Leia o artigo de Jamil Zugueib Neto, professor doutor aposentado da Universidade Federal do Paraná. Dedica-se às pesquisas no campo da antropologia psicanalítica. Beirute, Líbano, 27 de maio de 2026.
Assinalemos que a chamada “resistência” aos invasores sionistas no sul do Líbano começa no início dos anos 1970, com uma coalizão transconfessional, e, portanto, bem antes da fundação do Hezbollah (1984). E o pesadelo, com poucos intervalos, já era cotidiano para seus habitantes.
Atualmente, as mais de cinquenta aldeias que tiveram suas casas e infraestruturas arrazadas são a consequência do plano israelense de ir além de uma razzia. O objetivo é o extermínio completo do povo e de seu meio ambiente. São os desejos bem traçados por Ben Gvir, Israel Katz, Smotrish e Netanyahu – os “irmãos mais novos” de Sharon.
Essas ações comportam, além das mortes de famílias inteiras, a destruição de hospitais, de casas de culto religioso, roubos de artefatos e objetos antigos. A demolição de residências centenárias é realizada por escavadeiras e tratores da Caterpillar, especialmente construídos para este fim. E o desastre se completa com o consequente desaparecimento de documentos civis e históricos, dos títulos de propriedade sobre as terras e das plantações que assegurariam as colheitas e a renovação das semeaduras do ano.
Paralelamente, o Hezbollah continua incansável, obtendo algum sucesso através dos ataques com seus mísseis contra os poderosos tanques Merqawa. B’int Jbeil, cidade com pesado significado histórico na resistência, foi destruída completamente em batalhas disputadas casa por casa e rua por rua. Sua invasão começou trinta minutos depois do aviso “humanitário do exército mais ético do mundo”. Os serviços da guerra israelense, depois de seu insucesso e das dezenas de baixas em seu escalão nas batalhas de 2006, chegaram a construir uma maquete da cidade para estudar sua invasão em futuros conflitos. Sua beleza e seus sítios históricos ficam como testemunhas de sua identidade acolhedora nos seus famosos mercados, que atraíam viajantes ansiosos por bons negócios em suas trocas.
Seria repetitivo enunciar o número de mortes desta tragédia que se alarga sem parar. Mas só um exemplo dá a medida do ódio que impulsiona o avanço sionista. Sete cidadãos perderam a vida sob os bombardeios, justamente durante os funerais que realizavam no cemitério de Zibdine, na região de Nabatiye. O enterro era de um cidadão morto em ataques anteriores. (fonte: jornal L’Orient le Jour 14/05/26)
De outro lado da região eram lançados obuses carregados com fósforo branco. Proibidos pelas convenções de Genebra, esses produtos envenenam a terra e afetam gravemente a saúde da população. O objetivo é claro: além do assassinato da população, o plano obedece a um método para tornar essas terras inférteis para as próximas gerações.
A ETERNA OPOSIÇÃO, A EXPECTATIVA SOCIAL E O BEM-ESTAR INDIVIDUAL
A ocupação devastadora das forças israelenses no Sul, as pressões sobre a tropa libanesa para desarmar o Hezbollah e as sanções inéditas impostas pelo Tesouro Norte-Americano às nove autoridades libanesas se alinham às expectativas das tratativas com o Estado Hebreu e dos Estados Unidos com o Irã. As pressões sobre o comandante do exército Rodolphe Haykal não o impediram de reunir a tropa para lembrar da expulsão dos israelenses depois de 18 anos ocorrida em maio de 2000. Como este evento é atribuído à luta constante do Hezbollah nestes anos, seria a cerimônia um recado alusivo ao seu papel fundamental?
Uma pesquisa recente sobre as perspectivas de paz entre Líbano e Israel mostra a amplitude da divisão comunitária no país. O Instituto libanês Al Jadeed (https://www.aljadeedlearning.com), que se dedica ao jornalismo investigativo, publicou o resultado de suas últimas pesquisas: sobre o desarmamento do Hezbollah, 58% da população se mostra a favor, contra 34% que se opõem (maioria xiíta). Sobre o monopólio das armas nas mãos do Estado, são a favor 89% dos gregos ortodoxos, 87% dos maronitas, 77% dos drusos e 70% dos sunitas. Quanto às negociações com Israel visando o fim das invasões, são a favor: 78% dos maronitas, 73,6% dos gregos ortodoxos, 72% dos drusos e 54% dos sunitas. Já 93% dos xiítas são contrários. (Publicado no jornal Orient le Jour em 20/05/2026)
É surpreendente que os drusos se mostrem mais abertos que os cristãos a uma normalização com o Estado hebreu. 82,5% entre eles estão de acordo com o encontro entre os líderes nacionais e os de Israel, contra 72% dos maronitas.
Quanto ao Hezbollah, seu secretário-geral, Sheikh Naïm Kassem, aumentou o tom de sua oposição ao governo central. Ele promete que seu partido armado vai enfrentar com toda sua força e “sem hesitação” àqueles que lhe combaterem. Continua ele: “as autoridades não têm o direito de agir como bem entenderem. O povo tem o direito de descer às ruas para derrubar este governo”.

