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O presidente francês passou cinco anos como ministro do Interior construindo a imagem de um combatente radical da criminalidade e da imigração (em áreas relacionadas às pessoas de origem muçulmana). Ao que tudo indica Sarkozy quer repetir a estratégia política da campanha de 2007 quando procurou seguir o conselho de Karl Rove (estrategista de Bush). Em vez de tentar construir uma maioria é mais eficaz promover questões polêmicas como imigração, identidade, criminalidade e islamismo que podem provocar a fragmentação das oposições. O artigo é de Reginaldo Nasser.Reginaldo NasserAlém do petróleo (85% das exportações) e da importação de armas (1 bilhão de dólares) o tema da imigração aparece com uma das principais preocupações da Comunidade Européia em relação aos recentes acontecimentos na Líbia e norte da África.Uma das palavras mais utilizadas pelos diplomatas europeus, nos últimos dias, para se referir à ação de Kadafi é "inaceitável". No entanto, nos últimos anos, tem sido perfeitamente aceitável para os governos da Comunidade Europeia terceirizar a proteção de suas fronteiras a esse mesmo ditador. Há mais de três anos o aparato policial da Líbia é usado para manter os imigrantes longe do sagrado solo europeu. “Estamos extremamente preocupados com a evolução da situação no Norte de África” - disse a porta-voz do Comissariado Europeu para Assuntos Internos -, Michele Cercone, que visitou a Líbia ano passado para a realização de acordos de cooperação, com a promessa de uma ajuda de 5 bilhões de euros anuais em troca da colaboração do coronel Kadafi que alertou: “Amanhã, talvez a Europa não seja mais europeia, mas sim negra”. Há dois anos foi celebrado um acordo entre a Itália e Líbia que permitiu à marinha italiana interceptar os "boat people" e devolvê-los para a Líbia, uma das principais rotas de entrada na Europa por sua proximidade com o sul da Itália. Assim, estima-se que, enquanto em 2008, mais de 32 mil imigrantes ilegais entraram na Itália via Líbia, em 2009, após o acordo, apenas 7 mil imigrantes chegaram ao seu destino. Aqueles que não conseguiram entrar na Europa ficaram detidos em campos de refugiados na Líbia que apresenta casos graves de discriminação e xenofobia em relação a imigrantes africanos. De acordo com o governo italiano, a Líbia já interceptou mais de 2,5 milhões de imigrantes, nos últimos cinco anos. Os refugiados que não têm a possibilidade de pedido de asilo ou acesso a qualquer recurso efetivo correm o risco de serem forçados a regressar aos países de origem onde eles podem enfrentar a perseguição ou tortura. Em contraste com a sua resposta inepta às revoltas na Tunísia e no Egito, Sarkozy, não apenas condenou o regime de Kadafi, mas foi o primeiro a reconhecer o provisório Conselho Nacional de Transição, em Benghazi, e tomar a iniciativa de aprovar a resolução na ONU dando inicio aos ataques aéreos. Avaliou que seria uma excelente oportunidade para se mostrar como alguém superior às politicagens nacionais, ser arrojado internacionalmente e colocar a França no “panteão das grandes nações”. com objetivo de aumentar sua popularidade. Além disso, a intervenção na Líbia é uma forma de reafirmar sua posição na Europa e, sobretudo, como contrapeso ao poder econômico e político da Alemanha na União Européia. É uma mensagem que diz que se a Europa pretende ser levada a sério como uma potência mundial o poder militar francês é um de seus esteios. Em mensagens no rádio e televisão o presidente francês tenta, desesperadamente, melhorar sua imagem manchada por sua proximidade com regimes ditatoriais e corruptos ( Marrocos, Egito, Tunísia e Líbia), saudando a "grande esperança" trazida pelas revoltas árabes. Dominique Paille, Presidente do Serviço francês de Imigração e Integração, observou “Há semanas estávamos assistindo o trem passar pela história, já estava na hora de tornarmo-nos uma das locomotivas”. Por sua vez, Claude Guéant, ministro do Interior e da Imigração, homem de confiança do presidente, querendo competir no terreno ideológico da extrema direita (a nova líder da Frente Nacional, Marine Le Pen, aparece em primeiro lugar nas pesquisas) declarou que “por causa da imigração descontrolada, os franceses, por vezes, têm a sensação de que não estão mais em casa.” Não podemos esquecer que Sarkozy passou cinco anos como ministro do Interior construindo a imagem de um combatente radical da criminalidade e da imigração (em áreas relacionadas às pessoas de origem muçulmana).Ao que tudo indica Sarkozy quer repetir a estratégia política da campanha de 2007 quando procurou seguir o conselho de Karl Rove (estrategista de Bush). Em vez de tentar construir uma maioria é mais eficaz promover questões polêmicas como imigração, identidade, criminalidade e islamismo que podem provocar a fragmentação das oposições. O resultado, no longo prazo, é um maior nível de dissenso social ou de violência. A diferença, e isso é muito mais grave, é que agora esse foco da lei e da ordem doméstica está intimamente conectado à política externa francesa e européia. Em certo sentido, a França quer repetir seu papel do século XIX, quando as potências coloniais européias estavam à procura de projetar poder e proteger seus interesses fora do continente europeu.(*) Professor de Relações Internacionais da PUC (SP) e do Programa de Pós-Graduação San Tiago Dantas (Unesp, Unicamp e PUC-SP).

