Independentes mas ainda não livres - parte 2

qua, 12/09/2012 - 10:04
A luta argelina contra a ocupação francesa continuou entre 1850 e 1870, já trazendo em seu bojo uma oposição violenta contra a “francesização” da Argélia e, quando irromperam as insurreições de Aurés e Kabilia, os franceses a reprimiram com derramamento de sangue com toda a crueldade que os franceses nunca deixaram de usar na Argélia e alhures. A crueldade francesa seria demonstrada com a fome causada pelas barreiras francesas entre 1866 e 1868 estabelecidas pelos franceses com a desculpa de preservação da segurança! A esta altura, lá no Mashriq, a França já arrebanhava os seus aliados, os imperialistas de então, em nome do cristianismo, para ocupar a Síria, com a desculpa de proteger os cristãos libaneses.

Quando nos referimos a argelinos entendemos serem aqueles que habitavam o país, antes mesmo da chegada dos franceses, descendentes de berberes e árabes, majoritariamente muçulmanos, coabitando com uma pequena minoria de judeus. Porém, para a França, como mais uma forma de demonstrar o seu domínio sobre as pessoas e os territórios, adotaram a denominação de “argelinos” para os franceses que ocuparam as terras argelinas. 

Como lá existiam judeus, os colonizadores resolveram o problema, com dois decretos. O de outubro de 1870 deu aos judeus a nacionalidade francesa. Aqueles que consideramos argelinos passaram a ser, para os franceses, mesmo em documentos oficiais, como os “muçulmanos”. Os descendentes dos colonos franceses que vieram num primeiro grupo, e se estabeleceram em terra alheia, não tinham nacionalidade alguma e um segundo decreto de junho de 1889 confirmou-lhes a nacionalidade francesa. 

Os donos da terra, aqueles que entendemos serem os argelinos, passaram a serem chamados tout court de “muçulmanos”. A intenção da França era fazer com que o nome da região, da Argélia, e de seus habitantes, fossem apagados das memórias e tudo passasse a fazer parte intrínseca da França. Esta prática serviria de orientação e exemplo para os sionistas que já então começaram a ocupar as terras palestinas, criaram depois uma nação, expulsaram e mataram palestinos e continuam tentando fazer esquecer que entre o primeiro e o vigésimo século a Palestina não era “uma terra sem povo” para acolher “um povo sem terra”. A Argélia francesa não existe mais, mas a Palestina está lutando para nascer.

Faltava oficializar a conquista das terras férteis, principalmente as litorâneas, e não se fizeram de rogados, uniram a caneta à baioneta e, em 1881, confiscaram glebas de terra, uma delas com 500.000 hectares, para doá-las aos colonos franceses. Era a integração do território à França pelo que chamaram de Sistema de Reatamento, como se a Argélia um dia tivesse pertencido à França. Neste mesmo ano os franceses, foram além e criaram o Código do Indigenato, instaurando um regime jurídico especial para os “muçulmanos”. Ninguém tem mais capacidade e inteligência que os colonizadores para inventar regras e dar nomes a seus abusos; como são os exemplos acima citados: “Code de l’Indigénat” e “Système des rattachements”.

Nunca é tarde para reagir e o tratamento dado pelos franceses ao povo e às lideranças locais não se fez esperar. O xeque Mohamed El- Mokrani (1815–1871) (Mohand Amokrane, segundo a grafia imposta pela Autoridade Militar francesa, como aconteceria com milhares de sobrenomes argelinos) levantou a Kabilia (a região montanhosa da Argélia) num protesto contra as suas e a submissão dos seus a uma autoridade civil francesa que o rebaixou de cargo e plantou em território de propriedade de sua gente um assentamento de colonos franceses. A máquina repressiva colonial continuou a castigar os agricultores desta e de outras regiões argelinas para tomar-lhes suas terras ancestrais ricas usando todos os meios ilegais a seu alcance. Os levantes se alastraram por todas as regiões argelinas e, na prática, iriam marcar a história da Nação argelina e anunciar as premissas de uma grande revolução e a marcha rumo à independência.

