do trabalho mais famoso de Paul Bourcier, a fim de situá-lo dentro de um debate historiográfico que inclua a história da dança oriental, sobretudo porque ele já a delimita fora de seu campo (no título), mas curiosamente não resiste a integrá-la em seu repertório (nos primeiros capítulos).

sex, 18/11/2011 - 10:01

Por 107 votos a favor, 14 contra e 52 abstenções, a Palestina foi admitida na Unesco, no final da Assembleia Geral da instituição. A decisão foi seguida de gritos de “Viva a Palestina”, ao final de uma sessão tensa, pela oposição dos EUA, do Canadá, da Alemanha e de alguns outros países, que não teve sucesso porque na Unesco não existe o direito de veto das velhas potências, que bloqueia decisões democráticas da maioria, como esta, tomada ontem.

sex, 04/11/2011 - 10:35

A campanha eleitoral está em pleno vapor na internet, no facebook, nos jornais. Os candidatos já estão na estrada, fazendo discursos e participando de encontros com o público.

qui, 20/10/2011 - 21:08

 

Uma Palestina internacionalmente reconhecida é de interesse de Israelpor José FarhatAgora que o presidente da Autoridade Palestina Mahmoud Abbas desafiou Estados Unidos e Israel, ao apresentar o pleito de reconhecimento da Palestina como membro pleno da Organização das Nações Unidas (ONU) ao Secretário Geral da ONU Ban Ki-moon que o levará ao Conselho de Segurança e, apesar de toda a pressão internacional, é provável que os Estados Unidos exerçam o poder de veto pela enésima vez contra os palestinos e a favor dos israelenses e voltará o pedido para análise pela Assembléia Geral, creio ter chegada a hora, mais uma entre tantas através dos últimos 63 anos, de fazer uma pergunta.Será que uma Palestina internacionalmente reconhecida não é de sumo interesse, também, para Israel e israelenses?Antes de tudo, palestinos e árabes não vão parar por aqui, qualquer que seja o resultado final da ação corajosa de Abbas. A começar porque os palestinos lutam por aquilo que lhes pertence de fato e de direito, peito aberto e pedras na mão enquanto que os israelenses querem manter o que tomaram ilegalmente a força, num projeto colonial travestido de reivindicações religiosas, com armas sofisticadas e o terceiro ou quarto maior exército do planeta.A iniciativa palestina, com certeza, conta com o apoio da maioria dos países membros da ONU, enquanto Israel se isola cada vez mais e continua sufocando a si mesmo num ambiente hostil que o cerca e só pode ser levantado através de uma Palestina livre, com fronteiras definidas e defensáveis. A reação da platéia que ouviu os discursos de Abbas e do Primeiro-Ministro israelense Benjamin Netanyahu é prova inclusive do isolamento de Israel; o primeiro foi ovacionado em pé enquanto que o outro, deu para ver, só não foi vaiado por ser comportamento inadmissível no âmbito da Assembléia Geral.Será que não ocorre aos israelenses constatar que o reconhecimento mundial, estado por estado, de fronteiras definidas para a Palestina significa também automaticamente o reconhecimento dos limites do próprio estado de Israel, inclusive pelos 22 estados árabes? Se ganharem o reconhecimento de suas fronteiras pelos árabes, não seria também um reconhecimento implícito do estado israelense pelos árabes, um caminho curto e possível de obter uma convivência normal com admissão explícita do vizinho pelos árabes? Se o conflito palestino-israelense já está esgotando a paciência da comunidade internacional, a simpatia maior recai sobre a Palestina enquanto Israel assume posturas que só levam à antipatia crescente durante os últimos 63 anos.Mesmo que a Palestina não consiga no Conselho de Segurança a sua admissão plena, na Assembléia Geral certamente contará com dois terços de aprovação de seu pleito e será elevada à categoria de estado não membro o que lhe abrirá as portas de muitos foros internacionais legais incluindo a Corte Internacional de Justiça e a Corte Criminal Internacional. Os palestinos, na prática, poderão levar seus casos contra as autoridades israelenses. Israel, com todas as suas armas, se verá obrigado a responder, por exemplo, pela expansão dos assentamentos na Cisjordânia, considerada ilegal pela comunidade internacional.As negociações pleiteadas por Netanyahu e Barack Obama e alguns governantes internacionais antes do reconhecimento do estado palestino não levou a lugar algum nos últimos 17 anos. É absolutamente tendencioso e humilhante continuar a negociar, Israel em seu pedestal atrás de suas forças armadas e a Palestina, ainda por ser reconhecida, representada por meia dúzia de governantes que perderam as últimas eleições para o Hamas, eleito pela maioria dos palestinos. Nada contra a iniciativa de Abbas e seu Fatah, mas apenas queremos salientar como a democracia que se quer para os palestinos é relativa e adjetivada – o que a torna não democracia. As finanças dos palestinos estão em mãos do Tesouro de Israel que arrecada os impostos e a ajuda estadunidense condicionando a aceitação de negociações colocam os palestinos numa camisa de força, levando-os ao que Israel e Estados Unidos consideram, junto com seus poucos aliados, o extremo de recorrer à ONU em busca de reconhecimento.Israel nega a legitimidade da ONU para decidir sobre o futuro dos palestinos, fingindo esquecer que é exatamente com base na metade e não na totalidade de uma decisão da Assembléia Geral que se considera um estado revestido de legalidade.Retirando dos palestinos, agora e durante os últimos seis e poucos decênios, seu poder de barganha para levá-los à inútil mesa de negociações esquecem os israelenses que durante decênios se recusaram a negociar dizendo que não tinham interlocutor para negociações. Se Yassir Arafat ora servia ora não, porque Abbas agora serve, mas somente se desistir de reivindicar a paralisação da extensão dos assentamentos? Onde está a lógica a não ser na continuidade do programa de ocupação da terra palestina e da procura dos votos dos cidadãos estadunidenses que Obama anseia por conquistar para se reeleger?Ao torpedearem o pleito dos palestinos agora, vale a pena repisar mais uma vez, Israel e Estados Unidos estarão deixando de garantir para o primeiro um Estado de Israel seguro, judeu e democrático, como querem, não lembrando que a solução de dois estados é muito mais a favor de Israel que dos palestinos. Para estes, a solução de um só estado para dois povos é muito mais favorável, no presente e no futuro, pois se olhado simplesmente do ponto de vista demográfico, os palestinos superarão os israelenses em prazo de poucos anos. Os palestinos sabem que se não conseguirem agora o seu pleito, as únicas alternativas o seu alcance são: brigar pelos direitos humanos e terem o apoio de todo o planeta e passar a lutar pela solução que lhes é mais favorável que é um estado só; e Israel, com o comportamento imoral e ilegal que vem demonstrando, será a garantia de a Palestina, em toda a sua extensão, terá o apoio que atualmente a maior parte do planeta dá à atual reivindicação palestina.É inegável que o reconhecimento da Palestina, conforme pede agora Abbas, é de suma importância para Israel. O estado hebreu terá lucros morais e estratégicos, não será mais visto como um Golias que abusa de sua força contra um David desarmado, sem estado, eterna vítima. Netanyahu, os partidos que o apóiam e todos os israelenses deveriam vislumbrar que a Palestina, ao se transformar num estado pleno, levará a briga atual de desiguais em contenda entre dois estados soberanos com tudo o que isto pode representar de vantagem, tanto na guerra quanto na paz. A Palestina será responsável por seus atos e não os atores atuais portadores das carteiras de identidade a que se referia Mahmoud Darwish, o poeta palestino maior. O Estado da Palestina poderia ser levado às cortes internacionais de justiça e ao próprio Conselho de Segurança da ONU pelo menor ato de beligerância.Israel está preferindo ver os poucos aliados que lhe restavam, como a Turquia e o Egito, se afastarem cada vez mais de qualquer tipo de parceria. A Primavera Árabe, e não é difícil perceber, também não está sendo dirigida somente contra seus governantes pelos atos e omissões que vêm cometendo, mas também pela associação com os Estados Unidos que representa nada mais nada menos que apoio indireto ao estado israelense e suas ações contra os palestinos. Israel deveria considerar que a neutralização, desde as ruas e praças árabes até todos os povos árabes e muçulmanos, está no reconhecimento do estado palestino e a paz com um soberano Estado da Palestina.O reconhecimento de um estado palestino pelas nações que compõem a ONU representará um antídoto contra o crescente isolamento de Israel e um bálsamo para o ódio que os árabes e muçulmanos nutrem de forma progressiva contra os Estados Unidos. Quem apóia os palestinos não faz distinção entre Israel e Estados Unidos.Obama e Netanyahu jamais conseguirão negociar somente parte do problema palestino-israelense e uma negociação séria terá que incluir questões como Jerusalém e Refugiados e estes assuntos só podem ser negociados entre dois estados soberanos, discutindo como iguais. Sem reconhecimento do Estado Palestino assuntos desta magnitude não podem ser negociados e sem uma solução para estes dois problemas, qualquer negociação é troca de figurinha.Com a estratégia de internacionalização do conflito, qualquer que seja o resultado, os palestinos já saem ganhando e os israelenses perdem a oportunidade de sair do impasse no qual se encontram também.José Farhat é cientista político e diretor do Instituto da Cultura ÁrabeVisitem o blog: http://josefarhat.wordpress.com

Agora que o presidente da Autoridade Palestina Mahmoud Abbas desafiou Estados Unidos e Israel, creio ter chegada a hora de fazer uma pergunta. Será que uma Palestina internacionalmente reconhecida não é de sumo interesse, também, para Israel e israelenses?

sex, 30/09/2011 - 11:42

 

