“Quero mobilizar uma resistência massiva não-violenta”

qua, 30/09/2009 - 00:00
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Pouco antes de se encontrar com o senador Eduardo Suplicy, Huwaida Arraf conversou com o ICArabe e contou um pouco acerca de sua história, opiniões e sobre os planos de envio do próximo barco a Gaza. “ Desta vez, queremos uma frota!”, afirmou.

Qual é a sua relação com a Palestina? Meus pais deixaram a Palestina quando minha mãe estava grávida de mim. Meu pai é de uma vila que foi tomada por Israel em 1948 e hoje é parte de Israel, então ele é um árabe-israelense e minha mãe é do West Bank. Eles queriam que eu nascesse nos Estados Unidos, onde havia liberdade, pois a cidade da minha mãe estava sob ocupação militar e meu pai integrava a classe baixa israelense, pois nunca houve igualdade já que Israel sempre defendeu um Estado judeu. Você conheceu a Palestina na sua infância? Sim. Quando eu era criança costumávamos visitar a Palestina a cada um ou dois anos. Eu era muito jovem para entender o que estava acontecendo e ficava muito feliz em ir com toda minha família. Em 1986 foi a última vez que fomos, eu tinha 10 anos, o suficiente para entender por quê. A chegada era constrangedora. No aeroporto tínhamos que tirar a roupa e as bagagens eram separadas e revistadas. Meu pai não quis mais passar por esta humilhação, então não voltamos. Como você se envolveu com o movimento pró-Palestina? Eu me graduei em Ciências Políticas e em estudos árabe-judaicos. Eu estava na Universidade na época em que houve o processo de paz entre israelenses e palestinos. Quis aumentar meu entendimento sobre o pensamento do povo judeu, então tranquei a faculdade e fui para Jerusalém, passei um ano na Universidade Hebraica, onde estudei Hebraico. Voltei de lá com muita energia para lutar porque vi as injustiças. De volta à Universidade de Michigan, comecei a tentar mobilizar a comunidade árabe nos Estados Unidos, pois o que aprendi é que Israel tem uma estrutura muito forte de relações públicas com campanhas que atraem judeus de todo o mundo para amar e defender Israel. Você acredita no diálogo entre Israelenses e palestinos? Sim, existem muitos grupos em Israel abertos ao diálogo, mas o problema com o diálogo é que ele vem ocorrendo há anos e os israelenses voltam para a casa deles e os palestinos para as suas, sob armas. Os judeus se sentem bem porque se reuniram com os palestinos, mas não fazem nada prático para mudar a situação política. Quando me formei, comecei a trabalhar em um programa de uma organização que estava fazendo diálogo para resolução do conflito entre a Palestina e Israel, alguns meses após o início da Segunda Intifada, em 2000. Mas, percebi que a reação de Israel não era apenas no sentido de controlar a revolta. O país estava abrindo fogo contra os Palestinos. No primeiro mês da revolta, 143 palestinos foram baleados no peito e na cabeça, então eles estavam atirando para matar. Eu deixei o meu emprego não porque eu não acredito em diálogo, mas porque acredito que a situação requer mais, requer ação. Eu quero levar pessoas para as ruas e mobilizar uma resistência massiva não-violenta. A criação do ISM está relacionada a este desejo? Claro. Eu, meu marido, que não era meu marido naquela época, e outras pessoas fundamos em 2001 o Movimento Internacional de Solidariedade. A ideia é dar suporte à resistência popular dos palestinos, chamando pessoas de todo o mundo para apoiarem a causa palestina. Hoje temos 7 mil pessoas em todo o mundo, em 30 nações diferentes que foram à Palestina para presenciar o que está acontecendo e demonstrar seu apoio. E elas voltaram aos seus países, conversaram com outras pessoas, fizeram campanhas, escreveram e promoveram ações de solidariedade. Elas estão mudando a opinião popular em seus países e mudando o que a grande mídia está divulgando sobre o que está acontecendo. E o movimento Gaza Livre, quando e como começou? Em 2006 a situação em Gaza se tornou terrível. Depois das eleições em que o Hamas venceu, Israel vem isolando e punindo os palestinos. Em Gaza foi muito pesado, pois a região sempre esteve isolada. Israel controla o território pelo ar, pelo mar e por terra. Cada vez deixam menos coisas entrarem e saírem. Não permitiam sequer a entrada de voluntários. Então alguém teve a ideia de quebrar o bloqueio pelo mar, com um barco. No início pareceu maluco, mas por que não? Começamos a trabalhar nisto. Levou um tempo, quase dois anos, porque foi difícil conseguir dinheiro. No verão de 2008 tínhamos dois barcos de pesca pequenos. Colocamos a bordo 44 pessoas de 17 países. Não acreditávamos que conseguiríamos chegar em Gaza, mas tínhamos que expor o que estava acontecendo lá e tentar mobilizar outras pessoas para acabar com o bloqueio de Israel. Israel alega que o bloqueio ocorre com fins de segurança… Algumas pessoas dizem que o bloqueio ocorre para isolar o Hamas. Mas isto é errado e ilegal, pois Israel está ocupando Gaza, então eles são responsáveis pelo bem-estar das pessoas que vivem