Na fila da cidadania

qui, 06/10/2011 - 22:45
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Wajeha Al-Huwaider é uma ativista da emancipação feminina no país com as leis mais restritivas às mulheres do mundo, a Arábia Saudita, onde elas não podem abrir conta em banco, aceitar emprego, assinar contrato de aluguel ou viajar sem a autorização de um homem. 

A fundadora da Sociedade de Defesa dos Direitos da Mulher na Arábia Saudita comemorou o ato inédito do rei Abdullah de dar direito de voto às mulheres, mas insiste que é pouco. "Somos tratadas como crianças irresponsáveis. Todos os aspectos da vida são controlados. A exclusão do processo político é apenas o começo dos nossos problemas", disse ela, ao Aliás, por telefone, da cidade de Daharan, onde mora e trabalha na empresa de petróleo Aramco.

Wajeha ficou conhecida internacionalmente quando, em 2008, liderou uma campanha para anular o casamento de uma menina de 8 anos com um homem de 50. Ela fez um vídeo no YouTube denunciando a união, que foi parar na CNN. Em 2008, foi uma das primeiras a postar um vídeo em que aparece dirigindo. Nessa entrevista, ela explica por que o direito de conduzir se tornou a principal bandeira de luta das mulheres no país.

Wajeha foi criada numa família liberal saudita. Sua mãe era a única que deixava a filha andar de bicicleta, o que as amigas não podiam fazer, pois poderia "lhes custar a virgindade". Aos 7 anos, teve as pernas amarradas por uma professora e apanhou com um pau porque fugia para jogar futebol com os meninos. "Sempre fui a diferente, e continuo." Divorciou-se assim que o marido veio com a conversa de que queria uma segunda esposa. Há anos não usa preto nem cobre o rosto. "Sou a única que veste rosa por aqui. É para mostrar às sauditas que nossa vida pode ter muito mais cor".

Como repercutiu na Arábia Saudita o inédito direito de voto para as mulheres?

Foi um discurso bem feito pelo rei Abdullah e a notícia foi bem recebida por nós, mas é só uma promessa para 2015, o que é frustrante. Não sabemos nem se será cumprida. De toda forma, eleições na Arábia Saudita não são grande coisa, porque metade dos cargos é apontada pelo rei. Os conselheiros não têm poder de fato, não podem mudar leis ou sugerir políticas, apenas escrevem recomendações ao rei. Mas é assim que funciona a política na Arábia Saudita. O país não é do povo, é de uns poucos homens que nunca foram eleitos. O sufrágio universal é uma conquista importante, mas apenas o começo. Estranhei terem ressuscitado o caso de Shaima Ghassaniya dois dias depois do anúncio do voto. Pegou mal e o rei teve que intervir cancelando a sentença das chibatadas, o que, aliás, não é uma pena comum aqui.

Por que o direito de dirigir parece ser a principal causa de mobilização das sauditas?

Porque não há nenhuma lei que diga que não podemos dirigir, só o que nos impede é a tradição. Há uma fatwa, um pronunciamento religioso, que diz que mulheres não podem conduzir, mas em tese ela pode ou não ser seguida, quem decide é a família. Em 1991, 47 mulheres fizeram um protesto em Riad que repercutiu muito e durante um curto período elas puderam dirigir. No interior podemos dirigir, mas na cidade grande, não. Dirigir aqui é tão importante porque, sem isso, não podemos ir para a escola, para o trabalho, fazer compras. Nossas cidades são construídas de modo que o carro é muito necessário. Não temos um transporte público desenvolvido, então não podemos depender dos ônibus, poucos e caindo aos pedaços. Resta-nos contratar motoristas, geralmente imigrantes da Índia, Sri Lanka e Indonésia dos quais nada sabemos. Somos obrigadas a aceitá-los em casa, conduzindo nossa vida. Eles exigem salários altos, moradia e seguro-saúde, tudo muito caro, p ois sabem que se forem embora a vida da mulher fica suspensa. Muitas têm que deixar o emprego porque não podem manter um motorista, ou pedir licença sem remuneração até conseguir outro. Somos obrigadas a depender de estranhos. Dirigir virou uma bandeira nossa porque, de todos os países do mundo, só na Arábia Saudita existe essa proibição.

Há protestos semelhantes em relação a outros direitos negados?