A nova batalha pela LíbiaJá em 1998, Larry Summers, então secretário das Finanças do governo norte-americano, sinalizava a importância econômica que o processo de reconstrução dos países adquiria dentro das chamadas intervenções humanitárias. Segundo seus cálculos, a cada dólar investido na reconstrução em um país, as corporações norte-americanas ganhavam, aproximadamente, 4 dólares. Assim aquilo que aparecia, inicialmente, como um grande fracasso da Otan agora passa a ser saudado como uma “boa guerra”. O artigo é de Reginaldo Nasser e Marina Mattar.Reginaldo Nasser e Marina MattarEnquanto os problemas militares e políticos recebem grande parte da atenção na construção da paz na Líbia, a economia pós-conflito permanece como um assunto secundário pouco abordado nas análises e informações presentes na mídia. No entanto, são justamente as dimensões econômicas que se mostram cruciais durante o período de transição em que se espera o desarmamento e desmobilização dos beligerantes em troca da promessa de um futuro melhor em conseqüência da paz. Como o Ministro de Relações Exteriores francês, Alain Juppe, afirmou: “A operação na Líbia teve custos elevados; mas é também um investimento no futuro, pois uma Líbia democrática é um país que se desenvolverá e oferecerá estabilidade, segurança e desenvolvimento na região”. Na perspicaz observação de Rachel Shabi (Al Jazeera 25/08/2011) à medida que a ditadura do coronel Kadafi chega ao seu final, as notícias sobre a Líbia vão progressivamente aparecendo nas páginas de Negócios e Empresas dos jornais ocidentais. Líderes empresariais europeus, com experiência em negócios na Líbia, já manifestam explicitamente sua cobiça. A Líbia é um dos países mais ricos da região: seu PIB per capta é de 14 mil dólares por pessoa, ultrapassando o de seus vizinhos Egito e Tunísia. A riqueza do país é conseqüência de suas reservas de petróleo que, apesar de representarem apenas 2% da reserva mundial, é de grande importância para potências européias, como Itália e França, e afeta diretamente os preços do petróleo. Os investimentos diretos estrangeiros no país apresentaram um crescimento relevante na última década: em 2000, foram investidos US$451 milhões; em 2008, US$ 12 bilhões; em 2009, US$ 15,5 bilhões e em 2010, US$19,36 bilhões. Dias antes dos protestos atingirem as ruas da Líbia, o FMI publicou um informe parabenizando “o forte empenho da Líbia na economia e os avanços em reforçar o papel do setor privado e em apoiar o crescimento da economia não petrolífera”. Um dos líderes do Conselho Nacional de Transição (CNT), Mahmoud Jibril, foi um dos formuladores da política de liberalização da economia na Líbia que teve início em 2007. Apesar dessas mudanças, a economia da Líbia esteve sempre concentrada em Kadafi e seu círculo de poder, incluindo aí as empresas italianas, inglesas e francesas. No encontro em Paris, nesta última semana, que reuniu 42 países para discutir a reconstrução da Líbia, o Conselho afirmou, diversas vezes, a seus parceiros da OTAN e outros países presentes que a Líbia se tornará um país democrático, transparente e de mercado competitivo. Mesmo antes do termino do conflito, a corrida por negócios na “nova” Líbia já havia se iniciado. Desde junho, indústrias petroleiras francesas, italianas e alemãs – todas apoiadas por membros de seus governos - visitaram a Líbia com objetivo de futuros negócios e acordos com o novo governo. Os investidores franceses, assim como os alemães, agendaram reuniões de negócios com os rebeldes em suas capitais, durante o mês de setembro e outubro, para estabelecer negócios e doações para a reconstrução da Líbia. Durante esta semana, o Ministro de Desenvolvimento Internacional inglês, Alan Duncan, sofreu acusações de ter estabelecido secretamente um contrato de 1 bilhão de dólares entre os rebeldes líbios e a multinacional suíça Vitol para exploração de petróleo na região.Os interesses econômicos envolvidos na intervenção da Líbia não dizem respeito apenas aos contratos para extração de petróleo, mas também para a reconstrução do país após o conflito, sob o argumento da necessidade de modernizar sua infra-estrutura e regularizar seu comércio. Em Paris, no encontro dos amigos do novo governo da Líbia, promovido pela França, o CNT pediu para a ONU liberar os fundos de Kadafi (US$ 150 bilhões), congelados por sanções ao seu regime. “Nós nos comprometemos a desbloquear fundos da Líbia do passado para financiar o desenvolvimento da Líbia do futuro”, afirmou Sarkozy. De acordo com um oficial norte-americano, os 61 bilhões de dólares contidos nos fundos poderão financiar toda a reconstrução do país. Mais do que uma conferência de doadores, o encontro tornou-se um momento de estabelecimento de contratos. No mesmo dia do encontro, os EUA transferiram 300 milhões de dólares, dos fundos retidos em bancos norte-americanos, para a companhia multinacional Vitol pelo apoio prestado aos rebeldes. Uma semana antes, a França fechou um acordo com os rebeldes para que alimentos e gêneros de primeira necessidade fossem comprados apenas de empresas francesas com o dinheiro dos fundos bloqueados nos bancos franceses (US$ 7,5 bilhões), que acabará voltando para a economia francesa. Na semana passada, por exemplo, o CNT comprou 44 milhões de dólares em trigo francês. Já em 1998, Larry Summers, então secretário das Finanças do governo norte-americano, sinalizava a importância econômica que o processo de reconstrução dos países adquiria dentro das chamadas intervenções humanitárias. Segundo seus cálculos, a cada dólar investido na reconstrução em um país, as corporações norte-americanas ganhavam, aproximadamente, 4 dólares. Assim aquilo que aparecia, inicialmente, como um grande fracasso da Otan agora passa a ser saudado como uma “boa guerra”. Segundo o influente analista internacional da CNN Zakariaa, trata-se de uma ação militar que não seguiu o padrão tradicional de intervenções lideradas pelos EUA e pode inaugurar “uma nova era na política externa dos EUA”. A Otan entrou na guerra apenas no momento em que pode constatar a existência de um grupo local que estava disposto a lutar e morrer; a ação foi legitimada pela Liga Árabe e pela ONU, e o mais importante, conclui Zakaria, é uma grande melhoria em relação ao antigo modelo que acarretava custos humanos e financeiros muito grandes. A partir de agora é que realmente tem inicio a verdadeira e mais difícil batalha que os revolucionários líbios deverão travar.

Já em 1998, Larry Summers, então secretário das Finanças do governo norte-americano, sinalizava a importância econômica que o processo de reconstrução dos países adquiria dentro das chamadas intervenções humanitárias. Segundo seus cálculos, a cada dólar investido na reconstrução em um país, as corporações norte-americanas ganhavam, aproximadamente, 4 dólares. Assim aquilo que aparecia, inicialmente, como um grande fracasso da Otan agora passa a ser saudado como uma “boa guerra”.

sex, 16/09/2011 - 14:23

 

Onze de setembro: dez anos depoispor José FarhatLogo após o ataque às Torres Gêmeas, em 9 de setembro de 2001, e até há poucos anos depois, quem ousasse interromper um jogo de gamão ou a baforada de um narguilé, em qualquer café de Beirute ou Clube de árabes em São Paulo e perguntasse quem foi o autor do atentado, é provável que ouvisse uma quase unânime resposta: “C.I.A. e Mossad”! Escrevemos um relato intitulado Onze de Setembro Sete Anos Depois, em 11/09/11, dando conta desta linha de pensamento árabe e também muçulmano, por andarem em paralelo.Hoje, no entanto, já não se atribui este ato terrorista às duas agências de inteligência e sim a seus reais autores: al-Qaida e seus pupilos. Alguma insistência naquela errônea versão ainda ocorre, tal como existem pessoas que ainda consideram uma farsa televisiva a chegada de Neil Alden Armstrong à lua e seu pronunciamento em nome da humanidade.A grande maioria de árabes e muçulmanos nunca apoiou a al-Qaida e sobretudo o crime que cometeu em território estadunidense, salvo as desprezíveis exceções de sempre que se manifestaram em 2001. Boa parte destes segue atualmente a mesma linha traçada por Peter L. Bergen, em seu livro The Longest War: The Enduring Conflict Between America and Al-Qaeda [A mais longa guerra: O conflito duradouro entre América e al-Qaida] no qual é analisado o sentido do que ocorreu naquele dia nefasto, mas também as consequências daquela agressão desumana, entender a guerra no Afeganistão, a ocupação do Iraque, as relações perturbadas dos Estados Unidos com o Paquistão, as perspectivas do relacionamento entre árabes e muçulmanos com o chamado Ocidente, liderado pelos Estados Unidos, às vezes ocultados pela couraça da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN), as torturas cometidas e os programas de remessa às escondidas de prisioneiros a outros países para que fossem cruelmente interrogados e às vezes até eliminados e a caça e a morte de Bin Ladin.  Seguindo Bergen, analista de segurança nacional da Rede CNN e diretor de estudos de segurança da New American Foundation que coletou dados junto a autores e organizações, fizemos o mesmo, salvo por uma única exceção, procuramos trazer para este estudo a opinião de não árabes e não muçulmanos. A bem da verdade, Bergen chegou a ser criticado pelo establishment estadunidense, à falta de outra desculpa, por não ter dado maiores detalhes sobre o Afeganistão.Aquilo que árabes e muçulmanos, inclusive na Tríplice Fronteira de Brasil, Argentina e Paraguai, em todo o Brasil, em países árabes ou de maioria muçulmana indagam não é diferente daquilo que fazem os próprios cidadãos estadunidenses. Atualmente em sua grande maioria eles se impressionam: uma década depois do 11/9 os Estados Unidos continuam lutando no Afeganistão e ainda não saíram do Iraque (e apesar de acordo firmado com o governo iraquiano estão procurando encontrar um meio, qualquer um, para lá ficar), tudo apesar de não ter ocorrido qualquer ataque terrorista desde então. O espanto maior é que foi gasto mais de US$ 1 trilhão nos combates, milhares de estadunidenses foram mortos e não há dúvida que Tio Sam inspirou o surgimento de oposição odiosa por parte de árabes e muçulmanos, onde quer que se encontrem.  Cada árabe ou muçulmano lamenta a perda de centenas de milhares de vidas dos seus, tão inocentes quanto os cerca de três milhares de vítimas das Torres Gêmeas. É-lhes dolorido constatarem o que pode ser considerado uma discriminação entre vítimas civis inocentes: “as deles e as nossas”. O mundo ouviu as palavras de George W. Bush no dia do ataque e duas vezes depois e seus discursos foram pronunciados em alto e bom som, o suficiente para que árabes e muçulmanos ouvissem que a reação estadunidense seria uma cruzada. Lamentam eles também as agressões que se seguiram ao 11/9, por parte de Estados Unidos e seus aliados em terras árabes ou muçulmanas. Sentem profundamente o apoio que é dado a Israel e os abusos que este comete contra os palestinos que são tanto árabes quanto muçulmanos em sua maioria, mas também cristãos. A reação ao tratamento dado por Israel aos lugares santos do Cristianismo e do Islã não se limitam ao estado hebreu e sim abrangem os Estados Unidos e seus aliados. Ninguém pode negar que foram, em última instância, os inúmeros adiamentos da decisão de ingresso da Turquia na União Europeia, que teve sua origem nas campanhas contra o Islã, a razão para levar o estado turco a desistir de sua candidatura ao ingresso na organização. Isto apesar de o então presidente dos Estados Unidos, George W. Bush, mentiroso contumaz, dizer que era a favor da entrada do país de maioria muçulmana para o seio da organização europeia. Pode-se também considerar que a deterioração das relações entre Israel e Turquia tem em 11/9 suas origens remotas.A própria criação do Instituto da Cultura Árabe no Brasil (Icarabe) tem indiretamente no episódio suas origens. Os ataques a Edward W. Saïd (1935-2003), palestino-estadunidense, teórico de literatura, professor de inglês e literatura comparada na Columbia University e defensor da causa palestina, recrudesceu com a implementação da “caça às bruxas” nos Estados Unidos após o 11/9. Saïd passou a ser atacado por sua origem e até ameaçada foi a sua cátedra na universidade. Os ataques repercutiram no Brasil e encorajaram a união de intelectuais em sua defesa. O apoio a Saïd foi ampliado para a causa palestina em particular e árabe em geral e à rica cultura árabe, o que consequentemente resultou na criação do Icarabe, que o tem como patrono. Falamos do 11/9 e de algumas poucas de suas repercussões, mas não chegamos a definir o que é terrorismo, o motivo das cruzadas de Bush filho. Em artigo publicado em 02/09/2011, o professor de Ciência Política da Aligarth Muslim University, na Índia, M. Mohibul Haque publicou um artigo no Countercurrents.org intitulado Deconstruction of Discourse on Terrorism [Desconstrução discurso sobre terrorismo] no qual ele sublinha que o sentido do termo ‘terrorismo’, apesar de ser aquele que por mais longo tempo se discute em círculos acadêmicos e governamentais, tem “implicações perigosas [que] não são sentidas” e afirma ademais que “a ausência de uma definição objetiva de terrorismo é mais proposital do que acidental”. Haque acrescenta ainda: “a desonestidade da fraternidade acadêmica e o dúbio comportamento de governos nacionais são responsáveis por tais problemas”. Vindo para o nosso assunto, o professor da AMU chega diretamente ao âmago da questão ao afirmar: “Terrorismo é um ato político ou ideológico motivado por violência contra homens ou mulheres comuns. Ele pode ser cometido por indivíduo, grupo, organização ou estado. No entanto, infelizmente este discurso sobre terrorismo foi sequestrado por nações poderosas do mundo que nunca querem que seus atos de injustificável violência devam ser discutidos no contexto de terrorismo. Isto é muito evidente nos efeitos dos ataques terroristas de 11 de setembro contra os Estados Unidos. A assim chamada guerra global declarada contra o terror e que está sendo travada por Estados Unidos e um punhado de seus aliados tem tentado tapear que na presente circunstância o terrorismo é monopólio de não-estados. Assim, a matança de pessoas inocentes cidadãs de Afeganistão, Iraque, Somália e Kosovo por uma aliança imperialista não é absolutamente terrorismo.” Professor Haque conclui dizendo que “Terrorismo deve ser definido e determinado mais com base em atos cometidos que em atores envolvidos.” Albert ‘Al’ Gore vice-presidente durante os oito anos de governo William ‘Bill’ Clinton, não é árabe e nem tampouco muçulmano, com sua insuspeita pena, escreveu um livro sob o título The Assault on Reason [O assalto à razão] no qual atacou George W. Bush dizendo que ele estava “fora de alcance da realidade” e ignorou “claros avisos” sobre a ameaça terrorista antes do 11/9 e que ele tornou os estadunidenses menos seguros “agitando vespeiros no Iraque” enquanto usava “a linguagem e a política do medo” a fim de “desviar a agenda pública sem atentar para a evidência, os fatos ou o interesse público”. Gore poderia até estar investindo contra Bush por razões eleitoreiras, o que é negado por todas as resenhas do livro às quais tive acesso, mas há um fato inegável a respeito do assunto.  Bush não deu ouvidos aos “claros avisos” porque com ou sem o 11/9 seus planos eram outros e o ataque da al-Qaida serviram apenas de desculpa. Em artigo publicado em 15/09/2002, sob o título Planned Iraq 'Regime Change' Before Becoming President [Plano de ‘mudança de regime’ no Iraque antes de se tornar presidente], o jornalista Neil Mackay dá conta em artigo de 15/09/2002, que um resumo secreto de documento sobre a dominação global dos Estados Unidos revela que Bush filho e seu gabinete estavam planejando e premeditando atacar o Iraque a fim de assegurar uma ‘mudança de regime’ bem antes de quando este assumiu a presidência em janeiro de 2001. Quem revelou a existência do documento sobre a criação da ‘Global Pax Americana’ foi o jornal Sunday Herald que informa serem autores do resumo Richard ‘Dick’ Cheney (que se tornaria vice-presidente de Bush filho), Donald Rumsfeld (que seria nomeado secretário de defesa), Paul Wolfowitz (segundo de Rumsfeld), John ‘Jeb’ Bush (irmão de Bush filho e depois governador da Florida e que ajudaria o irmão a ser reeleito) e Lewis Libby (chefe de gabinete de Cheney). O documento original, sob o título de Rebuilding America’s Defense: Strategies, Forces And Resources For a New Century [Reconstruindo a defesa dos Estados Unidos: Estratégias, forças e recursos para um novo século] foi redigido em setembro de 2000 (um ano antes do 11/9) pelo neoconservador grupo chamado Project for the New American Century [Projeto para um novo século estadunidense]. Tanto isto é verdade que na reunião da cúpula governamental estadunidense, no dia dos acontecimentos do 11/9, ao saber do ocorrido Paul Wolfowitz gritou: “Foi Saddam Hussein, vamos atacar o Iraque!” e, em seguida, ao surgir a figura de Bin Ladin, decidiu-se pelo ataque ao Afeganistão em primeiro lugar. Não precisa ser árabe ou muçulmano para começar desconfiando e depois ter certeza que tudo tinha sido planejado com antecedência e os ataques de 11/9 e suas vítimas foram tão somente usados e os países árabes e muçulmanos também. No documento Rebuilding America’s Defense (capítulo II Quatro missões essenciais - página 5) estão traçadas as metas: “A liderança mundial dos Estados Unidos e seu papel de garantidor da atual paz da grande potência, assenta na segurança do território estadunidense; na preservação de uma balança favorável de poder na Europa, no Oriente Médio e na região circunvizinha produtora de energia e Leste Asiático; e na estabilidade do sistema internacional de estados-nações relativo a terroristas, crime organizado e outros ‘não-estados’ atores.” No dia 06/09/2011, por ocasião do décimo aniversário do 11/9 o britânico Oxford Research Group publicou um relatório sob o sugestivo título de A War Gone Badly Wrong – The War on Terror Ten Years On [Uma Guerra que seguiu muito errada – A Guerra contra o terror continua por dez anos] com reflexões sobre os erros catastróficos da ultima década e avaliação da resposta dos Estados Unidos e da coligação de seus parceiros e questiona se a resposta foi apropriada ou sábia ou se os resultados foram, até o momento, contraproducentes e indicam a necessidade de um totalmente novo paradigma de segurança.O autor do relatório, o Professor Paul Rogers, diz: “Por ver os ataques como exigindo uma resposta militar importante - uma ‘guerra ao terror’ – atribuiu aos autores precisamente a atenção que eles buscavam e provou ser profundamente contra produtivo.” O relatório inclusive compara os objetivos originais de guerra das administrações Bush e Blair logo após os ataques e seus resultados atuais em termos de longevidade dos conflitos, os custos humanos, as implicações financeiras e os desenvolvimentos políticos.Rogers resume os maiores resultados da ‘guerra ao terror’ quando diz: “Uma curta guerra no Afeganistão logo mais entra na sua segunda década, sete anos de guerra no Iraque ainda está por resultar numa paz duradoura e o Paquistão continua profundamente instável. Enquanto isto, grupos fracamente ligados ao movimento al-Qaida fazem progresso em Iêmen, Nigéria, Argélia e Corno da África.” É mais uma concordância, e bastante importante, à idéia que defendemos aqui e, mais ainda, o impacto destes acontecimentos certamente serão sentidos por muitas décadas futuras tanto no Mashriq quanto o Maghrib árabes quanto no sul e centro asiático muçulmanos.Só se pode concordar também com Rogers quando aponta para um fato relevante que é o aumento significativo da influência do Irã na região e principalmente nos países palcos das ações estadunidenses: Afeganistão e Iraque e, nestes países, o Irã está livre para atuar. Rogers vai além ao apontar para aquilo que um aniversário não está representando em termos de oportunidade para reflexões honestas já que planejadores políticos e militares estão se arriscando a repetir os erros da última década e diz: “Uma avaliação abrangente das guerras no Iraque e Afeganistão é muito necessária em maior profundidade” do que a atual atitude dos Estados Unidos e Reino Unido para se conseguir “aumentar a cautela em resposta muito rápida em circunstâncias difíceis com o uso de força militar.”Dificilmente podem ser encontrados contestadores, em qualquer parte do mundo, na atualidade, às conclusões de Rogers quando diz: “Tornou-se cada vez mais claro na última década que os Estados Unidos e seus parceiros devem aprender com o evidente fracasso da ‘guerra ao terror’ passando a prestarem mais atenção às causas subjacentes aos conflitos, especialmente os fatores que motivem novos paramilitares a empreenderem ações extremas.”Noam Chomsky, linguista, filósofo, ativista político estadunidense, professor de Linguística no Instituto de Tecnologia de Massachusetts, comentou sobre o 11/9 em artigo datado de 06/09/2011 intitulado Dangers of American Empire and Why the US Continues to be Bin Laden's Best Ally [Perigos do império estadunidense e porque os E.U.A. continuam sendo o melhor aliado de Bin Ladin], no qual aponta que “Inúmeros analistas observam que apesar de Bin Ladin finalmente ter sido morto, ele ganhou alguns grandes sucessos em sua guerra contra os Estados Unidos.”Continuando, Chomsky cita o jornalista especialista em Oriente Médio e Islã, Eric Margolis que escreveu: “Ele [Bin Ladin] repetidamente afirmou que a única forma de conduzir os Estados Unidos para fora do mundo islâmico e derrotar seu satrapismo é trazê-los para uma série de pequenas, mas dispendiosas guerras que finalmente irão à falência”. Segundo Chomsky, ”Fazendo sangrar os Estados Unidos, primeiro sob George W. Bush e depois sob Barack Obama levou-os direto para a armadilha de Bin Ladin.” Chomsky prosseguiu com sua correta afirmação de que “um ataque maciço contra uma população muçulmana teria sido uma resposta às orações de Bin Ladin e seus associados e levaria os Estados Unidos e seus aliados a uma armadilha diabólica.” Foi por esta razão, aliada aos custos de mais uma frente de guerra, que fez com que os Estados Unidos fingissem não estar atuando na Líbia.Chomsky, após demonstrar que os Estados Unidos, com seus ataques ao mundo islâmico foram os melhores aliados de Bin Ladin, indaga se não havia alternativa e aponta aquela que seria a mais óbvia: o movimento Jihadi Islâmico, crítico ferrenho de Bin Ladin, poderia ter abandonado o movimento e minado todas as ações da al-Qaida e o crime contra a humanidade que foi cometido poderia ter sido tratado como crime com uma ação internacional para prender os responsáveis, mas como dissemos acima, os ataques já constavam dos planos até mesmo antes da posse de Bush filho e antes do 11/9 e sem ou com os ataques criminosos o que se queria mesmo era ocupar o Afeganistão e o Iraque e ousamos dizer: como passo inicial. Bin Ladin ainda viveu para ver um dos resultados das aventuras dos Estados Unidos e seus aliados nas guerras e interferências nos países árabes e muçulmanos que levaram diretamente para a crise econômica que começou em 2008 e só Allah sabe quando e se de fato terá solução.José Farhat é cientista político e diretor de relações nacionais e internacionais do Instituto da Cultura Árabe.

