Falar o árabe, mas em Rolls-Royce ou em Volkswagen?

qui, 10/01/2013 - 18:01
Como falar e escrever o árabe? A pergunta é, no entanto mais duvidosa por depender de fatores ideológicos que nada têm com a vivência mesma desta língua para os locutores indígenas. Não sei de onde veio este conceito segundo o qual o árabe expressaria essencialmente uma violência aterradora e incompreensível, mas explica-se por si mesmo que todos os malfeitores de turbantes das telas de Hollywood dos anos 1940 e 1950 falando a suas vítimas com um tom rabugento, com um deleite sádico, têm alguma coisa com isto.

No entanto, a retórica e a eloquência na tradição literária árabe remonta a um milênio: são os escritores de Bagdá, tais como Al-Jahiz e Al-Jurjani, que elaboraram sistemas incrivelmente complexos e surpreendentemente modernos para compreender a retórica, a eloquência e as metáforas. Mas seu trabalho se fundamenta no árabe clássico escrito e não no coloquial cotidiano. O primeiro, no entanto é dominado pelo Corão, ao mesmo tempo origem e modelo de tudo o que veio depois dele em matéria de linguística.

Expliquemos este ponto, muito pouco familiar aos usuários das línguas europeias modernas, nas quais as versões faladas e literárias se correspondem e onde a Escritura sagrada perdeu inteiramente sua autoridade verbal.

Todos os árabes usam um dialeto falado que varia consideravelmente de uma região ou de um país a outro.  Eu cresci numa família cuja língua falada era uma mistura do que era correntemente usado na Palestina, no Líbano e na Síria: estes três dialetos apresentavam suficientemente diferenças para que se pudesse distinguir, por exemplo, um habitante de Jerusalém de outro de Beirute ou ainda de Damasco – mas todos os três podiam se comunicar sem grande esforço.

Como fui à escola no Cairo e que lá passei a maior parte de minha juventude, eu falava também – e correntemente – o dialeto egípcio, muito mais rápido e elegante que os outros aprendidos em minha família. Ademais, o egípcio era mais difundido: quase todos os filmes árabes, os dramas radiofônicos, depois as novelas televisivas eram produzidos no Egito. O idioma egípcio tornou-se assim familiar aos habitantes de todo o mundo árabe.

Durante os anos 1970 e 1980, o boom do petróleo carreou a produção de dramas televisivos de outros países, desta feita em árabe clássico. Esses dramas de costumes, empolados e pesados, supostamente convinham ao gosto dos muçulmanos (e dos cristãos atrasados, geralmente mais puritanos) que poderiam repugnar os filmes cairotas cheios de verve. E, para nós, pareciam desesperadamente aborrecidos! O mussalssal (seriado) egípcio, o mais apressadamente montado, nos divertia infinitamente mais que o melhor dos dramas bem pautados em língua clássica.

De todos os dialetos, em todo caso, só o egípcio conheceu tal difusão.   Assim, teria eu todas as dificuldades do mundo para entender um argelino, tão grande é a diferença entre os dialetos do Mashriq  e aqueles do Maghrib . Eu teria a mesma dificuldade com um iraquiano ou mesmo um interlocutor dotado de forte sotaque do Golfo. É por isto que as informações irradiadas ou televisionadas usam uma versão modificada e modernizada da língua clássica, que pode ser entendida através do conjunto do mundo árabe, do Golfo ao Marrocos – quer sejam: debates, documentários, reuniões, seminários, sermões de mesquita e discursos em comícios nacionalistas, igualmente em encontros de todos os dias falando línguas muito diferentes.

A exemplo do latim para os dialetos europeus falados até há um século, o árabe clássico permaneceu presente e bem vivo como língua comum de escrita, apesar dos imensos recursos de toda uma série de dialetos falados os quais, a exceção do egípcio, não se difundiu além do país onde usados. Além disto, os dialetos falados não possuem a vasta literatura da lingua franca  clássica.

Mesmo os escritores ditos “regionais” tendem a usar a língua moderna clássica e só ocasionalmente apelam para o árabe dialetal.  Na prática, uma pessoa educada faz, de fato, dois usos linguísticos bem distintos a ponto de, por exemplo, você papear com um repórter de um jornal ou de uma televisão em dialeto e depois, de repente, quando a gravação começar, passará, sem transição, à língua clássica, intrinsecamente mais formal e mais polida.  

