O Instituto da Cultura Árabe – ICArabe traz mais um verbete da série especial dedicada a ampliar o conhecimento sobre o mundo árabe. A iniciativa reafirma o compromisso do Instituto com a disseminação de informação qualificada, pautada pela responsabilidade e pelo combate a estereótipos – um passo importante para a construção de uma sociedade mais informada e consciente.
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Estado Islâmico
O chamado “Estado Islâmico”, ou EI, é uma organização terrorista e extremista religiosa que ocupou partes do Iraque e da Síria entre 2014 e 2019,criada com o objetivo de estabelecer e expandir um califado sob o qual prevalecesse uma interpretação fundamentalista das leis islâmicas. Apesar do nome adotado pelo grupo remeter ao conceito de Estado, na prática, seu estabelecimento buscou criar uma estrutura similar a um Estado, mas através de inúmeras práticas ilícitas e criminosas, controlando territórios e oprimindo violentamente a população local.
Algumas características impedem que o EI possa ser considerado um movimento religioso islâmico, como a estratégia de conversão compulsória e a perseguição severa a dissidentes. Praticantes de todas as outras correntes do islã, como os xiitas ou os sufistas, são considerados apóstatas, ou desertores.
Do ponto de vista religioso, o EI reinterpretou de forma extremista princípios salafitas e wahhabistas, duas correntes fundamentalistas do Islã. O grupo distorceu princípios para favorecer o uso da violência e, ao mesmo tempo, suavizou tradições religiosas como uma estratégia para oferecer um espaço a indivíduos em busca de uma narrativa de salvação e heroísmo. A promessa ideológica do EI é de que as pessoas que lutam pelas suas causas serão perdoadas e recompensadas após a morte, outros aderem ao EI por razões materiais e necessidades financeiras.
A estratégia de recrutamento do EI e grupos afiliados utiliza propaganda e doutrinação para aliciar combatentes e simpatizantes, explorando a exclusão social e a falta de perspectivas de jovens periféricos e crianças em situação de vulnerabilidade. Em países democráticos, a estratégia utiliza revistas, fóruns de internet e plataformas de compartilhamento de vídeos para radicalizar sentimentos em reação à islamofobia, ou vende uma ideia irreal que seus membros dispõem de riqueza material e vivem uma vida de aventuras. Em países em conflito, o EI utiliza as rivalidades locais para recrutar novos membros. O grupo também tem forte atuação entre pessoas em campos de detenção de refugiados no Oriente Médio, explorando as condições precárias de vida como motivadoras à radicalização. Os presídios são outro local de recrutamento e radicalização, uma vez que o grupo promete que criminosos podem se redimir e ser perdoados através do combate.
A atuação do EI por meio de células permite dispensar uma estrutura hierárquica rígida – valorizando a “coragem” individual –, ao mesmo tempo em que constrói uma rede que promete solidariedade e o reconhecimento que essas pessoas marginalizadas não encontram dentro de sociedades declaradas como democráticas, pacíficas e inclusivas. Nesse sentido, o EI escancara que o terrorismo tem raízes multifatoriais, calcados também nos problemas sociais e na existência de guetos e classes sociais de pessoas excluídas.
O EI foi formado a partir da al-Qaeda no Iraque, que, por sua vez, é afiliada a uma organização terrorista que teve origem na invasão do Afeganistão nos anos 1980. Depois da declaração do califado do EI, em junho de 2014, mais de 20 grupos terroristas anunciaram afiliação ou apoio, incluindo o Estado Islâmico na África Ocidental (mais conhecido como Boko Haram), o Estado Islâmico nas Filipinas (anteriormente Grupo Abu Sayyaf), o Estado Islâmico na Argélia (antes Jund al-Khilafa fi Ard al-Jazair), o Estado Islâmico na Província de Khorasan (ativo no Paquistão e no Afeganistão), o Estado Islâmico em Moçambique (conhecido como Al-Shabaab), entre outros.
Em 2024, o fim do regime de Bashar al-Assad na Síria criou condições para uma reorganização e nova expansão do grupo no Oriente Médio. No mesmo ano, o EI e organizações afiliadas efetuaram 559 ataques com pelo menos 1.700 pessoas mortas no mundo todo.
Fontes:
Veloso Leão, Augusto; Bassi, Danilo (Org.) . Para começar a entender o Estado Islâmico. 1. ed. Rio de Janeiro: Editora UFRJ, 2023.
Institute for Economics & Peace. Global Terrorism Index 2025: Measuring The Impact of Terrorism, Sydney, 2025.

Augusto Veloso Leão é pesquisador do Grupo de Pesquisa em Mídia e Esfera Pública (UFMG) e organizou com Danilo Bassi o livro “Para começar a entender o Estado Islâmico” (Ed. UFRJ, 2023). É doutor em Relações Internacionais pela Universidade de São Paulo e membro do Grupo de Trabalho sobre Oriente Médio e Mundo Muçulmano do Laboratório de Estudos da Ásia da USP.
