“A reinterpretação do islã pela Turquia pode trazer algo absolutamente revolucionário”

ter, 10/02/2009 - 01:00
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Icarabe: Você cita como um dos três pilares que sustentam o problema dos direitos humanos na região árabe a falta de educação na época do Império Otomano. O que quer dizer exatamente? Fouad Hamdan: Na época, quase não havia escolas. Se alguém quisesse aprender a ler e escrever, tinha que ter alguém em casa para lhe ensinar. Ou então iam até a mesquita. Ali, o aprendizado acontecia para que se pudesse entender o Corão. O único lugar em que havia algum tipo de educação era no Líbano, onde as minorias cristãs, com um status autônomo em relação aos otomanos, tinham escolas. Isso ocorria também na Palestina, em Jerusalém, onde havia escolas para os políticos. Muçulmanos endinheirados, ou então muçulmanos ilustrados, mandavam seus filhos a essas escolas. Na Líbia e na Argélia, após o fim do colonialismo da Itália e da França, havia apenas poucas centenas de pessoas educadas. Era um desastre. Tiveram que importar professores do Egito para ensinar árabe e estabelecer escolas. O analfabetismo então era enorme, e hoje ainda é muito ruim. Hoje, 50% das mulheres na região árabe não sabem ler nem escrever. O número para homens gira em torno de 30% e 40%. E as taxas hoje aumentam por causa da pobreza em massa e de países enormemente povoados, como o Sudão, o Iraque, o Egito, o Marrocos e a Argélia. A falta de educação significa automaticamente falta de desenvolvimento, conflitos, tensões e pobreza. É um circulo vicioso. Icarabe: Você também cita como um dos problemas da região a má interpretação do islã. Como se dá isso no campo dos direitos humanos? Hamdan: Após a colonização, muitos países árabes caminharam em direção à modernização e à secularização. Introduziu-se o socialismo, como fez o Egito. Na Síria e no Iraque, prevaleceu o Baath, partido influenciado pelo nasserismo. Outros foram mais além, como o Iêmen do Sul, que seguiu o caminho do comunismo. Todos esses regimes seculares falharam, pois eram profundamente antidemocráticos, oprimiam suas populações. Não tinham políticas inclusivas e estavam sempre envolvidos em guerras, entre si e seus vizinhos não-árabes. Economicamente, também fracassaram. A consequência dessas falhas, não apenas no âmbito interno, mas na luta contra Israel, foi que as pessoas se voltaram para o islã como a única ideologia que poderia resolver os problemas do dia-a-dia. Esse movimento sempre existiu, durante todo o século XX, mas era muito fraco. Nasser matou o líder da Irmandade Muçulmana nos anos 50. Ela foi destroçada, toda colocada em prisões e quase totalmente alienada. Nos anos 50 e 60, você raramente via uma mulher andando nas ruas com o véu no Egito. Hoje, todas usam. E isso acontece porque há toda uma gama de problemas que não foram resolvidos por Nasser, tampouco por seus sucessores. Icarabe: Você diz que a maioria das melhorias no campo dos direitos humanos vem trazida por pessoas que saem para estudar e voltam. Não há nenhuma referência interna que possa impulsionar os direitos humanos? O Hizbollah, por exemplo, ocupou áreas de assistência social que foram deixadas de lado pelo governo libanês. O mesmo fez o Hamas na Palestina... Hamdan: Isso é exato, mas veja... De fato, os grupos islâmicos florescem porque agem onde os outros falharam. O Fatah foi totalmente corrupto e não atendeu às expectativas da população palestina quando assinou o tratado com (Ytzhak) Rabin, em 1994. As consequências de Oslo levaram à explosão da Segunda Intifada, a toda a confusão que temos hoje. O Hamas parecia ser mais correto, não-corrupto. No Líbano, o Hizbollah é visto como o grupo que salvou os interesses da comunidade xiita, que lhe deu serviços sociais, hospitais e educação, e que conseguiu libertar o sul do Líbano da ocupação israelense, em maio de 2000, depois de 18 anos de resistência. Com a falha de todos os outros regimes, socialistas, nasseristas, batthistas, pensou-se que os islamitas resolveriam o problema das pessoas. Que seja então. Se você me perguntasse, ‘qual a posição dos ativistas de direitos humanos caso o Hamas ganhe a eleição na Palestina?’ . Diria ‘devem governar’. As pessoas escolheram. Posso não ser um apoiador da forma islâmica de viver a vida, mas devem governar o país pelos quatro anos para os quais foram eleitos. Em 1992, os islamitas venceram o primeiro turno das eleições na Argélia, mas o exército impediu que levassem o segundo turno e governassem o país. O resultado foi uma guerra civil. O que quero dizer é que nós, na região árabe, devemos passar por essas experiências. Como vamos saber, em quarenta anos, respeitar os direitos humanos e concordar em relação a regras básicas de como viver e trabalhar juntos politicamente sem nos matarmos uns aos outros? Como quer que instalemos instituições independentes, como judiciário, polícia, imprensa e eleições livres? Isso nunca é permitido, a experiência sempre é interrompida. Icarabe: E alternativas seculares de esquerda? Hamdan: Temos um lado negativo. Em regimes como na Tunísia e no Egito, caso qualquer partido político, movimento ou ativista comece a desafiar o governo politicamente e concorra a eleições, serão destroçados das maneiras mais sujas que se possa imaginar, de prisões a alegações de corrupção. Esses governos usam a luta contra os islamitas para acabar também com a oposição secular. A única coisa que cresce, contra a vontade dos governos, um movimento grande que não consegue ser controlado, é o aumento da criação de organizações de movimentos da sociedade civil e de organizações não-governamentais. Isso ocorre em todo o mundo árabe. Mas se uma dessas ONGs decide transformar-se em um partido e concorrer a eleições, será destruída. Não tem chance. Icarabe: Você apontou uma piora na questão dos direitos humanos nos últimos anos, em oposição a uma anterior melhora. Como isso ocorre? É um quadro geral ou há exceções? Hamdan: Os desenvolvimentos mais negativos hoje ocorrem no Egito, na Síria e ainda no Iraque, devido ao conflito que envolve guerra civil. No Sudão, está terrível. Na Argélia, ruim. Por outro lado, a situação está melhorando no Marrocos e na Arábia Saudita. O Líbano está, digamos, estável. A Palestina está piorando. E aqui falo dos territórios ocupados. E não por causa dos abusos dos direitos humanos pelos israelenses. Os abusos cometidos pelos israelenses continuam os mesmos, não mudou, é sempre algo ruim (A entrevista foi concedida em meados de dezembro de 2008, ainda antes dos mais recentes ataques à Gaza). Nos últimos dois anos, a situação foi por água abaixo porque os palestinos os violam entre si. Pela primeira vez na história do conflito, você tem prisioneiros políticos palestinos em prisões palestinas, em Gaza e na Cisjordânia. Em Gaza, pegam membros do Fatah e os colocam na prisão, e na Cisjordânia prendem membros do Hamas. É inacreditável. Uma das ONGs que estamos apoiando na Cisjordânia documenta abusos da Autoridade Palestina sobre palestinos. Icarabe: O que está melhorando no Marrocos? Hamdan: O novo rei embarcou num processo de modernizar o país. Um processo de desenvolvimento econômico, investindo na construção de casas baratas para os pobres e na criação de empregos, com microprojetos em vários lugares. Os marroquinos alegam que conquistaram muito. Não sei se posso acreditar nas estatísticas do governo. Estatísticas internacionais dizem que a pobreza e a educação não estão melhorando. O analfabetismo aumenta por causa do crescimento da população. Pode-se dizer que a melhora é política. A opressão às pessoas no Marrocos diminuiu drasticamente. Não há quase mais prisões, torturas e desaparecimentos. Isso está acabado. O Marrocos é o único país na região árabe que tem uma verdadeira comissão de Reconciliação estabelecida pelo rei para discutir os abusos de direitos humanos cometidos durante o reinado de seu pai, Hasan II. É fantástico. Ainda há muitos problemas, mas já é alguma coisa. Icarabe: E o que melhorou na Arábia Saudita? Percebe-se que o maior problema por lá está relacionado aos direitos das mulheres... Hamdan: As mulheres sauditas receberam alguns direitos nos últimos anos, como poder trabalhar cada vez mais em espaços públicos e ir até um hotel e alugar um quarto desacompanhadas. 