Passagens por tempos e lugares da cultura árabe

ter, 17/07/2007 - 00:00
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A nova edição da revista Tiraz ganhou vida própria e acabou por ter poucos artigos de literatura. Michel Sleiman, diretor da publicação, explica: “Não é o que as pessoas querem saber sobre o mundo árabe hoje. Embora queiram saber também sobre literatura, querem saber sobre política, religião, língua, filosofia, história, arte”.

O que segue nas linhas abaixo é uma conversa sobre a cultura árabe, em diversas de suas formas, em várias de suas manifestações, em muitos de seus debates, contradições e construções. A entrevista com o professor de Literatura Árabe da USP e secretário-geral deste Icarabe, Michel Sleiman, foi guiada pela mais nova edição da revista acadêmica Tiraz, uma publicação do Programa de Pós-Graduação de Letras Árabes da USP, mas estendeu-se e encontrou caminhos que levaram a debates atuais da história e da cultura árabe. Desde a dinâmica da língua até a vida dos árabe-muçulmanos da Espanha do século XVI, católicos ao público – deviam isso à perseguição da Inquisição – mas muçulmanos no interior de suas casas. Nas palavras de Sleiman, a Tiraz é “uma iniciativa que tenta trazer e divulgar, através dos estudos que se desenvolvem na Academia, debates importantes das Letras e da Cultura”. Icarabe: Como foi estruturada a última edição da revista Tiraz? Quais são seus destaques?

