Entrevista especial: Sergio Tufik, presidente do Instituto do Sono

qua, 29/01/2020 - 18:54

Por Jéssica Marques 

O presidente do Instituto do Sono, Sergio Tufik, é um grande apoiador da cultura árabe no Brasil e parceiro do ICArabe. Começou a carreira com um curso técnico, formou-se médico, fez mestrado e doutorado, tornou-se referência mundial em estudos do sono e fundou a AFIP (Associação Fundo de Incentivo à Pesquisa).

A associação engloba o Instituto do Sono, instituições voltadas a pesquisa e ensino, entidades com relevância social e prestadoras de serviço na área da saúde.

“Sergio sempre foi um grande e importante parceiro. Se estamos aqui hoje fazendo as atividades, devemos bastante a ele”, afirma o vice-presidente do ICArabe, Gabriel Sayegh.

“Todo conhecimento grego clássico chegou até nós por meio dos árabes. Isso porque tudo foi passado do grego para o árabe e depois para o latim, para chegar até nós. Se não fossem os árabes, metade da cultura clássica grega não teria chegado até nós. Muitas das coisas, como Medicina, Astronomia, Matemática, não teriam chegado”, diz Sayegh.

Além do apoio ao ICArabe, Tufik já realizou diversos trabalhos em prol da cultura árabe no Brasil. “A cultura árabe é importante para o mundo todo. Os números vieram deles. No Brasil, a influência é grande em diversos aspectos, como no vocabulário e na alimentação”, ressalta o médico.

inst.sono

Nesta entrevista especial ao Portal ICArabe, Sergio Tufik fala, entre outros temas,   sobre sua trajetória e a comunidade árabe no Brasil. Leia a seguir:

Portal ICArabe - Como foi seu caminho até a Medicina?

Sergio Tufik – Fiz um curso técnico em Química Industrial, por sugestão do meu   pai. Ele achou que seria mais seguro para garantir meu sustento. Então, quando   terminei o curso, quis ir para a universidade e resolvi fazer um cursinho para   Engenharia. A maioria da turma que estudou comigo fez Engenharia Química, e     eu dominava as matérias relacionadas à área, como Química, Física e   Matemática.

Porém, minha vida mudou quando meu primo Edson morreu de câncer aos 17   anos. Eu sou filho único, e éramos muito próximos, ele era meu irmão. A morte   dele me chocou muito. Ele teve um osteossarcoma, amputaram a perna dele. Foi   um momento muito difícil, eu não acreditava no que estava acontecendo, fiquei   inconformado. E foi por causa dele que resolvi fazer Medicina.

Portal ICArabe - E como surgiu o interesse pelo estudo do sono?

Sergio Tufik – Estava no quarto ano da Faculdade, na Santa Casa de São Paulo, quando decidi que ia estudar psiconeurocibernética. Eu imaginava um mundo com computadores, e o que é o computador, a não ser a extensão do nosso cérebro? Naquela época, me animei com a ideia, mas todo mundo ria de mim. Afinal, não era algo que fazia parte da nossa realidade, nem era uma especialidade médica. De qualquer forma, comecei a me preparar, eu queria entender a mente. Cursei o sexto ano na USP de Ribeirão Preto porque lá havia uma excelente equipe de Neurologia. Lá também fiz o mestrado em Fisiologia. Voltei para São Paulo para o doutorado na Escola Paulista de Medicina, com o Dr. Elisaldo Carlini. Nós íamos descobrir os receptores do Δ9-THC, que é o extrato alucinógeno da maconha. Porém, após todo o preparo, a reação dos animais foi oposta à esperada. Ou seja, o experimento deu errado e minha tese foi por água abaixo. No entanto, como eu já estava trabalhando com privação de sono, me interessei em seguir esse caminho. E defendi minha tese em sono. Naquela época, não havia nada sobre o assunto. Em 1978, publiquei meu trabalho e, em 1979, foi divulgada a primeira Classificação Internacional dos Distúrbios de Sono. Fui pioneiro da área e hoje temos a maior produção científica do mundo em sono.

Portal ICArabe - Como o interesse por sono evoluiu para a criação do Instituto?

Sergio Tufik – Eu tenho um forte lado empreendedor. Ao me encantar com o sono, quis construir um Instituto, que é o maior do mundo. Aqui, podemos fazer pesquisas inéditas. Contamos com um dos maiores e mais diversificados grupos de pesquisadores e com professores responsáveis por capacitar profissionais em todo o país. O Instituto é responsável pelo EPISONO, um projeto de pesquisa realizado a cada década para verificar a qualidade do sono de uma amostra representativa da população da cidade de São Paulo. Esse projeto foi o responsável, por exemplo, por uma grande mudança na forma de entender a apneia obstrutiva do sono. Até a publicação desse nosso artigo, em 2010, acreditava-se que o distúrbio afetava de 2% a 4% da população, mas nós mostramos que 32,9% da população tem apneia do sono, ou seja, um terço da população. Nossa contribuição com a Ciência do sono tem sido muito relevante.

Portal ICArabe – O Instituto do Sono faz parte da AFIP. Como e por que   surgiu a ideia de criar a instituição?