Existe certamente uma ligação entre os dois idiomas: as letras são frequentemente idênticas e a ordem das palavras também.  Mas os termos e a pronúncia diferem na medida em que o árabe clássico, versão padrão da língua, perde todo o traço de dialeto regional ou local e emerge como um instrumento sonoro, cuidadosamente modulado, elevado, extraordinariamente flexível, cujas fórmulas permitem uma grande eloquência. Corretamente utilizado, o árabe clássico não tem igual para a precisão da expressão e para a admirável forma pela qual as variações de letras individuais numa palavra (mui especialmente nas terminações) permitem expressar coisas bem distintas.

É também uma língua de uma centralidade sem igual com relação à cultura árabe: como escreveu Jaroslav Stetkevych , que lhe consagrou o melhor livro moderno: “tal Vênus, ela nasceu num estado de beleza perfeita e ela conservou essa beleza apesar das peripécias da história e das forças do tempo”.   Para o estudante ocidental, “o árabe sugere uma ideia de atração quase matemática. O sistema é perfeito das três consoantes radicais, as formas aumentadas dos verbos com seus significados de base, a formação precisa do nome verbal, dos particípios. Tudo é clareza, lógica, sistema e abstração”.   Mas é também um belo objeto para olhar na sua forma escrita.   De onde vem o papel central e durável da caligrafia, arte combinatória da mais alta complexidade, mais próxima do ornamento e do arabesco que da explicitação discursiva.

Durante os primeiros dias da guerra no Afeganistão, na rede de televisão por satélite Al-Jazira ocorriam discussões e reportagens não encontráveis na mídia estadunidense.   O que era marcante, além do conteúdo dessas emissões, era, apesar da complexidade das questões abordadas, o alto nível de eloquência que caracterizava os participantes presas das maiores dificuldades – e mesmo o dos mais repulsivos, inclusive o senhor Usama Bin Laden .   Este último, falava com uma voz doce, sem hesitar ou fazer o menor lapso, o que conta certamente para sua influência.   Era também o caso, em menor medida, dos não árabes tais como os afegãos Burhanuddin Rabbani  e Gulbuddin Hekmatiar  os quais, sem dominar o dialeto árabe, recorriam com uma marcante facilidade à língua clássica.

Com certeza, o que se chama nos dias atuais de árabe moderno padrão (ou clássico) não é exatamente a língua na qual foi escrito o Alcorão, há quatorze séculos.  Ainda que o Livro Santo continue sendo bastante estudado, sua língua parece antiga, até mesmo enfática e, por tanto, não utilizável para a vida de todos os dias.   Comparada à prosa moderna, ela tem ares de poesia sonora.

O árabe clássico moderno resulta de processo de modernização iniciado durante os últimos decênios do século XIX – o período da Nahda, ou renascimento.   Foi principalmente a obra de um grupo de homens na Síria, no Líbano, na Palestina e no Egito (entre os quais um número notável de cristãos).   Eles se dedicaram coletivamente à transformação da língua árabe modificando e simplificando um pouco a sintaxe do original do VII século pelo direcionamento de uma arabização (istiarab): tratava-se de introduzir palavras tais como “tem”, “companhia”, “democracia” ou “socialismo”, evidentemente não existentes durante o período clássico.   Como?  Por procurar nas imensas fontes da língua graças ao procedimento gramatical técnico do al-qiyas (a analogia). Estes homens impuseram todo um novo vocabulário que representa atualmente perto de 60% da língua clássica padrão.   Assim, a Nahda conduziu a uma liberação dos textos religiosos, introduzindo sub-repticiamente um novo secularismo naquilo que os árabes diziam e escreviam.

A gramática árabe é tão sofisticada e sedutora por sua lógica que um aluno com mais idade a estuda com mais facilidade porque ele pode apreciar as sutilezas de seu raciocínio.  Ironicamente, é nos institutos linguísticos no Egito, na Tunísia, na Síria, no Líbano e no Vermont que o melhor ensino do árabe é dado a não árabes.