A "lei do guardião" é ainda pior porque não é só tradição, é uma medida oficial difícil de ser mudada. A saudita precisa ter um homem a tiracolo para tudo na vida. Sem um acompanhante, seja marido, filho ou pai, ela não pode conseguir emprego, ser aceita na escola, receber tratamento médico - nem em caso de emergência - viajar, alugar casa, comprar carro, abrir conta em banco, começar um negócio, nada. Todos os aspectos da nossa vida são controlados. Queremos ser cidadãs plenas, vistas como pessoas maduras, como os homens, mas nos tratam como crianças irresponsáveis. Nos últimos meses, mulheres têm protestado por mais emprego. Às vezes, grupos de jovens vão aos reitores de universidades exigir que sejam aceitas. Outras protestam pela libertação de prisioneiros, geralmente maridos ou filhos. Mulheres até vão à rua defender causas como essas, mas não para refutar a lei da guarda masculina.

O NYT informou que 58% dos universitários sauditas são mulheres. Qual é a participação delas no mercado de trabalho?

Mais mulheres do que homens têm diploma, especialmente bacharelado, na Arábia Saudita, mas o país tem a maior porcentagem de mulheres desempregadas do mundo. Alguns cargos são estritamente para homens, então elas nem podem se candidatar. E as empresas preferem contratar homens porque não têm que pagar tantos benefícios relacionados à maternidade. As famílias também não gostam de ver as filhas ou esposas trabalhando com homens e pressionam para que fiquem em casa.

De que maneira a Primavera Árabe está repercutindo em seu país?

Todos os amigos dos reis sauditas estão caindo e eles estão preocupados. Por isso mandaram forças militares ao Bahrein para tentar abafar o levante. Quando o presidente egípcio estava caindo, o rei Abdullah voltou do exterior, onde passava por tratamento médico, e tentou apaziguar os ânimos dos sauditas com dinheiro. Aumentou os salários dos funcionários públicos, especialmente da indústria do petróleo. E US$ 130 bilhões foram liberados para gastos públicos numa estratégia de calar o povo e ganhar tempo. Mas as pessoas estão se mobilizando no Facebook e criticando a realeza, pressionando para que ela reveja leis e dê mais oportunidades para os pobres melhorarem de vida. A imigração, atrelada ao desemprego, é motivo de grande insatisfação por aqui. Enquanto 8 milhões de trabalhadores na Arábia Saudita são estrangeiros, 28% dos homens não tem emprego porque é mais barato contratar um filipino que um saudita. Nosso país é de jovens, 60% da populaç ão tem menos de 25 anos, porque a taxa de natalidade é alta. Somo famílias grandes. Esses jovens precisam de escola, emprego, casa para começar a família. Hoje 80% dos sauditas vivem de aluguel pois não conseguem comprar um imóvel.

O rei Abdullah já tem 88 anos. Seu sucessor, o príncipe Sultan, de 87, está doente. O seguinte na linhagem é o príncipe Nayef, o mais conservador dos três. Que esperar do futuro do governo saudita?

O rei diz que vai viver mais 20 ou 30 anos, mas isso é sonho dele. É difícil prever qualquer coisa quando se trata da família real, eles são dissimulados. Quase ninguém houve mais falar do príncipe Sultan, internado há mais de três meses, mas a família toca o dia a dia como se tudo estivesse bem, business as usual. Muita gente está preocupada com Nayef e acha que teremos mais restrições quando ele assumir. Imagino que no começo ele vá fazer concessões e dar sinais de abertura. É assim que agem todos os reis sauditas no começo do reinado, dão presentes ao povo porque querem conquistar sua simpatia. Nayef comanda o Ministério do Interior, todas as polícias e forças de segurança estão sob seu comando e ele é da ala mais conservadora do governo.

Em um artigo, você diz que depois dos ataques nos EUA em 2001 o governo saudita ficou envergonhado do papel de seus cidadãos no atentado e, para melhorar a imagem do país, liberalizou um pouco. De que forma?