40% dos negócios hoje na Arábia Saudita são conduzidos por mulheres. Há associações de negócios de mulheres no país, o que antes era proibido. Há um debate hoje no país para permitir que as mulheres possam casar-se com estrangeiros sem ter que pedir permissão ao governo ou à família. Nos próximos anos, será permitido às mulheres dirigir. Icarabe: E como são os movimentos de direitos humanos no país? Hamdan: Não há movimentos ou ONGs na Arábia Saudita. Na verdade, há entidades que são chamadas ONGs, mas não são, pois foram estabelecidas pelo governo. Icarabe: Estabelecidas pelo governo? Hamdan: Sim. Mas segure sua respiração! Sua primeira reação seria dizer, ‘então não vale nada’. No entanto, as autoridades estabeleceram essas “ONGs” para que as pessoas pudessem reclamar de abusos das autoridades, da polícia religiosa, do juiz, das instituições do governo. No começo, as pessoas não acreditaram, mas hoje você abre um jornal na Arábia Saudita e vê todos os dias casos de reclamações. Isso não acontecia. Hoje, as pessoas discutem temas para resolvê-los de uma forma construtiva. O governo fez isso porque quer promover uma mudança a partir de dentro, mas muito lentamente. Dão-se dois passos para frente e um para trás. Essas ONGs são como caixas de reclamações do povo, que colocam pressão no judiciário, na polícia, na polícia religiosa, para que respeitem os direitos humanos. É uma mudança controlada e sancionada pelo governo. Icarabe: Mas partem em alguma medida de pressões da população saudita... Hamdan: De parte da sociedade que não deseja mais aceitar o atraso. De mulheres sauditas que falam diversas línguas, são mais bem educadas do que muitos homens, mas voltam a um país de Idade Média. Na Arábia Saudita, muitos deixam o país, outros caem em depressão. O país tem enormes problemas de drogas, álcool e depressão. A quantidade de drogas, álcool e psicotrópicos, como Prozac, consumida na região árabe é alta, mas é especialmente alta na Arábia Saudita. A taxa de suicídios de mulheres também é alta. Icarabe: Como é a situação nos países do Golfo? O desenvolvimento econômico que países como os Emirados Árabes têm é refletido na sociedade? Hamdan: Os Emirados Árabes não têm democracia, não há constituição, não há eleições e o judiciário não é independente. No Bahrein e Kuwait, há, relativamente, eleições livres. Nesses países, existe um parlamento e o governo recebe críticas. Há uma mídia e ONGs muito presentes. Nos Emirados, não há nada. Eles têm uma das piores agendas de direitos humanos do mundo por causa dos abusos sobre trabalhadores imigrantes. Icarabe: Estranho, pois a imagem que chega até nós através de diversos cadernos de turismo é a de que Dubai (uma das cidades dos Emirados), hoje, é um paraíso para turistas... Hamdan: Esse desenvolvimento é conseguido às custas dos direitos humanos e da saúde de milhares de trabalhadores imigrantes que trabalham como escravos sob condições inviáveis, pessoas da Índia, do Paquistão e da Indonésia. Icarabe: Dentro de Israel, que tipo de trabalho é feito? Hamdan: Somos a única fundação árabe que realiza um trabalho dentro de Israel. Outras fundações árabes não o fazem. Pensam que estão trabalhando para os israelenses. Como fundação árabe de direitos humanos, quebramos três tabus: fomos a primeira fundação a apoiar ONGs nos países árabes, apoiamos ONGs palestinas dentro de Israel, nas fronteiras de 1948, e apoiamos grupos gays. Icarabe: Um outro problema na região... Hamdan: A única organização conhecida que trabalha a questão dos gays está dentro do Líbano. É um tabu enorme. É ilegal. Mesmo no Líbano é ilegal ser gay ou organizar manifestações a favor dos homossexuais. Vai para a prisão. No entanto, centenas de pessoas pararam de ter medo das autoridades, que não podiam mais prender todas essas pessoas. Hoje, temos uma lei que não é levada a cabo, mas ainda existe. Esse grupo trabalha para derrubar a lei, o que seria um precedente importantíssimo para a região árabe. Icarabe: Como é o trabalho em Gaza? Algumas pessoas a comparam a campos de concentração.