A manipulação do antissemitismo para a defesa de Israel: resposta a Jean Wyllys

qui, 22/02/2018 - 13:28
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Por Bruno Huberman, integrante da FFIPP-Brasil (Rede Educacional por Direitos Humanos em Palestina/Israel)

O deputado Jean Wyllys (PSOL-RJ) envolveu-se em mais uma ampla discussão virtual nessa semana ao defender o Estado de Israel, criticar o movimento de resistência palestino e apontar aqueles que são contrários à sua posição como antissemitas e homofóbicos.

A motivação foi a publicação de uma nota da executiva nacional do Psol, na semana anterior, em que o partido critica as ações coloniais dos israelenses na Palestina e coloca-se em prol do chamado da sociedade palestina por Boicote, Desinvestimentos e Sanções (BDS) à Israel — um movimento global que tem continuamente crescido no Brasil e no mundo, sendo inclusive indicado ao Nobel da Paz deste ano, e alvo da ira de simpatizantes de Israel em todos os lugares.

Wyllys tornou-se um defensor de primeira hora de Israel desde que, no início de 2016, embarcou para uma viagem para o país organizada pelo lobby sionista (o movimento nacionalista judeu) ligado a grupos de esquerda no Brasil. Tem sido no Rio de Janeiro, em particular, que o sionismo de esquerda tem crescido, enquanto enfrenta o ocaso ao redor do mundo, particularmente em Israel, onde encolhe a cada período eleitoral.

Leia a manifestação de Wyllys

A partir de uma estratégia que busca enfrentar as adversidades locais a partir da atração de apoio internacional, o sionismo de esquerda tem conquistado importantes apoiadores no Brasil, como Wyllys, o advogado Paulo Abrão e o humorista Gregório Duvivier — este último, por sinal, prometera retratar-se de suas críticas ao movimento palestino durante lançamento de seu livro no bar e centro cultural palestino Al Janiah, em São Paulo, no final de 2017, mas por enquanto optou pela omissão.

Nesse período enquanto linha de frente do movimento sionista, o deputado Jean Wyllys tem assumido um posicionamento claro: forte ataque aos grupos de esquerda que são contrários ao Estado de Israel, acusando-os de camuflarem o seu antissemitismo sob a fachada de um suposto antissionismo e de fazerem um debate raso e superficial; defesa irrestrita de Israel enquanto a única democracia do Oriente Médio; e a denúncia de nações e grupos árabes e muçulmanos, em particular o palestino Hamas, como terroristas, antissemitas e homofóbicos.

Israel, Palestina, antissemitismo e antissionismo

Para compreender a relevância da discussão sobre antissemitismo e antissionismo é necessário levar em conta a centralidade que o antissemitismo historicamente desempenha na história do sionismo. O sionismo é, na sua origem, filho do antissemitismo. O movimento nacionalista judeu surge na Europa Oriental, no final do século XIX, no contexto da permanente perseguição aos judeus em diferentes nações europeias.

A constituição de um Estado nacional judeu aparece como uma solução para por fim ao antissemitismo na Europa e, consequentemente, trazer liberdade, segurança e autodeterminação para os judeus europeus — os judeus árabes não sofriam a mesma forma de preconceito e não faziam parte do projeto sionista nesse período.

Desta forma, a identidade judaico-sionista é forjada como uma reação à perseguição pelo Outro que busca eliminá-lo. Se no passado, este Outro foram os egípcios, mamelucos, babilônios, romanos, russos e nazistas, essa posição é hoje ocupada pelos árabes e muçulmanos, que tornaram-se, não por coincidência, os inimigos não apenas dos judeus, mas de toda a ‘civilização ocidental’. A parceria militar de Israel com os EUA na ‘Guerra ao Terror’ no Oriente Médio é reveladora — das últimas dez ações bélicas estadunidenses, nove foram em países muçulmanos.

Com efeito, a permanência de uma ameaça à existência dos judeus e de Israel é constantemente reafirmada, pois enquanto houver antissemitismo no mundo, haverá forte motivação para a continuidade da existência do Estado de Israel — de modo contrário, a sua legitimação fica fragilizada. Consequentemente, o antissemitismo justifica o início de guerras, a imigração de judeus para Israel, a construção de assentamentos, a expulsão dos palestinos, a ocupação de terras estrangeiras, a edificação de muros, a conquista de apoios internacionais, a formação de alianças e a abertura de novos negócios.

Sionistas antissemitas e semitas antissionistas

Desde o fim da II Guerra Mundial, quando foi criado o Estado de Israel e o antissemitismo estrutural deixou de existir, organizações judaico-sionistas ao redor do mundo tem buscado manter um curioso equilíbrio: ao passo que denunciam todas as manifestações de antissemitismo, fazem com que o ‘monstro’ da perseguição aos judeus jamais deixe de existir. O documentário ‘Defamation’ demonstra como a Anti-Defamation League (ADL), importante organização judaica nos EUA de combate à perseguição aos judeus e ao ódio, tem instrumentalizado e inventado casos de antissemitismo para construir apoio ao Estado de Israel.