O presidente francês passou cinco anos como ministro do Interior construindo a imagem de um combatente radical da criminalidade e da imigração (em áreas relacionadas às pessoas de origem muçulmana).

sex, 01/04/2011 - 00:28

 

O papel das mulheres no grande levante do Oriente Médio tem sido muito pouco analisado. As mulheres do Egito não só “se somam” aos protestos, mas tem sido uma força destacada da evolução cultural que as tornou indispensáveis. E o que vale para o caso do Egito, pode se dizer também, em maior ou menor medida, para todo o mundo árabe. Quando as mulheres mudam, tudo muda; e as mulheres do mundo muçulmano estão mudando radicalmente. O artigo é de Naomi Wolf.Naomi Wolf - Al JazeeraEntre os estereótipos dos países muçulmanos mais habituais no Ocidente encontram-se os relativos às mulheres muçulmanas: crédulas, cobertas com véus, submissas, exóticas e caladas, integrantes de haréns imaginários e encerradas em papéis de gênero muito rígidos. E então, onde estavam essas mulheres na Tunísia e no Egito.Em ambos os países as manifestantes não se pareciam absolutamente com esse estereótipo ocidental: estava na primeira linha da luta e no centro, nas imagens das notícias e nos fóruns do Facebook, inclusive assumindo a liderança. Na praça Tahrir, no Egito, mulheres acompanhadas, algumas acompanhadas de crianças, trabalhavam sem descanso para apoiar os protestos, contribuindo em atividades de segurança, comunicações ou abrigo. Muitos comentaristas atribuíam o grande número de mulheres e crianças ao caráter pacífico dos manifestantes em geral diante de graves provocações.Outros repórteres-cidadãos da Praça Tahrir – e praticamente qualquer um que tivesse um telefonema celular poderia sê-lo – assinalavam que as massas de mulheres implicadas nos protestos eram muito diversas do ponto de vista demográfico. Muitas levavam lenços na cabeça e outros sinais de conservadorismo religioso, enquanto outras se deleitavam com a liberdade de beijar um amigo ou fumar um cigarro em público.Participantes, líderesMas as mulheres não só atuavam como trabalhadoras de apoio, o papel habitual a que ficam relegadas nos movimentos de protesto, desde os da década de 1960 até os recentes distúrbios estudantis no Reino Unido. As mulheres egípcias também organizavam, formulavam estratégias e informavam dos acontecimentos. Autoras de blogs como Leil Zahra Mortada assumiram graves riscos para manter o mundo informado diariamente sobre a situação na praça Tahrir e outros lugares.O papel das mulheres no grande levante do Oriente Médio tem sido muito pouco analisado. As mulheres do Egito não só “se somam” aos protestos, mas tem sido uma força destacada da evolução cultural que as tornou indispensáveis. E o que vale para o caso do Egito, pode se dizer também, em maior ou menor medida, para todo o mundo árabe. Quando as mulheres mudam, tudo muda; e as mulheres do mundo muçulmano estão mudando radicalmente.A transformação mais importante é educativa. Há duas gerações, somente uma reduzida minoria das filhas da elite recebia formação universitária. Hoje, as mulheres representam mais da metade do número de estudantes nas universidades egípcias. Elas estão se formando para exercer o poder de um modo que suas avós mal poderia imaginar: publicar jornais, como fez Sanaa el Seif desafiando um decreto governamental que exigia a interrupção da atividade; aspirando postos de liderança estudantil; arrecadando fundos para organizações de estudantes ou dirigindo reuniões.De fato, uma minoria substancial de mulheres jovens do Egito e de outros países árabes passaram seus anos de formação refletindo criticamente em contextos mistos e questionando em público inclusive a professores homens nas aulas. É muito mais fácil tiranizar uma população quando a metade tem uma péssima educação e é trinada para a submissão. Mas, como os ocidentais deveriam saber por sua própria experiência histórica, quando se educa as mulheres é provável que agitação democrática acompanhe a transformação cultural generalizada que se produz.A natureza dos meios de comunicação social também contribuiu para converter as mulheres em líderes do protesto. Por ter me dedicado durante mais de uma década a ensinar técnicas de liderança para mulheres, sei o quanto difícil é conseguir que se coloquem em pé e tomem a palavra em uma estrutura organizativa hierárquica. Deste modo, as mulheres costumam evitar a figura padrão que, no passado, os protestos tradicionais impuseram a determinados ativistas: quase sempre, a de um jovem exaltado com um megafone na mão. Projeção de poderEm semelhantes contextos – um cenário, um foco e um porta-voz – as mulheres evitam os papéis de liderança. Mas os meios de comunicação social, pela própria natureza da tecnologia, modificaram o aspecto e a aparência da liderança atual. O Facebook imita o modo pelo qual muitas mulheres preferem viver a realidade social, onde as relações entre as pessoas são tão importantes quanto o predomínio ou o controle individual, se não mais.Pode-se ser um líder poderoso no Facebook justamente forjando uma “primeira pessoa do plural” realmente fabulosa. Ou pode-se conservar o mesmo tamanho, conceitualmente, que qualquer outra pessoa em sua página; não é necessário reafirmar o domínio ou a autoridade. A estrutura da interface do Facebook cria o que – em que pese 30 anos de pressão feminista – as instituições de cimento e tijolo não conseguiram gerar: um contexto no qual a capacidade das mulheres para forjar um “nós” poderoso e envolver-se na liderança a serviço dos demais possa promover a causa da liberdade e da justiça em todo o mundo.Logicamente, o Facebook não pode reduzir os riscos dos protestos. Mas, por mais violento que possa ser o futuro no Oriente Médio, o registro histórico do que ocorre quando as mulheres que receberam educação participam de movimentos libertadores faz pensar que chegou ao fim a era daqueles que gostariam de manter um regime de punho de ferro na região.Quando a França iniciou sua revolução em 1789, Mary Wollstonecraft, que foi testemunha inesperada dela, escreveu seu manifesto em favor da libertação das mulheres. Depois que as mulheres norte-americanas, que tinham recebido educação, contribuíram para a luta pela abolição da escravidão, elas introduziram na agenda o sufrágio feminino. Depois que disseram na década de 1960 que a “única posição para as mulheres é a horizontal”, criaram o feminismo de “segunda geração”: um movimento nascido das novas habilidades e das velhas frustrações das mulheres.Uma e outra vez, quando as mulheres travaram as demais batalhas de seu tempo pela liberdade, passaram a defender seus próprios direitos. E como o feminismo é uma prolongação lógica da democracia, os déspotas do Oriente Médio enfrentam uma situação na qual será quase impossível obrigar a estas mulheres que despertaram a deter a luta pela liberdade, a sua própria luta e a de suas comunidades.(*) Naomi Wolf é ativista política e crítica social; seu livro mais recente é “Give Me Liberty: A Handbook for American Revolutionaries”.Tradução: Katarina Peixoto

