O Instituto da Cultura Árabe (ICArabe) apresenta um novo verbete da série especial dedicada a ampliar o conhecimento sobre o mundo árabe. Desta vez, o destaque é o arabesco, um dos elementos mais característicos da arte islâmica, cuja riqueza estética e histórica atravessou séculos e influenciou diferentes tradições artísticas. A iniciativa integra o compromisso do Instituto de difundir informação qualificada, combater estereótipos e valorizar a diversidade cultural árabe.
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Arabesco
Arabesco é um estilo de decoração muito encontrado na arte islâmica. A palavra remete diretamente a um tipo de arte realizada nos países árabes, mas o termo “arabesco” é europeu. Foi utilizado com o sentido de “à maneira árabe” por artistas renascentistas para descrever motivos decorativos complexos inspirados na arte arabo-islâmica para ornamentar manuscritos e encadernações, objetos litúrgicos das igrejas, cerâmicas, azulejos e tapeçarias. Depois o termo foi adotado por orientalistas do século XIX, a partir da observação de artefatos deixados pelos árabes na Síria, no Egito, no Norte da África e na Espanha. Foi usado para designar um conjunto de sistemas abstratos de ornamentação na arte islâmica.
O arabesco não é um estilo homogêneo, e sim uma fusão de estilos. Embora pareça ser uma forma que se desenvolve livremente sobre a superfície onde é aplicado, esse sistema, ao contrário, baseia-se em uma lógica matemática complexa, que se expressa por meio do abstracionismo – uma gramática da geometria. Não é uma mera decoração aplicada sobre a superfície, mas é um elemento constitutivo dos objetos e da arquitetura nos quais está inserido.
Os desenhos desse sistema de representação variaram entre as diversas regiões por onde o Islã tornou-se religião majoritária, de acordo com as condições sociais e culturais, as influências locais, a disponibilidade de materiais e as diferentes técnicas utilizadas nas aplicações de motivos.
Era também um sistema amplamente empregado para evitar a representação de seres vivos dentro de edifícios religiosos, o que levou à adoção e criação de formas abstratas para a ornamentação das superfícies, como a geométrica, a caligráfica e a vegetal. Era utilizado tanto na decoração arquitetônica interna e externa das edificações como na superfície dos mais variados objetos.
O arabesco, por meio de sua aplicação repetitiva de formas e padrões, sintetiza três princípios dentro da arte e da arquitetura islâmicas: o propósito filosófico expresso visualmente pela harmonia entre a razão e a criação; os princípios islâmicos, como a unidade divina (tawḥīd); e a abstração geométrica e a lógica matemática, que refletem a ideia de um universo ordenado regido por leis harmônicas.
O arabesco é um sistema complexo e se diferencia de outros padrões principalmente pela sua não linearidade e pela sua natureza combinatória de sucessivas formas simples. Consiste em um sistema de representação que utiliza motivos foliares – como volutas de videira ou de acanto, flores e folhas – podendo ser entrelaçadas com estruturas geométricas interligadas delicadamente por meio de curvas e volteios, quebrando a rigidez das superfícies nas quais são aplicados. Também podem simplesmente ser aplicados motivos exclusivamente geométricos, como diferentes polígonos que se sobrepõem e entrelaçam, formando faixas simétricas. Essa repetição dos padrões de forma aparentemente infinita cria a ilusão de tridimensionalidade e profundidade e transmite a ideia de um cosmos ordenado e infinito, estruturado por leis divinas.

Lygia Ferreira Rocco é arquiteta pela FAU USP, Doutora em Letras (FFLCH-USP) com bacharel em História (FFLCH-USP) e Artes Plásticas (Unesp). Foi membro do Instituto da Cultura Árabe ministrando cursos, palestras e organizando exposições. Pesquisadora associada do LARP/MAE/USP. Atua nas áreas de arquitetura e urbanismo, história da arte e arqueologia. Atualmente desenvolve pesquisas nas áreas de arquitetura e urbanismo das regiões do Oriente Médio e Mediterrâneo com foco na arte, arquitetura e patrimônio árabe e islâmico.