Edward Said na imprensa

seg, 16/07/2007 - 21:00

 

Um artigo e um abaixo-assinado provocam debate no Brasil sobre o papel público do intelectual

O início

Assim começa o debate: o artigo ‘Edward Said (1935-2003)’, do crítico e poeta Nelson Ascher, é publicado em 29 de setembro no jornal Folha de S.Paulo. Fazia menos de uma semana que Said havia morrido, em Nova York.

EdwardAscher argumenta que Said – por seu engajamento – introduziu no meio acadêmico um parâmetro falho de análise sobre sociedade e cultura: o de avaliar pessoas e trabalhos não por suas aptidões, mas por inclinações políticas. Desse modo, a influência intelectual de Said seria avassaladora e perniciosa. No começo de sua crítica, ele escreve: “Said deve sua reputação a ter se tornado o mais articulado defensor

da ‘causa palestina’, algo que nada tinha de difícil se considerarmos que seus competidores nessa área, quando não estão ocupados explodindo ônibus escolares ou pizzarias, satisfazem-se divulgando falsificações anti-semitas. Ainda assim, sua dança acadêmica dos sete véus, sobrepondo camadas de jargão marxista, antiimperialista e pós-colonial, jamais ocultou que seus objetivos eram idênticos.”

Como o debate começa No dia 4 de outubro é manifesta uma breve resposta, no mesmo jornal, que exprime: “O artigo do sr. Nelson Ascher, a pretexto de comentar a morte de Edward Said, é uma ofensa a todos os que alimentam, como fez o intelectual palestino durante toda a sua vida, a esperança de ver israelenses e palestinos conviverem em paz, com justiça. O escrito é uma baixeza deliberada e covarde, que merece repúdio, e não resposta.”

Ela é assinada por Antonio Candido, José e Guita Mindlin, Francisco de Oliveira, Arnaldo Antunes, Celso Furtado, Roberto Schwarz, Marilena Chaui, Emir Sader, Raduan Nassar, Ruy Fausto, Milton Hatoum, Paulo Arantes, Davi Arrigucci Jr., Fábio Konder Comparato, Fernando Novais, João Manuel Cardoso de Mello, Anna Mariani, Monique Gardemberg, Jacob Gorender, Renina Katz, Liana Aureliano, Ricardo Antunes, Luiz Gonzaga Belluzzo, Paulo Sergio Pinheiro, Carlos Nelson Coutinho, Maria Victoria Benevides, Flávio Aguiar, Ana Luisa Escorel, Francisco Foot Hardman, Maria Rita Kehl e mais 156 assinaturas.

O manifesto, com 187 nomes, foi organizado por um coletivo de pessoas, entre elas, Daniela Moreau, Ivana Jinkings, Liana Aureliano e Milton Hatoum, que combinou diferentes altercações até a publicação do texto final.

Argumentações morais e intelectuais Para Ascher, como disse à CULT, a publicação do texto foi propícia para expor determinadas idéias sobre Said. O que ele tinha a dizer julgou que “poderia fazê-lo naquele espaço preciso, naquelas circunstâncias e manifestando exatamente

aqueles pontos de vista”. Entre eles, o de que Orientalismo, o livro mais conhecido de Said, “é uma diatribe confusa, desinformada e raivosa que se resume na aplicação a um caso particular da tese genérica de acordo com a qual intelectuais são, em sua maioria, lacaios da classe dominante”.

Ascher termina sua discussão afirmando que “as verdadeiras vítimas de suas idéias (de Said) foram antes seus conterrâneos (palestinos), que ele ajudou a conduzir rumo a novos desastres”. Reside aí um pouco mais do que desacordo. O debate se encontra deslocado do campo intelectual, estimulando assim a polêmica. “Não julgo ter autoridade para falar sobre a obra de Said, embora tenha lido uma quantidade razoável de seus artigos, mas Ascher foi ofensivo. Disse para os meus amigos que infelizmente agora, aos meus 77 anos, não daria para escrever sobre o Ascher no dia seguinte à morte dele”, ironiza Michel Rabinovitch, cientista na área de parasitologia e um dos assinantes do manifesto.

Embora discorde do texto final do manifesto, pois considera algumas passagens como ataque pessoal, o bibliófilo José Mindlin complementa a opinião de Rabinovitch: “Mantenho minha restrição ao conteúdo e à forma do artigo que Ascher publicou. É de se esperar o momento em que a razão supere a paixão, só assim será posto fim à atual escalada de violência que assola a região e vem vitimando tantas pessoas inocentes de ambos os lados.”

A desqualificação da obra e da figura pública de Said é repugnada, também, pelo economista Emir Sader, que afirma ser este “um artigo de infâmias, sem argumentos, revelando que seu autor não possui nenhum estofo intelectual para polemizar”. Sem interesse no debate oral com Ascher, a antropóloga Betty Mindlin conta que participou dessa resposta coletiva como forma de expressão de respeito e admiração pelos escritos de Said. “O drama dos palestinos nos sensibiliza. Ler a sua autobiografia, seus ensaios sobre a questão palestina, Orientalismo ou Cultura e política parece- me um passo para a análise, para reflexões que levem ao entendimento e à paz.”

