Por Jamil Zugueib, Professor doutor aposentado da Universidade Federal do Paraná. Atua no campo da antropologia psicanalítica.
O jornal Orient Le jour de Beirute publicou, em 17/3/2026, a questão do envolvimento de mais de dez países árabes na guerra que o EUA e Israel movem contra o Irã. E quais são suas repercussões no Líbano?
Os libaneses, sob as crises que se superpõem atualmente, mostram uma abnegada indiferença, pelo menos no meio cristão em Beirute, que nada mais é que um mecanismo psicológico para se defender da angústia depressiva, frente a esta interminável situação que se repete e se estende sobre seu país.
Atualmente, o Líbano enfrenta a possibilidade de ser invadido por Israel ao sul do rio Litani. A região voltaria, depois do ano 2.000, a se transformar novamente em zona tampão para sua segurança. Em Israel multiplicam-se as discussões em torno de uma ofensiva radical, destinada a desalojar todos os seus habitantes. Determinação que nunca foi tomada em todas as guerras anteriores. Lembremos que as tropas sionistas se retiraram desta região em 25 de maio de 2000, encerrando uma ocupação de 22 anos. Essa retirada unilateral foi concluída após intensa e cotidiana oposição das forças do Hezbollah.
Observamos que já se conta em um milhão o número de refugiados que chegam a Beirute. Face à determinação de Israel de exigir das autoridades libanesas o desarmamento do Hezbollah, tudo indica que esta situação vai longe.
Justificando-se por esta situação tenebrosa, os políticos de todos os partidos nacionais, reunidos em assembleia no último dia nove de março, resolveram prolongar seus mandatos por mais dois anos, anulando assim as eleições legislativas marcadas para maio próximo.
Mas a questão primeira continua sendo como enfrentar o problema com o Hezbollah. Parlamentares e o chefe do governo declararam ilegais as atividades militares e de segurança da partido armado xiita, instando o exército a implementar um plano de desmanche de seu monopólio de armas “o mais rápido possível e por todos os meios possíveis”. O comandante-em-chefe do exército, General Rodolphe Haykal (que conta com o apoio do presidente Michel Aoun, ele próprio um ex-comandante do exército), teme tomar esta difícil decisão, visto que existem divisões sobre o assunto dentro de suas próprias fileiras. Além, é claro, de que seus armamentos não são suficientes caso haja necessidade de confronto.
O prazo de quatro meses estabelecido pelo comandante para se chegar a um acordo ou entrar em conflito armado com a milícia não satisfaz nem as autoridades nem a população, notadamente não xiita. Desde a intensificação mortal dos bombardeios sionistas, este novo impasse se mostra sombrio. Israel se nega interromper sua estratégia de destruição total do Hezbollah e é reforçado pelo apoio de Trump, que já enviou aviso às autoridades libanesas para destituir do cargo o general Haykal.
De outro lado se organizam comissões de embaixadores para contatar Tel Aviv na tentativa de negociar a interrupção dos bombardeios. E nesta articulação nasce outro problema. Nabih Berry, presidente da Câmara dos deputados e que detém este cargo ha mais de 30 anos, é lider do partido xiíta Amal, e aliado até certo ponto ao Hezbollah. O deputado se recusa a nomear um representante desta -partido armado a participar desta comissão – diga-se participar dos apelos de encerramento dos bombardeios em curso. Esta questão, a ser levada adiante, acrescenta mais um impasse. O beco se desenha pela eterna divisão política dentro da sociedade.
Diante deste impasse de difícil solução, resta apenas às autoridades depositarem a esperança em Deus para por fim ao sofrimento dos cidadãos do sul e à desonra nacional. É o que diz Paul Morcos, Ministro da Informação, que expressa: “a esperança de que esses esforços (da comissão) sejam acompanhados de orações pelo Líbano, para que deem frutos, pedindo a Deus que auxilie o Presidente da República, o governo, seu chefe e todos aqueles que trabalham pela paz”( jornal Orient le Jour, 10/03/2026).