Logo após o ataque às Torres Gêmeas, em 9 de setembro de 2001, e até há poucos anos depois, quem ousasse interromper um jogo de gamão ou a baforada de um narguilé, em qualquer café de Beirute ou Clube de árabes em São Paulo e perguntasse quem foi o autor do atentado, é provável que ouvisse uma quase unânime resposta: “C.I.A. e Mossad”! Escrevemos um relato intitulado Onze de Setembro Sete Anos Depois, em 11/09/11, dando conta desta linha de pensamento árabe e também muçulmano, por andarem em paralelo.

sex, 16/09/2011 - 14:23

Fica claro que não podemos esperar transparência nos meios propagandísticos da máquina hegemônica americana. Com vias a consolidar seu domínio político-econômico-militar sobre os países do Golfo, proclama-se na salvaguarda dos direitos humanos, da liberdade e da democracia, quando, efetivamente, promove a ditadura, a submissão e a exploração dos povos da terra. Muitos estadistas encontram-se obrigados à subserviência indesejada, porque não podem fazer face ao poderio bélico que lhes restringe o direito de escolha e autodeterminação.

sex, 16/09/2011 - 13:45

 

No romance de Alexandre Dumas (1802-1870), Les Mohicans de Paris, há uma referência de culpabilidade quando se lê: “cherchons la femme” considerada a culpada de tudo o que lá ocorre. Assim é na política patchwork libanesa, onde sempre são encontrados os sauditas. No tempo de Rafiq Al-Hariri este, de personalidade forte, ainda que subservientes à Casa de Saud nem sempre conseguiam tudo com facilidade. Na atualidade, Saad Al-Hariri nem chega a piscar quando ouve as ordens. Como as milícias cristãs também servem à causa da Arábia Saudita, estes são encarregados do treinamento da oposição síria. As armas, como não passam pelo Líbano para abastecer o Hamas ou o Hizbullah, passam livremente seguindo um caminho que vem dos Estados Unidos para a Arábia Saudita daí para o Líbano e deste para a Síria; tudo novinho em folha e eficiente.Talvez já seja a hora de dizer que não concordo com o tratamento que o povo sírio está recebendo de seu governo; uma coisa é uma coisa e outra coisa é outra coisa. Se o governo sírio cair, quem garante saber o que virá depois? Cassandra ouvia Apolo e os inimigos da Síria e do povo sírio ouvem o diabo, mas não devem esquecer que se Bachar Al-Assad cair, vamos encontrar Estados Unidos, Arábia Saudita e Israel chorando pelas esquinas de arrependimento por falta de previsão. Se lhes interessasse o destino do povo sírio deveriam negociar com Bachar e levá-lo a realizar as reformas. Aliás, é bom lembrar, pela negociação muitos problemas no mundo teriam sido resolvidos, desde as margens do Eufrates até às do Nilo. Já que falamos de negociação, ainda é hora de resolver pela negociação o roubo do gás libanês que está ocorrendo no triângulo Palestina-Líbano-Chipre, antes que se tenha que retirar “colonos aquáticos” dentro em breve.Voltando aos sauditas, toda a política do Reino tem como base o wahhabismo sunita que se julga capaz de qualificar ou desqualificar quem quer que seja neste planeta, nesta vida térrea. Há às vezes exceções, mas o objetivo é o mesmo, como no caso das milícias cristãs libanesas; tudo serve desde que sirva, em última instância, a wahhab-saud; a religião e o estado.Se os rebeldes sírios e os infiltrados entre eles estivessem desarmados não precisariam de tanques para derrotá-los, ninguém é idiota neste meio, desde Bachar até o Baath, passando pelas Forças Armadas. A rebelião, ou melhor, as rebeliões, teriam sido esmagadas em horas e não durariam semanas a fio.Quem conhece a Síria tem certeza que Al-Assad e os que o cercam e ou se beneficiam do regime não dão a mínima para religião. A religião, de forma deturpada, está na Irmandade Muçulmana, na Arábia Saudita, no Partido do Futuro, em Israel e só não está nos Estados Unidos porque lá os que se beneficiam do petróleo e das armas não têm deus nem pátria. Destacando o papel saudita na refrega síria só se pode notar a semelhança entre esta intervenção, negada, mas existente, com aquela ingerência em Barein; aqui apoiando rebeldes por serem sunitas e lá desapoiando revoltosos por serem xiitas. Por serem produtores de petróleo, Arábia Saudita e Irã têm interesses comuns e são muçulmanos, já que gostam de religião, mas aí se junta a fome com a vontade de comer: um é contra os xiitas e o outro adversário dos sunitas. Se a religião, a estreita e obtusa religião, não fosse o objetivo primeiro, seria o caso de lançar uma pergunta tardia: porque então combateram a casa Hachemita, descendente do Profeta Muhammad, tão sunitas quanto a Casa de Saud e a resposta é óbvia que sunita não importa e o que interessa é wahhabita. Bem se pode ir além afirmando que contra os sunitas hachemitas usaram os bons ofícios interesseiros dos cristãos britânicos. Isto pode, na Península Arábica e no País dos Cedros.O terrorismo muda de qualificação como camaleão de cor e depende de como é visto, por quem, quando e onde. Nos atuais acontecimentos no Reino Unido não se ouve falar em terrorismo islâmico e ele estava presente na Noruega até se transformar em outro, mas ninguém o chamou de terrorismo cristão. Estes casos não irão ao Conselho de Segurança e Israel nunca cumpriu as resoluções do Conselho de Segurança das Nações e nem tampouco da Assembléia Geral, a não ser a metade de uma, e é difícil encontrar quem qualifica este comportamento de terrorismo judaico. A Arábia Saudita tem classificações para terrorismo dependendo do país e de seu interesse nele: Iêmen, Bareine, Síria, Palestina, Líbano, Egito, Tunísia e outros lugares deste planeta.Pelo que ocorre com a rede Al Jazeera a imprensa deveria se engajar ao lado da verdade dos fatos, na apuração deles antes de publicá-los e não ficar papagaiando notícias que lhes vêm de interessados em pescar em águas turvas.Falar a verdade também é cultura!