Sergio Tufik – Eu tinha esse desejo de mudar o mundo, de fazer a   diferença. Sempre me interessei por política. No entanto, com o tempo,   entendi que minha forma de fazer política é contribuindo para democratizar o   acesso à saúde de qualidade, para mudar a realidade da população no meu   âmbito de atuação.

Por isso, fundei a AFIP na década de 70, tanto para financiar pesquisas   científicas como para oferecer uma contrapartida à sociedade. A AFIP é uma   instituição filantrópica. Não temos como finalidade a obtenção de lucro, mas   sim de superavit, que é revertido em pesquisa e assistência à população em   complementaridade ao Estado. Hoje, somos o maior laboratório de análises   clínicas da rede ambulatorial do SUS, responsáveis por 6,4% da produção   no Brasil e 22% da produção no Estado de São Paulo. Somos acreditados   com Excelência pela Organização Nacional de Acreditação (ONA). Ou seja,   todos os nossos processos são da mais alta qualidade, o que se reflete no   serviço que oferecemos à população. No Estado de São Paulo, realizamos   exames imunogenéticos para identificação de doador e de receptor de órgãos, além de sermos responsáveis pela quase totalidade da atenção domiciliar nos casos de distrofias musculares e Esclerose Lateral Amiotrófica.

Esse grande impacto que exercemos na sociedade foi demonstrado em um estudo que realizamos em 2018 e que mostra que a AFIP retorna em serviços de saúde ao país 11,51 vezes mais do que recebe de imunidade tributária. É um trabalho muito bonito. Sou muito feliz com a Associação. É gratificante poder contribuir socialmente com a população. Sinto que estou fazendo a minha parte.

Portal ICArabe - Como começou a apoiar a causa árabe e de que forma esse apoio está sendo feito atualmente?

Sergio Tufik - Eu sempre fui curioso a respeito da minha origem libanesa. Como eu tinha uma produtora de vídeo, resolvi fazer um programa árabe na TV, fiquei cinco anos no ar na TV Gazeta. Nessa época, visitei todos os países árabes, em busca de material para divulgar no programa e comecei a estudar o idioma, que não aprendi na infância. Em todos os programas eu incluía provérbios árabes. Nós tínhamos também o Centro Cultural Árabe-Brasileiro, onde dávamos aula de árabe, de dança, entre outros. Militei muito tempo e dediquei um pouco da minha vida para conhecer e prestigiar minhas origens. Nós temos mais libaneses no Brasil do que no Líbano. Acho muito importante divulgar a cultura árabe.

Portal ICArabe - Para o senhor, como a comunidade árabe é vista no país atualmente e como é possível desconstruir preconceitos?

Sergio Tufik – A imagem que se tem é um pouco distorcida. Hoje, ao se falar em árabe, já se pensa em terrorismo, porque existe uma minoria que age dessa forma e que acaba contaminando a coletividade. É um problema grave. Temos que divulgar nossa cultura por meio de filmes, trazendo os provérbios, mostrando como foi criada a língua, enfim, acho que temos muito a contribuir.

Somos uma diversidade grande, e o problema hoje é o choque religioso. Precisamos ter tolerância, não é possível ter um mundo sem tolerância. Então, radicalismos religiosos e políticos são um horror, porque é preciso aceitar os diferentes e tem gente que acha que tem que extinguir os diferentes, e esse é o grande problema.

Temos que lutar para mostrar a nossa cultura. A comunidade árabe no Brasil, entre libaneses, sírios, entre outros, representa 30% dos políticos. A participação é muito grande de uma comunidade pequena, que é 8% da população. A cultura econômica também é muito forte. Meu avô me ensinou a guardar metade de tudo o que eu ganhava. Dessa forma, é possível construir um patrimônio, investir, empreender.

Sobre a AFIP

A AFIP é uma instituição privada, sem fins lucrativos e filantrópica, fundada na década de 1970 por profissionais da área da saúde, professores universitários e pesquisadores, com o objetivo de fornecer suporte financeiro para atividades de docência, pesquisa científica e atendimento médico à comunidade, com ênfase no serviço público de saúde. Além da sede, a AFIP mantém mais de 50 endereços em 8 estados brasileiros, para o cumprimento de suas finalidades estatutárias e sociais.

Com o apoio financeiro da AFIP, mais de 1.200 trabalhos científicos foram realizados e publicados em revistas indexadas, além de congressos, simpósios, cursos, entre outros. A instituição tem reconhecimento de Utilidade Pública Municipal (dec. 17338/81) e Estadual (Lei 2384/80) e o Certificado de Entidade Beneficente de Assistência Social (resolução no. 7 do CNAS, de 3 de fevereiro de 2009).

Para as ações de pesquisa e ensino a AFIP, por meio de seus núcleos, pode pontualmente estabelecer parcerias específicas, tanto com órgãos financiadores de pesquisa, como com universidades.

Em seus mais de 40 anos de atividade, a AFIP consolidou seu modelo de negócio: a pesquisa e sua aplicação direta na sociedade. Mantém equilíbrio financeiro com constante atualização tecnológica, humanização do atendimento e ampliação da base de serviços próprios e de apoio.