PROPOSTAS PARA UMA NOVA REALIDADE SOCIO-POLÍTICA DO LÍBANO
Há uma corrente de pensamento entre os cristãos que defende a federalização do Líbano. Separar o país em regiões autônomas (3 ou 4) com um governo central. Mas a questão que se coloca é saber como deslocar populações que habitam cidades mistas que conviveram depois de séculos mutuamente com ou sem conflito ao longo de sua história. Para alguns defensores desta ideia isto não importa: a separação será política e não confessional, e o tempo deixará a solução para cada família. Os líderes da conjuntura proposta, segundo eles, irão repartir a cota financeira entre os seus componentes e cada um deverá administrá-la segundo suas decisões. Mas quem vai garantir a estabilidade entre seus componentes? E, inclusive, como resolver as divisões entre as comunidades cristãs? Um líder druso, com o qual mantenho contato semanalmente, afirma: “nós estamos em estado de guerra”. As desavenças continuarão e a melhor maneira de manter a estabilidade política é seguir os acordos de Taef firmados ao final da guerra civil (acordo que mais tarde os maronitas consideram que saíram perdendo). Ou seja, manter a administração civil como está. Neste estado em que vivemos, ele sublinha, devemos lutar contra a divisão do país e procurar uma saída diplomática na relação com o Hezbollah, mesmo que isso pareça impossível.
Este líder, que foi o comandante de suas milícias na guerra civil e atualmente é professor do curso de Direito e de Ciências Políticas na Universidade Libanesa, repete o mesmo testemunho de outros ex-combatentes quanto ao seu estado de espírito.
Tenho entrevistado sujeitos engajados nos dois principais partidos maronitas (Forças Libanesas e os Kataébs). Segundo eles, todos os libaneses estão cansados depois de cinquenta anos de crise e permanecem sempre alertas no seu cotidiano. Todos aguardam o resultado das conversações sobre o cessar-fogo com a equipe de Netanyahu. E muito mais sobre os acordos que podem resultar dos encontros entre os Norte-Americanos e o Irã.
Sobre o mal-estar dos cidadãos, a melhor descrição que obtive foi a de um ex-combatente das Forças Libanesas que participou da “guerra da montanha” contra os Drusos em 1983.
Jean:
“Eu agradeço a Deus por estar com boa saúde, mas sempre sinto ansiedade. A começar pelo ruído dos drones israelenses, que dia e noite sobrevoam Beirute. Eu nunca sei se algum estranho, por exemplo, um combatente do sul em fuga, vai se esconder na casa de meu vizinho. Isto nos poria em perigo por possíveis bombardeios israelenses. A tensão contínua nos deixa sempre alerta e nos tira a vontade de sair, de jantar fora com a família, por exemplo. Nunca se sabe se poderemos voltar para casa normalmente. E mais, devemos guardar o dinheiro, pois as coisas estão cada vez mais caras e devo planejar minhas economias para possíveis necessidades com a saúde e para a compra de alimentos. Por isso devo ficar em meu casulo e no meu bairro. E acrescenta: devemos pensar em guardar água potável, uma lâmpada a pilha e uma caixa de primeiros socorros. Quer dizer, todo o tempo nossa cabeça está ocupada com alguma coisa, sempre alerta. Por exemplo: se meu fiho, minha mulher ou irmã me chamar, eu devo estar pronto para lhes socorrer. Quanto aos deslocamentos, eu não saio de Beirute para ir ao norte, digamos, a Trípoli. Por quê? As estradas estão sempre engarrafadas, e se Beirute é bombardeada, como vou voltar? E também devo pensar em um abrigo alternativo em situações difíceis. Ainda bem que tenho parentes na montanha para estas situações”.
Este é o cenário que reflete as incertezas dos cidadãos libaneses. Aqui na velha Beirute, para suportar o encadeamento dos conflitos de uma realidade que angustia, há que se munir, para certos cidadãos, de um pragmatismo que seja eficaz para seu equilíbrio emocional. O sujeito então procura ações baseadas em crenças (ou teorias que lhe satisfaçam) que lhe apaziguem de imediato as angústias diárias.
Tenho conversado com um jovem proprietário de uma papelaria que me diz: “Eu moro neste bairro que é muito bom e seguro. Eu trabalho para ter um conforto mínimo para minha família e manter boas relações com meus vizinhos. Agora se “eles” querem fazer a guerra, que façam e aguentem as consequências. Eu não quero saber disso; eu quero minha tranquilidade aqui”.
Perguntei a ele se haveria perigo se eu fosse até certa cidade nas montanhas, cujo caminho atravessava regiões incertas. Diante de sua resposta negativa, lembrei dos bombardeios israelenses que aconteciam em meio a bairros populosos. Ele me responde: “Não, não há perigo, e se houver, os bombardeios israelenses são pontuais. Eles procuram alvejar combatentes do Hezbollah escondidos em apartamentos de edifícios. Então, se você estiver por perto, você não estará em perigo real, pois os foguetes irão mirar os locais lá em cima”!!!

“Não há perigo, os bombardeios de Israel são pontuais e visam somente os líderes do Hezbollah”!
Estes depoimentos que venho colhendo provocam as reflexões iniciais sobre os mecanismos utilizados que observo entre a população que escuto. Um projeto de vida que todo sujeito constrói está em suas metas o seu bem-estar psíquico. Nestas situações de crises sociais extremas, é vital para o sujeito a utilização, em suas políticas de vida, certos mecanismos sociais e mentais para se defender da angústia. Ideologias ou crenças, todas, incluem fantasias e recursos para se manter certo equilíbrio interno.
Entre os vários mecanismos que observo, a dissociação da realidade (tanto exterior como a interior) é um deles. Vive-se uma parte, enquanto a outra é negada. O pragmatismo diário de um sujeito pode englobar, entre outros mecanismos, o controle racional do campo social, a negação, o recalque da emoção, o isolamento e a anulação mágica do tempo – significando que o que aconteceu e o perturba torna-se como que não acontecido.
Jamil Zugueib Neto é professor doutor aposentado da Universidade Federal do Paraná. Dedica-se às pesquisas no campo da antropologia psicanalítica. Atualmente no Líbano
