Vizinhos que incomodam e trazem riscos

qui, 08/07/2010 - 10:37
Nos tempos atuais, para a cultura e o comércio, entre tantas e tantas atividades humanas, vale a pena lembrar a locução inaugural pronunciada pelo poeta palestino Mahmoud Darwish, em 3 de abril de 2003, na Cité du Livre de Aix-en-Provence, e publicada, em 14 de abril de 2003, pelo Al-Quds Al-Arabi (cotidiano árabe publicado em Londres) quando disse, que Deus o tenha:

“Há um tempo pára a poesia, em uma época de selvageria? Esta questão não é nova. A cada impasse humano, após cada catástrofe, a impotência da poesia para humanizar a História é questionada. Ouvimos ainda o grito de Adorno: “É ainda possível escrever um poema, após Auschwitz?”   Cabe-nos mais uma vez rememorar esta questão, hoje.”
De fato, quando lemos o que escreveu no openDemocracy tão recentemente quanto 11 de junho de 2010 o eminente professor Paul Rogers em artigo intitulado Israel versus Iran: the risk of war:

“O Irã está no centro de uma tempestade global, alvo de novas sanções, suspeitado por Washington, defendido por Brasil e Turquia. No entanto, a complexa diplomacia em volta de seu programa nuclear talvez acabe em decisões tomadas, não nos Estados Unidos, mas em Israel."
E, a seguir, somos obrigados a ouvir o Major-General Benjamin Gantz, subchefe do estado maior das forças armadas do estado sionista declarar ao Defense News:
"Israel não pode viver com contínuos picos de guerra. Assim sendo, temos que reduzi-los para níveis razoáveis. Iguais ao modo como vencemos o terror como resultado da [operação] Couraça Protetora (a operação militar na Margem Ocidental em 2002). Desta forma, permitimos ao nosso povo que viva razoavelmente em situação de emergência contínua até que a solucionemos, aí retornaremos novamente a uma situação melhor. Duvido que haja paz depois disto, mas pelo menos poderemos estender o tempo entre os picos. Através do atrito estratégico – uma rodada e depois outra rodada – criaremos uma situação na qual cada rodada trará piores resultados que a anterior e isto ao entrar e ao sair, por si mesmo, trará um formidável impedimento [para reação contrária]."

Cabe-nos suspeitar do que parece nos reservar o futuro próximo e rever mais uma vez as declarações do poeta palestino, do professor britânico e do soldado israelense. Aquilatarmos como a situação de dois países, nossos vizinhos, interferem no dia-a-dia de todos os nossos patrícios, onde quer que se encontrem, em nossas cidades e aldeias e na diáspora.
O Irã está situado no centro da diplomacia internacional e sofrendo uma vingança. Uma semana após a crise sobre o assalto de Israel a uma flotilha que se dirigia a Gaza em missão de ajuda humanitária, o Conselho de Segurança das Nações Unidas, em 9 de junho de 2010, adotou uma resolução impondo novo conjunto de sanções sobre o regime de Teerã, relacionado com seu programa nuclear. A liderança iraniana, de seu lado, está determinada como sempre a encarar aquilo que vê como uma injusta interferência em seus assuntos internos.

A balança de poder que reinou no sistema internacional desde o fim da Guerra Fria está sendo submetido a profundas fissuras. O acordo do Irã com o Brasil e Turquia, de 17 de maio de 2010, a respeito do tratamento de seu urânio enriquecido e as sanções que os Estados Unidos esperam (através de resolução das Nações Unidas) impor sobre o governo iraniano, revelam estas fissuras profundas. A mudança pode ser medida pelo modo como assuntos, tais como a proliferação nuclear, que usualmente estava confinada aos membros permanentes do Conselho de Segurança das Nações Unidas, agora têm países do hemisfério sul exercendo um papel importante. O Le Monde, de 19 de maio de 2010, no editorial: Nucléaire iranien: le Sud émergent veut sa place dans la négotiation (O nuclear iraniano: o sul emergente quer seu lugar na negociação), no qual o cotidiano francês chama a atenção para o fato de que o sul emergente já havia feito uma entrada retumbante na cena internacional com as questões do meio ambiente e do comércio e, agora, entra em terrenos que os grandes achavam ser de sua exclusiva competência. Os livros de História marcarão a data desta segunda-feira, 17 de maio de 2010, quando o Brasil e a Turquia propuseram à ONU um acordo negociado com o Irã a respeito do problema nuclear iraniano. Isto muda muitas coisas, qualquer que tenha sido ou venha a ser o resultado. A mensagem do presidente Luiz Inácio Lula da Silva e do Primeiro Ministro Recep Tayyip Erdogan é a seguinte:

“Não vamos deixá-los, em pleno 2010, conduzindo sozinhos a ordem internacional onde o peso das nações evolui a favor de países tais como os nossos.”

Brasil e Turquia querem claramente fazer parte do grupo apelidado de cinco mais um (os 5 membros do CS mais a Alemanha). Desconfiados, estes ouviram, mas tomaram a deliberação que entenderam, mas nem tanto quanto pretendiam os Estados Unidos, que tiveram que reduzir suas pretensões para poder contar com o semi-apoio de China e Rússia.
A desconfiança dos “grandes” tem algum fundamento, pois o acordo tripartite trata apenas de parte do nuclear iraniano e a suspeita é que os iranianos querem liberdade para atuar em todos os campos do nuclear, inclusive o militar, e estes não escondem isto.
Outro ponto de grande importância no cenário atual, relacionado com a preocupação de Israel com o programa nuclear do Irã é a influência iraniana sobre o Hizbullah. A este respeito, Robert G. Rabil, em artigo intitulado Hizbullah versus Israel: the coming clash (Hizbullah versus Israel: o próximo confronto), conclui:

“Mais especificamente, a estratégia iraniana – tal como incorporada pela dissuasão pelo terror do Hizbullah – é uma receita para uma conflagração regional. A este respeito, é loucura pensar que Israel ou cometa suicídio usando a força ou abandone a sua estratégia de defesa e aparente fraqueza. Eis porque um confronto entre Israel e o Hizbullah é inevitável.”

Se os planos israelenses e suas intenções para com o Irã são um componente de incerteza no panorama estratégico regional, não se pode ter certeza que Israel está se movimentando para atacar os complexos nucleares e de mísseis iranianos. Israel, e isto é fácil de entender, não dispõe de meios para atingir o Irã sem criar mais atritos e reprovações através da região e do mundo e nem tampouco pode contar com qualquer tipo de ajuda necessária para realização de tal tarefa.

Daí ser possível um ataque ao Líbano, com todas as implicações que isto poderá trazer.
É esperar para ver, mas pelo que andei assuntando em minha última viagem ao Oriente Árabe, é lamentável que isto aconteça, pelas vítimas inocentes que gerará.