Quando a guerra árabe-israelense de 1967 me levou ao engajamento político à distância, uma coisa me tocou antes de tudo: a política não era tocada em amiya, ou língua do grande público como se chama o árabe dialetal, mas na maioria das vezes na rigorosa e formal fosha, ou língua clássica.   Aprendi logo cedo que as análises políticas em manifestações e reuniões eram apresentadas de tal sorte que pareciam ser mais profundas do que eram.  Descobri, para minha decepção, que eram particularmente verídicas as aproximações do jargão marxista e dos movimentos de libertação da época: as descrições de classes, de interesses materiais, aquelas do capital e do movimento operário eram arabizados e endereçados, em longos monólogos, não ao povo, mas a outros militantes sofisticados.

Em particular, os líderes populares como Yasser Arafat  e Gamal Abdel Nasser, com os quais tive contatos, utilizavam bem melhor o dialetal que os marxistas, os quais eram também melhor educados que estes dois dirigentes. Nasser, em particular, falava às massas em dialeto egípcio com frases sonoras da fosha. Quanto a Arafat, visto que a eloquência árabe depende muito da expressão dramática, ele tinha uma reputação de orador abaixo da média: seus erros de pronúncia, suas hesitações e seus circunlóquios desastrados parecem, para um ouvido educado, ao equivalente a um elefante passeando numa loja de porcelana.

No Cairo, a Universidade Al-Azhar  representa uma das mais antigas instituições de ensino superior do mundo: ela posa também como a sede da ortodoxia islâmica, e seu reitor é a mais alta autoridade religiosa do Egito sunita.  Mais ainda: Al-Azhar ensina – essencialmente, porém não exclusivamente – o saber islâmico cujo coração é o Alcorão, assim como tudo que vem junto em matéria de métodos de interpretação, de jurisprudência, de hadith (palavras e atos de Muhammad e seus companheiros), de língua e de gramática.

O domínio do árabe clássico se encontra, portanto no coração mesmo do ensinamento islâmico da Al-Azhar, para os árabes e para os outros muçulmanos. Os muçulmanos consideram o Alcorão como o Verbo de Deus não criado, “descido” (munzil) através de uma série de revelações a Muhammad. Por isto, a língua do Alcorão é sagrada; ela contém regras e paradigmas obrigatórios para aqueles que a utilizam, ainda que, bem paradoxalmente, eles não possam, devido a fato doutrinal (ijaz), a imitar.

Há sessenta anos, ouviam-se oradores e comentava-se sem parar a correção de sua linguagem, assim como aquilo que tinham a dizer.  Quando fiz meu primeiro discurso em árabe, no Cairo, há dois decênios, um de meus jovens parentes se aproximou de mim depois que eu havia terminado para me dizer o quanto ele estava decepcionado por eu não ter sido bastante eloquente. “Mas você compreendeu o que eu dizia”, perguntei-lhe com voz queixosa – sendo minha principal preocupação ser entendido a respeito de alguns pontos delicados de política e filosofia.   “Ah sim, com certeza”, respondeu ele com um tom desdenhoso, “nenhum problema: mas você não foi bastante eloquente ou oratório”.

Esta recriminação me persegue ainda quando falo em público.   Sou incapaz de me transformar em orador eloquente. Misturo os idiomas dialetais e clássicos de maneira pragmática, com resultados atenuados.   Como me foi dito amavelmente certa feita, pareço com uma pessoa que possui um Rolls-Royce, mas prefere usar um Volkswagen.

Só foi no correr dos dez ou quinze últimos anos que descobri: a melhor, a mais apurada, a mais minuciosa das prosas árabes que jamais li ou entendi foi escrita por romancistas (e não por críticos) como Elias Khoury  ou Gamal Al-Ghitany. Ou então por nossos dois poetas vivos, Adonis  e Mahmoud Darwish: cada um deles atinge, em suas odes, alturas rapsódicas tão elevadas que levam enormes auditórios a frenesi de encantamento entusiástico.

Para eles, a prosa é um instrumento aristotélico agudo como uma navalha.  Seu conhecimento da língua é tão imenso e tão natural, seus dons tão potentes que eles podem ser, ao mesmo tempo, eloquentes e claros sem ter necessidade de palavras de recheio, de verbosidade fatigante ou de vã profusão. Enquanto que para mim, que não fui formado no seio do sistema escolar nacional árabe (em oposição ao sistema colonial), é-me necessário fazer esforços conscientes para colocar corretamente e claramente em ordem uma frase árabe clássica – com resultados nem sempre convincentes em termos de elegância, devo confessá-lo...

