Diretora cultural da Câmara Árabe recebe prêmio da Unesco. Leia entrevista

qua, 27/05/2020 - 19:01
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Prêmio Unesco-Sharjah para a Cultura Árabe 2019 foi anunciado na segunda-feira (18). A diretora cultural da Câmara Árabe, Silvia Antibas, recebeu o reconhecimento. Leia a entrevista. 

A diretora cultural da Câmara de Comércio Árabe Brasileira, a historiadora e curadora Silvia Antibas, recebeu o prêmio Unesco-Sharjah para a Cultura Árabe 2019. O anúncio foi feito, em 18 de maio, pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco). O artista palestino Suleiman Mansour também recebeu o prêmio que é dado a duas pessoas, grupos ou instituições a cada ano, desde 1998. Sharjah é um dos sete emirados árabes.

O prêmio é um reconhecimento do compromisso daqueles que, pelo trabalho e realizações notáveis, se esforçam para disseminar um maior conhecimento da arte e cultura árabe no mundo. Os laureados foram nomeados pela diretora geral da Unesco, Audrey Azoulay, por recomendação de um júri internacional. Cada um recebe um prêmio de US$ 30 mil. Uma cerimônia para receber o prêmio será feita no ano que vem, em Paris, na França.

Silvia Alice Antibas é a primeira mulher brasileira a receber o prêmio e a segunda pessoa do País a ser premiada. O primeiro foi o professor, João Baptista de Medeiros Vargens, em 2011. Ele é editor, autor, tradutor, lexicologista e professor de civilização e língua árabe. Medeiros se dedicou a destacar a presença da civilização árabe-muçulmana no Brasil e nos países de língua portuguesa.

Leia a seguir a entrevista com a historiadora:

Portal ICArabe - Você é a primeira mulher brasileira a receber o prêmio e a segunda pessoa do País a ser premiada. Qual o significado, não apenas do ponto de vista pessoal, mas para a cultura árabe no Brasil, deste prêmio?

Silvia Antibas - Na minha opinião o significado dessa premiação é o reconhecimento do "conjunto da obra", um trabalho longo de formiguinha, de décadas, abrindo as portas de instituições árabes e não árabes. A ideia sempre foi de ir além dos estereótipos da cultura árabe (dança do ventre dabke etc) mas mostrar a produção contemporânea de artistas e intelectuais árabes ou brasileiros de origem árabe, mulheres e homens. Valorizar tanto as manifestações tradicionais quanto a produção cultural atual de todo o mundo árabe. O Prêmio joga luz sobre essa importante produção cultural. Ajuda a divulgação, abre portas para apoios e nos incentiva a continuar caminhando. 

Portal ICArabe - Em seus trinta anos de atuação pela valorização da cultura árabe, quais foram os momentos que mais te marcaram?

Silvia Antibas - Desde as primeiras exposições nos Clubes Sírio e Monte Líbano em São Paulo, as palestras/shows sobre os árabes na música brasileira no Clube Monte Líbano, a participação em eventos e seminários internacionais, exposição Taswir etc. Conseguir que a Câmara de Comércio Árabe Brasileira iniciasse o projeto de digitalização da documentação da imigração sírio-libanesa em parceria com a Universidade de Saint Esprit de Kaslik, no Líbano foi uma vitória!  As parcerias com o ICArabe sempre deram grandes frutos: o concurso de curtas sobre a história da 25 de março, as Mostras de Cinema Árabe, os músicos Al Mu'tamid na Sala São Paulo, só para mencionar alguns.

Portal ICArabe - O mundo passa por transformações profundas neste momento. Como você vê o papel da cultura no esforço para superar os atuais desafios do planeta?

