Nós e o resultado das eleições em Israel

qui, 24/01/2013 - 10:37
As grandes preocupações na região do Oriente Médio e Norte da África eram: o levante na Síria, o perigoso impasse representado pelo programa nuclear iraniano, a intranquilidade que oferece a sucessão na Casa de Saud e a morte iminente da solução de dois estados na Palestina.

Todos os pontos acima estão intimamente ligados entre eles e têm origem, por mais que se queria esconder o sol com a peneira, na atuação do Estado de Israel. A morte iminente da solução de dois estados, na Palestina, que já vinha no caminho da não realização, pode receber um golpe fatal após as eleições ou então sofrer um resfriamento. O resultado, para o lado árabe, principalmente o palestino entre eles, é praticamente o mesmo.

A maior coligação eleitoral não obteve, nestas eleições de 22 de janeiro de 2013, como sempre acontece com as eleições israelenses, maioria que a habilite a formar um governo independentemente de todos os demais partidos de todas as cores e credos. Que Benyamin Netanyahu saiu com votos suficientes para liderar a formação do futuro governo, não há dúvida. O que se duvida, e nos interessa, é o que representa a formação de novo governo para o processo de paz com os palestinos.

Os votos do centro e centro-esquerda impressionaram e não eram esperados e há a probabilidade de o atual e futuro Primeiro Ministro acabar se inclinando para uma aliança de centro-centro esquerda, inclusive devido às divergências latentes em certos casos e evidentes em outros que existem entre ele e seus próprios aliados nas eleições. As crescentes exigências da extrema direita como um todo e não somente dos partidos religiosos, talvez empurrem Netanyahu para uma coalizão mais a centro.

Na edição do último fim de semana do jornal israelense Haaretz, Netanyahu declarou que os princípios nos quais o novo governo será formado inclui um “olhar sóbrio para o processo político [com os palestinos]”. Se considerarmos o impasse diplomático dos últimos dois anos – sem mencionar os anos a fio desde quando a Liga dos Estados Árabes fez a sua proposta de Paz e não recebeu resposta –, além da movimentação unilateral de expansão dos assentamentos, a contínua atuação do atual regime, mais criminoso que o apartheid da África do Sul e todos os ilícitos comportamentais nos territórios ocupados, as inúmeras infrações das leis e da moral; o que quer dizer Netanyahu quando fala em “olhar sóbrio” a não ser tornar obscuro o processo político que tem em mente?

Quem pode acreditar na sobriedade de quem sempre atuou ao contrário do que está dizendo agora?

Além das eleições, os resultados de pesquisas entre os israelenses têm revelado que a opinião pública israelense clama por um acerto com os palestinos e continua pressionando Netanyahu a deixar de lado os problemas que vem criando, tais como a tensão contra o Irã, e se dedicar mais à situação socioeconômica doméstica.

Se além do partido de ultradireita Israel Beitunu, que aceita a solução de dois Estados, um governo de coalizão incluir o partido de centro-esquerda Hatnua de Tzipi Livni, poderá haver algum tipo de esperança de negociações, para aliviar a pressão interna dos israelenses; mas é a esta situação que nos referimos: como colocar o processo de Paz não num freezer, mas numa geladeira, e deixar que os anos corram, venham outras eleições, mais promessas, mais assentamentos, mais palestinos privados de liberdade, mas intensificando a luta por seus direitos.

É incerto se o maior vitorioso das eleições, Yair Lapid, do partido de centro Yesh Atid, que obteve 19 cadeiras, logo atrás do Likud de Netanyahu, aceitará um eventual convite para participar de um governo de coalizão. Lapid é um carismático centrista que baseou sua campanha em assuntos domésticos e num chamamento para integrar a população ultraortodoxa israelense nas forças armadas e nos postos de trabalho, acabando com grupos de seminaristas vivendo à custa do governo sem dar de volta qualquer contribuição. Se este partido entrar para o governo e tentar cumprir com suas promessa de campanha haverá uma guerra civil em Israel.

Depois, quem acredita em governo de Israel para negociar a Paz e permitir que o Estado Palestino passe de um Estado Observador a um Estado membro pleno das Nações Unidas?

Para nós, só há uma saída: contarmos com nós mesmos na luta contra aqueles que ocupam nossas terras e contra aqueles entre nós que vêm se aproveitando do poder que lhes foi outorgado pelas potências imperiais, que só nos deixarão em paz, se não acordarmos e lutarmos contra eles, quando terminar o petróleo e o gás em nossos subsolos.


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