 

Mais sobre a obra de Edward W. Saïd no artigo de Alexandre Vidal Porto, publicado no jornal Folha de S.Paulo:

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http://www1.folha.uol.com.br/colunas/alexandrevidalporto/1205227-a-questao-palestina-de-edward-said.shtml

 

 

1  Edward W. Saïd nasceu em Jerusalém (Palestina) em 1935 e faleceu em New York (Estados Unidos) em 2003. Foi professor de inglês e de literatura comparada na Universidade de Columbia (Estados Unidos). Autor de vinte e tantos livros, dos quais destacamos entre aqueles relacionados com cultura e política árabes: Beginnings: Intention and Method, Orientalism, The Question of Palestine, Covering Islam, Blaming the Victims, Culture and Imperialism, The Politics of Dispossession, Peace and Its Discontents, The Pen and the Sword, Entre Guerre et Paix, Out of Place: A Memoir, The End of the Peace Process, Reflections on Exile and other Essays, publicados em 36 línguas. Em português foram publicados os seguintes livros: Cultura e Resistência, Orientalismo, Paralelos e Paradoxos (com Daniel Baremboim), Fora do Lugar, Reflexões sobre o Exílio: e outros Ensaios, Representações do Intelectual, Humanismo e Crítica Democrática, Orientalismo: Representações Ocidentais do Oriente, Freud e os não-Europeus, Cultura e Imperialismo, Cultura e Política, Elaborações Musicais, Estilo Tardio,m A Questão da Palestina. Saïd é patrono do Instituto da Cultura Árabe ICARABE.

2 Al-Jahiz (781-868 ou 869) cujo nome real é Abu Uthman Amr ibn Bahr al-Kinani al-Basri foi um escritor árabe e autor de obras importantes da Literatura Árabe, de teologia, de política religiosa e de biologia. Em matéria de biologia introduziu o conceito de cadeias de alimentos e propôs um esquema de evolucionismo animal, determinação ambiental e alertou para a possibilidade de herança de características adquiridas. Seus mais importantes livros são:  Kitab al-Hayawan (Livro dos Animais), Kitab al-Bukhala (livro dos Miseráveis), Kitab al-Bayan wa al-Tabyin (Livro da Eloquência e da Demonstração), Risalat mukhafarat al-sudan ala al-bidan (Tratado da diferença entre negros e brancos). Além de seu valor intrínseco, os escritos de al-Jahiz são de elegância e eloquência impares e talvez sejam estes os aspectos que mais impressionaram Saïd.

3  Al-Jurjani, cujo nome completo é Abu Bakr al-Qahir Bin Adb ar-Rahman Bin Muhammad al-Jurjani (1010 aD = 400 aH – 1078 aD = 470 aH) tem sido talvez o maior teórico da língua árabe de todos os tempos, da Literatura e da Gramática, ele vem se distinguindo através do tempo em duas ciências: ilm al-balagh (eloquência e arte retórica) e ilm al-bayan - um ramo da retórica árabe que trata da linguagem metafórica – e este ponto em particular parece ser o que mais impressionou Saïd – que ele desenvolveu em dois de seus livros: Asrar al-Balagh (Segredos da Retórica) e Dalaïl al-Ijaz (Comprovações do Inimitável). Na atualidade, al-Jurjani é considerado como um precursor quando comparado a Ferdinand de Saussure (1857-1913) um linguista e filósofo suíço, cujas elaborações teóricas propiciaram o desenvolvimento da linguística enquanto ciência autônoma, tendo seu pensamento exercido grande influência sobre o campo da teoria da literatura e dos estudos culturais. Aponta-se também similaridade entre al-Jurjani e Avram Noam Chomsky (1928-), linguista, filósofo e ativista político estadunidense, professor de Linguística no Instituto de Tecnologia de Massachussets, tem seu nome associado à gramática generativa transformacional. Os três influenciaram o seu tempoo e os tempos que se seguiram. As obras de al-Jurjani são muitas e nenhuma delas foi traduzida para o português (Brasil ou Portugal). A mais celebre é, sem dúvida alguma, Al Maghna fi Sharh al-Idah em 30 volumes nos quais explica suas teorias linguísticas e outras mais sobre estrutura poética, a inimitabilidade do Alcorão, os cem elementos da linguística, a chave desta, uma interpretação da Fatiha (A Abertura: a primeira surat que abre o Alcorão) em um volume, a base da morfologia, a estrutura das sentenças, um resumo sobre a elucidação da sentença, os segredos da elucidação, comprovação do inimitável e outros ainda.

