“Temos que mostrar conexão entre os opressores”, diz Ilan Pappé, no lançamento do livro “A limpeza étnica da Palestina” em São Paulo

qua, 26/04/2017 - 20:17
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Em passagem por São Paulo para o lançamento de seu livro “A limpeza étnica da Palestina”, o historiador israelense Ilan Pappé participou, nesta terça-feira (25), de encontro com o público na Livraria Martins Fontes da Avenida Paulista. A visita pela primeira vez ao Brasil se deu a convite da Cátedra Edward Said de Estudos da Contemporaneidade da Unifesp (parceria entre a Universidade Federal de São Paulo e o Instituto da Cultura Árabe), a Catedra Edward W. Said de Estudios Palestinos Facultad de Filosofía de la Universidad de Buenos Aires e pela Editora Sundermann, com apoio do Instituto da Cultura Árabe (ICArabe). A atividade na Martins Fontes realizou-se em parceria com a livraria e o grupo Lente Cultural.

Pappé defende que houve limpeza étnica do povo palestino para a criação do Estado de Israel em 15 de maio de 1948 (denominada pelos árabes como nakba, catástrofe), após ter reexaminado documentos relativos ao período. “Os documentos contaram uma história diferente da que aprendi quando era criança, de um país que não estava vazio e de um movimento sionista colonialista. Israel entendia que era impossível criar um estado judeu com a presença dos palestinos naquele território”, afirmou o historiador durante a palestra. “O mundo árabe, os britânicos e a comunidade internacional não fizeram nada. Três anos depois do holocausto, o mundo decidiu fingir que não via nada”, critica.

Pappé relata que casas foram destruídas em cidades palestinas, por exemplo, para que elas se parecessem “menos árabes e mais europeias”. Os palestinos também têm seu direito de ir restringido pelas forças israelenses, o que conforma verdadeiras “prisões a céu aberto”.  Entretanto, a questão palestina ainda encontra dificuldades de ser compreendida no Brasil, de acordo com o historiador. “Temos de encontrar no Brasil a melhor maneira de mostrar a conexão entre os que oprimem os palestinos e os que oprimem os brasileiros”, afirmou.

Esquerda sionista

Questionado, o estudioso comentou sobre a polêmica recente de figuras brasileiras que têm furado o boicote internacional a Israel, como o deputado federal Jean Wyllys (PSOL-RJ), e visitado universidades cúmplices do apartheid a convite da “esquerda sionista”. “Fiquei surpreso ao ouvir falar de esquerda sionista no Brasil, isso não existe mais em Israel”, ironizou. “A gente tem de trazer todo o panorama para impedir que sejam usadas causas como a LGBT para lavar de rosa os crimes de Israel”, disse por meio da expressão pinkwashing.

Esteve presente também à mesa o professor adjunto da Catedra Edward W. Said de Estudios Palestinos de Buenos Aires, Miguel Ibarlucia, que elogiou o trabalho de Pappé: “Ele fala de um projeto de segregação geográfica, a farsa de um processo de paz que nunca termina. Fala do direito dos palestinos, que foram expulsos em 1848, de voltar para os seus lugares. Esse é o tema central. Só assim pode-se superar a nakba e ter uma verdadeira paz.”

Para a diretora de comunicação do ICArabe, Soraya Misleh, foi importante trazer o historiador para o País por conta do reconhecimento de sua voz e denúncia pelo mundo. “Ele tem uma honestidade intelectual para divulgar o que as pesquisas lhe mostraram e propiciar que pessoas possam conhecer a realidade da Palestina, o que aconteceu em 1948 e as consequências até o dia de hoje”, conclui.

A palestra foi seguida de noite de autógrafos na livraria e de recepção e jantar no restaurante palestino Al Janiah, no bairro do Bixiga. Durante sua estada no Brasil, ocorreram ainda atividades na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), universidades estaduais de São Paulo (USP) e Campinas (Unicamp), todas graças a parcerias com diversas organizações. Em seu último dia (27), participa de almoço com a comunidade árabe e palestina oferecido pela Federação das Associações Muçulmanas do Brasil (Fambras).

O livro “A limpeza étnica da Palestina” está disponível para aquisição no site da Editora Sundermann (www.editorasundermann.com.br).

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