O papel das mulheres no grande levante do Oriente Médio tem sido muito pouco analisado. As mulheres do Egito não só “se somam” aos protestos, mas tem sido uma força destacada da evolução cultural que as tornou indispensáveis. E o que vale para o caso do Egito, pode se dizer também, em maior ou menor medida, para todo o mundo árabe. Quando as mulheres mudam, tudo muda; e as mulheres do mundo muçulmano estão mudando radicalmente. 

qui, 24/03/2011 - 10:25

 

O Oriente Médio como um todo, segue em ebulição. A chamada grande imprensa ainda mantém seus correspondentes na região e a bola da vez agora é a Líbia já com 23 dias de protestos diários e parte do país controlada pelos rebeldes. Com a exceção da honrada Síria, cujo governo tem conduta firme contra o imperialismo norte-americano, as manifestações não poupam nenhum país árabe, como veremos neste novo artigo.Os destinos da revoluçãoNa próxima semana, comentaremos com maior vagar o que vem ocorrendo na Líbia em particular. Reunimos neste momento farta documentação sobre o processo histórico que lá vem se dando, desde o início da revolução liderada pelo coronel Muammar Kadafi em 1969, na esteira do nacionalismo árabe, até os dias atuais.Quero me deter em um panorama geral da situação no mundo árabe. Não por acaso os analistas e correspondentes internacionais vem dizendo que as coisas vão mudar profundamente de figura quando as manifestações e a revolução atingir a Casa de Saud, da monarquia saudita que governa esse país que tem o nome da família, há mais de 200 anos. Todos os quase dois mil príncipes dessa monarquia absolutista, reacionária e pró-americana, devem dormir todos os dias em verdadeiro pânico.Quero aqui comentar e reforçar a minha convicção de que esta em curso uma revolução no mundo árabe. Um processo revolucionário, ainda que não concluído. O caráter, o conteúdo desse processo revolucionário em curso ainda está em disputa. Disputa essa que se trava com ninguém menos que a maior potência econômica e militar do planeta, que são os Estados Unidos. As máquinas militar, diplomática, política e econômica dessa nação estão todas em movimento para fazer com que esse processo revolucionário não rompa as relações com os EUA, que poupe Israel e que o status quo na região seja integralmente mantido. Ou dito de outra forma, que os interesses estratégicos estadunidenses e israelenses sejam todos preservados, ainda que alguns dos aliados históricos dessa potência imperial possam e devam ser sacrificados (como estão sendo, um a um).Como diz Carlos Fonseca Terán, secretário adjunto de Relações Internacionais da FSLN, da Nicarágua, que as esquerdas tradicionais demoraram a entender que o que ocorria na Venezuela e na Bolívia eram processos revolucionários. Essa mesma esquerda demorou a saudar tais revoluções. Nós não podemos cometer o mesmo erro com relação à revolução árabe. Sei que o processo pode ser truncado em breve, a qualquer momento poderemos presenciar inclusive alguns retrocessos, mas, no geral, em perspectiva, há um claro processo revolucionário em curso, com mudanças substanciais com relação a uma situação anterior que se vivia.Insisto em dizer: não devemos nos iludir sobre quem é o inimigo maior com quem nossas baterias devem se voltar. É o império norte-americano, neste momento chefiado por Barak Obama, que cumpre direitinho e à risca as determinações desse império, cuja ação serve aos trustes internacionais e ao capital estadunidense. Obama sabe do efeito dominó. Ali naquela região poderá não ficar nada em pé em termos dos governos ditatoriais e monarquias absolutistas, todas, sem exceção, amigas de Washington. Pessoalmente, em médio prazo, vislumbro que venham a ser trocados todos ou praticamente todos os governos dos 22 países árabes. Ou sofrerão mudanças profundas. Onde eram ditaduras, devem florescer democracias árabes, ainda que jovens e com problemas, mas, enfim, democracias. Onde eram monarquias absolutistas, poderão vir a ser transformadas em constitucionais, nos moldes da inglesa e espanhola ou mesmo transformadas em repúblicas.Como tenho afirmado neste espaço, estou convencido que quaisquer que venham a ser os governos que emergirão tanto do Egito como na Tunísia em alguns meses ou em todos os países que hoje presenciam manifestações gigantes de rua, tais governos, sejam moderados ou revolucionários, nunca mais serão os mesmos e nunca mais poderão agir como agiam seus predecessores. Ou seja, perdem profundamente os Estados Unidos e Israel. Vislumbro o surgimento de um novo Oriente Médio, mais progressista, mais democrático, mais popular e quiçá mais revolucionário e até socialista.Aqui vale registrar que vários autores que tenho lido, têm feito comparações dessa revolução árabe com a revolução de 1848, ocorrida em várias localidades da Europa. Como registra Antônio Luiz Costa (Carta Capital de 9 de março de 2011, página 41), as semelhanças mais marcantes são o forte entusiasmo que as massas vêm demonstrando por autonomia e autodeterminação de seus povos, certa liderança mais difusa (nunca muito visível), também objetivos não muito claros em termos estratégicos e uma ansiedade geral das diversas tendências ideológicas de interpretar e mesmo cooptar tais movimentos. De fato, são fortes semelhanças. Nunca devemos esquecer que nesse revolucionário ano de 1848, no dia 21 de fevereiro, saiu nas livrarias londrinas um Manifesto que procurava tornar claro a opinião dos comunistas sobre aquele momento político que vivia a Europa. Escrito por dois jovens comunistas que sequer haviam completado 30 anos, Marx e Engels, tal documento veio a influenciar profundamente a vida da humanidade até os dias atuais. Não vejo perspectivas de que naquela região toda, com esse grau atual de ebulição social, de ruptura com velhos e carcomidos modelos, possamos presenciar transições completamente controladas e consentidas. Imagino mudanças reais e profundas em toda a região.Análise e observações gerais do processoA economia – Uma das explicações das insatisfações das massas árabes está, seguramente, na política econômica adotada nos últimos trinta anos em toda a região do OM. Praticamente sem nenhuma exceção – ou à exceção de Iraque e Síria – todos os países adotaram o modelo econômico