No romance de Alexandre Dumas (1802-1870), "Les Mohicans de Paris", há uma referência de culpabilidade quando se lê: “cherchons la femme” considerada a culpada de tudo o que lá ocorre. Assim é na política patchwork libanesa, onde sempre são encontrados os sauditas.

qui, 25/08/2011 - 23:34

 

Contra ditadores, até pode ser. A favor dos EUA-OTAN, nunca!13/8/2011, Ali Younes, Palestine Chroniclehttp://www.palestinechronicle.com/view_article_details.php?id=17039Desde a deposição do presidente da Tunísia Zinelabidine Bin Ali, em janeiro passado, no primeiro movimento do que viria a ser conhecido como “Primavera Árabe”, o mundo árabe acompanha uma sequência de levantes e revoltas contra ditadores e tem produzido avaliações nem sempre concordantes do própria contexto político. A Tunísia ainda vive sob o caos controlado que se seguiu ao colapso do antigo regime; o Egito sofre crescente instabilidade, em função das agendas divergentes dos diferentes grupos políticos. Mas nem na Tunísia nem no Egito assistiu-se à destruição massiva e a massacre de civis semelhantes aos que se veem hoje na Líbia e na Síria.Intelectuais, escritores e jornalistas árabes que apoiaram e saudaram com entusiasmo os levantes na Tunísia e no Egito expõem agora posições mais complexas nos casos de Líbia e Síria. Os intelectuais públicos no mundo árabe estão divididos no que tenha a ver com os eventos na Síria e na Líbia, embora a opinião pública esteja claramente contra as ditaduras que sobrevivem no Iêmen, na Síria e na Líbia.Contudo, o envolvimento da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) na Líbia e o apoio que deu aos chamados ‘rebeldes’ líbios comprometeram indelevelmente o caráter democrático do levante na Líbia, na opinião de vários intelectuais públicos do mundo árabe. O fato de o ocidente e a OTAN terem-se envolvido tão profundamente nesses e noutros levantes árabes criou um dilema para muitos pensadores e militantes democráticos árabes. Intelectuais que dedicaram a vida e a carreira a escrever contra qualquer intervenção do Ocidente na política árabe, veem-se agora perplexos ante a extensão do envolvimento e do apoio material e moral que o Ocidente tem garantido a alguns daqueles levantes, embora não a todos.Abdel Bari Atwan, editor do jornal panárabe Al Quds Al Arabi escreveu editorial, mês passado, declarando-se contra os ataques aéreos da OTAN na Líbia; para ele, além do inaceitável número de civis mortos, a OTAN está destruindo cidades, estradas, infraestrutura em geral. Atwan não esconde sua oposição aos chamados ‘rebeldes’ líbios e suas lideranças políticas, que acusa de serem financiados pela OTAN e pela União Européia. Atwan oferece a hipótese de que aqueles ‘líderes’ que lá estão só assumiram o comando dos ‘rebeldes’ depois de o filósofo e jornalista francês Bernard-Henri Levy ter manifestado publicamente seu apoio a eles, quando visitava Benghazi como enviado especial do presidente Sarkozy da França.Levy é nome conhecido na Região pelo apoio irrestrito que sempre deu às políticas de Israel; é citado como autor da frase “o exército de Israel é o mais democrático do mundo”. Levy também já exigiu intervenção militar na Síria, para depor o governo de Bashaar Al Assad. O ativismo de Levy parece ter complicado ainda mais as coisas. Atwan diz que Levy é uma das razões pelas quais, embora não apoie o governo de Gaddafi, absolutamente não apoia os planos políticos dos ‘rebeldes’ de Benghazi.Atwan não está sozinho nessa posição, de desejar apoiar os direitos democráticos das sociedades árabes, sua luta por mais liberdade e por direitos civis respeitados para todos, mas, simultaneamente, rejeitar qualquer tipo de intervenção dos EUA e do ocidente na política da Região.Lina Abubaker, romancista, poeta e colunista que vive em Londres e também escreve no jornal de Atwan publicou uma nota pelo Facebook no início do mês, alertando para a existência de um “novo mapa do caminho” que visaria a dividir ainda mais os árabes. Para ela, os levantes árabes seriam efeito de uma espécie de conspiração que visaria a “decapitar os governos e manter intactos os corpos”. Para ela, haveria aí uma muito ampla conspiração, pensada pelos EUA para dominar o mundo árabe, servindo-se do que ela chama de “terrorismo dos EUA contra os árabes”. “Os levantes populares são o novo terrorismo norte-americano. Será que vocês nunca aprendem?!” – perguntou ela, em referência à ocupação norte-americana no Iraque.Duas outras linhas de ideias estão alimentando as percepções sobre a Primavera Árabe dentro do mundo árabe. Uma delas entende que os levantes sejam movimentos de libertação nacional indígenas que, eventualmente, levarão a governos democráticos. A outra entende que os levantes são, sim, plano inspirado pelo ocidente para fragmentar definitivamente os estados árabes – o que favoreceria as ambições de EUA e Israel para a Região.Mohammad Dalbah, jornalista árabe-norte-americano que vive em Washington entrevistou intelectuais árabes, aos quais perguntou por que havia entre eles opiniões tão fortemente polarizadas sobre os levantes populares de 2011, e definiu dois grupos. No primeiro grupo Dalbah reuniu os intelectuais que classificou como “nacionalistas e patriotas árabes” – que interpretam os eventos na Região de um ponto de vista estratégico, assumindo, como critério para apoiar ou não cada levante, caso a caso, o conflito entre israelenses e árabes.No segundo grupo estão os “árabes liberais” – que pregam o fim de todas as ditaduras e a constituição de governos democráticos e não veem qualquer inconveniente em qualquer tipo de intervenção do Ocidente para alcançar esses objetivos (por exemplo, no caso da Líbia). Falta, de fato, um terceiro grupo, no qual se reuniriam os que apoiam o fim das ditaduras mediante luta popular, sem qualquer tipo de intervenção de forças ocidentais.Explicando a ausência desse terceiro grupo, Dalbah, que é jornalista veterano do mundo árabe, argumenta que o regime sírio, por exemplo, não exige necessariamente o fim da longa ocupação de territórios palestinos pelos israelenses, como tampouco exige o fim da ocupação, pelos israelenses, sequer, das planícies sírias do Golan. “O que distingue o regime sírio, dentre os demais estados árabes, é a recusa a seguir os planos dos EUA para a Região”, diz ele. Mas essa recusa não é feita por princípios e explica-se porque o governo sírio, de fato, aspira a “ter papel central na Região, em troca de promover qualquer acordo que ponha fim ao conflito entre árabes e israelenses” – acrescenta Dalbah.Em outras palavras, a posição dos sírios na questão do conflito entre israelenses e palestinos e a ‘resistência’ contra EUA e Israel seriam decisões táticas, não estratégicas. Além do mais, os que apóiam o regime sírio apóiam-no porque os sírios recusam-se a render-se à hegemonia dos EUA na Região, a qual, por extensão, segundo esse ponto de vista, implicaria completa rendição a Israel.Mwaffaq Mahadin, escritor e colunista jordaniano, cujas posições o inserem no grupo dos “nacionalistas árabes” de Dalbah, manifestou-se, em coluna recentemente publicada no diário jordaniano Al Arab Al Yawm, contra qualquer tipo de apoio ao levante contra Bashar. Mahadin argumenta que o pensamento que anima os levantes da Primavera Árabe é um combinado de magnatas das finanças ocidentais (como George Soros) e de cientistas políticos norte-americanos (como Gene Sharp), que pregam a resistência não violenta à opressão.Em sua mais recente coluna, Mahadin argumenta que Israel, ajudada pelos EUA, trabalha para fragmentar e dividir os países árabes, para continuar a controlá-los. Para chegar a isso, Israel e seus aliados ocidentais recorrem hoje a uma “fragmentação soft” mascarada de “reformismo” e de “democracia”. Isso não implica dizer que intelectuais como Mahadin sejam contrários às reformas ou à democracia; mas, para eles, nem reformas nem democracia são questões prioritárias nesse momento; a prioridade, agora, para eles, é resistir à ocupação israelense e à dominação do mundo árabe pelos EUA.Outro grupo que já apoia a derrubada do governo Baath da Síria e quer mais democracia, mesmo que ao custo de intervenção estrangeira, são os signatários da “Declaração de Damasco” – assinada em 2005 por 250 nomes da oposição síria, que advoga transição e reformas graduais na política da Síria. Dalbah argumenta que figuras importantes desse grupo, como o escritor Michel Kilo, já estão bem próximas de aceitar e passar a apoiar a ideia de uma intervenção militar em seu país, se esse for o meio mais eficaz para arrancar o governo Assad do poder.Têm havido manifestações anti-Assad diárias em Amman, Beirute, Kuwait, Manama e em várias outras cidades, todas exigindo o fim do governo de Assad e família; mas nenhuma manifestação, até agora, em lugar algum, deu sinal de apoiar, ainda que longinquamente, qualquer tipo de intervenção militar ocidental na Síria.