Tivemos avanços. Os jornais estão cheios de denúncias de corrupção, a imprensa pode criticar mais os ministros e questionar tradições. Isso era impensável há dez anos. Surgiram as primeiras apresentadoras de TV, âncoras de programas de política, mostrando o rosto. Antes, mulheres só podiam escrever para jornais e suas fotos não eram publicadas. Em termos de emprego, algumas ocupações antes restritas aos homens começam a ser abertas às mulheres. E as regras para a emissão de fatwas mudou. Antes, qualquer sacerdote podia emitir uma fatwa. Agora, um conselho de teólogos precisa examiná-las. Esse é um avanço menor, admito. Mas nesta década tivemos a primeira mulher ministra, Norah al-Faiz, da Educação. Mulheres também podem, em alguns casos, morar num apartamento alugado sem a permissão de um homem. Isso é muito importante, especialmente para vítimas de violência doméstica. O rei criou a universidade Rei Abdullah, a primeira e única onde mulhere s e homens podem estudar e trabalhar juntos. Portanto, algumas mudanças sutis estão ocorrendo, mas muito ainda precisa mudar.

O processo de divórcio foi simplificado?

A Corte Suprema já fez o pedido ao rei para revisar a lei do divórcio, mas até agora nada foi feito. A mulher precisa da autorização do pai para se separar. Já para o homem basta dizer "eu me divorcio de você" e pronto. Ou nem isso: pode mandar outra pessoa avisar a mulher da separação. Quando elas se divorciam, quase sempre perdem a guarda dos filhos e a casa. O homem pode ter até quatro esposas, sem precondições, mesmo se for pobre e mal conseguir se sustentar. Elas são forçadas a uma vida de miséria. Mulheres não são identificadas quando vão ao tribunal, cobertas pelo véu. Quem valida sua identidade é o acompanhante e por isso acontecem muitos casos de fraude. Por exemplo, uma filha acaba de receber a herança do pai. O irmão leva uma mulher qualquer ao tribunal, diz que é a irmã e que ela está doando todo o dinheiro a ele. Os juízes não conferem a identidade da mulher porque é considerado vergonhoso ver o rosto de uma desconhecida, e os tribu nais não contratam funcionárias para conferir quem está debaixo daquele pano.

Você foi muito ativa para anular o casamento de uma menina de 8 anos com um homem de 50. Casos como esses são comuns?

São cada vez mais raros. Certamente acontecem no interior e em comunidades mais religiosas, mas não ficamos sabendo. Estamos militando pela a aprovação de uma lei que fixe uma idade mínima para o casamento. Nesse caso que você mencionou, a mãe da garota foi crucial para conseguir o divórcio da filha. Ela batalhou muito, foi aos jornais e contou a história. Foi assim que nós, da Sociedade de Defesa dos Direitos da Mulher, ficamos sabemos e pudemos ajudar, promovendo uma campanha internacional. Essa mãe tinha acabado de se divorciar. É comum que casos de casamento de crianças estejam associados ao divórcio dos pais. O homem fica com a guarda das crianças e se desfaz das filhas em uniões arranjadas. Alguns até as vendem.

É forte a participação das mulheres no movimento pela emancipação feminina?

Está melhorando. Antes, quando eu conversava com as mulheres sobre nossos direitos elas diziam que eu estava errada, a vida delas era confortável, estava tudo ok. Agora, a consciência de que estamos sendo diminuídas, desumanizadas e exploradas é maior. O melhor nível de educação das mulheres e a internet ajudaram muito. Elas estão por aí, organizando-se pelo Facebook, esperando a hora de serem ouvidas.

O véu que cobre o rosto da mulher é obrigatório em todas as ocasiões?

Nas escolas e nas repartições públicas, sim. Mas nos shoppings ou na rua, não. Antes, há talvez uns dez anos, era proibido por lei andar sem véu. Hoje são as famílias que decidem. Como os sauditas são conservadores, quase todas cobrem o rosto. Tomo a mim mesma como medida e digo: elas não estão felizes. Este é um dos países mais quentes do mundo, 38°C todo dia. Roupa preta não faz o menor sentido. Os homens só andam de branco, o que é mais adequado ao clima. A maioria das mulheres é forçada a se cobrir. Minha irmã é uma delas, seu marido exige. Há anos eu não uso mais preto ou cubro o rosto. Quando vou ao shopping, sou a única mulher de rosa ou branco. Sempre fui a diferente e continuo assim. Quero mostrar às mulheres que nossa vida pode ter muito mais cor.

Fonte: O Estado de S. Paulo