Consequentemente, muitos indivíduos e grupos contrários e críticos ao Estado de Israel tem sido taxados de ‘novo Hitler’, ‘nazista’ ou ‘antissemita’ em diferentes contextos. Desde o antigo líder egípcio Gamal Abdel Nassar, importante adversário israelense no período da Guerra Fria, até o movimento BDS já foram acusados de antissemitismo por se oporem a Israel, não necessariamente por declarações racistas.

Um exemplo próximo: um grupo de judeus sionistas desenhou a suástica nazista e o símbolo do BDS em conjunto numa lousa do local onde estava sendo realizado um evento do BDS com a presença de militantes palestinos em São Paulo, em 2016. Ademais, o BDS tem sido sistematicamente perseguido nos EUA e em Israel.

Ao mesmo tempo, notórios indivíduos antissemitas que tem ascendido politicamente em meio ao recrudescimento do nacionalismo no mundo, tem tido o seu preconceito contra judeus minimizado diante do seu apoio ao Estado de Israel, como são os casos do presidente dos EUA, Donald Trump, e do seu ex-assessor e líder supremacista branco, Stephen Bannon.
 
Até eu, que sou judeu e seria insuspeito de ser antissemita, sou acusado de antissemitismo.
 
Os sionistas inventaram uma categoria para me identificar: o ‘self-hating jew’, ou o ‘judeu que se odeia’. Isto é, na ausência de uma argumentação para explicar como um judeu pode ser contrario ao sionismo e ao Estado de Israel, recorrem a uma classificação de orientação psicológica, de forma a colocar esse tipo de posição como irracional por razões que apenas Freud explicaria. O próprio Wyllys recorre ao argumento freudiano para caracterizar um suposto comportamento antissemita de parte da esquerda. Consequentemente, eu e demais críticos do Estado de Israel seríamos inconscientemente antissemitas.

Como podemos observar, a delimitação da fronteira entre quem é e não é antissemita tornou-se altamente volátil, manipulável e disputada, uma vez que determina os amigos e inimigos de Israel e de praticamente todos os judeus ao redor do mundo. Essa disputa tem se tornado cada vez mais sensível com a perda de apoio que Israel tem sofrido, inclusive as juventudes judaicas, particularmente dos EUA, que se tornaram extremamente críticas das ações de Israel e tem se afastado de movimentos sionistas.

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Primeiro Ministro de Israel Benjamin Netanyahu se despede de Donald Trump no aeroporto Ben-Gurion. Foto por Kobi Gideon / GPO

Israel: uma democracia?

Logo, a discussão sobre antissemitismo tal qual normalmente posta pelos sionistas é inócua e serve para desvirtuar o debate do seu centro: a colonização sionista da Palestina. Diferente do que afirma Wyllys e aqueles que partilham da sua visão das coisas, Israel não é uma democracia. Não é democrático um Estado que possui dezenas de leis racistas, que ocupa e coloniza um território estrangeiro, que destrói sistematicamente as casas dos palestinos, que prende os palestinos sem julgamento — inclusive crianças e adolescentes, como a jovem Ahed Tamimi —, e que esmaga a resistência palestina de forma impiedosa.

Israel é uma nação na qual há uma distinção entre direitos nacionais e de cidadania. Os nacionais são apenas aqueles que pertencem ao grupo étnico majoritário: os judeus. Aos cidadãos de Israel de etnia palestina não são destinados os mesmos direitos, como o de reunião familiar. Não por coincidência, na semana passada, a ministra da Justiça de Israel, Ayelet Shaked, afirmou que Israel deve manter a maioria judaica às custas dos direitos humanos da sua população.

Por essas e outras razões, o acadêmico israelense Oren Yiftachel argumenta que Israel não é uma democracia, mas, na realidade, uma etnocracia: uma espécie de oligarquia governada por um determinado grupo étnico. Esta não seria uma característica constituída durante os governo de direito de Bibi Netanyahu, que Wyllys critica, mas em todo o processo de formação de Israel, principalmente pela esquerda.

Desconstruir essas narrativas é central para a luta por liberdade e igualdade na Palestina. A proposta de dois estados para dois povos, defendida pela esquerda sionista e hegemônica atualmente no mundo, por exemplo, jamais trará justiça e paz verdadeira para a região, pois ignora os direitos da maior parte dos palestinos: tanto daqueles expulsos no passado e refugiados no estrangeiro, como daqueles vivendo onde hoje é a etnocracia israelense.

Bruno Huberman é jornalista, integrante da FFIPP-Brasil (Rede Educacional por Direitos Humanos em Palestina/Israel) e doutorando em Relações Internacionais pelo Programa San Tiago Dantas (UNESP/UNICAMP/PUC-SP).

Publicado originalmente no site Justificando.

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