Silvia Antibas - Analisando como historiadora, as epidemias em vários momentos da história mundial aparecem e desaparecem com as quarentenas, medicamentos e vacinas. A pandemia atual tem algumas características diferentes. A cultura em geral foi tragicamente abalada pela pandemia. Shows, espetáculos, exposições, bibliotecas, oficinas precisam de público presencial.  Ao mesmo tempo, e essa é a diferença do atual momento que vivemos, a tecnologia facilita o acesso à produção cultural. E digo mais: a cultura nos ajuda inclusive a suportar com mais equilíbrio a quarentena a que estamos submetidos. Hoje temos acesso fácil aos filmes, shows, lives, séries, oficinas em todas as mídias. Sem contar os livros, claro! Os artistas tiveram que se reinventar e não perder o contato com o público. Mas é um baque econômico muito forte para o setor. A cultura em tempos conturbados como hoje também vive as suas contradições: é o território do livre pensar, serve para criar pontes. Mas, ao mesmo tempo, está sendo submetida a uma guerra cultural e ideológica com um final imprevisível. Daí a importância de instituições públicas estaduais e municipais, além das privadas, como a Câmara Árabe,  para poder dar vazão à criatividade de artistas e intelectuais.

Portal ICArabe - Pode falar um pouco sobre a Câmara Árabe em sua trajetória?

Silvia Antibas - A Câmara Árabe foi importantíssima nesse processo. Eu venho de uma carreira de mais de 30 anos em instituições culturais públicas e a Câmara me deu acesso ao mundo corporativo. Unir essas experiências públicas e privadas facilitou muito meu trabalho. A Câmara, antes de mais nada, teve a sensibilidade de entender a cultura como algo que pode agregar valor às suas atividades e valores. A missão da Câmara Árabe é conectar brasileiros e árabes para promover o desenvolvimento econômico, social e CULTURAL. A cultura faz parte, pois, da missão! Homens de negócios reconhecem que conhecer e respeitar o "outro" e a sua "cultura" é fundamental para o diálogo, para o conhecimento e até para fazer negócios. Sempre tive muito apoio da Diretoria e colaboradores. Não faço nada sem a aprovação dos dirigentes e estamos sempre trocando opiniões. A Diretoria trata a Cultura com muita sensibilidade. A Câmara tem uma estrutura fantástica para realização de projetos e uma equipe super profissional. Enfim, é um privilégio estar ligada à entidade e facilita muito o meu trabalho.

Portal ICArabe - Pode comentar o papel de instituições como a Câmara e o na promoção da cultura árabe no Brasil e na aproximação entre árabes e brasileiros?

Silvia Antibas -  A Câmara Árabe abre as portas para 22 países árabes. Países de uma diversidade regional e cultural inacreditável. Nossa maior referência no Brasil é o Oriente Médio, com Síria, Líbano, Palestina.... mas o universo é muito maior. Dos países do Golfo, passamos para o norte da África, assim como a África Subsaariana. É um território muito amplo, com mais de 400 milhões de habitantes, com muitas diferenças entre si, cada país com sua cultura específica. É muito rico.  Estamos sempre aprendendo e trocando conhecimento. Além disso, como falei anteriormente, a Câmara oferece estrutura (auditório, salas multiuso, TI) de altíssima qualidade e com modernos equipamentos. Sem contar equipe de colaboradores altamente qualificados. Acho que a Câmara faz muito pela cultura, além do seu papel como Câmara de Comércio. Por ter grande credibilidade na comunidade, no Brasil e no exterior, ela acaba se tornando um catalizador cultural importante. Na ausência de uma sede de um centro cultural confortavelmente instalado, a Câmara acaba fazendo um pouco esse papel.

Portal ICArabe - Que legado/mensagem às novas gerações você gostaria de deixar com seu trabalho?

Silvia Antibas - Meu sonho é ter um centro cultural árabe bem instalado, moderno e dinâmico em São Paulo. Somos mais de 12 milhões de descendentes de árabes no Brasil e não temos uma casa, um local que possamos concentrar toda a história da imigração árabe no Brasil e divulgar toda a produção cultural desses povos para todos os públicos. Algum dia teremos e o ICArabe é nosso parceiro! Inshallah!