neoliberal. Privatizaram quase tudo, liberalizaram o fluxo de capitais e deixaram o câmbio flutuar livremente. Isso afetou profundamente as economias que, só não foram à bancarrota porque as receitas da conta do petróleo sustentou certo crescimento e desenvolvimento social, ainda que tenha concentrado renda.Com a revolução em curso, esse modelo sofrerá profundo abalo. Os novos governos que emergirão na região não poderão seguir aplicando a mesma cartilha do FMI, Banco Mundial e outros órgãos à serviço do império norte-americano. A religião – Em momento algum, desde dezembro na Tunísia, passando por fevereiro no Egito e agora em março na Líbia, o Islã foi alternativa ao processo revolucionário em curso. Ainda assim, a mídia insiste em mostrar um conflito completamente permeado pela religião. Fala-se em controle pelos fundamentalistas, na instituição de estados teocráticos. Mas isso nunca esteve na ordem do dia. Nem os partidos mais profundamente religiosos, como a Irmandade Muçulmana no Egito, nunca pregou a edificação de um estado teocrático nos moldes do Irã, da Arábia Saudita ou de Israel (sim leitor, você não leu errado: Israel é um estado teocrático, judaico e discriminador, sem constituição).Todas as propostas emanadas de todos os partidos, frentes partidárias, coligações, alianças que têm vindo à tona nunca sequer mencionaram, em momento algum, que a alternativa deveria ser o estado islâmico. Muito ao contrário. O secularismo segue forte no Egito, na Síria e no Iraque, que também sofre abalos com as manifestações de massa. Não se viu cartaz em apoio à Osama Bin Laden em lugar algum, em praça nenhuma do OM.Mitos que caíram – Uma revolução sempre coloca por terra muitos mitos, muitas mentiras que, contadas ao longo do tempo, eram vistas como verdadeiras. Duas delas, bem recentes, caíram por terra nesse processo ainda em curso no OM árabe. O primeiro deles é de que a Internet teria jogado um papel central. Alguns chegaram a chamar – na ânsia de dar um nome àquela revolução – de Revolução Facebook, pelo simples fato que algumas pessoas criaram comunidades de protestos e convocaram manifestação por essa rede social. Também aqui não se viu cartaz algum em apoio à Mark Zuckerberg.Aqui os números falam por si só. Apenas 20% da população do Egito possui acesso á rede de Internet por banda larga e no máximo 50% possui celulares. E ainda assim, tanto a rede de banda larga como de telefonia móvel foram completamente desligadas no Egito todo por vários dias antes das grandes manifestações, em uma das atitudes desesperadas tomadas por Mubarak antes de sua renúncia em 11 de fevereiro.A outra é que a revolução foi espontânea, sem líderes. É bem verdade que poucos foram os nomes mais expressivos e conhecidos que vieram à tona no processo, em especial no Egito. Alguns, inclusive, ex-colaboradores do antigo regime como Mohammed El Baradei e Amr Moussa. Mas, tais nomes tinham mais conhecimento no exterior e nos meios acadêmicos e diplomáticos do que do povo egípcio.No entanto, o que se presenciou foi uma aliança, ainda que não previamente estabelecida, de todos os setores sociais da sociedade egípcia e tunisiana (e isso vale para todos os outros países árabes que presenciam manifestações de rua), em especial da esquerda, dos patriotas, dos seculares, dos muçulmanos progressistas, dos socialistas e comunistas em geral, que jogaram papel decisivo nesse processo. Foi uma aliança de entidade sindicais proletárias, de sindicalistas profissionais liberais oriundos da classe média – em especial médicos, advogados e engenheiros – entidades de jovens e de estudantes com os diversos partidos políticos e frentes partidárias pré-existentes ou formadas no processo.O tempo da revolução – Como disse certa vez, quando perguntaram para Chu En Lai em 1970, líder da revolução chinesa, sobre o que ele achava da revolução francesa de 1789 e ele respondeu, para espanto do entrevistador, que ainda era cedo para avaliarmos. Pois da mesma forma é o que ocorre no OM árabe. É muito prematuro fazermos afirmações sobre os rumos do processo, suas consequências. No entanto, como já disse Marx quando analisou o processo revolucionário da Comuna de Paris em 1871 – que este ano comemoramos 140 anos em julho! – que o grande erro dos comunardos teria sido o fato de que eles não marcharam sobre o Palácio de Versalhes. Da mesma forma posso dizer isso. É preciso ficar atento ao processo de ocupação de tomada do poder político pelas forças comprometidas em transformações profundas na região e não em simples transições controladas e consentidas.Da mesma forma que pode parecer cedo afirmarmos que o nacionalismo árabe, chamado de pan-arabismo, estaria de volta e com força. Mas, os indícios são fortes nesse sentido, tanto pelos discursos das lideranças, como pelas plataformas que têm vindo à público das frentes e alianças partidárias que vêm sendo constituídas. Emanam quase que como consenso em todos os programas e propostas a questão da soberania nacional, a independências dos países, a não ingerência das potências estrangeiras – leia-se EUA e Israel – e a integridade territorial dos países. A questão das amplas liberdades, da democracia, da constituinte, da anistia irrestrita são bandeiras que aparecem em todos os países. Nas monarquias aparece a luta pela instituição de repúblicas democráticas, quiçá populares. Cartazes de Nasser tem sido ostentados amplamente.Quem ganha e quem perdeMesmo que ainda seja cedo para fazermos afirmações peremptórias de quem sairá ganhador e perdedor do processo revolucionário em curso, alguns atores e agentes já podem ser identificados. Com base em diversos autores que tenho lido, podemos concluir, preliminarmente, sobre isso.Os grandes perdedores – Poderíamos listar muitos, mas vamos aos essenciais:EUA – Não consegui achar um autor, por mais direitista que seja, que tenha concluído que os EUA sejam os grandes vencedores. Foram derrotados na sua tosca e obscura tentativa de “levar” a democracia para o Oriente Médio. De fora para dentro, desde a era Bush em 2001. Como diz Andrew Bacevich, acadêmico da Universidade de Boston “durante anos os EUA forçaram uma porta (a democracia no OM) que só abre para fora. E mais, essa porta só abre por vontade própria; os acontecimentos das