O que se debate dentro e fora do campo intelectual Em sentido oposto à sua intenção, a de promover a paz pela igualdade como um valor intelectual, os textos de Said – especialmente os relacionados ao Oriente Médio – foram vistos como apelo à violência. Por um lado, como explica Sader, pela influência provocada pelas teses do Orientalismo, “que revolucionaram a forma de pensar o Oriente e o Ocidente, com toda sua conotação eurocentrista e apoiado numa sólida argumentação”.

Partilhando de análise semelhante, Milton Hatoum reitera: “Os ataques infames e covardes contra ele e sua obra datam da publicação do Orientalismo e até hoje não cessaram. O que realmente incomoda os fanáticos de extrema direita é a sua crítica consistente ao sionismo ultraconservador e ao Estado de Israel no que diz respeito à questão do povo palestino.

Said nunca criticou os judeus nem escreveu uma única linha contra esse povo. Ao contrário, ele costumava assinalar que os palestinos eram vítimas das vítimas.” As críticas a Said, como se observa, não se resumem à esfera intelectual – não apenas no caso de Ascher –, mas por causa das posições dele na questão do Oriente Médio, em particular da Palestina. “Reivindicava o direito a um Estado por parte dos palestinos, denunciava o papel do lobby sionista nos EUA, desqualificando esse país como mediador no conflito, fez a denúncia dos acordos de Oslo, assim como a vindícia de um Estado binacional”, examina Sader.

De fato, ele não se prendeu às questões circunscritas ao (seu) universo da literatura. Intelectual comprometido, pensava que se deveria penetrar na consciência israelense com tudo o que estivesse ao alcance. “Falar ou escrever para israelenses quebra o tabu deles em relação a nós. Foi esse medo de ser interpelado pelo que sua memória coletiva suprimiu que desencadeou todo o debate sobre ler literatura palestina. Tabus e proibições não devem reger a vida real”, escreveu ele em Paralelos e paradoxos, com o músico e maestro de origem judaica Daniel Barenboim.

O papel público de escritores e intelectuais O sociólogo Francisco de Oliveira (também assinante do manifesto) acredita que a posição de Said foi como a de Hannah Arendt, “a de ultrapassar o limite do nacionalismo para chegar à compreensão do outro, no caso dele, Israel, e no caso de Arendt, a condição judaica, para entender os árabes e mais além”. Segundo ele, isso é o que faz um intelectual. A colocação de Oliveira põe em debate outra questão que perpassa não apenas a obra de Said, mas o evento cultural ocorrido a partir da crítica de Ascher.

Qual é, então, o papel público dos intelectuais e dos escritores?

Ascher responde: “Eu diria que há de fato dois modelos: um europeu e, em parte, hispano-americano, e outro, anglo-saxão. De acordo com o primeiro, os intelectuais, quer dizer, escritores, poetas, mas também atores, cantores, professores etc. desempenham, de certa forma, um papel privilegiado na sociedade, ou seja, eles são a vanguarda do saber ou algo assim. Talvez isso tenha a ver com analfabetismo, catolicismo, sociedades escravagistas etc. De acordo com o segundo modelo, todo e qualquer cidadão é tão cidadão quanto qualquer outro: o rei não mais que o súdito, o escritor não mais que o analfabeto. Eu entendo quanto seduz os intelectuais a idéia de que eles têm algo diferente, qualitativamente melhor, a dizer, mas, em última instância, minha posição é populista, ou seja, a Sebastiana doméstica e o Mané da flanelinha têm tanto direito a opinar sobre a condição da coisa pública quanto eu, o doutor, o mestre, o prêmio Nobel etc.”

Said compartilhava, em termos, de opinião semelhante à de Ascher. Acreditava que igualdade seria princípio como valor intelectual. E, ao afirmar que as chances de reprodução digital desordenavam a idéia de um público (perante a existência de um público virtual), permitindo assim um menor domínio dos regimes e das censuras, Said incluía em sua análise que o fato de escrever num espaço expandido (a presença da Internet) teria outras conseqüências. O papel do intelectual seria o de elucidar e derrotar tanto o silêncio imposto quanto o silêncio conformado, levando em conta o lugar social do discurso: “Para um intelectual norte- americano, a responsabilidade é bem maior”.

Ascher somente situa que o texto deve se sustentar por sua própria lógica ou coerência interna. “Não são meus diplomas ou livros publicados que me legitimam, mas minha capacidade ou falta de capacidade de falar coisa com coisa e de fornecer insumos para que meus leitores pensem, não concordando ou discordando necessariamente do que digo.” Ascher ao fazer crítica a Said, no entanto, identificou obra e autor, não se detendo apenas na lógica do texto. “Said tornou-se, desde os anos 50, um norte-americano e beneficiou-se tanto dessa condição como da imagem romantizada de exilado para atingir o ápice do mandarinato universitário.” Ascher, por fim, afirma que o mercado livre de idéias decidirá quem tem o que dizer, quais as idéias, interpretações e propostas que fazem sentido – “quanto mais haja, melhor”.

Mas, para Said, a questão, e a postura, estão em outro território. Para ele, “parte daquilo que vemos como sendo atividade do intelectual é não apenas definir a situação, mas também discernir as possibilidades para intervenção ativa”. Um intelectual merece esse título quando está na esfera pública. Debatendo.