O Instituto da Cultura Árabe – ICArabe lança mais um verbete da série especial voltada a aprofundar o entendimento sobre o mundo árabe. A iniciativa reforça a missão do Instituto de difundir conhecimento confiável e promover a valorização da diversidade cultural, contribuindo para quebrar estereótipos e ampliar a consciência crítica da sociedade.
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Eixo da Resistência
O termo “Eixo da Resistência” deriva da expressão árabe Mehwar al-Muqawama. Trata-se de uma aliança composta por atores de naturezas distintas, abrangendo governos, grupos militares, partidos, lideranças políticas e movimentos sociais, todos alinhados ideológica, política e militarmente. Esses atores atuam de forma orquestrada e em interdependência, podendo se apoiar em combates, apoio logístico, fornecimento de material bélico, bem como no de recursos humanos. O escopo geográfico dessa rede engloba Irã, Iraque, Síria (durante o governo de Bashar al-Assad), Líbano, Iêmen e Palestina.
A República do Irã, por meio do Corpo de Guardas da Revolução Islâmica, se consolidou como o núcleo articulador do Eixo da Resistência, desempenhando um papel que vai muito além do suporte material. Teerã atua como um centro de integração e articulação tática, responsável por harmonizar agendas, calibrar respostas às ameaças e construir uma coerência operacional entre os membros, de modo a garantir sinergia estratégica frente às ameaças. Nesse contexto, destaca-se a figura do general Qasem Suleimani (1957–2020), ex-comandante das Forças Quds, cuja atuação desempenhou papel central na coordenação operacional dos membros. Ainda assim, a centralidade iraniana não implica uma relação hierárquica rígida, visto que os diferentes membros mantêm agência própria e capacidade de definir prioridades estratégicas em consonância com seus interesses e realidades.
Entre os atores não-estatais mais proeminentes associados à aliança destacam-se o Hezbollah, os Houthis, o Hamas e diversos movimentos sociais e militares iraquianos, como as Forças de Mobilização Popular. No que se refere às personalidades mais notáveis do Eixo, figuram Ali Khamenei (1939-2026) (ex-Líder Supremo do Irã), Hassan Nasrallah (1960-2024) (ex-Secretário-Geral do Hezbollah) e Hashem Safieddine (1964-2024) (ex-liderança central do Hezbollah); Abu Mahdi al-Muhandis (1954-2020) (ex-Secretário-Geral do Kataib Hezbollah e vice-presidente das Forças de Mobilização Popular); Ismail Haniyeh (1962-2024) (ex-presidente do bureau político do Hamas); Yahya Sinwar (1962-2024) (ex-comandante do Hamas), todos mortos em batalha; e Abdul-Malik al-Houthi (1979), líder dos Houthis/Ansar Allah no Iêmen.
Após sofrer perdas significativas, não apenas decorrentes da morte de comandantes e lideranças de destaque durante o recente conflito contra Israel (2023–2026), mas principalmente em razão da queda de Bashar al-Assad na Síria, o Eixo da Resistência enfrenta um revés estratégico substancial. A derrocada do ex-governante sírio afeta diretamente a espinha dorsal logística da aliança, comprometendo sua capacidade de articulação regional. Nesse contexto, o Eixo atravessa um período de reformulação interna, marcado pela ascensão de novas lideranças e a abertura de novos canais de comunicação e integração entre seus membros.

Issam Menem é doutor pelo Programa de Pós-graduação em Estudos Estratégicos Internacionais (PPGEEI/UFRGS). Pesquisador do Núcleo de Pesquisa sobre as Relações Internacionais do Mundo Árabe (NUPRIMA) e pesquisador associado ao Instituto Sul-Americano de Política e Estratégia (ISAPE). Tem interesse nas áreas de geopolítica; estudos estratégicos, Oriente Médio e mundo árabe. Seus interesses de pesquisa incluem a dinâmica securitária no Levante árabe, o Eixo da Resistência e a comunidade xiita libanesa.