últimas semanas demonstraram com clareza que não apenas partes importantes do OM estão prontas para a mudança, mas também que esse impulso de mudança vem de dentro”. Estou plenamente de acordo com essa afirmação. As patéticas coletivas de imprensa dadas por Obama e pela Senhora Clinton, eram cenas cômicas que poderíamos resumir como que se eles estivessem correndo atrás dos acontecimentos que, aliás, nunca conseguiram prever, apesar de terem 27 agências ditas de inteligência e de segurança interna.Nesse caso, mesmo que se instalem governos moderados, de transição controlada e consentida em toda a região, esses governos nunca poderão ser descaradamente pró-EUA como foram os governos de Mubarak e Ben Ali no Egito e Tunísia. Israel – Não vejo maior perdedor, depois dos EUA, do que Israel. Também aqui, em todas as leituras feitas, pesquisas acadêmicas, não se encontra autor que diz que esse processo favorece Israel. Ao contrário. A tônica é que vai se instalando em toda a região governos anti-Israel, antissionistas. Não dá para acreditar que o primeiro Ministro de Israel, Benjamin Netanyahú venha conseguindo dormir em paz. Nesse sentido, em médio prazo, a questão palestina tem que voltar ás mesas de negociações.Al Qaeda – Seu programa fundamentalista prega a revolução islâmica, pela forma violenta, atentados que matam indiscriminadamente – a que toda a esquerda árabe se coloca contrário – e um estado islâmico. Nada disso se verificou no processo em curso. Ninguém defende a violência indiscriminada e um estado teocrático. Sem dúvida, um dos grandes derrotados.Fundamentalismo – Considero derrotados todos os grupos que pregaram, em algum momento, a constituição de estados teocráticos como saída para a crise na região. Se é certo que cresceu a identidade muçulmana, cresceu também a identidade nacional, de ser árabe. Grupos que sempre defenderam a instalação de repúblicas islâmicas na região perderam espaços na sociedade e seu destino será seguramente o gueto, pois tais propostas não mais encontram eco nas massas árabes, sedentas de democracia.Neoliberalismo – Perde, como vem perdendo espaço e terreno em todo o mundo capitalista, o modelo de capitalismo financeiro e neoliberal. Ainda que seja cedo para afirmarmos que estão derrotados, no OM árabe sofreram abalo significativo. As economias sofrerão profundas mudanças. Entendo que essa crise geral que vive o OM é parte da crise do modelo capitalista em vigor e da decadência do próprio império norte-americano.Monarcas e ditadores – Esses são os grandes derrotados localmente falando. Monarcas absolutistas, quase feudais, regados aos petrodólares, são grandes perdedores. Devem ser ou substituídos por monarquias constitucionais ou mesmo seus países verão a queda de seus reinados, seus impérios, seus sultanatos e outras formas autocráticas de governos. Perdem também os ditadores travestidos de “presidentes” em repúblicas farsescas. Esses devem ser substituídos em curto prazo por governos de transição ou em médio prazo por governos constitucionais democráticos eleitos diretamente pelo povo, com novas constituições soberanas, eleitas em regime de ampla liberdade, com anistia aos presos e liberdades políticas e sindicais.Os que ganham – A advertência anterior vale para os ganhadores. Podemos listar aqui em primeira análise, que coincide com diversos analistas internacionais, os que, preliminarmente, ganham com esse processo revolucionário.Reformadores e reformistas – Como o processo revolucionário esta ainda em curso, não é certo que teremos mudanças de cunho revolucionário, de troca de classes no poder, de mudança de orientação de modelo econômico, para o socialismo, por exemplo. Isso não está claro ainda. Mas, podemos dizer que profundas reformas ocorrerão em toda a região. As coisas não ficarão mais como se encontram. Ainda que não venham a ser mudanças profundas, elas serão amplamente significativas para a região. Assim, as correntes mais reformistas já podem dizer-se, desde já, vitoriosas nesse processo. E tais mudanças, não serão como falava Lampedusa, no seu clássico romance O Leopardo, quando se dizia “que tudo tem que mudar para que fique como está”.Nacionalismo árabe – Ainda que não possamos afirmar com certeza que ele voltará a triunfar como da época de Gama Abdel Nasser, presidente do Egito (1954-1970), ele cresceu no processo. Colocou-se de forma aberta e clara para as massas. Seus partidos nacionalistas e seculares, na maioria clandestinos, puderam voltar a expor amplamente suas propostas para as massas árabes. Pode-se dizer igualmente que ganham as propostas chamadas pan-arabistas em geral.Esquerda árabe – Se em alguns países, como a Palestina e a Síria, os comunistas e socialistas já são respeitados e relativamente fortes, no restante do mundo árabe a esquerda em geral – patriotas, nacionalistas progressistas, socialistas e comunistas – podemos dizer que ela terá uma oportunidade histórica para expor de forma clara suas propostas, seu programa e fazer alianças inteligentes e amplas, que possam valer seus programas de transição rumo a uma sociedade mais justa, o socialismo.Irã – Difícil não concluir que o Irã foi um dos grandes vencedores no processo. Sai fortalecido. Massas xiitas em vários países o têm como referência, ainda que não defendam em seus países estados islâmicos. Difícil imaginar que haja algum clima para tanto os EUA como Israel de bombardearem esse país, tal como essa proposta esteve nas mesas de conversações na região. Enfrenta uma oposição pró-ocidental no país, mas tem conseguido amplo apoio das massas iranianas ao seu processo revolucionário de feições próprias de características islâmicas, a qual devemos respeitar.De um modo geral, essas são conclusões que chegamos neste momento histórico que vivemos na região e depois de dois meses de meio de amplas manifestações em todos os países da região, desde que em 15 de dezembro de 2010, o jovem de 26 anos Mohammed Boazizi, vendedor de frutas ambulante, mas com formação universitária, decidiu atear fogo ao seu corpo em frente ao palácio presidencial na cidade de Túnis. Muitas vezes a história tem os seus saltos a partir de episódios menores como esse, mas que surtem imensos efeitos.Semana que vem abordaremos o processo na Líbia.

