Uma cultura viva e universal

Qui, 17/12/2009 - 20:15
Ao longo de sua vida e de suas pesquisas, Samuel Sérgio Salinas mais de uma vez se encontrou com as referências ao “Milagre Árabe”, ou seja, ao período em que a civilização e a cultura universal fluíam pelos desertos, cidades da Arábia e pelo Oriente Médio, entre os séculos VII e VIII. Foi com a intenção de ressaltar esse passado glorioso e ampliar o conhecimento sobre esse período histórico tão importante para a humanidade que ele lançou recentemente a obra Islã: esse desconhecido (Editora Anita Garibaldi). Em entrevista para o ICArabe, ele fala sobre o livro e sobre as valiosas informações que suas páginas trazem. 

 

Qual é a sua experiência com a história do Islã?
Sou um leitor atento dessa expressão religiosa e cultural presente na história de muitos povos árabes e não-árabes. A cultura árabe, sua filosofia, seus historiadores, estão sempre entre as minhas leituras. Nem poderia ser de outra forma. Como um estudioso de história, ciência e cultura poderia se desinteressar da expressiva trajetória árabe, do seu período de milagre, o Milagre Árabe? Da sua presença no mundo contemporâneo? 

 

Quais as informações que seu livro traz que você considera mais relevantes e elucidativas sobre o Islã?
Ocorreu no Oriente Médio a transposição e a continuidade do saber universal, criado e transmitido pelos antigos beduínos que revolucionaram as concepções de ciência, arte, desenvolvimento social e religião, adotando um estilo de vida de circunspeção e tolerância. Há uma Arábia Feliz, os Emirados, batida pelas monções, apta para a agricultura e as amenidades de um solo fértil; há a Arábia Pétrea, desértica, oferecendo muito pouco ao homem, que, pelo trabalho incessante, deve obter a sua sobrevivência. Nessa área, onde “moram os deuses, os demônios e os beduínos”, desenvolveram-se os primórdios de uma civilização criativa, que se espraiou pelo mundo conhecido da época, bem menos pela conquista das armas do que pela sabedoria e exemplo. Saber exigido pela natureza áspera, envolto na atividade cotidiana que assegurou a continuidade e a expansão dos homens do deserto. 

 

Poucos sabem que a religião do Islã é tolerante e o fundamentalismo se limita a pequenos grupos radicais e não à maioria, como a mídia ocidental faz parecer hoje.

Sim. O povo do Islã foi conquistador, mas tolerante. A sua religião monoteísta respeita os católicos e judeus. Na Península Ibérica, onde muçulmanos e essas confissões religiosas viveram sete séculos em harmonia, preservavam-se as igrejas católicas; as sinagogas eram parte da urbanidade, secundadas pelas Mesquitas, lugar de prece, de aprendizado da língua. Mais tarde, na Pérsia, os zoroastrianos não foram molestados e ainda professam seu culto religioso. O Islã, numa forma sem precedentes no aspecto religioso, perdura em regiões distantes, onde nunca os guerreiros muçulmanos impuseram as suas leis e a religião, nem sequer estiveram presentes. 

 

O conhecimento dos árabes enriqueceu muito o saber do ocidente?

Tolerância e saber difundiram o islamismo e este, por toda parte, se abeberou do conhecimento acumulado pelos povos do Oriente culto, com milênios de formação, desde a Mesopotâmia até o Egito. A Grécia antiga e suas obras de filosofia e de ciências foram traduzidas para o árabe. Não foram os árabes meros tradutores, pois dialogavam com os grandes expoentes do pensamento grego, desenvolvendo e contribuindo para alimentar essa herança partilhada. A criatividade desses pensadores árabes enriqueceu e enriquece o saber universal. Seus nomes são muitos, um deles:

Averróis, o grande comentador de Aristóteles. A atividade científica, o saber, “deve ser buscado até na China,” na expressão do Profeta. Outra admonição: “A conquista do conhecimento é um dever do crente”, outra, mais expressiva: “Uma hora de aprendizado vale mais que um ano de preces.” Dimitri Gutas afirma que o desenvolvimento da tradição filosófica árabe engendrou a demanda massiva de traduções do grego, do siríaco, pahalavi (persa) e outras línguas. Por sua vez, inúmeros foram os livros escritos em árabe por escritores não-árabes, fossem eles persas, sírios, egípcios, cristãos e judeus. O idioma árabe era a língua da cultura universal, nos séculos da denominada Idade das Trevas do Ocidente. 

 

E quais foram as contribuições dos árabes para a ciência. Por que eles se destacaram nessa área?
Nos campos específicos da ciência, o legado clássico árabe é expressão de criatividade ante as condições de vida. Na Medicina, o cuidado com os doentes abriu os primeiros hospitais. Os farmacêuticos e os médicos, para exercerem a profissão, eram submetidos a testes. O médico não se circunscrevia à especialidade, mas era, simultaneamente, filósofo, metafísico e sábio. A medicina, uma ciência humana. Rhazes e Avicena são os nomes sempre lembrados. s estátuas de ambos podem ser vistas no saguão da Escola de Medicina de Paris. Os livros de Rhazes, editados ainda na infância da imprensa, exerceram, por séculos, grande influência sobre os estudiosos do Ocidente. 

 

E no Direito, quais foram as contribuições?
O direito islâmico adiantou-se muito em relação ao que se passava no Ocidente feudal, onde dominavam a tortura, os ordálios (juízos de Deus) e a pena de confisco. Somente com Cesare Beccaria, no século XVIII, uma reação ocorreria na Europa. O direito islâmico, com fundamento na lei religiosa, era enriquecido pelas escolas de jurisprudência. As mudanças não eram indiferentes a essa cuidadosa elaboração, trabalhadas pelos cultores do Direito, compatibilizando a lei no tempo e nos espaços de sua aplicação. As penas mais severas foram perdendo vigência pelo tratamento judicial e o abrandamento dos costumes reconhecidos. A pena de prisão era intolerável para o homem do deserto, acostumado à liberdade dos grandes espaços. 

 

Qual é a sua relação com a cultura árabe?
É a relação do mestre com o estudioso. Do recém-chegado que busca desentranhar a trajetória, as vicissitudes e as expectativas geradas pelo pensamento e criações de uma cultura viva, presente na formação de todos que não se isolam na perspectiva acanhada e distorcida de muitos ocidentais. 

 

Quais são seu autores prediletos e em quais você se baseou para escrever esse livro?
No mundo árabe, o grande mestre, paradigma para o historiador, é Ibn Khaldum, precursor de estudos históricos e sociológicos, cuja relevância, reconhecida em toda a parte, ainda espera o seu introdutor legítimo na literatura especializada brasileira. Hegel e Marx são os filósofos que leio com frequência. A história é uma ciência do movimento social que desorienta os que imaginam que ela se coagulou. 

 

Você está atualmente desenvolvendo uma pesquisa sobre Irã, certo?
Sim, estou estudando o Irã contemporâneo. Infelizmente não conheço obras brasileiras sobre o tema. O meu interesse, após algumas leituras esparsas, é que o Irã só encontrou a sua independência política com a Revolução Islâmica. País dominado, invadido, trapaceado pelo imperialismo europeu, estava, nos anos anteriores à Revolução, manietado pelas imposições norte-americanas da Guerra Fria. O interesse pela grande riqueza petrolífera do país tornou-o vulnerável à ambição armada dessas potências. República Islâmica. Um paradoxo? De qualquer forma, uma carta de alforria.