A face das múmias

qua, 18/04/2012 - 14:24
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A edição de março da Revista de História da Biblioteca Nacional trouxe uma análise sobre as máscaras mortuárias confeccionadas em determinadas áreas do Egito.

 

 

Arqueóloga formada pela UFS e atualmente mestranda em Arqueologia também na UFS, Márcia Severina Vasques é administradora do Arqueologia Egípcia e está se especializando em Arqueologia Marítima Egípcia. Ela desenvolveu o seguinte texto para a revista de História.

“Nós, brasileiros, não estamos alheios à rica civilização antiga que foi a egípcia. Acervos como os do Museu Nacional ou da Fundação Eva Klabin, ambos no Rio de Janeiro, são importantes fontes de pesquisa para quem quiser estudar Egiptologia. Normalmente, este tipo de pesquisa é feito no Brasil com base em coleções de museus e em visitas a sítios arqueológicos. Um estudo sobre máscaras mortuárias pode ser feito a partir da análise das peças de coleções de museus ou por meio de publicações especializadas. É um tipo de pesquisa que exige paciência, persistência e, sobretudo, paixão, pois temos que nos debruçar sobre inúmeras peças e tentar estabelecer conexões entre elas, refletindo sobre sua produção e seu significado.

Em geral, os procedimentos de uma pesquisa arqueológica envolvem trabalho de campo, laboratório, e, por fim, o cruzamento de dados e informações por parte do arqueólogo. Pode ocorrer também o caso de o material já estar disponível em um acervo de museu, pois foi resultado de escavação antiga, ou mesmo já ter sido publicado em um catálogo de coleção. Este fato não impede que um novo estudo seja feito a seu respeito, pois cada pesquisador tem uma nova pergunta para seu objeto de estudo. Em minha pesquisa, estava preocupada em analisar as relações culturais entre egípcios, gregos e romanos no Egito sob domínio romano (30 a.C.- 395 d.C.). Selecionei, a partir de catálogos e publicações, as máscaras confeccionadas em determinadas regiões do Egito – Alto Egito, Médio Egito, Fayum e os Oásis de Kharga e Baharyia, e as classifiquei conforme suas áreas de achado, conhecidas ou prováveis. Assim, poderia observar as mudanças nos costumes funerários tanto pela característica de cada localidade como também a partir da longa duração.

Foi possível notar que a função dessas máscaras permaneceu praticamente inalterada desde o seu aparecimento na época faraônica. A arte egípcia – desenhos, esculturas, pinturas e mesmo os hieróglifos – tinha como função principal manter “vivos” os rituais mágicos. A máscara, em última instância, tinha por objetivo servir como substituto da cabeça do morto, sobretudo se a múmia fosse danificada. No entanto, seu tipo de produção e seus elementos iconográficos não eram exatamente iguais em todo o Egito. Em áreas onde predominava uma população de origem grega e macedônica, a influência cultural romana é mais perceptível, sendo o morto retratado “à romana”, em termos de vestimentas, penteados e adornos. Mas quando nos afastamos do Mar Mediterrâneo e das cidades costeiras em direção ao interior, ao sul do Egito, percebemos maior apego às formas tradicionais egípcias.

Por meio do estudo das máscaras funerárias, podemos observar a trajetória da civilização egípcia, suas etapas, seus desenvolvimentos e transformações no decorrer do tempo. Pela conduta no que diz respeito à morte e aos mortos, chegamos ao mundo dos vivos, às suas crenças, ao seu cotidiano e às suas relações sociais. Em suma, podemos conhecer um pouco dessa civilização do passado e descobrir quão distantes e quão perto podemos estar dela.”

 

Márcia Severina Vasques é professora da Universidade Federal do Rio Grande do Norte e autora da tese “Crenças funerárias e identidade cultural no Egito Romano: máscaras de múmia” (USP, 2005).