Leia o artigo de Jamil Zugueib Neto [1], professor doutor aposentado da Universidade Federal do Paraná. Dedica-se às pesquisas no campo da antropologia psicanalítica.
Éléonore Caroit, ministra francesa da Francofonia, visitou o Líbano acompanhada de duas colegas, uma britânica e uma qatari. A missão buscava avaliar as necessidades urgentes da população mais vulnerável, da gestão de escolas e da defesa e reconstrução das instituições do Estado. Foi uma visita política de apoio, que se soma a dezenas de outras já realizadas e que, em breve, poderá tornar-se apenas mais uma lembrança de frustração. Mesmo que as obras de restauração do país sejam iniciadas, de que adiantarão os esforços se os batalhões israelenses voltarem a destruir tudo o que encontrarem pela frente? Arrasar e matar parece ser a ordem de Samuel Katz, ministro israelense da Defesa, incluindo a municipalidade, as plantações e chegando até os cemitérios. As táticas genocidas incluem, é sempre importante lembrar, bombas de fósforo branco, explosões com dinamite, assédio aos moradores e a proibição de retorno às suas casas. A ausência de esperança e a humilhação constante só podem reavivar o rancor e o desejo de vingança.
A máquina de morte Israelense continua sua marcha
Desde 16 de abril, Israel continua matando diariamente cidadãos no sul do Líbano e priorizando, em seus ataques aéreos, as equipes de socorro. Diversas aldeias foram dinamitadas e completamente destruídas. Moradores estão proibidos de retornar às suas casas em uma faixa de terra que avança cerca de 10 km no território libanês. “Nada podemos fazer” é a frase que melhor resume o atual estado de coisas: permanecemos passivos, observando o câncer alastrar sua metástase na desolação. Pouca ou nenhuma atenção é dada aos “mortos sem sepultura” — para lembrar Sartre — que se acumulam em necrotérios. São corpos de trabalhadores imigrantes vindos de países africanos, do Sri Lanka e de outras regiões, cujos consulados não se ocupam de sua remoção.
A MORTE DOS QUE MORREM COMO EFEITO COLATERAL
Outro exemplo que comoveu profundamente seus muitos amigos foi a morte da ativista ambiental libanesa Mona Khalil, cujo trabalho ajudou a transformar um trecho do litoral sul do Líbano em um dos mais importantes locais de nidificação de tartarugas marinhas ameaçadas de extinção no Mediterrâneo Oriental. Ela morreu após bombardeios em sua cidade, Tiro.
A catástrofe provoca comportamentos paradoxais e de difícil explicação
O jornal L’Orient-Le Jour publicou recentemente o relato de um episódio incomum:
Munido de uma faca e de uma arma de fogo, um libanês de Marjayoun atravessou vilas arrasadas e regiões onde ocorriam combates entre o Hezbollah e os invasores. Ao final da travessia, foi morto ao ultrapassar a fronteira com Israel. Não houve explicação para seu comportamento; registrou-se apenas a surpresa provocada pelo episódio.
Não pude deixar de refletir sobre esse drama, que despertou atenção jornalística pelo caráter insólito do episódio. Imaginar um homem caminhando sozinho, armado apenas com uma faca, em meio a campos de batalha, levou-me a conjecturar: quanto tempo seria necessário para que impactos emocionais repetidos e uma afetação psíquica recorrente produzissem nele um efeito disruptivo? O estresse provocado por bombardeios ao longo de sua vida foi alimentado pela exposição súbita, mas constante, a eventos que ele não podia controlar e que ameaçavam sua existência. A intensidade dos estímulos, o medo, o caos ao redor e o ódio ligado à indignação acabaram por submergi-lo. A essa comoção psíquica somam-se a fragmentação interior e a desorientação. Nesse momento, perde-se o sentido da situação; perdida a razão dos acontecimentos, o contato com a realidade torna-se difuso e enevoado, e diferentes sintomas podem surgir.
Nessa ruptura brusca entre o sujeito e a dimensão social, os sintomas prováveis incluem perda de orientação no ambiente, confusão mental, angústia difusa, acessos de desespero e alterações fisiológicas. Também podem surgir movimentos involuntários e automatizados, como uma marcha sem sentido e sem controle. No sul do Líbano, é possível supor que diversas situações inesperadas tenham ocorrido, como invasões de casas, controles e revistas em barreiras, insultos e ameaças. Esses fatos carregam forte peso emocional e configuram experiências humilhantes. São estímulos imprevisíveis que contribuem para a manutenção de um estado de alerta contínuo. Até que, em determinado momento, diante de uma situação inassimilável, ocorre o crash: o surto, a colagem entre a realidade interior e a realidade externa. Então explode um imaginário terrorífico que envolve o sujeito e o impele a uma decisão súbita e irrefreável de vingança e morte. Traumatizado, ele se põe a marchar como um zumbi, meio consciente, meio sem compreender o sentido de sua própria marcha. Fixado e devastado pelo estupor, passa a “agir a dor”, pois, incapaz de simbolizar o impacto, é empurrado por ele ao encontro de seus demônios. Matá-los seria, então, uma tentativa de pôr fim aos bombardeios, aos pesadelos e de executar o gesto catártico e liberador da vingança.
