Diretor vê semelhança entre cinema árabe e latino-americano

sab, 19/10/2019 - 13:06
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O tunisiano Lofti Achour está em São Paulo para promover seu primeiro longa-metragem, ‘Esperança em Chamas’, e fazer um debate com o público na Mostra Mundo Árabe de Cinema, em cartaz no Centro Cultural Banco do Brasil.

Por Bruna Garcia/ANBA

“Vejo semelhanças entre as produções cinematográficas árabes e latino-americanas, ambas têm crítica social e uma busca pela liberdade”, disse o diretor tunisiano Lofti Achour (foto), que está em São Paulo para promover e participar de um debate sobre seu primeiro longa-metragem, Esperança em Chamas (85 min, 2017), que está sendo exibido na Mostra Mundo Árabe de Cinema, que vai até 28 de outubro no Centro Cultural Banco do Brasil.

Achour é roteirista e diretor do filme e falou à ANBA sobre seu longa, o curta A Lei do Cordeiro (15 min, 2016), que também será exibido na mostra, e seu futuro projeto, um documentário sobre a violência policial tunisiana durante a ditadura no país.

O filme “Esperança em Chamas” se passa durante a Revolução de Jasmim na Tunísia, em 2011, e dá um salto para três anos depois. “É sobre o encontro destes jovens, um garoto e duas garotas durante uma manifestação popular”, disse Achour. Um policial tenta estuprar o garoto e as jovens intervêm e batem no homem, e acreditam tê-lo matado. Mas três anos depois, os jovens descobrem que o policial está vivo e se reencontram. “Eu cresci com a violência policial em meu país e isso vem permeando meus últimos trabalhos. “‘A Lei do Carneiro’ também trata disso, do abuso de autoridade, da corrupção, mas com humor, com sarcasmo. É uma comédia sobre corrupção na Tunísia, o avô é enganado e os policiais têm prazer em enganá-lo”, explicou.

Segundo Achour, o curta concorreu a um prêmio no Festival de Cannes e foi exibido em seminários para debater a corrupção no país. “Agora não temos mais censura em nosso país e eu trabalho para criar as melhores obras possíveis, me preocupo com a arte, com a estética, e também que tenha um significado; meu interesse nunca foi comercial”, contou.

O cineasta viajou pela Tunísia para exibir seu longa-metragem em locais que não têm salas de cinema. “Foram cinquenta projeções gratuitas do ‘Esperança em Chamas’, saímos com um caminhão, uma tela e um projetor pelo país e alcançamos um público de dez mil pessoas”, destacou. Achour disse que a Tunísia conta com apenas vinte salas de cinema, praticamente todas em Túnis, e que para um país de 12 milhões de habitantes esse é um número muito pequeno.

cinemaAchour (dir.) e Arthur Jafet (esq.), curador da Mostra
Achour (dir.) e Arthur Jafet (esq.), curador da Mostra

Sobre o documentário que está produzindo, Achour disse ter gravados depoimentos de 63 pessoas que falaram à Instância de Justiça de Transição – uma espécie de Comissão da Verdade – que julga crimes como tortura e corrupção que ocorreram durante o regime ditatorial. “Filmei os testemunhos mas não os juízes, para a segurança deles, e está sendo um trabalho difícil, 95% dos acusados não vão aos tribunais, o governo não quer que se saiba o que ocorreu, porque muita gente que está no governo hoje também estava implicado”, declarou.

Apesar disso, Achour afirmou que o presidente eleito, o jurista e professor Kais Saïd, era a melhor opção frente a seu opositor, o magnata Nabil Karoui. “Mesmo sendo velho e conservador, ele foi a melhor opção, ele fez oposição à ditadura, a juventude votou nele, tem muitos jovens com diploma que estão desempregados, cerca de 50% da economia é informal no país, vivemos um momento complicado, mas temos esperança, o velho sistema está em estado terminal, vai demorar, mas vai melhorar”, acredita.

Esta é a segunda vez que o cineasta vem ao Brasil. “Também sou diretor de teatro e fiz uma montagem adaptada da peça Macbeth (Macbeth – Leila and Ben: a Bloody History) para o World Shakespeare Festival em Londres, que ocorreu no ano das Olimpíadas, em 2012, e a Universidade de São Paulo (USP) fez um grande festival de teatro (Bienal Internacional de Teatro da USP) e nos convidou para encenar a peça aqui em 2013”, contou.

Para o diretor, o cinema aproxima as pessoas e encurta as distâncias. “O cinema nos aproxima mesmo, não é demagogia, é como uma janela que permite descobrir coisas que não sabemos sobre lugares distantes, e existe uma identificação sobre questões humanas que acontecem independente da geografia, em países muito diferentes”, disse, dando como exemplo a exibição de seu filme “Pai” (15 min, 2014) no Japão. “Fizemos um debate após o filme e houve uma identificação entre as mulheres japonesas que também viviam aquelas questões de preconceito por ter filhos fora do casamento, eles são muito tradicionalistas lá”, relatou.

O debate com o diretor acontece neste sábado (19) às 17h30, logo após a exibição de seus dois filmes. Confira a programação completa da mostra.