Desde a deposição do presidente da Tunísia Zinelabidine Bin Ali, em janeiro passado, no primeiro movimento do que viria a ser conhecido como “Primavera Árabe”, o mundo árabe acompanha uma sequência de levantes e revoltas contra ditadores e tem produzido avaliações nem sempre concordantes com o próprio contexto político.

qua, 17/08/2011 - 23:45

 

Ditadores árabes seguram-se... mas até quando?Esse seu correspondente para o Oriente Médio não está prometendo nada, talvez, talvez, nada é garantido, mas é possível que esteja próximo – e como detesto esse clichê –, para a Síria, o ponto de não-retorno. 100 mil pessoas (no mínimo) nas ruas de Homs; há notícias de deserções entre os soldados da academia militar síria. Um trem inteiro descarrilado – por agentes “sabotadores” segundo autoridades sírias; pelo próprio governo, segundo os manifestantes que exigem o fim do governo do partido Baath. E tiroteios à noite, em Damasco. O artigo é de Robert Fisk.Robert Fisk - The IndependentEmbora se saiba que vive mudando de direção conforme sopre o vento, Walid Jumblatt começou a fazer comentários pessimistas sobre a Síria.O líder druso, chefe do Partido Socialista Progressista do Líbano, ‘senhor-da-guerra’, foi quem sugeriu que dever-se-ia esquecer o Tribunal Especial da ONU e as investigações sobre o assassinato do ex-primeiro-ministro libanês Rafiq Hariri, em nome de defender “mais a estabilidade que a justiça”. Ouviu urros de ira de Saad Hariri, filho do ex-primeiro-ministro, que atualmente perambula pelo mundo para ficar bem longe do Líbano – o que é compreensível, porque teme ser também assassinado –, enquanto a Irmã Síria cala-se para o oriente. Agora, Jumblatt anda dizendo que há forças na Síria que impedem qualquer reforma.Parece que “alguns” no regime do Partido Baath não querem ver traduzidas em ação as promessas de reforma que o presidente Bashar al-Assad tem feito. Soldados não devem atirar contra civis. Jumblatt diz que a lição da Noruega é útil também para o regime sírio; o mundo árabe não deixou de anotar que as sandices que Anders Breivik distribuía pela internet incluíam a exigência de que os árabes deixassem para sempre a Cisjordânia e Gaza.Esse seu correspondente para o Oriente Médio não está prometendo nada, talvez, talvez, nada é garantido, mas é possível que esteja próximo – e como detesto esse clichê –, para a Síria, o ponto de não-retorno. 100 mil pessoas (no mínimo) nas ruas de Homs; há notícias de deserções entre os soldados da academia militar síria. Um trem inteiro descarrilado – por agentes “sabotadores” segundo autoridades sírias; pelo próprio governo, segundo os manifestantes que exigem o fim do governo do partido Baath. E tiroteios à noite, em Damasco. Assad ainda estará contando com que medos sectários mantenham o apoio que a minoria alawita e os cristãos e os drusos ainda lhe dão? Manifestantes dizem que seus líderes estão sendo assassinados por pistoleiros do governo; que centenas de manifestantes, talvez milhares, foram presos. Será verdade? Será mentira?O braço sírio é longo. Em Sidon, cinco soldados italianos da ONU foram feridos, depois que Berlusconi uniu-se à União Europeia e condenou a Síria. Depois, Sarkozy uniu-se à mesma condenação e – bang! – cinco soldados franceses foram feridos na mesma cidade, essa semana. Bomba sofisticada. Todos desconfiam da Síria, mas, com certeza, nada se sabe. A Síria tem apoiadores entre os palestinos do campo Ein el-Helweh em Sidon. E, então, Hassan Nasrallah do Hezbollah anuncia que seus militantes vão dar proteção e cobertura aos campos libaneses submarinos de petróleo ainda não prospectados: o perigo é Israel. São 550 milhas quadradas de águas mediterrâneas ao largo de Tiro – e não se sabe sequer, com certeza, se são águas territoriais libanesas. Aí há, claramente, motivo para mais uma guerra. E, lá no Egito, o velho ex-presidente irá a julgamento com seus filhos Gamal e Alaa Mubarak, na 4ª-feira, além de outros dos favoritos da corte de Hosni Mubarak. Os ministros da Justiça e da Inteligência, hoje, são antigos auxiliares de Mubarak: permanecem, pois, no poder. O que significa isso? Os velhos Mubarakistas seguram-se? Os sauditas ofereceram milhões ao exército egípcio para que Mubarak não fosse julgado – muitos querem condená-lo à morte; o exército gostaria de executá-lo hoje mesmo. E enquanto isso, os sauditas dão tudo que podem para defender o Bahrain e outros potentados do Oriente Médio. Estão preparados para deixar Gaddafi ser derrubado (Gaddafi tentou assassinar o rei, vezes demais). Os sauditas ainda não entenderam qual a posição de Obama em relação à Síria – desconfio que Obama, tampouco. Mas o presidente dos EUA deve estar contentíssimo por não ter soldados norte-americanos no Líbano, nas tropas de paz da ONU. Todos sabemos o que aconteceu com o último pelotão de norte-americanos que lá esteve (1983, na base dos Marines, 241 mortos, um suicida-bomba, a maior explosão que o mundo ouviu desde Nagasaki).“Foram obrigados a levar Mubarak a julgamento” – disse-me um jornalista egípcio, semana passada. “A rua incendiaria o país, se não fosse levado a julgamento”. Promete ser o julgamento do século no Egito (o Independent lá estará). O que me leva de volta ao nosso velho amigo Kaddafi, o ditador árabe que não combina exatamente com os demais déspotas. Nesse momento, o mundo político na Líbia é enxame de Kerenskys. – Os Aliados não terem vencido a guerra para os Russos Brancos contra os Bolcheviques depois do conflito 1914-18 acorda alguns fantasmas infelizes que bem farão se assombrarem hoje os também tão infelizes quanto cobertos de medalhas comandantes da OTAN. (Deveriam estudar, na biblioteca da OTAN, o envolvimento de Churchill.)De fato, o fracasso dos ‘rebeldes’ líbios parece mais semelhante à exaustão de Sharif Hussain depois de capturar Mecca, em 1916; foram necessárias armas de Lawrence e dos britânicos (e muito dinheiro e muitos coturnos em terra) para por em pé novamente o herói, para enfrentar os turcos. Infelizmente, não há Sharif Hussain na Líbia. Assim sendo, porque, diabos, os britânicos nos metemos naquela loucura? (Desconsidero, nesse raciocínio, os assassinatos e confusão geral em Benghazi nas últimas 48 horas.) Teria sido para proteger civis em Benghazi? Há quem acredite que sim. Mas... por que, então, Sarkozy atacou primeiro? O professor Peter Dale Scott da Universidade da Califórnia em Berkeley tem opinião formada: Kaddafi estava trabalhando para criar uma “União Africana” apoiada na moeda do Banco Central da Líbia e em suas próprias reservas em ouro; se fizesse o que planejava fazer, a França perderia a extraordinária influência financeira que sempre teve em suas principais ex-colônias da África Central. O muito divulgado plano de Obama, de impor sanções à Líbia – confiscar dinheiro do “Coronel Kaddafi, seus filhos e sua família e dos principais membros de seu governo” – ajudou a ocultar a parte das sanções que confiscaram também “todas as propriedades e investimentos do Governo da Líbia e do Banco Central da Líbia”. No subsolo do Banco Central, em Trípoli, há, em ouro e moedas, 20 bilhões de libras, guardadas para implantar três projetos da federação centro-africana.E já que estamos nesse tema, examinemos rapidamente uma guerra de ingleses no Afeganistão. Eis o que escreveu uma comissão que investigou a participação (e já quase completa derrota) dos britânicos, naquela guerra: “Nosso objeto (...) é auxiliar nossos concidadãos a entender as vias pelas quais foram envolvidos numa guerra contra a nação afegã e o que tenham a declarar, sobre o sentido dessa guerra, os autores. Não apenas o governo não consultou o Parlamento nem houve qualquer comunicação àquele corpo político de qualquer mudança na política britânica que nos levasse a envolver-nos naquele conflito, mas, além disso, quando o governo foi interrogado sobre suas razões, respondeu por vias oblíquas, respostas construídas para nada informar e desviar a atenção do Parlamento. De fato, assim aconteceu: o governo conseguiu enganar até os mais atilados funcionários e especialistas e, através deles, toda a nação.” A citação lá está, no relatório final da investigação, pelo Parlamento britânico, da Segunda Guerra do Afeganistão. A data? 1879.Tradução: Coletivo Vila Vudu

Esse seu correspondente para o Oriente Médio não está prometendo nada, talvez, talvez, nada é garantido, mas é possível que esteja próximo – e como detesto esse clichê –, para a Síria, o ponto de não-retorno. 100 mil pessoas (no mínimo) nas ruas de Homs; há notícias de deserções entre os soldados da academia militar síria. Um trem inteiro descarrilado – por agentes “sabotadores” segundo autoridades sírias; pelo próprio governo, segundo os manifestantes que exigem o fim do governo do partido Baath. E tiroteios à noite, em Damasco.

sex, 12/08/2011 - 12:20

 

Em abril último, a revista Veja – talvez seguindo as orientações do Departamento de Estado dos EUA – fez estardalhaço com uma reportagem sobre “A rede do terror no Brasil”. Deu capa e várias páginas sobre a presença de “grupos terroristas islâmicos no território nacional”, mas não apresentou provas concretas para justificar as suas graves acusações. A “reporcagem” informava apenas que teve acesso a documentos sigilosos da CIA, a central terrorista dos EUA, e de outros órgãos policiais. Agora, na quinta-feira (30), a juíza Cláudia Maria Pereira Ravacci, da 35ª Vara Cível de São Paulo, condenou o panfleto colonizado da famiglia Civita por estimular o ódio e o preconceito religioso, tentando associar o islamismo ao terrorismo. Segundo informa a repórter Mariana Ghirello, do sítio Última Instância, a revista será obrigada a dar o mesmo espaço e destaque para uma reportagem sobre a cultura islâmica. Cabe recurso, mas a revista Veja saiu novamente com a sua imagem danificada.“Reporcagem” ofensiva e tendenciosaA ação judicial exigindo direito de resposta foi movida pela União Nacional das Entidades Islâmicas, que congrega 16 entidades. Segundo o advogado da entidade, Adib Abdouni, a matéria da Veja é “ofensiva e tendenciosa” e “fere o sentimento religioso islâmico”, que tem mais de 1 bilhão de seguidores no mundo. A partir de denúncias sem consistência, ela generaliza a crítica, insinuando que todo islâmico é terrorista e que o território brasileiro serve de base de operação para grupos anti-estadunidenses.O objetivo do direito de resposta é “desvincular a idéia de terrorismo junto à fé professada pelos mulçumanos... As ofensas contidas no texto impugnado causam lesão aos direitos da coletividade mulçumana, dando ensejo ao direito de resposta reivindicado”, comemora o advogado. “De acordo com a petição, houve uma audiência reservada na Comissão de Segurança Pública e Combate ao Crime Organizado, na Câmara dos Deputados, na qual o ministro da Justiça afirmou que as informações publicadas eram falsas. A União alega que no Brasil a Constituição Federal assegura a liberdade de crença e religiosa”, informa repórter.

Em abril último, a revista Veja – talvez seguindo as orientações do Departamento de Estado dos EUA – fez estardalhaço com uma reportagem sobre “A rede do terror no Brasil”. Deu capa e várias páginas sobre a presença de “grupos terroristas islâmicos no território nacional”, mas não apresentou provas concretas para justificar as suas graves acusações. 

qui, 14/07/2011 - 23:49

 

Publicado pela EDUSP, o trabalho busca compreender os sentidos sociais e emocionais da experiência feminina de viver só conjugalmente no ocidente contemporâneoA partir de pesquisas voltadas aos novos modos de subjetivação femininos, busco compreender fenômenos atuais pouco investigados academicamente, dando voz às mulheres implicadas nesses processos. Como a cidade de São Paulo abriga filhas de imigrantes diversos, na constituição polifônica dessas investigações também contei com significativos relatos de mulheres descendentes de árabes.      Lançado recentemente pela EDUSP, “Solidão-Solitude: passagens femininas do estado civil ao território da alma” é um trabalho que busca compreender os sentidos sociais e emocionais da experiência feminina de viver só conjugalmente no ocidente contemporâneo, aproximando-se do extenso campo das relações entre homens e mulheres e da complexa constituição do feminino e do masculino, ao longo do tempo.  Resultado de pesquisa interdisciplinar para doutoramento no IPUSP, esse trabalho oferece o fecundo encontro entre as mulheres entrevistadas e os autores selecionados, contrapondo dialogicamente narrativas pessoais e textos das ciências humanas e sociais. Sob perspectiva teórico-metodológica de inspiração bakhtiniana (ética, estética e epistemológica), promove  a reunião de conhecimentos históricos, demográficos, sociológicos e psicanalíticos com o saber poético. Percorre um caminho singular que se estende da externalidade do mundo para a interioridade da vida emocional, atravessando a superfície de certos registros sócio-históricos até alcançar a profundeza dos domínios da alma.Nesse estudo, a solidão não se refere apenas à situação objetiva de privação da companhia de alguém, mas ao fato de se sentir solitário, mesmo na presença de outros: uma experiência negativa e angustiante, em que prevalecem sentimentos de vazio, de desespero e abandono, causados pela ausência ou perda da presença simbólica do outro, na interioridade de si.   Por outro lado, temos a solidão positiva, ou solitude, que expressa a conquista da possibilidade de ficar só de um modo sereno, confiante e criativo. Trata-se de estar sozinho e, paradoxalmente, muito bem acompanhado, porque o outro está sempre presente dentro de si (ainda que ausente concretamente). E essa importante aquisição, segundo hipóteses psicanalíticas, depende da sustentação emocional ofertada ao bebê desde sua chegada ao mundo e também das oportunidades e experiências culturais oferecidas pela família e pela sociedade, ao longo da vida de todo ser humano. Podemos, portanto, avaliar a solitude como uma conquista humana. Essa solidão positiva, ficar só e em boa companhia, em suas complexas injunções psíquicas e sociais, embora ainda seja pouco reconhecida e valorizada culturalmente, nos permite concluir que assim como as relações interpessoais, também o silêncio e a quietude se revelam mestres de uma vida plena e criativa, conectada com as profundezas da alma, do corpo e do mundo que nos rodeia.  Luci Helena Baraldo Mansur - membro filiado da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo, mestre e doutora em Psicologia pela Universidade de São Paulo, autora do livro “Sem filhos: a mulher singular no plural”, Editora Casa do Psicólogo.                                                           