O Oriente Médio como um todo segue em ebulição. A chamada grande imprensa ainda mantém seus correspondentes na região e a bola da vez agora é a Líbia, com 23 dias de protestos diários e parte do país controlada pelos rebeldes. Com a exceção da honrada Síria, cujo governo tem conduta firme contra o imperialismo norte-americano, as manifestações não poupam nenhum país árabe.

qui, 17/03/2011 - 18:40

 

Não sou a favor de assassinato cometido por indivíduos ou por estados com fins políticos. Não sou a favor de assassinato nenhum, tanto é que assim considero a pena de morte. Por isto, não aprovo o assassinato cometido por desconhecido contra cinco sionistas e não aprovo todos os assassinatos cometidos por Israel contra árabes em geral e palestinos em particular, tanto em território palestino quanto em outros lugares.Sabemos qual o móvel israelense para tais agressões e, do lado palestino, um relatório das Nações Unidas concluiu, em fevereiro de 2008, que o terrorismo palestino é resultado inevitável da ocupação israelense e do colonialismo e condições de apartheid. Em artigo publicado no New York Times de 04/04/2009, o Professor George Bisharat vai além ao atribuir a estes fatos as razões pelas quais vários países não consideram violência contra uma ocupação militar estrangeira como terrorismo e, por isto, consideram o Hamas como um grupo de resistência. É Israel quem, em violação a Resoluções do Conselho de Segurança das Nações Unidas e de Leis Internacionais, ilegalmente ocupa a Palestina e partes da Síria e do Líbano. Tenho apontado continuamente esta desobediência às Resoluções das Nações Unidas e às Convenções de Genebra e não sou o único e nem tampouco o é o Professor Bisharat a considerar Israel transgressor.Basta apontar como exemplo a Resolução 242 do Conselho de Segurança que apela para Israel terminar com tais ocupações para se constatar de um lado a unanimidade no reconhecimento de sua justiça e ser esta e as outras desobediências de Israel o motivo pelo qual 57 países, o que corresponde a um terço dos membros da ONU, não reconhecem o ocupante da Palestina e partes da Síria e do Líbano.Além disto, os assentamentos judeus em territórios árabes ocupados constituem uma violação flagrante à IV Convenção de Genebra que proíbe a qualquer potência ocupante a transferência de qualquer parte de sua população civil para territórios ocupados pela força.Também tenho apontado constantemente o fato de a Liga dos Estados Árabes há anos ter proposto um plano justo de paz e normalização das relações com Israel em troca da obediência deste às leis internacionais e da desocupação ilegal de terras árabes. Este plano está aberto à discussão e foi entregue pessoalmente pelo Secretário Geral da Liga dos Estados Árabes e pelo Ministro das Relações Exteriores do Egito em mãos do Ministro das Relações Exteriores de Israel. Lamentavelmente, a este respeito como a toda iniciativa séria de paz, Israel nem ao menos respondeu.Será que Israel quer continuar não dando a mínima importância à paz e continuar ocupando terras árabes roubadas e lá construindo assentamentos ilegais para, em provocando o mundo, querer provar que o crime compensa? Talvez também seja para que Benjamin Netanyahu não perca a chance de bancar a vítima e, segundo o The Guardian de hoje, domingo 13/03/2011, faça um apelo ao mundo por atuação e condenação internacional pela morte de cinco membros de uma família de assentados na Cisjordânia. Com toda seriedade e sinceridade, ou Netanyahu acha que os terráqueos são uns idiotas ou quer simplesmente desviar a atenção do fracasso que tem sido o seu governo e o seu país como um todo.Não é por menos que o Haaretz destaca na edição de domingo 13/02/2011: “Israel não pode mais fingir que não existe um conflito no Oriente Médio” e adita “A coordenação de segurança entre Israel e a Autoridade Palestina, que contribuiu muito para a relativa calma dos anos recentes, está agora em crise”.No artigo do Haaretz, Aluf Benn descreve muito bem o motivo da ocorrência quando escreve: “O assassinato da família Fogel trouxe um fim à calmaria que Israel apreciou durante os últimos dois anos. O terrorismo palestino golpeou novamente, no ponto mais sensível da Cisjordânia: a mãe de todos os mais isolados assentamentos, no alto sobre Nablus, com seus radicais habitantes infames por suas relações violentas com seus vizinhos palestinos. Nenhum lugar é mais emblemático em conflito e fricção nos territórios que Itamar”.Sabemos qual o problema entre Israel e Palestina, por si gerador de conflitos; o que não sabemos é qual o móvel do assassinato cometido por um palestino qualquer, se palestino foi o autor, contra uma determinada família. Com certeza se pode dizer que o ocorrido teve antecedentes e, na procura dos culpados, todos devem ser investigados.