lá. O que Israel está fazendo é uma punição de civis, uma punição coletiva, ilegal sob a lei internacional. Mas ninguém está fazendo nada em relação a isto. As pessoas falam, mas ninguém entra em ação. E os dois barcos chegaram facilmente a Gaza? Bem, estava claro quem éramos, fizemos um trabalho de divulgação grande na mídia, tínhamos algumas pessoas bem conhecidas com a gente, entre elas uma israelense, um parlamentar e uma cunhada de Tony Blair. Os dois barcos eram gregos e saímos de Chipre, as embarcações foram revistadas antes de sairmos, não estávamos carregando armas nem nada assim. Então estava muito claro, era em paz e se Israel tentasse nos parar ficaria claro que a política deles não era por segurança. Fomos e ficamos surpresos por Israel não ter nos confrontado. Depois de 32 horas no mar, chegamos a Gaza e foi o momento mais maravilhoso e incrível da minha vida. Nenhum barco havia entrado assim em Gaza em 40 anos, pois Israel não tinha permitido. Quando chegamos, cerca de mil pessoas esperavam por nós no porto e pularam na água. Ninguém até então tinha feito nada. Aquelas pessoas vivem numa prisão e ninguém se importa. Como você acha que aquelas pessoas enxergaram o ato de vocês? Acho foi uma mensagem de que elas não estão sozinhas e espero que uma mensagem para a comunidade internacional de que podemos fazer alguma coisa. Não precisamos ficar em silêncio, se nossos governos não vão fazer nada, nós podemos. Nós temos que continuar voltando lá e levando coisas. Queremos que cada vez mais gente venha conosco. Vocês conseguiram navegar outras vezes para Gaza, certo? O que levaram nos barcos além de pessoas? Conseguimos entrar em Gaza outras quatro vezes. Levamos voluntários, médicos, professores e cientistas, mas poucos alimentos e medicamentos. Os barcos eram sempre pequenos e além disto, não somos uma organização humanitária dando caridade. Nossa causa são os direitos humanos, queremos quebrar o bloqueio. Acho que as pessoas lá não querem caridade, querem o direito de ir e vir. Por exemplo, nós carregamos pessoas em nossos barcos como estudantes que tinham bolsas de estudo em outros países, mas não podiam ir porque Israel não permitia. Também levamos pessoas que precisam de cuidados médicos e não podiam sair. Um dos barcos enviados foi impedido de entrar, não? Íamos enviar o sexto barco no final de 2008, na mesma época em que Israel começou a atacar Gaza. Organizamos então uma missão de emergência, em 29 de dezembro, e colocamos o maior número de medicamentos que podíamos, médicos cirurgiões embarcaram e partimos em direção a Gaza. No meio da viagem, à noite, ainda em águas internacionais, um barco da marinha israelense bateu no nosso três vezes, mas o capitão conseguiu seguir para o Líbano. Dois meses atrás mandamos um barco que acabou preso, todo mundo lá dentro, 21 pessoas, incluindo o Prêmio Nobel da Irlanda, foi colocado atrás das grades e deportado. Mas isto não vai nos deter. Precisamos utilizar estratégias diferentes. Não apenas um barco porque é claro que vão nos parar. Queremos mandar uma frota, três ou quatro barcos juntos e temos que ter parlamentares, pessoas muito famosas, cantores que é para o mundo prestar atenção e dificultar a ação de Israel. Agora estão buscando o apoio de pessoas na América do Sul? Então, agora estamos tentando levantar dinheiro para conseguir estes barcos, convidando parlamentares para virem com a gente, grupos da sociedade civil. Por isto estou aqui. No último minuto conseguiram para mim uma reunião com Suplicy, eu estava na Argentina, então eu vim. Eu deveria passar mais tempo no Brasil, mas espero que consigamos achar alguns ativistas locais, que possam tomar as rédeas das ações por aqui. E o que conseguiram até agora? Agora queremos um navio cargueiro, que leve mantimentos materiais de construção, pois Israel destruiu milhares de casas e não deixa entrar nada para a reconstrução. As pessoas estão vivendo em barracas e o inverno está chegando. O primeiro-ministro da Malásia anunciou suporte a nós e por isto já temos dinheiro para um cargueiro. Agora precisamos apenas de mais alguns barcos e pessoas. Eu espero que estejamos prontos para ir antes do inverno. Como tem sido a participação da América Latina no Movimento Gaza Livre? Até agora, eu acho, não tivemos nenhum latino-americano em nossos barcos. Seria maravilhoso ter. Antes do Brasil, estivemos no Chile, na Argentina e na Venezuela. Esperamos conseguir levar mais pessoas daqui. Na Irlanda eles estão fazendo um barco próprio, com o apoio de alguns parlamentares. Com quais brasileiros você encontrou em São Paulo e qual foi a reação deles? O Plínio de Arruda Sampaio foi muito receptivo. Disse que vai escrever um artigo nos apoiando. Por causa da falta de tempo não pude encontrar com outros políticos e pessoas do governo. Já o Suplicy mostrou bastante interesse em ir para Gaza em um dos nossos barcos, mas vai depender de quando isto ocorrer. Manteremos o contato. Se ele puder ir, ótimo, se não, disse estar pronto para ajudar de outras formas.