Publicado pela EDUSP, o trabalho busca compreender os sentidos sociais e emocionais da experiência feminina de viver só conjugalmente no ocidente contemporâneo.

qui, 16/06/2011 - 20:24

 

Israel após 63 anosEm 15 de maio último, Israel completou 63 anos. Aparentemente, há muitos motivos para comemorar.Nas ruínas da Palestina plural, engendrada ao longo de milhares de anos, pela mistura e encontro de povos, os sionistas criaram seu singular Estado exclusivamente judeu.Após limpeza étnica e genocídio contra os nativos daquela Terra, sobraram poucos palestinos em Israel. São tratados como estrangeiros e cidadãos de terceira categoria dentro de sua própria pátria. Vivem ameaçados de expulsão a qualquer hora.Os palestinos nos territórios ocupados em 1967 vivem em bantustões, guetos e campos de prisioneiros, controlados por Israel.O resto dos palestinos, que vivem nos miseráveis campos de refugiados nos países vizinhos, são problema criado pelos judeus, mas a ser resolvido pelos árabes, conforme apologia sionista.Após 63 anos, os palestinos não representam de fato uma ameaça real para o Estado Judeu, pelo menos a curto prazo. Por que então não há comemoração em Israel?É verdade que o processo de paz entre árabes e israelenses está paralisado. Mas isso não deveria causar maiores preocupações para Israel, porque quando as negociações retornarem, a chamada comunidade internacional se submeteria novamente à posição israelense, resumida a seguir.A paz na região significa a segurança absoluta do Estado judeu e rendição árabe, mesmo quando essa alegada segurança significa negar o direito básico dos palestinos e árabes em geral e violar o Direito Internacional.A segurança de Israel é uma constante imutável da política americana e européia em geral. Todos os presidentes americanos e líderes europeus, antes de mencionar paz, justiça, Deus ou qualquer outro assunto, lembram de seu compromisso inabalável com a segurança e futuro do Estado Judeu.É inimaginável alguém no mundo perguntar por que um Estado rico e armado até os dentes, com todo seu arsenal nuclear e potência financeira mundial, necessita de garantias internacionais para sua segurança, enquanto os palestinos, miseráveis, expulsos da sua terra, massacrados, presos em guetos e campos, não merecem ao menos o mesmo tratamento, ou pelo menos terem mencionados seus anseios em relação a sua segurança e seu futuro?Por que tentar responder essas perguntas, se é Israel quem controla os governos americanos, independentemente de quem ocupa a Casa Branca, como declarou o então primeiro ministro Israel Sharon?Por que então não comemorar?Os sionistas criaram o Estado mais potente no Oriente Médio, capaz de enfrentar todos os países árabes juntos. Recebe apoio político incondicional de seu patrocinador e servo americano, além da mais do que generosa ajuda financeira, que ultrapassa os 3 bilhões de dólares anuais, fora das doações das comunidades judaicas ao redor do mundo.Israel, apesar de tudo o que fez e está fazendo, continua sendo tratado como parte da civilização ocidental, goza de impunidade total, apesar de seus crimes contra os palestinos e vizinhos árabes e desrespeito ao Direito internacional em relação a vários países, inclusive Estados Unidos, Argentina, Itália, Rússia etc.Os crimes de guerra e os crimes contra a humanidade deixam de ser crimes, se praticados por Israel.Nenhum país no mundo desrespeitou e viola de forma sistêmica e intencional as leis e resoluções internacionais, como faz Israel, sem ser punido sequer uma vez.O mundo que se auto-proclama civilizado adotou novos conceitos em relação a Israel: massacrar crianças árabes é ato de auto-defesa; campos de concentração para palestinos em Gaza e Cisjordânia são Estado palestino; negar os direitos básicos dos palestinos a um Estado livre e independente é garantia de segurança para Israel; discriminação contra os não judeus em Israel é necessário para manter o caráter judaico do Estado; ter lei de retorno de dois mil anos a judeus e negar o direito dos palestinos expulsos desde 1948 a retornar é essência do Estado judeu; “democracia” que exclui uma significativa parte da população (os não judeus) é “democracia” etcO Ocidente, hipócrita e não totalmente redimido de seu passado colonialista, não apenas aceita e defende essas distorções e anomalias, mas exigem que os palestinos e árabes devem se submeter a elas.Após 63 anos, não há comemorações em Israel e não poderia ser diferente. Um Estado projetado, construído e mantido com princípios racistas, no século XX e nesse início do século XXI, não apenas enfrenta as sombras do passado e presente criminosos, como também as incertezas de seu futuro.Questões como cidadania, nacionalidade, quem é judeu, relação com os palestinos “cidadãos” do Estado judeu e palestinos em geral, a relação de Israel com seus vizinhos árabes, aceitar ou não um Estado Palestino, os refugiados, as fronteiras indefinidas, Constituição inexistente e muitas outras questões não podem ser ignoradas por muito tempo.A resposta sionista a todas essas questões é simples: construir o maior gueto de todos os tempos. A espada e a muralha de aço são as únicas respostas que os sionistas apresentam.Os sionistas nada aprenderam dos sábios judeus não sionistas. Aquele que mata com espada, com espada morrerá.Israel é um projeto colonialista inacabado. Suas vítimas estão vivas e determinadas a viver e corrigir a injustiça histórica cometida contra o povo palestino e sua pátria.Os milhões massacrados, destinados a serem esquecidos, estão batendo às portas da Palestina.As casas palestinas, historicamente, tinham janelas olhando para o céu e portas sempre abertas.Os muros não fazem parte da paisagem palestina.É uma questão de tempo para os verdadeiros donos do espaço e tempo palestinos devolverem à Palestina sua verdadeira essência: terra de todas as religiões e todos os profetas, terra livre para homens livres!Abdel Latif Hasan Abdel Latif, médico palestino.

Em 15 de maio último, Israel completou 63 anos. Aparentemente, há muitos motivos para comemorar. Nas ruínas da Palestina plural, engendrada ao longo de milhares de anos, pela mistura e encontro de povos, os sionistas criaram seu singular Estado exclusivamente judeu.

seg, 06/06/2011 - 21:10

 

A Praça Tahrir, no coração do Cairo, já é o símbolo de um povo que derrubou um regime corrupto e autoritário: uma ditadura que combinava repressão doméstica com submissão à política dos Estados Unidos e seus aliados, que durante 30 anos deram apoio político, financeiro e militar a Mubarak.Esses governantes e vários analistas internacionais têm uma visão preconceituosa, superior e hipócrita em relação às sociedades árabe e islâmica. Preconceituosa porque subestimaram os anseios democráticos e a capacidade de mobilização dos povos egípcio e tunisiano. Superior porque a visão desses dirigentes e analistas reduz uma parte do mundo à situação de região tutelada e inferior, protegendo regimes autoritários que atendam a seus interesses geopolíticos e econômicos. E hipócrita porque dissimularam ignorar as inúmeras revoltas árabes desde a época do colonialismo britânico e francês no Oriente Médio e no Norte da África. Essas revoltas se prolongaram mesmo depois da independência no século passado, quando vários desses países tornaram-se novos protetorados ou "aliados", alguns dos EUA, outros da ex-União Soviética.O Egito é o farol cultural do mundo árabe. Apesar da enorme desigualdade social e da repressão durante a era Mubarak, as classes média e operária egípcias reúnem centenas de milhares de pessoas politizadas ou razoavelmente informadas. Além disso, a produção acadêmica das universidades do Cairo e de Alexandria, a obra de romancistas, poetas, críticos, músicos e cineastas, os jornais e revistas (mesmo censurados) não são nem de longe desprezíveis. No ensaio Depois de Mahfuz, Edward Said ressaltou que o escritor egípcio e prêmio Nobel de literatura "pôde contar com a integridade vital e a densidade cultural do Egito. Apesar de sua longuíssima história, da variedade de seus componentes e das influências que sofreu - faraônica, árabe, muçulmana, helenística, europeia, cristã, judaica, etc. -, o Egito possui uma estabilidade e uma identidade que não desapareceram nos tempos atuais" (in: Reflexões sobre o Exílio, ed. Companhia das Letras). Said sublinha que o Egito, "devido a seu tamanho e poder, sempre foi um locus de ideias e movimentos árabes".Vários comentadores de política internacional, em vez de analisarem o significado histórico de uma insurreição popular, preferem insistir no risco de o Egito tornar-se um Estado teocrático. Mas eles sabem que a Irmandade Muçulmana não mantém vínculos políticos e religiosos com o Irã, muito menos com o Paquistão e a Arábia Saudita, dois aliados (nada democráticos) dos Estados Unidos. Vários candidatos dessa Irmandade que conquistaram um mandato no parlamento egípcio foram proibidos de tomar posse, algo que, no passado recente, ocorreu com políticos muçulmanos em eleições na Argélia e em Gaza.No levante popular contra Mubarak, os partidários da Irmandade Muçulmana somaram-se a centenas de milhares de egípcios laicos, coptas e católicos, de diferentes matizes ideológicos. É incompreensível, senão hipócrita e desonesto, que essas vozes quase histéricas contra partidos muçulmanos não critiquem a extrema-direita europeia e norte-americana, em que há figuras sinistras como o francês Le Pen (para quem as câmaras de gás do nazismo eram apenas "detalhes"), ou o partido austríaco e abertamente racista do finado Heider, ou Sarah Palin (a musa do Tea Party), com seu conservadorismo radical, de fundo religioso e pendor bélico: versão feminina de George W. Bush, que inventou a existência de armas químicas no Iraque para justificar uma guerra que destruiu esse país e matou centenas de milhares de inocentes. Nada dizem sobre a atual política israelense, que inviabiliza qualquer perspectiva de paz, pois estimula a demolição de casas e a usurpação de terras palestinas, além de manter a mais longa ocupação militar da história moderna, sem contar as afirmações de ódio racista, como a do influente rabino Ovadia Yosef, que declarou: "o povo palestino deveria desaparecer do mundo" (O Estado de S. Paulo, 30/8/10, A11). Tal declaração é tão sinistra quanto à do atual presidente do Irã, que afirmou querer varrer Israel do mapa.Mas a imensa maioria dos analistas norte-americanos (e já nem falo da falaz Fox News e congêneres) só foca suas análises tendenciosas e rasteiras na ameaça dos partidos políticos muçulmanos, como se estes fossem incapazes de participar de uma democracia. Como disse o escritor tunisiano Habib Selmi ao jornal El País (11/02/2011-Portal UOL): "O que aconteceu na Tunísia e no Egito, e pode ser que aconteça muito em breve na Argélia, prova que os árabes, ao contrário de tudo o que se diz no Ocidente com uma certeza tingida de arrogância, sentem um profundo apego pela liberdade e a democracia". WWW.miltonhatoum.com.br

A Praça Tahrir, no coração do Cairo, já é o símbolo de um povo que derrubou um regime corrupto e autoritário: uma ditadura que combinava repressão doméstica com submissão à política dos Estados Unidos e seus aliados, que durante 30 anos deram apoio político, financeiro e militar a Mubarak.

qui, 02/06/2011 - 12:35

Os excitantes ventos norte-africanos da grande revolta/primavera árabe de 2011 cruzaram o Mediterrâneo e atingiram a Ibéria com força. Numa rebelião social sem precedentes, a Geração Y na Espanha protesta forte contra – dentre outras coisas – a terrível crise econômica; o desemprego em massa, que alcança espantosos 45% entre os de menos de 30 anos; e contra o encarquilhado sistema político espanhol que trata o cidadão como mero consumidor.

qua, 25/05/2011 - 14:21

 

