O Instituto da Cultura Árabe lança mais um verbete de sua série especial dedicada à compreensão do mundo árabe. A iniciativa reúne especialistas para apresentar, de forma acessível e fundamentada, conceitos, termos e temas históricos e contemporâneos que ajudam a ampliar o olhar sobre a cultura árabe-islâmica, enfrentando simplificações e estereótipos ainda recorrentes. A cada novo conteúdo, o público é convidado a aprofundar conhecimentos, refletir criticamente e fortalecer o diálogo sobre as múltiplas contribuições dessa civilização à sociedade global.
Confira a lista completa de verbetes aqui.
Islã político
O islã político, ou islamismo, é uma ideologia que busca estabelecer o islã como base para a organização do Estado, direito e da sociedade, indo além da esfera religiosa pessoal. Ou seja, embora frequentemente associado a uma visão de um islã religioso radical e “terrorista”, o islã político é um termo guarda-chuva utilizado para definir a ideologia de movimentos sociais, partidos políticos e grupos armados que adotam o islã como linguagem e referência comum para a ação política. O que distingue o islã político enquanto categoria é o seu caráter histórico. Ele foi desenvolvido com a implementação do Estado-nação nos moldes europeus tanto no Oriente Médio quanto no Norte da África.
O que torna complicada a sua diferenciação em relação ao islã como religião é que a nomenclatura “islã político” surgiu no Ocidente. Segundo essa noção, a ideologia não é apartada do discurso religioso. Com o tempo, o termo ganhou força na região e passou a representar políticos que tinham o desejo de tornar o campo político de seus países mais religioso. Tal fator reforça o caráter não-estático e histórico tanto da religião como da ideologia.
Essa ideologia não se baseia em uma visão única do islã, assim como não apresenta um objetivo geral comum. São vários os atores e a aplicação do islã político varia significativamente entre países e grupos, incluindo desde aqueles que buscam a participação por vias democráticas e a tradução de conceitos considerados “ocidentais” para o universo discursivo islâmico (como é o caso do Ennahda, na Tunísia, ou de alguns movimentos feministas islâmicos), até correntes de caráter purista revolucionário que defendem a implementação de um Estado islâmico, tal qual construído por Maomé em Medina (como é o caso de grupos islamitas como o Estado Islâmico, Talibã ou Boko Haram).
Historicamente, o islã político tem sido utilizado como uma ideologia voltada à expansão da religião e, sobretudo, como força anti-colonial mais ou menos democrática, opondo-se à imposição de categorias e valores ocidentais.
Um exemplo notável encontra-se no pensamento político do professor egípcio Hassan al-Banna (1906-1949), fundador da Irmandade Muçulmana, que reconhecia na ideia religiosa de ‘Shura’ (consulta da comunidade muçulmana) um ponto de diálogo com a ideia ocidental de ‘democracia’, ambos localizando no povo a fonte da qual emana o poder.
Devido à sua amplitude e às diferentes realidades sociopolíticas em que se manifesta, há atualmente um movimento na academia de questionamento do uso do termo sem as devidas complexidades e contextualizações históricas e territoriais, bem como o abandono do rótulo por parte de atores que anteriormente se identificavam com essa ideologia.

Leonardo Pagano Landucci é doutorando em Relações Internacionais pelo Instituto de Relações Internacionais da Universidade de São Paulo. Mestre em Relações Internacionais pelo Programa San Tiago Dantas (UNESP-UNICAMP-PUC/SP). Bacharel em Relações Internacionais pela UNESP Franca. Foi pesquisador visitante no German Institute of Global and Area Studies (GIGA) com bolsa CAPES PrInt e realizou estágio de pesquisa na School of Oriental and African Studies (SOAS), na University of London, com financiamento da FAPESP. É criador do projeto RInsha’Allah, premiado com Menção Honrosa no IV Prêmio ANPOCS de Divulgação Científica em Ciências Sociais (2024), cocriador do Pod-RI e professor conferencista de cultura e linguagem na UNESP Franca.