Não sou a favor de assassinato cometido por indivíduos ou por estados com fins políticos. Não sou a favor de assassinato nenhum, tanto é que assim considero a pena de morte. Por isto, não aprovo o assassinato cometido por desconhecido contra cinco sionistas e não aprovo todos os assassinatos cometidos por Israel contra árabes em geral e palestinos em particular, tanto em território palestino quanto em outros lugares.

qui, 17/03/2011 - 00:00

 

Celebrou-se esta semana o Dia Internacional da Mulher. Os dias ou anos internacionais não são, em geral, celebrações. São modos de assinalar que há pouco para celebrar e muito para denunciar e transformar. Não há natureza humana assexuada; há homens e mulheres. Falar de natureza humana sem falar na diferença sexual é ocultar que a "metade" das mulheres vale menos do que a dos homens. Sob formas que variam consoante o tempo e o lugar, as mulheres têm sido consideradas como seres cuja humanidade é problemática quando comparada com a dos homens. À dominação sexual que este preconceito gera chamamos patriarcado e ao senso comum que o alimenta e reproduz, cultura patriarcal.A persistência histórica desta cultura é tão forte que mesmo nas regiões do mundo em que ela foi oficialmente superada pela consagração constitucional da igualdade sexual, as práticas quotidianas continuam a reproduzir o preconceito e a desigualdade. Ser feminista significa reconhecer que tal discriminação existe e é injusta e desejar ativamente que ela seja eliminada.A cultura patriarcal vem de longe e atravessa tanto a cultura ocidental como as culturas africanas, indígenas e islâmicas. Para Aristóteles, a mulher é um homem mutilado e para São Tomás de Aquino, sendo o homem o elemento ativo da procriação, o nascimento de uma mulher é sinal da debilidade do procriador.Esta cultura, ancorada por vezes em textos sagrados (Bíblia e Corão), tem estado sempre ao serviço da economia política dominante que, nos tempos modernos, tem sido o capitalismo e o colonialismo. As Novas Cartas Portuguesas, publicadas em 1972 por Maria Isabel Barreno, Maria Teresa Horta e Maria Velho da Costa, denunciavam o patriarcado como parte da estrutura fascista que sustentava a guerra colonial. "Angola é nossa" era o correlato de "as mulheres são nossas (de nós, homens)" e no sexo delas se defendia a honra deles. O livro foi imediatamente apreendido porque justamente percebido como um libelo contra a guerra colonial e as autoras só não foram julgadas porque entretanto ocorreu o 25 de Abril, a revolução que tantos hoje desejam nunca tivesse acontecido.A violência que a opressão sexual implica ocorre sob duas formas, hardcore e softcore. A versão hardcore é o catálogo da vergonha e do horror do mundo. Em Portugal, morreram 43 mulheres em 2010, vítimas de violência doméstica. Na Cidade Juarez (México) foram assassinadas nos últimos anos 427 mulheres, todas jovens e pobres, trabalhadoras nas fábricas do capitalismo selvagem, as maquiladoras, um crime organizado hoje conhecido por femicídio. Em vários países de África continua a praticar-se a mutilação genital. Na Arábia Saudita, até há pouco, as mulheres nem sequer tinham certificado de nascimento. No Irão, a vida de uma mulher vale metade da do homem num acidente de viação; em tribunal, o testemunho de um homem vale tanto quanto o de duas mulheres; a mulher pode ser apedrejada até à morte em caso de adultério, prática, aliás, proibida na maioria dos países de cultura islâmica.A versão softcore é insidiosa e silenciosa e ocorre no seio das famílias, instituições e comunidades, não porque as mulheres sejam inferiores mas, pelo contrário, porque são consideradas superiores no seu espírito de abnegação e na sua disponibilidade para ajudar em tempos difíceis. Porque é uma disposição natural não há sequer que lhes perguntar se aceitam os encargos ou sob que condições. Os cortes nas despesas sociais do Estado atualmente em curso vitimizam em particular as mulheres. As mulheres são as principais provedoras do cuidado a dependentes (crianças, velhos, doentes, pessoas com deficiência). Se os doentes mentais são devolvidos às famílias, o cuidado fica a cargo das mulheres. A impossibilidade de conciliar o trabalho remunerado com o trabalho doméstico faz com que Portugal tenha um dos valores mais baixos de fecundidade do mundo. Cuidar dos vivos torna-se incompatível com desejar mais vivos.

Celebrou-se esta semana o Dia Internacional da Mulher. Os dias ou anos internacionais não são, em geral, celebrações. São modos de assinalar que há pouco para celebrar e muito para denunciar e transformar.

qua, 16/03/2011 - 23:46

 

Este artigo não trata de transgressão sendo cometida contra os palestinos e a Palestina e sim de um crime contra a humanidade o qual, se dele descuidarmos, continuará impune como vem sendo durante décadas, com tendência a se perpetuar.O veto estadunidense a uma Resolução do Conselho de Segurança das Nações Unidas condenando a política de colonização do estado sionista era esperado. Isto porque desde o ano 2000 os Estados Unidos exerceram este poder por dez vezes, nove dois quais para evitar a condenação dos sionistas. O cinismo maior ficou por conta da Embaixadora Susan Rice, representante permanente dos Estados Unidos junto à ONU, explicando que a decisão de seu país foi adotada para “não encorajar as partes a ficarem fora das negociações” e aditando que a colonização destruía “a confiança entre as partes” e ameaçava “as perspectivas de paz”. Além da afronta ostensiva às convenções e conveniências morais e sociais, há contradições patentes na declaração da Embaixadora: primeiro porque não é virtualmente permitindo a construção de assentamentos, com a agravante de que contraria também 93,3% dos próprios membros do CS, que se inibe a participação das partes nas negociações; e, segundo, se a construção de assentamentos destrói a confiança entre as partes, porque então continuar na teimosia de compactuar com a improbidade dos atos praticados condenados pelas Leis Internacionais. A construção dos tais assentamentos para neles se estabelecer uma população civil alienígena sionista é por esta própria razão uma flagrante ilegalidade capitulada na Quarta Convenção de Genebra que “protege os civis, inclusive em territórios ocupados”. O estado sionista assinou as Convenções em 08-12-1949 e os ratificou em 06-07-1951, mas para quem nunca respeitou Tratados ou todas as Resoluções da Assembléia Geral das Nações Unidas ou as Resoluções do Conselho de Segurança, comprometer-se assinando e ratificando e não cumprir é também esperado.Os quatorze outros membros do Conselho de Segurança votaram a favor da Resolução. Não é de admirar que os Estados Unidos tenham votado contra, coerentes com as suas atitudes através do tempo e em todos os cantos do mundo e principalmente no Oriente Próximo, impondo fazer valer que quatorze votos não valem e só tem valor um único voto carregado de contradições e injustiças. Este é o conceito chulo estadunidense de democracia: “se for do meu e no interesse de meus protegidos sionistas vale; se não for, não vale”. Este não é caso isolado. Para a Autoridade Palestina, o veto estadunidense é uma decisão “infeliz” afetando a credibilidade de Washington na região. Como também era de se esperar, os palestinos declararam que iriam “reavaliar” sua participação no processo de paz.Esta é a primeira vez que os Estados Unidos usam o veto a uma Resolução do Conselho de Segurança desde quando Barack Obama assumiu a presidência de seu país. Obama, no entanto, não foi inédito por exercer o prestígio de seu cargo para favorecer o estado sionista, pois assim procederam todos os seus antecessores.Não conseguindo convencer Mahmoud Abbas, o chefe da Autoridade Palestina a retirar o projeto de Resolução, ele instruiu a seus diplomatas para que telefonassem para os governantes dos quatorze membros do Conselho de Segurança pedindo que votassem contra. Quaisquer que tenham sido as respostas de cada um dos chefes de governo consultados, os Estados Unidos e seu presidente saíram deste episódio desprestigiados.  Obama entrou e saiu desmoralizado.

