A Sagração do Futebol - a dança do futebol e da política para os países árabes

qui, 14/06/2018 - 11:40

 

Por Arturo Hartmann

Hoje dá-se início àquele ritual quadrianual enlouquecedor que atrai olhares dos amantes do esporte ou então dessa coisa que veio a chamar-se nacionalismo, ou de ambos, chamado Copa do Mundo. Essa dança que veremos em campos russos carrega nas cores de suas camisas o que os jogadores trazem de “casa”. É quando jogadores consagrados em campo, como o egípcio Mohamad Salah, realiza o seu reencontro com o seu volk.

Claro, o palco não se isola de sua plateia. O futebol é um instrumento fascinante que participa de conjunturas políticas, em crise, caóticas, em ruínas. O golpe no Brasil se deu com pessoas nas ruas, uniformizadas como o escrete canarinho. Gol contra lamentável.

As seleções dos países árabes que vão entrar em campo a partir desta quinta não são diferentes.

Um dos polos de atenção será o egípcio Mohammad Salah. De volta à Copa depois de 28 anos, o Egito ele como seu principal astro, um jogador que fez tal campanha pelo Liverpool que fez os ingleses da cidade desejarem ser muçulmanos. Dois meses atrás ele se envolveu em uma polêmica com a Federação Egípcia de Futebol, devido ao uso indevido de sua imagem na pintura do avião da Seleção. O ministro dos Esportes do país, Khaled Abd Elaziz,defendeu a atitude da federação, já que Salah era um heroi e representava todos os egípcios. 

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Mohamed Salah

 

Talvez Salah, um jogador high-profile nunca admita - sabemos como o futebol deseja o silêncio de seus jogadores -, mas ele não deve se imaginar exatamente como um igual do seu presidente Abdel Fatah al-Sisi. Só lembrarmos de uma seleção que não estará em campo, mas que nos deixou estupefatos pelo quão perto chegou de ir à Rússia. Como não lembrar da quase classificação da Síria na repescagem da eliminatória asiática, contra a Austrália. Aqueles jogadores semi-profissionais, que não podiam disputar partidas em casa, chegaram a um passo da Copa. Mas o dilema para os sírios que enlouqueciam com a possibilidade de ver a seleção na Copa era exaltar o último sinal de coesão de um país sem normalizar as atrocidades de seu ditador. A seleção síria estava em disputa entre seu povo e seu governante. Assim como o país.

Ainda naquela faixa do campo estão os palestinos. Estes ainda estão longe de ir a uma Copa. Não tem Estado (ocupados ilegalmente por Israel) e não tem governo (apenas um arremedo institucional chamado Autoridade Nacional Palestina). Mas os jovens que poderiam estar jogando futebol estão ocupados, em Gaza, nas manifestações da marcha pelo seu retorno. A última invenção para enfrentar os israelenses são as pipas, que estão aterrorizando os moradores do outro lado da fronteira colonial. Isso não teria nada a ver com futebol, é claro, não fosse a ambição do governo de Israel de se utilizar, veja você, dos craques de um outro país para normalizar as suas próprias atrocidades. Na tentativa de sediar um amistoso da Argentina de Messi contra Israel na Jerusalém ocupada, Benjamin Netanyahu e sua ministra do Esporte, Miri Regev, colocou a ilegal anexação de Jerusalém no caminho da Copa.  

Neste primeiro dia de Copa, teremos a peleja mais do que duvidosa entre Rússia e Arábia Saudita. Escrevo estas antes do jogo, portanto não tenho como saber com os sauditas se saíram na estreia. Mas o que posso arriscar dizer - com a chance de ser traído por essa caxinha de surpresas chamada futebol - se veremos em campo os primeiros sinais de uma Arábia Saudita “moderna”, levada adiante por seu déspota esclarecido, Muhammad Bin Salman. O futebol vira política de Estado, com o incentivo de investimentos no futebol local. Muito do futebol brasileiro este ano vai se desfazer em direção à Península Arábica.

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Cena do documentário Sobre Futebol e Barreiras

 

A ironia deste jogo de estreia, irrelevante para o torneio, é que, se esses jogadores russos e sauditas fossem militares, espiões, vendedores de armas, muitos deles já teriam se encontrado nos campos de batalhas da Síria. Ah, esse futebol.

Como um adendo final, também a política que impede jogadores de entrar em campo. Os EUA não estarão nessa Copa, bom, pelo menos não em campo. Isso porque a seleção iraniana pode ter problemas para pisar em gramados russos porque a sua fornecedora de chuteiras, a estadunidense Nike, informou que não fornecerá o material. Tudo isso faz parte do jogo de Donald Trump, ao cancelar o acordo nuclear que o seu antecessor, Barack Obama, havia assinado. As sanções, que sempre existiram, estavam relaxadas por um processo de contatos que, agora, foi abruptamente cortado. Claro, nem a mais poderosa chuteira do mundo ajudaria os iranianos em um grupo com Espanha e Portugal, mas com sanções que conhecemos bem no caso do Iraque de outrora, agora vão ter que buscar o que calçar.

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Arturo Hartmann, jornalista, é doutorando no Programa de Relações Internacionais San Tiago Dantas, onde pesquisa os impactos do processo de paz mediado pelos EUA sobre a Palestina. Cobriu como repórter e redator, para portais como ICArabe e OperaMundi, a região do Oriente Médio. Em 2010, foi co-diretor, co-roteirista e pesquisador do documentário "Sobre Futebol e Barreiras - um olhar sobre Palestina/Israel" (2011).

Trailer do documentário: assista aqui 

Fotos: documentário Sobre Futebol e Barreiras