14ª Mostra Mundo Árabe de Cinema no CCBB-SP: “Fico feliz de ver que um filme como este pode atravessar uma distância tão grande, conversar com as pessoas e criar essa transversalidade”, diz diretor tunisiano de “Esperança em Chamas”

dom, 20/10/2019 - 14:45

 

Convidado especial da Mostra, o cineasta Lotfi Achour, acompanhado do Professor de Direito Internacional da FGV, Salem Nasser, participou de um bate-papo com a plateia, neste sábado, após exibição do longa.

Por Suely Melo e Clara Zaim

Neste sábado, 19 de outubro, o auditório do Centro Cultural Banco do Brasil São Paulo (CCBB SP) foi palco para mais um encontro com o público realizado pela 14º Mostra Mundo Árabe de Cinema, que estará em cartaz até o dia 28 deste mês.  A conversa foi com o convidado especial Lotfi Achour, cineasta tunisiano, diretor do filme “Esperança em Chamas” (tema do debate), juntamente com o Professor de Direito Internacional da FGV, Salem Hikmat Nasser, e mediação de Arthur Jafet, curador da Mostra. Achour também dirigiu a comédia “A Lei do Cordeiro”, que abriu a Mostra no CCBB-SP, na última quarta, dia 16.

14ª Mostra Mundo Árabe de Cinema é promovida pelo Centro Cultural Banco do Brasil São Paulo (CCBB SP) e o Instituto da Cultura Árabe – ICArabe, com copatrocínio da Câmara de Comércio Árabe-Brasileira e em parceria com a Federação das Associações Muçulmanas do Brasil – Fambras, o Instituto do Sono e a Aliança Francesa.  

O filme, exibido em sessão anterior ao debate, conta a história de uma forte e inesperada amizade entre duas jovens e um adolescente que se conhecem ao acaso, seguindo um rumo incerto pelas ruas de Túnis, e que é vista “de fora” através de uma investigação policial, e também de forma mais íntima e junto a esses personagens. A história dessas três pessoas e seus desencantos e esperanças é a história da Tunísia, hoje lidando com suas contradições históricas após a esperançosa Revolução de Jasmim, que, como todas da Primavera Árabe, teve suas aspirações progressistas comprometidas pelas guerras, crise econômica e recrudescimento do conservadorismo. Além do vulto político, o filme, primeiro longa-metragem do diretor, também faz uma importante escolha de política da imagem ao dedicar maior atenção às personagens femininas, ilustrando a condição da mulher na era das pós-revoluções.

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Em relação à narrativa, Salem Nasser fez uma comparação com o Brasil. “Se esta história se passasse aqui, teríamos muito claro que é uma história singular que acontece na sociedade brasileira, que é possível que aconteça, mas que não representa a sociedade brasileira como um todo”, destacou. Diferentemente, segundo ele, do que acontece no mundo árabe, na medida em que conhece pouco este universo. Neste caso, há uma tendência em ver esta história, e outras nesta linha, como representativa da sociedade. “Não conseguimos, talvez, com tanta facilidade isolar esta história dentro de uma sociedade que conhecemos menos. Tendemos uma generalização das impressões”, pontuou Nasser.

Lotfi Achour, que também é dramaturgo, produtor e diretor de teatro, concordou com a visão de Salem Nasser e acrescentou que “mesmo nas sociedades árabes há uma forte inclinação em querer que o filme seja representativo da sociedade, uma demanda que não se faz aos filmes franceses ou americanos, nos quais enxergamos cada personagem em sua individualidade. Também na Tunísia há esta tendência em querer que os personagens sejam representativos do coletivo”, afirmou o cineasta.

"Queria contar uma história mais próxima dos fatos reais”, destacou Achour ao comentar sobre o processo de construção do seu longa-metragem. “Fico feliz de ver que um filme como este pode atravessar uma distância tão grande, conversar com as pessoas e criar essa transversalidade”, enfatizou. Lotfi contou que “Esperança em Chamas” já viajou o mundo, participando de cerca de 40 festivais, inclusive em Nova Iorque, nos Estados Unidos, e já ganhou 10 prêmios. Todo o mundo árabe, segundo ele, terá acesso à produção.

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O cineasta falou ao ICArabe sobre sua presença na 14ª Mostra Mundo Árabe de Cinema. “Fiquei muito feliz com o convite para participar da Mostra, pois gosto da experiência de ver como o filme vai conversar, vai falar e impactar públicos que à primeira vista – apenas à primeira vista - estão tão longe e são diferentes da gente, no sentido do mundo árabe e da Tunísia, especificamente. É por isso que às vezes acompanho para ver a reação das pessoas. E no caso hoje, no debate, percebi que as pessoas respondem dizendo que encontram ecos na sociedade brasileira com experiências e situações”, frisou Lotfi Achour.

O professor Salem Nasser também comentou sobre a produção do tunisiano. “Gostei muito do filme. Ele realmente traz um debate que conversa com questões da nossa sociedade, como a questão da violência policial, a diferença de classes sociais, o encontro quase que fortuito, acidental entre pessoas de classes sociais muito diferentes em uma sociedade que é complexa e também é cheia de desigualdades. O filme retrata todas essas coisas em um momento de revolta social, de sublevação e tentativa de mudança e que também retrata as dificuldades que se seguem aos momentos revoltosos que vêm com violência, com grande e esperança, mas que depois são seguidos por alguma frustração porque a vida não muda tão facilmente nem tão automaticamente”, ressaltou Salem. “O filme é muito rico em temas e o debate foi muito interessante. Foi muito bom olhar, a partir da conversa com o diretor, a sociedade da Tunísia e a realidade que o filme representa. Foi uma grande experiência”, concluiu.

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Contribuindo para a história do cinema árabe no Brasil

A Mostra Mundo Árabe de Cinema surgiu em 2005, logo após a criação do Instituto da Cultura Árabe, em 2004, como uma entidade laica e sem fins lucrativos.

O objetivo da Mostra Mundo Árabe de Cinema sempre foi (e continua sendo) o de apresentar ao público brasileiro a cinematografia dos países árabe e de temática árabe, contribuindo para desfazer os estereótipos e retratando a realidade dos países árabes.

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