4  Figura pela qual uma palavra ou uma expressão é desviada de seu sentido próprio. (Nota do Autor). (Exemplo: ele tem uma vontade de ferro, para designar uma vontade forte, como o ferro)

5  Mussalssal é também como são chamadas as novelas da rádio e da televisão.

6  Mashriq: em árabe: nascente, significando ‘leste’ ou onde o sol se levanta.

7  Maghrib: em árabe: poente, significando ‘oeste’ ou onde o sol se põe.

8  Lingua franca é a língua mestiça, próxima do italiano, que serviu durante vários séculos, na bacia do Mediterrâneo, a cristãos de várias origens e às populações muçulmanas.(Nota do Autor).

9  Jaroslav Stetkevych nasceu na Ucrânia, em 25/04/1929 e, após frequentar escolas secundárias, na Ucrânia e na Alemanha, estudou nas Universidades de Madri, Cairo e Harvard. É Professor Emeritus da Universidade de Chicago, onde leciona Literatura Árabe. Os seguintes de seus livros estão disponíveis em inglês: Muhammad and the Golden Bough: Reconstructing Arabian Myth (Muhammad e o Ramo Dourado: Reconstrução do Mito Árabe), The Modern Arabic Literary Language: Lexical and Stylistic Developments (A Linguagem Árabe Literária Moderna e seus Desenvolvimentos), The Zephys of Najd: The Poetics of Nostalgia in the Classical Arabic (Os Zéfiros de Najd: As Poesias de Nostalgia no Árabe Clássico); nenhum de seus livros foi publicado no Brasil.

10  Usama bin Ladin é como é conhecido Usamah bin Muhammad bin Awaïd bin Ladin (1957-2011), oriundo de grupo muitas vezes bilionário saudita com atividades em praticamente todos os ramos empresariais. Muçulmano radical, empreendeu diversas atividades contra a ocupação de países de maioria muçulmana por países não muçulmanos. O caso mais celebre, com repercussões através do tempo e do espaço foi sua luta contra a fracassada tentativa da União Soviética de ocupar o Afeganistão, quando foi transformado em herói pelos Estados Unidos e seus aliados que não lhe negaram todo tipo de ajuda. Virou inimigo número um dos Estados Unidos quando passou a combater a ocupação estadunidense do mesmo Afeganistão e a ocupação da terra sagrada do Islã, principalmente o leste da atual Arábia Saudita, onde é gerada grande parte do petróleo mundial. Sua principal operação foi o ataque às Torres Gêmeas, em 11/09/2001. O amigo transformado em inimigo foi perseguido durante longo tempo pelas forças oficiais e particulares a serviço da Central Intelligence Agency (CIA), entre as quais a Stratfor Intelligence Agency (SAI, conhecido também como CIA in shadow) até ser encontrado em território ilegalmente invadido do Paquistão e morto em 01/05/2011. A Organização que Bin Ladin fundou, a al-Qaïda, no entanto, continua ativa em vários países de maioria islâmica. Refere-se Saïd a Bin Ladin como exemplo daqueles que falaram em seus discursos um Árabe clássico inteligível para todos e ao mesmo tempo de atração notável entre os ouvintes, pela sua eloquência, quer estivesse ou não o ouvinte de acordo com o conteúdo da fala.

11  Burhanuddin Rabbani (1940-2011), político afegão que chegou à presidência do país, é exemplo dado por Saïd para o uso do árabe clássico, inclusive por políticos não árabes, já que a língua nativa de Rabbani era o afegão persa. Ele também falava farsi fluentemente e certamente outras línguas regionais afegãs. Contar a vida e morte de Rabbani comparada à de Bin Ladin é uma falação fastidiosa: foi ajudado pelos Estados Unidos que se viraram contra ele quando procurou solucionar a questão afegã pela negociação com o Talibã o que não convinha à CIA que queria a todo custo instalar o governo de Hamid Karzai, um corrupto que não manda além da cerca do palácio presidencial. Resta a pergunta: quem explodiu o carro de Rabbani?