A “guerra contra o terror” não possui um inimigo homogêneo representado na figura de Bin Laden como quer fazer-nos acreditar os EUA. Existem diversos grupos que, por compartilharem alguns interesses comuns, estabeleceram alianças estratégicas. Como muitos já alertaram, não é possível carimbar como terror islâmico tudo aquilo que contesta a ocupação militar dos EUA naquela região. Quem será o próximo monstro a ser executado em nome da humanidade? O artigo é de Reginaldo Nasser e Marina Mattar Nasser.Uma das grandes perguntas que se colocam agora, após a morte de Bin Laden, diz respeito ao futuro da Al-Qaeda e da “guerra contra o terror” iniciada pelos Estados Unidos logo após os atentados do 11 de Setembro. Com a morte de seu líder, a Al -Qaeda se enfraquecerá? Isso representa a vitória dos EUA contra o terrorismo? Afinal, o que representa a morte de Bin Laden? Em que muda a situação atual no Iraque, Afeganistão e em seus países vizinhos? A imagem da Al-Qaeda construída pela política externa norte-americana e veiculada pela mídia ocidental mostra-nos uma organização forte e homogênea com atuação global cujo principal objetivo é o de combater a civilização ocidental e reestabelecer o regime de Califados no mundo islâmico. A Al-Qaeda, entretanto, funciona mais como uma empresa de capital de risco, proporcionando dinheiro, contatos e assessoria a numerosos grupos e indivíduos militantes de todo o mundo islâmico. Ou seja, a organização tem como estratégia vincular aos grupos locais que não necessariamente compartilham seus ideais e objetivos, mas que por interesses circunstanciais, estabelecem uma aliança. Em muitos casos, a relação destes grupos com a Al-Qaeda é apenas nominal. Talvez por esta razão que os EUA e as informações da grande imprensa não tenham percebido – ou revelado - que a Al-Qaeda está se enfraquecendo há anos. Em 2007, o atual número 1 da Al-Qaeda, al-Zawahiri, percebendo a crescente impopularidade da organização, realizou um debate aberto em um fórum de jihadistas, de perguntas e respostas, no qual foi amplamente questionado sobre a morte de civis muçulmanos em atentados realizados pela a Al-Qaeda. Diversas pesquisas mostram a crescente queda em popularidade da Al-Qaeda em diversas sociedades do mundo árabe e islâmico após terem sofrido atentados terroristas da organização. Um bom exemplo disso é a Jordânia, onde o índice de aprovação da Al-Qaeda entre a população teve uma queda brusca de 70%(quando?) para 10% no ano de 2005 quando três explosões em hotéis da capital Amman mataram e feriram centenas de pessoas, muitas delas estavam celebrando um casamento. Em pesquisa desenvolvida pelo centro PEW sobre a confiança das populações muçulmanas de diversos países do mundo árabe e islâmico em Bin Laden prova que os diversos atentados da Al-Qaeda que mataram civis muçulmanos afetou, em grande medida, sua popularidade entre as sociedades. No Paquistão, sua popularidade caiu de 46%, em 2003, para 18% em 2010; na Palestina, de 72% para 34%; e na Jordânia, caso de maior índice de queda, de 56% para 13%.De acordo com relatório da RAND Corporation de 2008, houve uma mudança na estratégia do braço da Al-Qaeda no Iraque, a partir de 2005, quando deixaram de atacar os oficiais dos EUA e de seus aliados e passaram a atacar a própria sociedade iraquiana, o que não foi bem recebido pela população. A onda de atentados entre 2005 e 2007 liderada pela Al-Qaeda iraquiana matou, em média, 16 civis por dia. Durante todos os anos de guerra, de 2003 aos dias atuais, os anos de 2006 e 2007 foram os que mais civis morreram, superando, até mesmo, os bombardeios dos EUA em 2003.Basta perceber que a Al-Qaeda não está presente na chamada primavera árabe. Estes movimentos civis, por meio de protestos pacíficos, conseguiram derrubar governos que a Al-Qaeda se propõe a combater, há mais de duas décadas, apresentando uma alternativa às sociedades árabes e marginalizando, ainda mais, o grupo terrorista.Assim, além das áreas tribais no norte do Paquistão, a Al-Qaeda está presente apenas em regiões marginais do mundo árabe e islâmico por contatos, muitas vezes, superficiais como no nordeste do Yemen, na Somália e no sul da Argélia. Por conta das diversas alianças realizadas, a Al-Qaeda não conseguiu liderar uma única estratégia e seu principal objetivo de tornar-se um movimento insurgente, caracterizado, sobretudo, pelo grande apoio da comunidade, acabou, portanto, por falhar.Prova disso foram os desentendimentos entre Bin Laden e Al-Zarqawi, que liderou o braço da Al-Qaeda iraquiano, quanto às formas de agir no país. A CIA interceptou cartas entre eles que mostravam discordância de Bin Laden com a crescente onda de atentados no Iraque uma vez que isto impossibilitaria a aproximação da Al-Qaeda da sociedade iraquiana. a Al-Qaeda já enfrentava, portanto, um momento de crise e de possível mudança estratégica, anterior à morte de seu líder.A “guerra contra o terror” não possui um inimigo homogêneo representado na figura de Bin Laden como quer fazer-nos acreditar os EUA. Existem diversos grupos que, por compartilharem alguns interesses comuns, estabeleceram alianças estratégicas. Como muitos já alertaram, não é possível carimbar como terror islâmico tudo aquilo que contesta a ocupação militar dos EUA naquela região. Quem será o próximo monstro a ser executado em nome da humanidade?Fonte: Carta Maior

Reginaldo Nasser, professor do curso Países Árabes: Conjuntura Atual e Perspectivas, analisa o episódio da morte de Bin Laden e afirma: "a 'guerra contra o terror' não possui um inimigo homogêneo representado na figura de Bin Laden como quer fazer-nos acreditar os EUA". Leia o artigo e assista uma entrevista e aulas sobre o assunto.

sex, 06/05/2011 - 08:45

 

A desaparição de Bin Laden lança uma luz sombria sobre o Paquistão. Durante meses, o presidente Alí Zardari nos disse que Osama vivia em uma caverna no Afeganistão. E agora descobrimos que ele vivia em uma mansão no Paquistão. Foi traído? Claro que sim. Pelos militares ou pelos serviços de inteligência do Paquistão? É muito provável que pelos dois. O Paquistão sabia onde estava. Há uma pergunta muito óbvia sem resposta: as forças de segurança do Paquistão não poderiam ter capturado Bin Laden? O artigo é de Robert Fisk.Robert Fisk - La JornadaUm dom nada de meia idade, um fracassado político, rebaixado pela história – pelos milhões de árabes que exigem liberdade e democracia no Oriente Médio -, morreu no Paquistão neste domingo. E o mundo enlouqueceu. Nem bem havia nos apresentado uma cópia de sua certidão de nascimento, o presidente estadunidense apareceu no meio da noite para nos oferecer ao vivo um atestado da morte de Osama Bin Laden, abatido em uma cidade batizada em homenagem a um major do exército do velho império britânico. Um só tiro na cabeça, nos dizem. Mas e o vôo secreto do corpo até o Afeganistão e o igualmente secreto sepultamento no mar?A estranha forma pela qual se livraram do corpo – nada de santuários, por favor – foi quase tão grotesca como o homem e sua perversa organização.Os estadunidenses estavam embriagados de alegria. David Cameron chamou-o de um enorme passo adiante. A Índia falou em feito vitorioso. Um triunfo retumbante, alardeou o primeiro ministro israelense Netanyahu. Mas, após 3 mil estadunidenses assassinados no 11 de setembro, incontáveis outros no Oriente Médio, cerca de meio milhão de vítimas mortais no Iraque e no Afeganistão e 10 anos empenhados na busca de Bin Laden, oremos para que não tenhamos mais triunfos retumbantes.Ataques em represália? Talvez ocorram, de pequenos grupos no Ocidente que não têm contato direto com a Al Qaeda. Ninguém duvide que alguém já esteja sonhando com uma brigada do mártir Osama Bin Laden. Talvez no Afeganistão, entre os talibãs. Mas as revoluções de massas dos últimos quatro meses no mundo árabe significam que a Al Qaeda já estava politicamente morta. Bin Laden disse ao mundo – e, de fato, me disse pessoalmente – que queria destruir os regimes pró-ocidentais no mundo árabe, as ditaduras dos Mubaraks e dos Ben Alis. Queria criar um novo califado islâmico. Mas nestes últimos meses, milhões de árabes muçulmanos se levantaram, dispostos ao martírio, mas não pelo Islã e sim por democracia e liberdade. Bin Laden não derrubou os tiranos: foi o povo. E o povo não quer um califa.Reuni-me três vezes com o homem e só me restou uma pergunta por fazer: o que pensava ao observar como se desenvolviam as revoluções este ano, sob as bandeiras de nações, mais que do islã, cristãos e muçulmanos juntos, pessoas que seus homens da Al Qaeda gostam de arrebentar?Aos seus olhos, seu êxito foi criar a Al Qaeda, instituição que não tinha carteira de membro. Bastava levantar uma manhã querendo ser da Al Qaeda e já o era. Ele foi o fundador, mas nunca um guerreiro em batalha. Não havia um computador em sua caverna, nem fazia chamadas para que detonassem bombas. Enquanto os ditadores árabes governavam sem que ninguém os enfrentasse, com apoio ocidental, evitavam até onde fosse possível criticar a política de Washington; só Bin Laden o fazia. Os árabes nunca quiseram explodir aviões de altos edifícios, mas admiravam o homem que dizia o que eles queriam dizer. Mas agora, cada vez mais, podem dizê-lo. Não precisam de Bin Laden. Ele se tornou um dom nada.Falando de cavernas, a desaparição de Bin Laden lança uma luz sombria sobre o Paquistão. Durante meses, o presidente Alí Zardari nos disse que Osama vivia em uma caverna no Afeganistão. E agora descobrimos que ele vivia em uma mansão no Paquistão. Foi traído? Claro que sim. Pelos militares ou pelos serviços de inteligência do Paquistão? É muito provável que pelos dois. O Paquistão sabia onde estava.Abbottabad não é só o lugar que abriga o colégio militar desse país – a cidade foi fundada pelo major James Abbott, do exército britânico, em 1853 -, como também é o quartel da segunda divisão do corpo do exército do norte. Há apenas um ano, fui atrás de uma entrevista com um dos criminosos mais procurados, o líder do grupo responsável pelos massacres de Bombaim. Encontrei-o na cidade paquistanesa de Lahore, protegido por policiais paquistaneses armados com metralhadoras.Desde logo, há uma pergunta muito óbvia sem resposta: as forças de segurança do Paquistão não poderiam ter capturado Bin Laden? Por acaso a CIA e os Seals da Marinha dos EUA, ou as forças especiais, ou qualquer que seja a força estadunidense que o tenha morto não tinha os meios para lançar uma rede no tigre. Justiça: foi assim que Barack Obama definiu essa morte. Nos velhos tempos, Justiça significada devido processo legal, um tribunal, uma audiência, um defensor, um julgamento. Como os filhos de Saddam Hussein, Bin Laden foi morto a tiros. Claro, ele jamais quis que o pegassem vivo...e havia sangue em abundância na casa onde morreu.Mas um tribunal teria preocupado muito mais a outras pessoas do que a Bin Laden. Afinal, depois de tudo o que aconteceu, poderia ter falado de seus contatos com a CIA durante a ocupação soviética do Afeganistão, ou de suas acolhedoras reuniões em Islamabad com o príncipe Turki, chefe da Inteligência da Arábia Saudita. Assim como Saddam Hussein – que foi julgado pelo assassinato de apenas 153 pessoas e não pelos milhares de kurdos vítimas de bombas químicas – foi enforcado antes que tivesse a oportunidade de nos contar sobre os componentes do gás fornecidos pelos EUA, sobre sua amizade com Donald Rumsfeld ou sobre a ajuda militar que recebeu de Washington quando invadiu o Irã, em 1980.É estranho que Bin Laden não tenha sido o criminoso mais procurado pelos crimes internacionais de lesa humanidade do 11 de setembro de 2001. Ele ganhou seu status do velho oeste por ataques anteriores da Al Qaeda a embaixadas dos EUA na África e ao quartel do exército desse país, em Durban. Sempre estava à espera dos mísseis de cruzeiro...e eu também quando me reuni com ele. Ele esperava a morte antes, nas cavernas de Tora Bora, em 2001, quando seus guarda costas não o deixaram resistir e o obrigaram a cruzar as montanhas a pé até o Paquistão. Seguramente passou algum tempo em Karachi. Estava obcecado com essa cidade: até me deu fotografias de grafites apoiando a sua causa nos muros da antiga capital paquistanesa, e elogiava os imãs locais.Suas relações com outros muçulmanos eram um mistério. Quando me reuni com ele no Afeganistão, no início ele tinha medo do talibã e não deixou que eu deixasse seu acampamento e fosse para Jalalabad à noite. E me entregou a seus guardas mais próximos da Al Qaeda para que me protegessem na viagem no dia seguinte. Seus seguidores odiavam os muçulmanos xiitas, considerando-os hereges. Para eles todos eram ditadores e infiéis, ainda que Bin Laden estivesse disposto a cooperar com os ex-baazistas iraquianos (aliados de Saddam Hussein) contra os ocupantes estadunidenses, o que afirmou em uma gravação de áudio a qual a CIA, tipicamente, não deu importância. Nunca elogiou o Hamas e dificilmente seria digno da definição de “guerreiro sagrado” que esse grupo dedicou a ela, o que foi parar, como de hábito, diretamente nas mãos israelenses.Nos anos posteriores a 2001, tive uma débil comunicação indireta com Bin Laden. Certa vez, reuni-me com um dos sócios no qual confiava na Al Qaeda, em uma localidade secreta do Paquistão. Escrevi uma lista de 12 perguntas, a primeira das quais era óbvia: que tipo de vitória a Al Qaeda pode proclamar, uma vez que suas ações conduziram à ocupação de nações muçulmanas por Washington? Durante semanas não houve resposta. De repente, em um fim de semana, quando esperava para dar uma conferência em San Louis, Missouri, nos EUA, me disseram que a Al Jazeera acabava de difundir uma nova gravação de Bin Laden. E ele respondeu – sem fazer menção a minha lista – uma a uma minhas 12 perguntas. Ele queria que os estadunidenses fossem ao mundo muçulmano...para poder destruí-los.Quando Daniel Pearl, jornalista do Wall Street Journal, foi sequestrado, escrevi um longo artigo no The Independent, no qual suplicava a Bin Laden para que salvasse a sua vida. Pearl e sua esposa cuidaram de mim quando fui golpeado na fronteira afegã, em 2001; ele inclusive me deu o conteúdo de seu livro de contatos. Muito tempo depois me disseram que Bin Laden tinha lido meu artigo com tristeza. Mas Pearl já havia sido assassinado. Ou pelo menos foi isso que ele teria dito. As obsessões de Bin Laden infestaram a sua família. Uma esposa deixou-o, outras duas parecem ter morrido com ele no ataque estadunidense do domingo. Conheci um de seus filhos, Omar, no Afeganistão, em 1994; estava com seu pai. Era um menino simpático e perguntei se ele era feliz. Sim, me respondeu ele em inglês. Mas no ano passado ele publicou um livro chamado “Living Bin Laden”, no qual, ao descrever como seu pai matou os cães que ele amava em um experimento de guerra química, chamou-o de homem malvado. Neste livro, também recordou nosso encontro e concluiu que devia ter respondido que não era uma criança feliz.Ao meio dia desta segunda-feira eu já tinha recebido três chamadas telefônicas de árabes, todos seguros de que os estadunidenses mataram um dublê de Bin Laden, do mesmo modo que muitos iraquianos acreditam que os filhos de Saddam Hussein não morreram em 2003 e que o próprio Saddam tampouco foi enforcado. No seu devido tempo, a Al Qaeda nos dirá. Certamente, se todos estamos equivocados e era um dublê, veremos mais um vídeo do verdadeiro Bin Laden...e o presidente Obama perderá a próxima eleição.Tradução: Katarina Peixoto

