Mursi: presidiu a nova república do Egito por apenas um ano

sex, 05/07/2013 - 09:45
Após a chamada “PRIMAVERA ÁRABE” e com apenas um ano no governo, cai o primeiro presidente da nova república. O povo egípcio, nas últimas três semanas, preparou-se para manifestações em todas as cidades do País, por ocasião de um ano de democracia republicana. No entanto, o objetivo não era comemorativo, e sim, destituir o presidente Mohamed Mursi do poder. Em 03 de julho, a pedido do povo que não abandonou as praças daquele país, as forças armadas, articuladas com as demais forças políticas, partidos, movimentos sociais, e instituições religiosas, muçulmanas e cristãs, Mursi foi destituído do cargo.

Quem não acompanhou de perto os acontecimentos no Egito, pode estar perplexo, de ver um povo que estava com bastante sede de democracia, não esperar o seu primeiro presidente eleito concluir o mandato, tolerando a sua permanência por apenas 368 dias no poder. Não é possível apresentar uma análise completa sobre esta situação no espaço deste artigo. No entanto, as principais ponderações poderão ser feitas.

O povo egípcio, embora tradicionalmente paciente, perde em 12 meses totalmente a esperança de ver o país erguer-se, sob o comando de Mursi e de sua equipe de ministros. O Egito, que sempre foi estado laico, elegeu e recebeu, com certo desconforto, um presidente ligado ao movimento da irmandade muçulmana. Por sua vez, o presidente não economizou energia para cometer vários erros, politicamente fatais. O primeiro acontecimento, que chocou o País, foi o assassinato de 16 policiais egípcios na cidade de Rafah, na divisa com Israel, através de um grupo armado não identificado, no 36º dia do governo Mursi. Quem poderia fazer isso? E por quê?  Seriam militantes ligados ao grupo Hamas, da faixa de Gaza? Seriam israelenses? Seriam terroristas contratados pelo regime que havia sido deposto?

Uma semana após este triste acontecimento, Mursi, por decreto presidencial, revoga todos os poderes que eram conferidos ao Conselho Superior das Forças Armadas e destitui o Marechal Hussein Tantawi do cargo de Chefe Maior das forças armadas.  Vale lembrar que foi o Tantawi que governou o país na fase transitória que antecedeu a posse de Mursi, de fevereiro 2011 a junho 2012. Embora o povo, que estava esperando as prometidas políticas sociais tenha apoiado a medida, os militares não gostaram. É importante salientar que, mesmo fora do poder, os militares representam uma força política enorme no país,  dominando  e controlando 40% da economia egípcia. Sem dúvida as medidas tomadas pelo Presidente Mursi representavam riscos, tanto aos interesses dos militares, quanto aos interesses da classe média alta da sociedade egípcia.

No mês de novembro, após seis meses no cargo, também por decretos presidenciais, Mursi conquista novos poderes, para preencher o vazio deixado pelo Conselho Superior das Forças Armadas e, ainda, forma uma comissão para elaborar  uma nova constituição do país, apesar da manifestação contraria das forças politicas e religiosas. No mês seguinte, por plebiscito, de participação fraca, boicotado por várias forças políticas, aprova, por apenas 64%, uma constituição polêmica.

Termina o ano de 2012, e, em seus primeiros meses de governo Mursi não apresentou absolutamente nada de politicas sociais, e o povo sofre ainda mais com a desvalorização da moeda egípcia, inflação, falta de produtos, deficiência no fornecimento de serviços básicos como água, eletricidade e transporte coletivo. Ou seja, nada do prometido em campanha, principalmente o combate à miséria, estava sendo cumprido. Ao mesmo tempo, o poder cada vez mais concentrado nos aliados religiosos do presidente Mursi, vai acentuando ainda mais a sensação de insatisfação.

Os seis meses de 2013 não trouxeram melhoria, ao contrário, pioraram a situação interna do país, através de ondas de violência urbana e conflitos religiosos entre grupos muçulmanos e cristãos, envolvendo cidades como Port-Said e Cairo. Além disso, o Supremo Tribunal da Justiça, delibera sobre atos da presidência, revogando medidas e decisões tomadas pelo presidente Mursi e, deste modo, fortalecendo os movimentos sociais e as forças políticas insatisfeitas.

Em suma, dentro do país, Mursi desagradou a todos, menos ao seu grupo da irmandade muçulmana: militares, classe média alta, movimentos sociais, comunidades abaixo da linha da pobreza que, dependendo do cálculo, oscilam entre 25 a 40% da população, partidos que disputavam as eleições no ano passado contra Mursi e outros. Todos esperavam o dia 30 de junho para destituí-lo do Poder. E, fora do País, a insatisfação não era menor. As monarquias árabes, por exemplo, estavam muito preocupadas com a chegada de movimentos religiosos ao poder, no norte da África, incluindo o Egito, considerado o mais forte da região. O motivo óbvio: riscos de revoluções islâmicas nessas monarquias e sua transformação em repúblicas, anseio este que existe desde os anos 50, a década que libertou vários países árabes das ocupações europeias. Hoje, com o fracasso de Mursi e do seu governo, essas monarquias devem comemorar. Israel também deve se beneficiar da queda de Mursi hoje, pois o presidente pretendia rever os contratos de venda de gás natural a Israel e ajustar os seus preços, além de rever e discutir a questão palestina.

Vejo com certa preocupação os próximos meses no Egito. Como o processo de transição será  desenvolvido sob a custódia dos militares? Qual será a composição do Conselho a governar o País nesta fase transitória? Quem elaborará  a nova constituição para o País? E como o povo apreciará a mesma? Qual será o prazo para as eleições do novo parlamento e do novo presidente? Após regimes de ditadura que governaram o País por mais de 61 anos, doze meses não são suficientes para que o povo saiba lidar com a crise de forma racional e menos emocional.

Recordo-me, finalmente, do poema do grande poeta egípcio, Beiram El-Tunsi (1893 – 1961), quando asilado na França, nos anos 30, que dizia no seu início:

 “Ó jovens, ó egípcios, estou com muita sede, com sede enquanto o rio Nilo, no seu País, encontra-se turvo e cheio de barros”. 

Passaram-se  mais de 80 anos e hoje, em 2013, as águas do Nilo continuam barrentas e turvas.