Este exemplo buscou tornar o trauma mais compreensível e, digamos, mais empático para leitores não familiarizados com a linguagem da psicologia. Mas o trauma se revela de muitas formas. Tanto o sofrimento psíquico quanto sua expressão dependem da intensidade dos estímulos e de seus efeitos na estrutura particular de cada sujeito. É preciso considerar também a herança genética, a cultura e a inserção social. É isso que procuro mostrar nos próximos exemplos, colhidos em entrevistas que realizei em Beirute e nas montanhas. Minha intenção é apenas apresentar casos que ilustrem como o sofrimento psíquico participa do perfil identitário de um sujeito.
Marcos — nome fictício — tem 75 anos. Aos 17, integrou a milícia maronita Forças Libanesas, que participou da guerra civil e da chamada Guerra da Montanha, em 1983.
“Nós, cristãos, estamos hoje em perigo no Oriente Médio. Na Síria e no Iraque, estamos quase extintos; no Líbano, somos obrigados a permanecer sempre atentos. Durante a guerra, lutamos para defender nossas comunidades na montanha. Tive amigos que morreram ao meu lado, e a angústia estava sempre presente. Fui aprisionado por vários dias por soldados israelenses, que me batiam toda vez que ouviam chamados em meu rádio de comunicação. Meu nome de guerra era Rommel, em referência ao famoso general alemão da Segunda Guerra Mundial. Em alguns dias, um soldado me dava cigarros; em outros, outro me espancava ou urinava sobre mim. Até hoje, não consigo dormir sem deixar a luz acesa. No escuro, sou invadido por imagens angustiantes”. “A guerra não teve vencedores e, hoje, sinto que é impossível viver com eles” — referindo-se à convivência entre muçulmanos e cristãos. “Deveríamos ter criado nosso próprio cantão. Por isso, defendo a federalização: dividir o Líbano em algumas regiões autônomas. E, se for preciso lutar novamente em defesa de Cristo, estarei pronto para me engajar”. Entrevistei outro amigo do mesmo partido, que fez a seguinte afirmação: “a presença de cristãos no Líbano representa a presença de cristãos no Oriente Médio. Se não houver cristãos no Líbano, não poderemos falar de cristãos no Oriente Médio. Sigo as palavras do papa quando esteve aqui: preservar o cristianismo no Oriente é uma missão.”
Khaldun, 62 anos, pertence à comunidade drusa. Aos 15, integrou a milícia de sua comunidade durante a Guerra da Montanha, em 1983. Atualmente, vive no Chouf. “A guerra nos foi imposta. Fomos obrigados a fazer algo que não queríamos. Lutei por nada. Ver amigos e bons companheiros morrerem ao nosso lado foi um sofrimento muito grande. Hoje vivo com minha mulher e meus filhos no Chouf. Temos uma boa casa, trabalho três horas por dia em minha plantação e somos felizes. A maioria de meus amigos é do Exército libanês, e nos encontramos com frequência em nossas casas. Em alguns dias, nossas famílias nos acompanham, e passamos bons momentos juntos. Eles pertenciam às Forças Libanesas, partido contrário ao nosso — a milícia maronita que entrou em confronto com os drusos na montanha do Chouf. Eram comandantes de sua milícia, assim como eu era da minha, no Partido Socialista Progressista de Kamal Jumblatt. Nós, drusos, temos a disposição de esquecer o passado e não ficar presos às coisas antigas. Nós nos conhecemos e começamos a nos interrogar sobre nossos atos. Entre nós há fraternidade, e queremos viver juntos no mesmo país. Respeitar as leis é o caminho da felicidade. Na minha comunidade, temos um ditado: ‘A terra é a honra, e eu tenho orgulho de minha montanha’. Eu coloquei meus filhos em escolas cristãs, para eles conhecerem e conviverem com a comunidade que habita nossas montanhas e que guerrearam contra os drusos na história do Líbano. Atualmente, eles já são adultos, mas desde jovens eu os proibi de falarem de política e de se engajarem em partidos políticos, e eles me respeitaram sobre isso. Eles devem viver como cidadãos comuns e não como membros de um partido. E eles nunca viram um fusil. É dificil para mim ver que muitas pessoas não sabem tirar lições do passado. Nós devemos viver todos juntos e buscar a tranquilidade da vida”.
Entrevistei um companheiro da mesma milicia de Khaldun e, no seu testemunho, ele afirma não mais acreditar em seitas religiosas. Ele tem fé na Humanidade e procura aqueles que têm a mesma disposição, valorizando das relações humanas: “para conhecer o outro é necessário colocar-se em seu lugar”.
Nos testemunhos que escolhi descrever aqui, procuro ilustrar a variedade de reações ou os efeitos subjetivos diferenciados em sujeitos que tiveram experiências de sofrimentos em uma crise social extrema. Sem termos espaço para nos aprofundar, o que queremos apontar é que esta experiência nem sempre é negativa para o desenvolvimento individual. Na vivência traumática vista como positiva, o trauma serviria como uma energia propulsora de mudanças. Um nó capital na direção de outros caminhos e de renovação. Já no caso da vivência negativa, o trauma dissocia a vida interna do indivíduo, congelando lembranças de significados negativos e perseguição fantasmagóricos. Desorganizado interiormente, com seus objetos perseguidores flutuando em seu imaginário, este indivíduo deverá gastar mais energia (o recalque) para manter um equilíbrio emocional satisfatório.
[1] Jamil Zugueib Neto é professor doutor aposentado da Universidade Federal do Paraná. Dedica-se a pesquisas no campo da antropologia psicanalítica. Atualmente vive no Líbano.