A desaparição de Bin Laden lança uma luz sombria sobre o Paquistão. Foi traído? Claro que sim. Há uma pergunta muito óbvia sem resposta: as forças de segurança do Paquistão não poderiam tê-lo capturado? 

sex, 06/05/2011 - 08:22

 

O mundo do petróleo raramente está longe quando se trata de assuntos que envolvem o Oriente Médio e o norte da África. Esse mundo oferece um guia útil para entender as reações ocidentais diante dos levantes populares no mundo árabe. Argumenta-se que o petróleo não pode ser considerado um motivo para a intervenção na Líbia porque o Ocidente já tem acesso ao mesmo sob o regime de Kadafi. Isso é certo, mas irrelevante. Afinal, o mesmo poderia ser dito sobre o Iraque sob o regime de Saddam Hussein. O artigo é de Noam Chomsky.Noam Chomsky - La JornadaNo mês passado, no tribunal internacional sobre crimes durante a guerra civil em Serra Leoa, o julgamento do ex-presidente liberiano Charles Taylor chegou ao fim. O promotor geral, o professor de Direito estadunidense David Crane, informou ao jornal The Times, de Londres, que o caso estava incompleto: os promotores queriam processar Muammar Kadafi, que, disse Crane, era, em última instância, o responsável pela mutilação e/ou assassinato de 1,2 milhões de pessoas.Mas isso não aconteceria, esclareceu. Os Estados Unidos, o Reino Unido e outros países interviram para bloquear essa decisão. Ao ser perguntado sobre o porquê disso, respondeu: Bem vindo ao mundo do petróleo!Outra vítima recente de Kadafi foi sir Howard Davies, diretor da Escola de Economia de Londres, que renunciou depois de revelações sobre os laços da escola com o ditador líbio.Em Cambridge, Massachusetts, o Monitor Group, uma empresa de consultoria fundada por professores de Harvard, foi bem paga por serviços tais como um livro para levar as palavras imortais de Kadafi ao público em conversão com famosos especialistas internacionais, junto com outros esforços para melhorar a imagem internacional da Líbia (de Kadafi).O mundo do petróleo raramente está longe quando se trata de assuntos que envolvem esta região.Por exemplo, quando as dimensões da derrota estadunidense no Iraque já não podiam ser escondidas, a retórica bonita foi substituída pelo anúncio honesto de objetivos políticos. Em novembro de 2007, a Casa Branca emitiu uma declaração de princípios que insistia em que o Iraque deve conceder acesso e privilégio indefinidos aos invasores estadunidenses.Dois meses depois, o presidente George W. Bush informou ao Congresso que rechaçaria a legislação que limitasse o emprego permanente das forças armadas estadunidenses no Iraque ou o controle dos EUA dos recursos petroleiros do Iraque; demandas que os Estados Unidos teriam que abandonar um pouco depois diante da resistência iraquiana.O mundo do petróleo oferece um guia útil para entender as reações ocidentais diante dos notáveis levantes pró-democráticos no mundo árabe. O ditador rico em petróleo, que é um cliente confiável, é tratado com rédea solta. Houve pouca reação quando a Arábia Saudita declarou no dia 5 de março: as leis e regulamentos no reino proíbem totalmente qualquer tipo de manifestações, marchas e atos, assim como a sua convocação, já que vão contra os princípios da Shariah, os costumes e as tradições sauditas. O reino mobilizou enormes forças de segurança que aplicaram rigorosamente a proibição.No Kuwait, pequenas manifestações foram sufocadas. O punho de ferro golpeou a população no Bahrein, depois que forças militares encabeçadas pela Arábia Saudita interviram para garantir que a monarquia sunita minoritária não fosse ameaçada pelas reivindicações de reformas democráticas.O Bahrein é sensível não só porque abriga a Quinta Frota dos Estados Unidos, mas também porque faz fronteira com áreas xiitas da Arábia Saudita, local de maior parte das reservas do reino. Os recursos energéticos primários do mundo se localizam perto do norte do Golfo Pérsico (ou Golfo Arábico, como costuma ser chamado pelos árabes), uma área em grande medida xiita, um potencial pesadelo para os planejadores ocidentais.No Egito e na Tunísia, o levante popular conseguiu vitórias impressionantes, mas, como informou a Fundação Carnegie, os regimes permanecem e aparentemente estão decididos a frear o ímpeto pró-democracia gerado até agora. Uma mudança nas elites governantes e no sistema de governo segue sendo um objetivo distante, e que o Ocidente buscará mantê-lo assim.A Líbia é um caso diferente, um Estado rico em petróleo dirigido por um ditador brutal que, não obstante, é pouco confiável: seria melhor ter um cliente digno de confiança. Quando iniciaram os protestos não violentos, Muammar Kadafi atuou rapidamente para sufocá-las.No dia 22 de março, enquanto as forças de Kadafi convergiam para a capital rebelde de Bengasi, o principal assessor do presidente Barack Obama sobre Oriente Médio, Dennis Ross, advertiu que se ocorresse um massacre, todos culpariam os EUA por isso, uma consequência inaceitável.E o Ocidente certamente não queria que o coronel Kadafi aumentasse seu poder e independência, sufocando a rebelião. Os EUA trabalharam então pela autorização do Conselho de Segurança das Nações Unidas de uma zona de exclusão aérea, que seria posta em prática por França, Inglaterra e os próprios EUA.A intervenção evitou um provável massacre, mas foi interpretada pela coalizão como a autorização para o apoio direto aos rebeldes. Um cessar-fogo foi imposto às forças de Kadafi, mas se ajudou os rebeldes a avançar para o oeste. Em pouco tempo conquistaram as principais fontes da produção petroleira da Líbia, ao menos temporariamente.No dia 28 de março, o jornal em língua árabe sediado em Londres Al-Quds Al-Arabi advertiu que a intervenção deixaria a Líbia com dois estados, um leste rico em petróleo e em mãos dos rebeldes e um oeste encabeçado por Kadafi e mergulhado na pobreza. Com o controle dos poços petrolíferos assegurados, poderíamos estar diante de um novo emirado petroleiro líbio, escassamente habitado, protegido pelo Ocidente e muito similar aos estados emirados do golfo. Ou a rebelião respaldada pelo Ocidente poderia seguir adiante até eliminar o irritante ditador.Argumenta-se que o petróleo não pode ser um motivo para a intervenção porque o Ocidente já tem acesso ao mesmo sob o regime de Kadafi. Isso é certo, mas irrelevante. O mesmo poderia ser dito sobre o Iraque sob o regime de Saddam Hussein, ou sobre Irã e Cuba atualmente.O que o Ocidente busca é o que Bush anunciou: o controle, ou ao menos clientes dignos de confiança e, no caso da Líbia, o acesso a enormes áreas inexploradas que se espera sejam ricas em petróleo. Documentos internos britânicos e estadunidenses insistem que o vírus do nacionalismo é o maior temor, já que poderia engendrar desobediência.A intervenção está sendo realizada pelas três potências imperiais tradicionais (poderíamos lembrar – os líbios presumivelmente o fazem – que, depois da Primeira Guerra Mundial, a Itália foi responsável por um genocídio no leste da Líbia).As potências ocidentais estão atuando em virtual isolamento. Os estados na região – Turquia e Egito – não querem participar, tampouco a África. Os ditadores do golfo se sentiriam felizes de ver Kadafi partir, mas, ainda empanturrados pelas armas avançadas que recebem para reciclar os petrodólares e assegurar a obediência, oferecem apenas uma participação simbólica. O mesmo se aplica em outros lugares: Índia, Brasil e, inclusive, Alemanha.A primavera árabe tem raízes profundas. A região está em fermentação há muitos anos. A primeira da atual onda de protestos começou no ano passado no Saara Ocidental, a última colônia africana, invadido pelo Marrocos em 1975 e retido ilegalmente desde então, de maneira similar ao Timor Oriental e aos territórios ocupados por Israel.Um protesto não violento em novembro passado foi sufocado por forças marroquinas. A França interveio para bloquear uma investigação do Conselho de Segurança sobre os crimes de seu cliente. Logo acendeu-se uma chama na Tunísia que, desde então, espalhou-se e tornou-se uma conflagração.Tradução: Katarina Peixoto

O mundo do petróleo raramente está longe quando se trata de assuntos que envolvem o Oriente Médio e o norte da África. Esse mundo oferece um guia útil para entender as reações ocidentais diante dos levantes populares no mundo árabe. 

qua, 20/04/2011 - 07:41

Como parte do pensamento orientalista, a mulher árabe foi representada como um ser inferior e exótico; portanto, há mitos a serem desfeitos.

ter, 12/04/2011 - 19:11