Este artigo não trata de transgressão sendo cometida contra os palestinos e a Palestina e sim de um crime contra a humanidade o qual, se dele descuidarmos, continuará impune como vem sendo durante décadas, com tendência a se perpetuar.

qua, 23/02/2011 - 22:58

Não me lembro exatamente quando foi que participei de uma manifestação pela primeira vez em minha vida. As lembranças mais claras remontam a um período anterior à faculdade. Eram os anos 80. Anos interessantes aqueles, quando clamávamos por “Diretas Já”, depois de uma ditadura militar que durou mais de 20 anos. No entanto, as minhas lembranças mais remotas de manifestações me levam a essa mesma ditadura, na sua parte final.

seg, 14/02/2011 - 23:50

Afastado alguns meses por outros compromissos das colunas semanais do Portal Vermelho, retorno agora ao objeto de meus estudos e pesquisa há quase trinta anos – o Oriente Médio árabe – a convite desta vez do portal da Fundação Maurício Grabois na condição de colaborador. E retorno em um momento especial: a terra treme em todo o Oriente Médio em termos políticos.

ter, 08/02/2011 - 12:47

Não surpreende ver na TV os atos violentos e criminosos cometidos pelo governo; todas as forças oposicionistas foram eliminadas em 30 anos.

seg, 07/02/2011 - 11:21

Mas o que está acontecendo no Egito mudará a vida de todos em Israel. Como sempre, ninguém anteviu coisa alguma. O tão incensado e temido Mossad foi colhido de surpresa, como também a CIA e todos os demais serviços secretos do gênero.

seg, 07/02/2011 - 10:43

"O mundo árabe está em chamas", informou a Al Jazira em 27 de Janeiro, ao mesmo tempo que, em toda a região, os aliados ocidentais "estão a perder rapidamente a sua influência."

sex, 04/02/2011 - 16:51

El proceso revolucionario que se extiende por los países árabes tiene un carácter democrático general, con un sello de clase en potencial, y está hegemonizado en las calles por la juventud estudiantil, especialmente universitaria, aunque con presencia masiva de personas de todas las clases sociales.

sex, 04/02/2011 - 16:34

Quase 60 anos depois do início de uma série de governos militares que se mostraram sangrentos, ineptos e cruéis, a população egípcia se levantou em massa contra o regime. Mas a pergunta é: por que somente agora, logo após a revolta popular que derrubou a ditadura de Ben Ali na Tunísia?

qui, 03/02/2011 - 16:04

do The Independent, Reino Unido

Os tanques egípcios, os manifestantes em delírio sentados sobre eles, as bandeiras, os 40 mil manifestantes lacrimejando e gritando vivas na Praça da Liberdade e rezando à volta dos tanques, um membro da Fraternidade Muçulmana sentado entre os ocupantes do tanque. Pode-se talvez comparar à libertação de Bucareste?

ter, 01/02/2011 - 17:51

Mas… Em que direção estamos andando? Será, talvez, na direção de deixar que o mundo árabe escolha seus próprios líderes? Veremos talvez um novo mundo árabe não controlado pelo Ocidente?

sex, 28/01/2011 - 13:44

Não quis acreditar quando me foi dito que menos de 10.000 livros importantes da literatura internacional tinham sido traduzidos para o árabe desde o Século IX.

qui, 27/01/2011 - 16:33

A chamada “Guerra do Pente” ocorrida em dezembro de 1959 em Curitiba, foi um acontecimento excepcional e que causa ainda interrogações.  Por que logo em Curitiba, se deram esses acontecimentos?

sex, 17/12/2010 - 10:47

Convidado a dar uma palestra na Universidade Saint-Esprit de Kaslik em Beirute, na inauguração do convênio que a Universidade Federal do Paraná assinou com esta universidade, optei por falar sobre a emigração e o sofrimento psíquico que estes deslocamentos provocam.

seg, 13/12/2010 - 17:37

Israel tem em seus presídios mais de 6.000 civis palestinos (incluindo crianças), a maioria deles sem acusação formal ou mesmo processo judicial.

seg, 22/11/2010 - 19:17

Antony Shay constrói um arcabouço conceitual para pensar as questões relativas ao intercâmbio entre tradições e representações cênicas na construção coreográfica e suas consequências políticas e ideológicas, e questiona a validade dos conceitos ocidentais na avaliação da dança oriental.

qua, 06/10/2010 - 11:48