Um ano e tanto

qui, 20/12/2012 - 12:52
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2012 foi um ano e tanto. Há algumas semanas estive na capital paraibana com alguns colegas da Universidade de São Paulo em visita ao curso de Letras e Tradução da Universidade Federal da Paraíba. Participei de uma mesa-redonda sobre “a aventura da tradução da literatura árabe no século XXI” e de uma banca de doutorado, na qual a tese defendida revelava “a presença dos árabes na literatura brasileira”. Pode ser por homologia, osmose ou outro processo semelhante, mas o fato é que confirmei uma antiga impressão minha, a de que quanto mais chegarmos a Norte do país, mais compartilhadas parecem ser certas características dos ditos povos árabes e o povo brasileiro. Falo da hospitalidade, do acolhimento afetuoso, da alegria do encontro, da prosa, da narração animada de casos, do pensar por analogias, do riso largo, do perder-se no afago. Falo também de outras características, menos tópicas talvez, como a disputa por primazia, por prestígio, por chefia, por reconhecimento e, naturalmente, a disputa por ser o mais generoso hospitaleiro dentre os pares. Enfim, me refiro às qualificações que em geral o estrangeiro faz de nós quando visita as nossas terras e gentes. Pois tudo isso encontrei entre o grupo que nos acolheu durante os poucos e inesquecíveis dias que passei em João Pessoa. Mais a Sul, aqui, a disputa entre a São Paulo do descendente dos antigos bandeirantes e a São Paulo do descendente dos recentes imigrantes – dos 1800 e 1900 – imprime outras variantes no quadro geral das qualificações do brasileiro. Aqui, no imediatamente, é possível que o paulista se perceba menos árabe, quero dizer, menos sírio, libanês ou palestino. Aqui se fala em quibe, esfiha e tabule como iguarias orientais, mas logo essas gostosuras são consumidas como variedades de bolinhos, pizzas de pequeno tamanho e saladas de uma nova – um tanto velha já, na verdade – culinária brasileira. Aqui o traço de brasilidade é posto no foco da diversidade. Primeiro se localiza o produto como algo estranho, estrangeiro, mas na sequência é reabsorvido como elemento da mistura, do que virou comum, porque aclimatado. Em outras palavras, a gororoba síria, libanesa, palestina é uma gororoba do brasileiro que era árabe, mas que já não é mais. Não é mais árabe, porque maturou nesta terra. Aqui em São Paulo, o brasileiro advindo das terras do Norte deixou de ser nortista e passou a paulistano, muito embora e por que não dizer infelizmente, um paulistano em disputa de grau de paulistanidade. Essas coisas, digamos assim, não se encontram no Pará, na Paraíba, ou na Bahia. Lá, essas coisas são o que sempre foram: elementos de dentro da brasilidade. Por isso em João Pessoa, o recém-doutor Valter Luciano Villar pode afirmar sem rodeios algo como “Nós e os Árabes somos uma coisa só”. Imaginem Mário de Andrade dizer uma coisa dessas!! Perguntem ao conto dele intitulado “Os Sírios”. A resposta é afrontosa e no mínimo indelicada. No limite, as opiniões do ilustre modernista sobre os nossos “sírios” revelam nele um grau de preconceito difícil de ser alcançado por qualquer brasileiro que tenha passado pela maravilhosa condição de ser miscigenado e carregar no DNA cultural traços desde o ameríndio até o totalmente indefinível.

