Dança do ventre e espiritualidade da mulher

sex, 03/03/2017 - 00:29

 

O Portal ICArabe conversou com especialistas sobre a dança que é cada vez mais popular no Brasil.

Há 12 anos, a consultora Silvia Martins, 36, descobriu-se uma nova mulher com a dança árabe ou dança do ventre, como é conhecida.  Fazendo aulas duas vezes por semana, ela conta haver uma Silvia antes e outra após ter começado a dançar. “Mudei em muitos aspectos internos e, com isso, consegui mudar muita coisa externa na minha vida: forma de pensar, de sentir e de comportamento”, conta. “Para mim, a dança do ventre é o resgate da mulher como nutridora, que sabe como se curar, como ter equilíbrio de sentimentos com seu eu físico e seu eu espiritual, com o sagrado e com o respeito a si mesma.”

Cada vez mais popular no Brasil, a dança árabe pode funcionar como um fator para a mudança de vida e até a possibilidade de cura para doenças, devido à sua relação com a espiritualidade da mulher, quando fiel às suas origens, como explicam especialistas e praticantes.

De acordo com a bailarina e coreógrafa de danças árabes, Marcia Dib, mestre em Cultura Árabe pela FFLCH-USP e autora do livro "Música Árabe: expressividade e sutileza", a dança do ventre está hoje ligada mais ao espetáculo e performance, mas possui outro sentido real. “Os orientais não separam os seres humanos e nem o mundo em partes. Tudo é visto como algo inteiro e complexo. Logo, uma dança pode alimentar o lado emocional, mental e espiritual”, defende.

A origem da dança do ventre, há milênios. é pouco conhecida, mas pode ser dividida entre a dança ritualística (sobre a qual há poucas informações) e a caseira, praticada pelas mulheres árabes como um ritual para fertilidade e com o uso de movimentos orgânicos para se conectar com o universo. Os movimentos circulares e em formato de “oito” fazem alusão à fluidez e aos ciclos da vida, por exemplo. Já movimentos mais secos e diretos ajudam a lembrar da força do feminino, por conta da firmeza e da clareza. 

“Sendo uma dança ligada ao feminino, ela ajuda no pré e pós-parto e em casos de problemas de endometriose e cólicas. Melhora também os sintomas da menopausa”, afirma Marcia. O trabalho profundo da musculatura faz bem às articulações, à respiração e à flexibilidade do corpo. “A dança do ventre trabalha o corpo inteiro de maneira orgânica, ou seja, o risco de lesões é muito pequeno, desde que a pessoa seja bem orientada”, afirma a coreógrafa.
Elementos e cura da alma

De acordo com a professora de dança árabe, Sabah Ali, outra forma de observar a espiritualidade da dança do ventre consiste nos elementos principais da natureza: ar (dança com o véu), fogo (uso de candelabros para iluminar os templos e os purificar), terra (uso de cestas em alusão à colheita) e água (uso de jarros em agradecimento ao feminino e ao sagrado). As bailarinas também costumam utilizar o metal e um bastão, que faz alusão ao pastoreio e ao cuidado com o gado.

O resultado desta espiritualidade por trás da dança, já chamada originalmente de “dança do sol” e “dança da espiritualidade”, é a cura da mulher de problemas físicos (miomas, incontinência urinária e problemas ginecológicos) e emocionais, como a depressão e a baixa autoestima. 

Entretanto, muitos não enxergam hoje a dança do ventre deste modo. “Hoje, a dança do ventre moderna se divide”, analisa Sabah. “Você vai ter uma vertente em que são (utilizados) apenas os movimentos do corpo e uma bailarina bonita. A dança que seria a raiz, a antiga, está quase morrendo porque vem sofrendo a influência de outras danças. Você vê hoje a dança do ventre com o balé”, afirma, ressaltando que também admira outras formas de dança.

De acordo com a professora, a vertente mais moderna acredita que existam apenas movimentos do corpo na dança, o que difere de seu sentido original. “Se eu vou dançar mais pensando em espiritualidade, eu vou ter movimentos mais viscerais, mais soltos e menos preocupados com a técnica. Se eu quero uma dança de cura, tenho de voltar para dentro de mim, não para fora. Se eu for pensar na aparência, como o mundo atualmente pede, a bailarina tem de ser uma modelo. A dança é para todos. É uma dança de alma, que faz o outro sentir e até chorar.”

É deste modo que pensa a consultora Silvia Martins. “A dança te reconecta com aquilo que é mais sagrado, com o amor próprio”, afirma, sobre sua mudança após a incursão nesse universo. “Não pense que está fora de padrões, magra ou gordinha demais. Você é seu padrão e nele não há formas definidas”, defende. E recomenda: “O único padrão que deveria ser imposto é o de ser feliz. Para esse, não existem limites.”