O ICArabe apresenta um novo verbete de sua série especial, iniciativa dedicada a ampliar o conhecimento sobre o mundo árabe por meio de informações aprofundadas e de fontes confiáveis. A série reforça o compromisso da instituição com a valorização do saber, o combate a estereótipos e a promoção de uma compreensão crítica e fundamentada da realidade árabe.
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Sufismo
Sufismo (tasawwuf) é uma das principais vertentes místicas do Islã, sendo mais presente no mundo sunita do que no xiita. Muçulmanos e muçulmanas adeptos do sufismo são comumente chamados de sufis. Etimologicamente, a origem dos termos tasawuff e sufi, em língua árabe, é associada à palavra suf (lã), numa referência aos primeiros místicos do Islã, que usavam vestimentas feitas desse material. A palavra safa’ (pureza) também é mobilizada como origem do termo, pois condensaria a qualidade moral ideal de um sufi (SCHIMMEL, 1975).
Na tradição islâmica, sufismo pode ser compreendido como a busca pela experiência direta com a realidade ou verdade (haqiqa) divina. Para tanto, deve-se percorrer um caminho (tariqa) místico sob a orientação espiritual de um shaykh/mestre (murshid) sufi. A relação mestre-discípulo(a) é central nas formas organizacionais do Sufismo, onde o Shaykh está vinculado a uma genealogia de transmissão de saberes esotéricos (silsila) e é socialmente reconhecido como dotado de baraka (graça/poder divino). Uma noção fundamental no Sufismo é a de santidade, construída a partir dos termos wilaya (intercessão via poder espiritual) e walaya (proximidade, amizade): na qualidade de “amigos de Deus” (wali Allah), mestres sufis reconhecidos como santos atuam como protetores e intercessores dos devotos. A atribuição de santidade no sufismo é difusa, dependendo de práticas, reconhecimento social e relações de poder em diferentes contextos históricos, influenciando também os locais e os modos de culto aos santos.
Para além do conhecimento dos textos e rituais islâmicos normativos, classificados como exotéricos (zahiri), no caminho místico busca-se o conhecimento esotérico (batini), alcançado via engajamento dos sujeitos em práticas disciplinares, devocionais e experienciais, voltadas para sua conexão direta com Deus. Rituais (hadra, dhikr, sama`, etc.) e métodos de ensinamento no Sufismo variam conforme as distintas tradições sufis, como as das turuq (s. tariqa) Naqshbandiyya, Shadhiliyya, Qadiriyya, dentre outras, e as dinâmicas articulações que as diversas comunidades sufis estabeleceram entre os elementos globais das suas tradições místicas e os contextos sociais e culturais em que estão inseridas. Isto levou a diferentes formas de institucionalização e de relação com os sistemas de governo nos distintos contextos em que se estabeleceu.
Do mesmo modo, a produção de uma literatura sufi, assim como o surgimento de uma estética espiritualmente inspirada no sufismo, contribuíram para sua difusão e popularização ao longo da história islâmica, tendo maiores expressões nos poetas persas do século XIII Jalal ad-Din Rumi e Farid al-Din Attar.
Referências Bibliográficas
CHAGAS, Gisele F. Female Sufis in Syria: Charismatic Authority and Bureaucratic Structure. In: Lindholm, C. (eds) The Anthropology of Religious Charisma: Ecstasies and Institutions. Contemporary Anthropology of Religion. New York: Palgrave Macmillan, 2013.
PAPAS, Alexandre (ed.). Sufi Institutions. Series Handbook of Sufi Studies: vol.1. Leiden;Boston: Brill, 2021.
PINTO, Paulo Gabriel Hilu da Rocha. Islã: uma antropologia histórica do mundo muçulmano. Niterói: EDUFF, 2025.
SCHIMMEL, Annemarie. Mystical Dimensions of Islam. Chapel Hill: The University of North Carolina Press, 1975.
Gisele Fonseca Chagas é Doutora em Antropologia pela Universidade Federal Fluminense (UFF); Professora do Departamento e do Programa de Pós-Graduação em Antropologia da UFF; Vice-Coordenadora do Núcleo de Estudos do Oriente Médio (NEOM) da UFF e Bolsista de Produtividade do CNPq e Cientista do Nosso Estado/FAPERJ.