12  Gulbuddin Hikmatyar (1947-) é fundador e líder do partido político e grupo paramilitar Hezb-e Islami. Teve um compartamento igual aos de bin Ladin e Rabbani, com relação à luta contra a União Soviética, aliança com os Estados Unidos e depois contra a ocupação estadunidense do Afeganistão, convidado, com outros líderes afegãos a visitar os Estados Unidos, Hikmatyar recusou se encontrar com o presidente Ronald W. Reagan (1911-2004) na Casa Branca, preferindo reuniões com grupos afegãos residentes nos Estados Unidos. Também se assemelha a bin Ladin e Rabani no domínio e uso do árabe clássico, entre outras línguas e daí a citação de Saïd.

13  Yassir Arafat, como é conhecido Muhammad Yassir Abdul Rahman Abdul Raüf Arafat al-Qudwa al-Husseini (1929-2004) foi o líder da resistência palestina contra Israel, presidente da Autoridade Palestina, da Organização para a Libertação da Palestina (OLP), líder do partido Fatah e co-detentor do Nobel da Paz, mas retenhamos aqui apenas o fato de dominar pessimamente o árabe clássico e falar sempre em árabe coloquial palestino.

14  Gamal Abdul Nasser (1918-1970) foi figura central da história recente do Mundo Árabe e pode ser considerado o primeiro líder árabe a contestar o domínio das potências dominantes ditas ocidentais e teve papel importante na formação e condução dos países não alinhados terceiro-mundistas durante a Guerra Fria. Nasser costumava inflamar as massas com seus discursos em árabe coloquial egípcio, como bem disse Saïd. Nasser continua sendo personalidade reverenciada tanto no Egito quanto no Mundo Árabe e todos sempre entenderam os seus discursos, inclusive aquilo que vinha neles embutidos.

15  Conhecida como Jamiat al-Azhar al-Sharif (em árabe: Honrada Universidade al-Azhar) foi fundada em 973 pelos Fatimidas como uma escola religiosa, é um instituto educacional localizado no Cairo, considerado o maior centro de Literatura Árabe e Ensino do Islã. É a mais antiga universidade, no Egito, a conceder graduação. A partir de 1961 foram incluídos em seu currículo assuntos não religiosos. É importante sublinhar que al-Azhar, a universidade e sua mesquita, são verdadeiros repertórios da arquitetura islâmica.

16  Muhammad (570-632), profeta do Islã e último dos profetas, filho de pais caravaneiros, foi casado com Khadija (619-?), uma rica viúva comerciante e, após a morte desta, com outras esposas. Ao termo de uma evolução religiosa chegou ao ponto de investido da missão de profeta, com uma renovação espiritual e social, comunicada a ele pela aparição do Anjo Gabriel passou a transmitir-lhe a palavra divina por revelações e passou a pregar a fé num Deus único, o Deus de Adão e de Abraham. É o último dos Profetas monoteístas.

17  Elias Khoury nasceu em 12/07/1948 em Beirute; é um romancista, dramaturgo e crítico libanês. Publicou cerca de dez romances que foram traduzidos para muitas línguas estrangeiras, assim como inúmeras obras literárias. É atualmente redator chefe do jornal Al-Mulhak, o suplemento semanal do diário An-Nahar e é um intelectual de renome internacional. Em 1967, quando a vida intelectual libanesa se polarizou em torno do nacionalismo árabe e da questão libanesa ele partiu visitar um campo de refugiados na Jordânia e decidiu se tornar membro do Fatah, no seio da OLP. Ele deixou a Jordânia em 1970 devido à derrota da Resistência devido ao massacre do Setembro Negro e foi continuar seus estudos em Paris, onde escreveu um memorial da primeira guerra civil libanesa de 1860 e, de volta ao Líbano, participou ativamente da guerra civil que explodiu em 1975, durante a qual foi seriamente ferido. Era a espada que se unia à pena na luta contra os vendilhões da pátria árabe a seus inimigos. Foi aí que uniu a Adonis, Hisham Sharabi, Mahmoud Darwish e tantos outros no comitê editorial do jornal Mawakif e depois também na redação dos jornais: Shuün Filastin, Al-Karmel, Al-Safir e do já mencionado suplemento do An-Nahar. Ensinou na Columbia University de New York,  American University de Beirute, Université Libanaise de Beirute e New York University. Sua obra mais famosa é a Porta do Sol que conta a epopeia dos refugiados palestinos no Líbano, publicado no Brasil em primorosa tradução de Safa Abu Chahla Jubran, transformada em filme exibido entre nós no Festival do Filme Árabe do Icarabe. A menção de Khoury por Saïd é devida ao fato de em alguns momentos de seus romances ele optar pelo árabe coloquial, familiar.