Maltratados e humilhados pela França colonizadora, os argelinos eram úteis para outras aventuras francesas, eles foram convocados para o serviço militar em 1912, já em preparação para a I Guerra Mundial, de 1914-1918. Dos 173.000 soldados chamados para a guerra, do território argelino, 25.000 argelinos “muçulmanos” (para os franceses) morreram em campos de batalha e 22.000 argelinos “europeus” também ficariam enterrados na Europa.

Neste meio tempo, em 1916, a rebelião berbere-árabe passaria a contar com o levante de Constantina. Todos os argelinos estavam na luta contra a colonização.

Outras formas de aglomeração para a luta surgiriam nesta época. Em junho de 1926, foi criado, em Paris, pelo político nacionalista argelino e ativista trabalhista na França, Ahmed Messali Hadj (1898-1974), a Estrela Norte Africana (ENA), um movimento dedicado a movimentos em prol da independência da Argélia. Esta aglomeração arregimentaria os argelinos, principalmente os operários que trabalhavam nas indústrias francesas e é de admirar que somente em 1929 tenha sido interditada pelo governo francês. Messali voltaria a constituir o ENA em 1937 e o governo francês da Frente Popular o interditou. A França assistiria à iniciação político de outro argelino que iria, tal Messali, se fazer ouvir pelos anos seguintes: Ferhat Abbas (1889-1985), fundador em 1927 da Associação dos Estudantes Muçulmanos Norte Africanos (AEMNA) que duraria apenas dois anos antes de ser interditada pelo governo francês, mas seu presidente continuou a luta até a morte.

Uma tentativa um tanto ingênua, elaborada pela esquerda francesa e alguns “muçulmanos”, o projeto Blum-Viollette, daria a uma elite argelina, cerca de 21.000 pessoas, a cidadania francesa plena. A Autoridade francesa na Argélia e os colonos franceses de lá, que já ensaiavam uma aventura “independentista” com relação à França, fizeram fracassar a iniciativa. É, como se vê, a movimentação de todos os lados, cada um tentando fazer valer o seu objetivo: o governo francês passaria a sofrer não somente com as iniciativas dos verdadeiros argelinos, mas também dos colonos que já ensaiavam uma separação da França e a construção de uma Argélia própria, sem a França e sem os “muçulmanos”. 

De seu lado, Messali criou em março de 1937 o Partido do Povo Argelino (PPA), desta vez em Argel e não mais em Paris. A França dissolveria também o PPA dois anos depois e prenderia os seus principais líderes.

Ocupada pela Alemanha, logo no início da II Guerra Mundial, foi formado o Regime de Vichy e este, obedecendo às ordens de Berlim, aboliu o tal decreto Crémieux, que dera a nacionalidade francesa aos judeus argelinos.

A guerra mundial traria suas consequências à Argélia, mas os movimentos nacionais argelinos continuariam sua luta. Em 1942 os Aliados desembarcaram em Argel, vencendo os franceses do regime de Vichy. Logo no ano seguinte, em 1943, Ferhat Abbas apresentou o Manifesto do Povo Argelino que reivindicava a igualdade total entre os “muçulmanos” e os “europeus” da Argélia. O Comitê Francês de Liberação Nacional (CFLN), formado em Argel, o recusou totalmente em junho, mas o general Charles de Gaulle (1890-1970), em dezembro anunciou, em discurso pronunciado em Constantina uma série de reformas concernentes aos direitos cívicos dos argelinos. Em março do ano seguinte de 1944 de Gaulle assinou uma ordenação que suprimia o tal Código de Indigenato e concedia a cidadania francesa a 65.000 argelinos. 

Concessões à parte, a Guerra da Independência da Argélia começaria efetivamente logo a seguir, em 1945.

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