Ficção libanesa em cartas retrata situação de refugiados

dom, 18/10/2020 - 20:28

Divulgação

Editado pela Tabla e traduzido para o português por Safa Jubran, ‘Correio Noturno’ conta a história de árabes em situação de refúgio na Europa em formato de correspondências nunca enviadas. A autora Hoda Barakat é libanesa e vive em Paris.

Por Bruna Garcia Fonseca/ANBA

O livro de ficção árabe “Correio Noturno” foi escrito em 2017 por Hoda Barakat e acaba de ganhar uma edição em português. A autora libanesa radicada em Paris há mais de 30 anos é uma das vozes mais potentes da literatura do Oriente Médio. Escrevendo sempre em árabe, em “Correio Noturno” Barakat conta a história de pessoas em situação de refúgio ou deslocamento forçado de sua terra natal em formato de seis cartas jamais enviadas.

A autora não dá nome aos países de origem e destino, mas deixa claro que as personagens são árabes deslocadas em algum lugar da Europa. O livro de 160 páginas foi traduzido do árabe para o português pela renomada tradutora Safa Jubran e editado pela Tabla, editora especializada em títulos árabes e do Oriente Médio com sede no Rio de Janeiro. O livro venceu o prêmio International Prize for Arabic Fiction de 2019 e pode ser comprado no site da editora.

A ANBA voltou a conversar com a diretora editorial da Tabla, Laura di Pietro, para saber mais sobre o título. Segundo ela, a seleção desse livro se deu no ano passado, quando ela esteve em um programa de editores em Sharjah, nos Emirados Árabes Unidos. Hoda Barakat tinha acabado de vencer o prêmio internacional de melhor ficção árabe.

“Ela ganhou e eu fiquei ligada nesse nome, ela tem outros títulos maravilhosos e eu conheci a editora nesse evento em Sharjah, ela me colocou em contato com a Hoda e a partir desse primeiro contato fizemos a primeira compra”, contou Laura, que ainda mencionou o intermédio da Agência para a Literatura Árabe (Raya).

Hoda Barakat concebe sua literatura toda em árabe, contou Laura. “Sua nacionalidade é pela escrita em árabe. Ela mora na França há 35 anos, é bilíngue, mas o árabe é sua língua da literatura”, contou.

Sobre a questão do refúgio, Laura conta que o fato de Hoda não ter nomeado os países de origem e destino dos deslocados mostra que ela quis dar ênfase à situação do deslocamento em si e ao problema da invisibilidade desses refugiados árabes na Europa em geral.

“O que a inspirou foi assistir as pessoas chegando em botes, ela começou a pensar muito sobre isso e por estar morando na Europa, ela vê o lado de quem está recebendo também. Não há solução fácil para essa questão, mas ela escreve de uma forma muito crua, não alivia, ao mesmo tempo que te comove muito. Ela foi na humanidade de cada um, onde a gente pode se conectar, descreve situações limítrofes e dá um panorama dessa realidade. Ela dá voz a pessoas invisíveis e acho ela muito moderna no sentido da coragem de tocar nesse assunto sem medo de críticas”, contou Laura.

A editora afirmou que Hoda tem o poder de fazer o leitor sair da zona de conforto. “A Hoda tem alguma coisa que ela te joga em um lugar que não é muito comum, não é banal. Essas pessoas existem, essa situação existe e é de milhões. É um livro fácil de ler, mas ele tem camadas e a cada leitura vai se revelando mais complexo”, descreveu.

Laura pretende editar outro livro de Hoda Barakat em português em meados do ano que vem. O título provisório em português é “O Arador das Águas”, uma obra de 2015. Segundo ela, Safa Jubran já está trabalhando na tradução.

Até o fim do ano, a Tabla deve ter cinco títulos adultos e dois infantis lançados. A editora também pretende investir cada vez mais em títulos de mulheres árabes. “Nossa vontade é de disponibilizar o máximo que a gente puder dessas culturas. Com um design mais contemporâneo, autores contemporâneos, queremos atrair leitores jovens e os descendentes de árabes que não falam árabe”, disse Laura.

Serviço

Correio Noturno
Hoda Barakat
Tradução de Safa Jubran
Editora Tabla
160 páginas
ISBN 978-65-86824-03-2
R$ 52
editoratabla.com.br