As questões se repetem para o libanês: até onde irá Israel se mesmo os bairros do centro de Beirute começam a ser bombardeados? Até que ponto irão resistir os laços institucionais que garantem o funcionamento de sua sociedade? Haverá uma abordagem que dê conta destas crises que se infileiram?
Exigir um dever nacionalista aos atores para encontrar uma solução à situação seria um gesto que provocaria resultados positivos?
Uma reflexão cuidadosa me faz partir do princípio de que uma ideologia nacionalista é sempre particularista, no sentido de que evoca a ancestralidade e o percurso histórico de uma nação. Ela se cola a um projeto nacional, incentiva estratégias para o bem-estar social e alinha as relações com as nações estrangeiras.
É nesta paixão política ancorada no enraizamento que encontramos o cerne da problemática do nacionalismo libanês. Parto do princípio de que é através da adoção compartilhada de referentes ideológicos que se pode colocar em prática a natureza do homem político, que, como cidadão, procura se realizar plenamente. Ora, o Líbano é composto por um sistema comunitário que reúne grupos de diferenciadas composições sociais, que se definem a partir de uma suposta origem comum. Seus mitos fundadores aliados aos eventos importantes de sua história e de suas figuras heroicas irão emitir mensagens que servirão de orientação e de justificativa existencial. A introjeção desses significantes, aliados às suas crenças religiosas, irão traçar a delimitação de suas fronteiras simbólicas. E desde aí impõe-se o limite e sublinha-se a diferença. E desse modo as relações comunitárias no Líbano tornam-se etnocêntricas, transformando a comunidade confessional em uma nação política imaginária. No jogo destas relações, lembremos que, grosso modo, as comunidades cristãs no Oriente voltam-se à cultura e às políticas Ocidentais ( maronitas, cristãos ortodoxos, cristãos católicos) enquanto que as comunidades muçulmanas exaltam suas raízes árabes e os valores do Islã (sunitas, xiitas, drusos, alaouítas). Deste esboço, que mesmo sendo muito esquemático, pode-se deduzir que cada uma delas irá construir a imagem de um Líbano, que fatalmente irá se diferenciar das de outras. E desde esse ponto nasce o conflito e desenha-se o inimigo, o aliado e suas relações de clientelismo.
A guerra civil libanesa (1975-1990) foi o teatro mortífero onde essas relações foram concretizadas na chamada “guerra da montanha” em 1983. Com o apoio das forças israelenses, milicianos maronitas subiram até os povoados drusos do Chouf na tentativa de expulsá-los do Líbano. A investida fazia parte de sua estratégia de tornar o Líbano um Estado libanês, ou seja, uma nação inteiramente cristã, como foi o projeto inicial da colonização francesa, que respondia aos seus anseios, na partilha do Oriente Médio depois da 1ª Guerra Mundial. Os combates também foram a tentativa de vingar as atrocidades cometidas pelos drusos em 1860, que, para manter o seu domínio naquelas montanhas, assassinaram milhares de cristãos em poucos dias. Aí está o papel da memória comunitária, que permanece e alimenta o entusiasmo combativo nas políticas interacionais na contemporaneidade. Mas não deixo de sublinhar que esta guerra exauriu a todos e em todos deixou marcas de dor e de cansaço e uma vontade de mudar para novas formas de convívio. Uma delas é integrar o Hezbollah renovado, sem armas e que participe do jogo político em pé de igualdade com todos. Mas a sombra de Israel continua a obscurecer o caminho da paz e da justiça nestas terras dos Cedros. Lembremos apenas das Fazendas de Chebaa no extremo sul. Ali onde não mais de cinco quilômetros quadrados foram “adicionados” ao vizinho expansionista – digo, lesados em nome da segurança sionista.
O objetivo desta minha explanação foi sublinhar quão complexa é a situação do Líbano no que diz respeito a sua unidade nacional, ao gerenciamento de suas necessidades e de suas relações intercomunitárias.
Jamil Zugueib – É professor aposentado da Universidade Federal do Paraná; Desenvolve pesquisas no campo da antropologia psicanalítica; Coordenador do Centro de Estudos dos Processos identitários, das Crises e da Cultura Árabe. Atualmente desenvolve pesquisas no Líbano.
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