2012 foi um ano e tanto. O assim autochamado Adonis, 82 anos, finalmente visitou o Brasil. Sírio por nascimento, libanês por opção, árabe por autodefinição, cidadão do mundo por pertencimento, exilou-se ainda novo em Beirute, onde morou vinte anos e, depois, durante outro tanto de tempo, em Paris. Autor de uma vintena de livros de poesia ao lado de outras obras de crítica literária, de antologias da poesia árabe, de traduções sobretudo do francês, autor de quadros de colagem que aproveitam materiais sem uso e a escrita árabe, Adonis guarda uma particularidade: não obstante a sua familiaridade com o francês, compõe sempre em árabe e, quando lê versos, só os lê nesse idioma. “Minha pátria é essa precisa língua”, ele disse aqui em São Paulo. Pátria de onde parte e aonde chega a sua imaginação. De sua passagem pela capital do Líbano, resultou a edição de duas revistas: a Chiir (poesia), publicada nos anos 1950-1960 e a revista Mawáqif (posições), publicada nos anos 1970. Em Paris atualmente publica a revista Ákhar (outro). No conjunto, seus livros e as revistas que editou em parceria com outros intelectuais construíram o edifício conceitual da modernização das letras árabes e, entenda-se, da cultura árabe como um todo. Seu ideário de modernidade chegou às artes e às demais área do pensamento.Inicialmente é para os árabes que ele primeiro se dirigiu, tendo escolhido a língua materna como veículo e módulo únicos de sua expressão. Mas tão logo descoberto através de algumas traduções de sua obra, viu-se que, desde sempre, o poeta falava ao mundo, às pessoas de todas as línguas. Sua escrita, desde então, tem ganhado atenção cada vez mais generalizada, destacando-se a crítica dirigida aos governantes e pensadores árabes que aproximam a política da religião, e esta daquela, podando a liberdade de pensamento e ação. Seu ideário para a poesia é o mesmo para a vida pública: que a liberdade estará acima de tudo. Tal compreensão desse direito inalienável aos vivos implica a liberdade de o ser construir a sua identidade. O Homem, para Adonis, é o conjunto das escolhas que faz, inclusive daquelas que dizem respeito à sua pertença. Tal pensamento resulta, portanto, em conceito reformador do que quer que se pense ser a identidade de um árabe, ou de uma nacionalidade qualquer, do sentimento de ser, da autopercepção. Ser livre é, com isso, uma ação interminável. É porque busca a liberdade que o poeta não deve parar de escrever.

Foi uma honra para o Instituto da Cultura Árabe trazer Adonis ao Brasil, seja apoiando a realização da 10ª. Festa Literária Internacional de Parati, que teve o poeta entre seus ilustres convidados, seja formulando o convite à sua vinda a São Paulo para lançar a primeira tradução ao português de um livro seu, que tive a felicidade de organizar.

O Instituto da Cultura Árabe concluiu a sua quarta gestão bienal, durante a qual atuei como seu presidente. Em novembro, eu e os demais colegas da diretoria executiva passamos o bastão à nova equipe, eleita pelos sócios do Instituto presentes à Assembleia Geral. Que a nova Diretoria faça o que ainda não fizemos e que nos leve aonde não chegamos. 2012 foi um ano e tanto. 2013 há de ser melhor. Seja livre você também. Seja árabe, e seja brasileiro, seja um membro do ICArabe.


Diálogo entre o Brasil e os países árabes
 
Diversas atividades realizadas pelo ICArabe buscaram estimular o entendimento sobre os cenários político, social e cultural dos Países Árabes. Entre elas, destacamos a Mostra Mundo Árabe de Cinema e os cursos ministrados pelo ICArabe.

Em 2012, a 7ª edição da Mostra Mundo Árabe de Cinema consolidou-se no calendário de São Paulo e estendeu sua programação ao Rio de Janeiro, apresentando 32 produções, entre documentários e ficções, retratando a realidade política, social e cultural dos países árabes, além de obras brasileiras com temáticas relacionadas ao Mundo Árabe contemporâneo. O ICArabe trouxe ao Brasil a curadora Rasha Salti, liderança do movimento de cineastas do Mundo Árabe e curadora da mostra “Mapeando a Subjetividade: cinema experimental árabe dos anos 60 até os dias atuais”, que foi realizada no MoMA, em Nova York, e integrou a Mostra do ICArabe, além de diversos diretores, como o egípcio Ahmad Rashwan. O cinema, com sua vitalidade, nos ajuda a descortinar um passado muitas vezes desconhecido e nos permite refletir, como sujeitos da transformação social, o mundo em que vivemos, como ele nos influencia e como poderão ser os dias futuros. E o ICArabe orgulha-se de aproximar, ano a ano, o cinema árabe do público brasileiro.

Com a realização do curso “Revoluções no Mundo Árabe e Islâmico: Regimes Políticos, Síria e Irã”, o ICArabe buscou estimular uma visão mais crítica do cenário atual do Mundo Árabe, através do estudo dos regimes políticos na região, de forma mais focada e racional. Coordenado por Heloisa Abreu Dib Julien, o curso teve aulas ministradas por Reginaldo Nasser, Christian Karam e Malcon Arriaga, além de uma mesa-redonda com o tema “Revoluções no Mundo Árabe: consequências e perspectivas”, com os professores Mohamed Habib, Reginaldo Nasser, Salem Nasser, José Farhat, Murched Taha e coordenação de Geraldo Godoy.

Para saber mais sobre as atividades do ICArabe em 2012, acesse
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