(*a pergunta foi feita antes dos ataques de janeiro de 2009. Logo abaixo, está uma pergunta complementar que fiz no início de fevereiro.) Hamdan: Estive na Cisjordânia em agosto, mas não fui à Gaza. Se tentar ir até lá, não sabe se entra. Se entrar, não sabe se sai. É estressante desse modo. Com o governo do Hamas, é difícil fazer qualquer trabalho. Tivemos inúmeros pedidos de ajuda vindos da Faixa de Gaza, mas nenhum deles era bom. Alguns eram OK, mas não tínhamos dinheiro suficiente para dar a eles, então demos a projetos melhores em outros países árabes, na Cisjordânia e no norte de Israel. Mas a situação é como você disse, não tenho o que adicionar, é um campo de concentração. É horrível o que acontece, os israelenses estão fazendo algo que é intolerável e os palestinos estão tão divididos que não conseguem lutar para que a situação mude. *Icarabe: Você disse em dezembro que não havia sequer um bom projeto em Gaza. O que quis dizer exatamente? E à luz desses novos ataques ao território, o Fundo não consideraria direcionar alguma verba para a população de Gaza? Hamdan: Não havíamos recebido nenhuma proposta que houvesse atingido nossos critérios, impacto sustentável de longo prazo na questão dos direitos humanos, mas iremos aconselhar um grupo em desenvolver uma boa proposta em 2009. Não apoiamos ajuda de alívio ou caridade, mas apenas projetos de ONGs sobre direitos humanos. Esse é nosso mandato. Precisamos nos focar já que não podemos lidar com todos os problemas da região. Icarabe: Vocês lidam com o problema da falta de direitos dos palestinos em outros países árabes? Você é a favor de dar-lhes cidadania em países árabes, por exemplo? Hamdan: Politicamente, é complicado integrá-los, pois pode diluir a causa. Em primeiro lugar, eles não querem, e politicamente não é bom. O que devia ser feito é dar a palestinos no Líbano ou em outros países árabes seus direitos civis, para que possam trabalhar, ter educação, cuidados de saúde, e assim continuar a lutar por sua causa não sendo cidadãos de segunda classe. Se fosse dada a eles essa opção, de trabalhar e viver cm dignidade, não pediriam a cidadania. Agora, discriminá-los, mantê-los na pobreza e na miséria, isso é inaceitável. Icarabe: Falando da pobreza, como é a distribuição de renda de uma forma geral nos países árabes? Hamdan: Os países, em geral, são extremamente capitalistas. Dizem que caminham em direção à liberalização, a mercados livres e abertos, a investimento livre sem controle do Estado. Mas como? Eles não mentem, mas em países como Egito, Líbano e Síria estes fatores são acompanhados por corrupção massiva e uma economia baseada em monopólios. Os políticos e governantes dão a seus amigos e membros de família companhias e negócios, vendem a preços baratos concessões de telefonia celular e eletricidade. É a ditadura de poucos no campo econômico. Isso é ruim para a economia. Não é bom para criar empregos e nem é sustentável. Icarabe: Você enxerga um caminho que leve a melhoras? Hamdan: Há vários fatores que acredito que possam levar a algo positivo. Em primeiro, a política islâmica está falhando, especialmente quando interpretam a religião de uma forma desatualizada. Um exemplo positivo é o grupo governando a Turquia. É religioso, mas aceita o secularismo. Não se pode confiar neles completamente, pois ainda há muitos problemas. O modo como o governo acaba com a minoria curda é inacreditável. Há, no entanto, eleições, imprensa e judiciário livres. Há fortes movimentos seculares que estão em constante confronto com movimentos muçulmanos, mas de uma forma pacífica. Eles se relacionam em uma disputa democrática. É possível vê-los caminhando numa direção interessante. O governo turco montou um comitê para reinterpretar o islã e todas as regras islâmicas em parâmetros do século XXI. Eles trarão algo absolutamente revolucionário. Pode ser algo comparável ao impacto do que fez Martinho Lutero quando desafiou a Igreja Católica e reformou a cristandade. Apesar de vir de fora do mundo árabe, teria um enorme impacto no seu interior.