18  Gamal al-Ghitany nasceu em 1945 numa aldeia perdida no alto Egito. É autor egípcio de novelas políticas e históricas, assim como de comentários políticos e culturais. Hoje, quem diria, o menino pobre, encorajado pelo escritor Prêmio Nobel Naguib Mahfouz, “o pai da literatura árabe” como costuma dizer, tem uma obra abundante e é jornalista conhecido por seus ataques virulentos contra as correntes religiosas extremistas. Foi por longo tempo repórter de guerra na fronteira israelense, tornou-se redator chefe da revista literária Akhbar al-Adab. Ativista político foi preso sob o regime de Nasser, antes de ter seus escritos proibidos de serem publicados sob Sadat. Autor de cerca de 24 romances, tem seus livros difundidos por toda a população egípcia pela razão que deve ter influenciado Saïd a mencioná-lo: o povo entende seus livros por seguirem um estilo misto de fohsa e âmi (árabe clássico e coloquial). Ele é tão conhecido que ao aparecer na Praça Tahrir durante os movimentos da Primavera Árabe, um garoto gritou: “Olhem aí o criador de Zaini Barakat” (nome de famoso livro seu e da personagem principal da obra).

19  Adonis é o pseudônimo de Ali Ahmed Saïd Esber, poeta e crítico literário de expressão árabe e francesa, nascido em 01/01/1930, perto de Lataquia na Síria. Seu pseudônimo se refere ao deus fenício Adonis, símbolo da renovação cíclica. Cavou sua bolsa de estudo que o levaria até à formação em filosofia pela Universidade Síria por se fazer ouvir eloquentemente, aos 17 anos, pelo presidente de seu país. Formou-se em 1954 e em 1955 foi preso por meio ano por pertencer ao Partido Nacionalista Sírio e, ao sair, fugiu para o Líbano onde fundou a revista Chiir (Poesia) que em seu manifesto de fundação estabelece como princípio a liberação incondicional da tradição e a internacionalização da poesia árabe. Tornou-se libanês em 1962 e continuou sua luta política e literária quando fundou a revista al-Mawakif (As posições) logo no nascedouro interditada em todo o mundo árabe por ser considerada desestruturante da literatura sem consideração para o que nela havia de renovação. Dedicou-se então à tradução de clássicos franceses para o árabe e inversamente de clássicos franceses para o árabe. Ao termino da guerra civil libanesa fugiu do Líbano e se refugiou na França. É o representante da Liga Árabe junto à UNESCO. Entre suas mais de vinte obras publicadas de poesia, antologia e ensaios, destaca-se La Prière et l’Épée (A Oração e a Espada) que reavalia a tradição poética árabe diante das opressões intelectuais, políticas e religiosas.  Logo no início da crise sanguinária vivida pela Síria, Adonis endereçou uma carta aberta ao presidente Bachar al-Assad, cujo conteúdo, em minha opinião, se tivesse sido seguida pelos dois lados o povo sírio já estaria hoje sendo beneficiado pelos resultados das reformas. Fiel a sua luta política, ele decepcionou a oposição ao declarar ser “contra um movimento que emana das mesquitas”. Adonis esteve entre nós participando da 10ª Festa Literária Internacional de Paraty, quando foi lançado o livro ADONIS [poemas] contendo poemas cuja seleção e tradução, ambas esmeradas, de Michel Sleiman (a quem se deve também a iniciativa de trazer Adonis para uma visita ao Brasil), e apresentação, que honraria a qualquer apresentado, de Milton Hatoum.

 

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