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Você está em:Home»Blog»Gharib: lar e diáspora na obra de Asmahen Jaloul, por Aycha Sleiman
Blog

Gharib: lar e diáspora na obra de Asmahen Jaloul, por Aycha Sleiman

Leia a análise de Aycha Sleiman, estudante de Relações Internacionais, comunicadora da editora Tabla e fundadora do projeto Desorientese.

Retire da tela teu imaginário inchado de filho de imigrante e sereno perambule e perambule [desassossegado e perambule agarrado e desgarrado [perambule e perambule e perambule e perambule.

Perambule

  • eis o único dote que as fatalidades te oferecem.

Perambule

  • as divindades te dotam deste único talento.

Trecho de Tarifa de embarque, de Waly Salomão

Em certa ocasião, pedi à tradutora Jemima Alves que escolhesse uma palavra da língua árabe que lhe fosse especial. Alguns dias mais tarde, Jemima retorna: gharib, significando “estranho, estrangeiro, alheio, misterioso, maravilhoso”. E mais: “extraordinário, sobrenatural, confuso, incompreensível, excêntrico, absurdo, grotesco, extravagante […].”É a partir do estranho-estrangeiro-maravilhoso que penso a obra de Asmahen Jaloul.

Em suas telas, vislumbres do mundo doméstico — por ela entendido como não-lugar, um limiar, vórtice, espaço atravessado pela tensão advinda da simultaneidade de estranhamento e aproximação. Aos olhos dos que pertencem, as cenas podem parecer corriqueiras; contudo, aos desgarrados da diáspora, deixam entrever algo distinto: o encontro, impossivelmente real, entre dois mundos

Nascida na baixada fluminense, filha de um imigrante libanês e de mãe brasileira, Asmahen teve contato com a arte ainda criança, no ateliê de uma conhecida da família. Entre argila, cerâmica e pintura, Jaloul descobriu a arte como forma de ver (e viver) a vida. Com olhos tingidos pela nostalgia e mergulhados no anseio pelo que nunca foi vivido — este, apropriado através das fitas VHS e rolos de fotografia que chegavam de lá, entre fardos de pão e azeitonas — espiamos através de janelas abertas figuras familiares cujos movimentos diários são capturados com pinceladas enérgicas, em transbordamento de cores.

Em breve conversa por vídeo — as duas um pouco acanhadas, eu diria, diante da manifestação do gharib (pois o que poderíamos ser além da encarnação de nossa própria estrangeirice), Asmahen me conta que a predileção pela representação do espaço doméstico em sua obra se dá como mecanismo de apropriação do familiar; passou a pintar as mulheres ao seu redor como forma de se sentir pertencente. Muitas de suas pinturas são a transição para a  tela de fotografias feitas ao longo dos anos por sua família. Ao pintá-las, antropofagiza-as. Canibaliza a imagem e por ela é consumida.

Na tela, o resultado.

Apesar de partir do pessoal, inevitavelmente toca a memória coletiva: as cadeiras entre laranjeiras, oliveiras e pés de romã — o cheiro avassalador do “jasmim numa noite de junho”[a], o árabe que escorre dos lábios e que vira ruído branco em nossos ouvidos infantis, sob o olhar entre terno e dilacerado da avó que sabe que a despedida não tardará.

Ela descreve seu processo de criação como “intuição consciente” e seu método artístico como “pesquisa poética”. A cada pincelada, um verso, a cada obra, um poetar. Parte de registros que o pai trouxe do Líbano, mas realiza um novo mergulho, trazendo novos focos, recortes e cometendo pequenas intervenções. Por vezes, suas obras contam com aparatos como molduras de janelas abandonadas, com as quais se depara em suas andanças. Aproxima-se, leva para casa, imagina para onde irão se abrir. Convive com o objeto por semanas, às vezes meses, travam conversas silenciosas. Surgem questões: que sentimentos e memórias vêm à tona? Como a imagem conversa com o objeto? Assim, novas paisagens se fixam entre seus limites.

Um novo mundo foi desvendado na graduação em Pintura na Universidade Federal do Rio Janeiro. Não fiquei surpresa ao consultar as anotações feitas durante nossa conversa e ver que, em suas palavras, a experiência foi de “estranhamento”. O mundo um tanto hermético da diáspora se encontrava com a pluralidade do mundo artístico.

Entre suas influências artísticas, elenca a obra de Dana Awartani — artista visual saudita de origem palestina, cujas instalações recuperam a tradição da arte islâmica e propõem uma reflexão a respeito do tempo, da memória, da dualidade entre construção e destruição. Outras referências são a imagética do cineasta iraniano Abbas Kiarostami e seu insólito encontro com a cadência ritmada do rap nacional.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Recentemente, a jovem artista teve a oportunidade de passar alguns meses em residência artística na França. Para Jaloul, a experiência no Norte Global foi uma maneira de alcançar locais inacessíveis. Apesar da colonialidade que rege as relações entre Europa, América Latina e Oriente Médio, sua estadia na França lhe permitiu ter contato com uma comunidade árabe em diáspora mais extensa, que se impõe no espaço e nos debates públicos de forma mais assertiva.

Ali, o sentimento que a atravessou foi o de “poder fazer parte”. Foi na França que Asmahen pôde entender o pertencimento como algo experienciado, e não como o cumprimento de pré-requisitos, como a manutenção mecânica de certas tradições.

Sua temporada na França resultou no documentário experimental Between here and there (2025), produzido a partir de registros que seu pai fez no Líbano em 1996 e entrevistas que conduziu em Paris com jovens da comunidade árabe. O documentário, exibido originalmente na exposição “Memórias em re/construção” na Galerie du Jour, em Paris, explora diferentes perspectivas em relação à imigração, imagem e memória.

Registro de Between here and there, de Asmahen Jaloul (2025)

Os registros nos permitem refletir sobre como a memória funciona na diáspora: se pode ser resistência, certamente não é retrato. É construída por esquecimentos, delírios cuidadosamente urdidos, outros tantos chiaroscuros involuntários; às vezes, é memória para o esquecimento, como o foi para Darwich. Muitas vezes, se apega no registro material de modo a desafiar o assombro causado pela ameaça de desvanecimento, percebida como a dissolução de si.

Asmahen não pinta apenas uma ressignificação do passado, mas principalmente de sua perpetuação no presente. Cada instante retratado é sempre-vivo. Em suas telas, a memória não é estática: é também o agora, e o depois.

[a]verso do poema “Uma noite que transborda do corpo”, de

Mahmud Darwich (Por que você deixou o cavalo sozinho? Tabla, 2025)

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