Michel Sleiman: A seção Artigos traz seis textos divididos em dois focos temáticos. Um deles, “A diglossia nas comunidades árabes”, fala da situação diglóssica da língua árabe, de como as comunidades árabes lidam com o fato de terem que usar a língua padrão erudita ao mesmo tempo em que são falantes de dialetos. Cada localidade tem um dialeto. Em determinados países, como no Egito, há vários dialetos árabes, um mais aceito como padrão e outros que ficam na região do baixo Nilo, que são outras variações dialetais do árabe. O artigo procura lançar um olhar sobre como acontece essa diglossia, uma situação em que uma língua se desdobra em um registro alto, elevado, até chegar a um nível mais baixo. I: Esses estudos devem trazer dificuldades imensas, pois a diferença entre os “árabes” falados deve ser grande? M: Por um lado, há uma questão no âmbito interno dos países. Peguemos o caso da Síria. Como qualquer outro país árabe, ali há um dialeto árabe, que é a língua espontânea de todos, usada no interior das casas. Este dialeto tem uma gramática implícita, que só recentemente começa a ser descrita, mas que já existe. Os falantes obedecem a certas regras que estão neles internalizadas. Então, dentro de um país como a Síria, você tem todos falando o mesmo dialeto. Agora, todo mundo em que situação? Numa situação familiar, no âmbito da casa, no trato com os amigos. No entanto, o sujeito que tem um certo nível de estudo médio, quando trata com um servente da casa ou do trabalho, tenta usar o dialeto em um nível mais baixo. Quando trata com uma pessoa numa loja ou órgão público, lugar que requer um certo distanciamento, uma postura formal, ele automaticamente sai do nível baixo do dialeto e emprega a língua num módulo virtual, que não aquela língua do Alcorão, da alta literatura árabe. É uma língua padrão, que não é do Alcorão, pois existiu uma modernização, mas que também não implica em rompimento com o árabe clássico. Esse caminho do baixo para o médio árabe é que chamamos de diglossia, pois o dialeto não está tão distanciado que não possa se aproximar do árabe padrão, árabe clássico ou literário. O que possibilita esse trânsito é o fato de as pessoas dominarem um árabe elevado. I: A diferença é marcante entre as classe sociais dentro dos países árabes? M: Não sei como está hoje a situação das escolas, mas, 20 anos atrás, quem tinha escola média tinha um bom nível de escolaridade. No mundo árabe, nos países onde há trânsito cultural forte, pelo menos havia, como no Iraque, Síria, Líbano e Egito, no Marrocos talvez, era comum haver esse trânsito, isso acontecia. Mas quando a pessoa tem acesso ao árabe padrão, ela faz esse trânsito. Mesmo pessoas que têm pouco estudo, quando vão dar uma entrevista na televisão, procuram usar uma ou outra palavra que ela conhece do clássico para marcar que ela saiu daquela situação natural e espontânea da língua, e que ela precisa produzir uma língua mais oficial. I: Como funciona a diglossia entre os países árabes? M: Nesse caso, se cada um se mantiver no seu dialeto, haverá muita dificuldade para acontecer a comunicação. Se ambos saírem de seu dialeto e irem em direção ao árabe padrão, aí vão se entender. A diglossia permite sair de um árabe natural e entrar em um árabe artificial, virtualmente existente. Como nenhum país fala o árabe padrão como língua natural, pois foi feito para ser escrito, a diglossia transita sempre, não é estável, não é fixa. I: O árabe que se fala na Arábia Saudita se aproxima desse árabe padrão? M: Não. Isso é um mito, de que o árabe da península ou do golfo sejam árabes melhores. Não, não são. São dialetos, tanto quanto outros. Agora, segundo a bibliografia, eles teriam um número de palavras mais próximo ao árabe que deu origem ao que é hoje considerado o árabe clássico. Isso porque o árabe que está no Alcorão, considerado base e padrão, é o árabe que era mais próximo daquele usado pelas populações da península, em torno de Meca. Agora, quando alguém da Arábia Saudita se põe a falar rápido, marcando o dialeto, ele usa um dialeto tão incompreensível quanto um sírio. É um dialeto muito específico. I: Há outros artigos que dêem destaque à discussões sobre a língua? M: Há um texto, “Na contramão dos cristãos – a literatura mourisco aljameada na Espanha”. Fala de como o árabe permaneceu entre os mouriscos da Espanha e Portugal, nos séculos XVI e XVII, quando as populações muçulmanas desses países se viram forçadas, até pela Inquisição, à conversão ao cristianismo. Conversos por fora, mas em suas casas cultivavam a língua árabe. As festividades eram islâmicas, o calendário de festas religiosas era islâmico. Então, existe uma literatura que é considerada, até pela autora que trata a questão, Luce Lopez Baralt, secreta no sentido de que não era para ser compreendida pela maioria. Eles escreviam em castelhano, que era língua que usavam, já que estavam inseridos no contexto da Espanha. Isso na época em que a Espanha estava no esplendor de sua cultura, que é o momento do Barroco, o chamado século de ouro. A língua da cultura, para você se inserir socialmente, politicamente e ter uma figura mínima de cidadania, era o espanhol. Não era diferente para esses mouriscos. E, no entanto, como eles veiculavam em seus escritos a cultura islâmica, que era perseguida pelos inquisidores do Santo Ofício, eles precisavam disfarçar, e o jeito encontrado foi escrever o castelhano com letras árabes I: Alguns desses muçulmanos vieram ao Brasil? M: Há uma leva considerável. Usamos o termo cristãos-novos para judeus conversos e podemos usar também os termos cristão-novo ou mourisco para o árabe-muçulmano da Espanha. O mourisco seria exatamente o sinônimo, o equivalente para aquele convertido muçulmano. Há referências de pessoas ligadas à Inquisição e ao governo real da Espanha sugerindo sua deportação para as terras do novo continente. Segundo a autora, que estuda literatura espanhola e nos últimos 20 anos se dedica à literatura aljameada, essa literatura deveria entrar no cânone da literatura espanhola, pois são poetas, romancistas, escritores e narradores que interagem, inclusive com outros escritores espanhóis e dão uma outra visão da Espanha, que ela chama de uma Espanha às avessas, que vai na contramão da visão oficial da Espanha cristã. Mostra, por exemplo, que as pessoas da Inquisição são cachorros famintos e raivosos, enquanto os outros escritores da época falavam bem da Igreja, eram amigos, digamos assim, do status quo da época. I: Há algum artigo que fale da literatura árabe? M: Traduzimos o texto de um estudioso alemão, Hermann Zotenberg, que foi escrito imediatamente após a publicação, de Antoine Galland, da tradução das “Mil e Uma Noites”. Ele faz um estudo sobre essa tradução, um estudo grande. Está cheio de citações em árabe, é um grande humanista. É um texto importante e, como estamos lendo “As Mil e uma Noites” pela primeira vez do árabe para o português, é interessante voltar o foco para quando surgiram “As Mil e Uma Noites” na cultura ocidental. I: É a versão mais conhecida, apesar de não ser a melhor tradução... M: Eu gosto. O Mamede (Jarouche, tradutor da primeira versão das “Mil e Uma Noites” direto do árabe para o português) mesmo disse que todo mundo critica esta tradução, mas todo mundo lê. Claro que há uma diferença enorme entre a do Galland e a do Jarouche, mas elas têm o seu charme cada uma. A do Jarouche não seria reconhecida no século XVIII e nem a do Galland no século XXI. As traduções são fruto da época, não interessa a época do texto que foi traduzido, mas o texto da época da tradução, que é o que ficou. Se traduzo hoje, escrevo para você ler, e não para o cara do século XIX ler. Ela é sempre produto do tempo. I: Como estão os estudos árabes hoje no Brasil? M: No Brasil ainda temos pouca coisa. Se você pensar em dois focos, temos a Universidade de São Paulo e a Federal do Rio de Janeiro. Agora, que tenha um programa de pós-graduação e que esteja desenvolvendo pesquisa, só São Paulo. Fora isso, existem iniciativas pulverizadas. Em termos de pesquisa, ainda há pouco, mas existe o interesse que pode ser medido pelo mercado editorial, pela tradução de obras do mundo árabe. Se você pegar de dez anos para cá, houve um salto. Era um nada e veio a ser alguma coisa. Do ponto de vista estrangeiro, existe hoje um interesse dúbio. Há, como sempre houve, estudos árabes nas principais universidades européias, agora, isto está acompanhado, segundo depoimento de um colega de fora, de uma certa desconfiança e uma má-vontade em relação ao islã, ao árabe em função do 11 de setembro. As pessoas amam e odeiam. Há um certo desconforto e duvido que alguém apareça na mídia, encha a boca para dizer ‘sou pesquisador em árabe’. Mas o interesse é dúbio. O mundo oriental, de um modo geral, e o islâmico, em particular, ainda exercem algum fascínio nas pessoas. Normalmente, o mundo oriental, incluindo o Extremo Oriente, está associado à espiritualidade. Hoje, já noto a seguinte atitude de estranhamento: ‘espera aí, o islamismo tem coisas espirituais?’. Hoje você escuta isso. ‘Não é só morte, batalha? Não é só guerra?’. Isso sim mudou para pior. A imagem que se tinha do mundo árabe era a da sabedoria, da esperteza, da sensualidade, e quando se falava em sabedoria, é aquela que roça o filosófico, o espiritual. Hoje já começa a se estranhar, ‘existe também isso?’. É uma idéia bem belicizada. Começamos o século XXI com isso. I: Que tipo de dificuldades isso traz para quem organiza uma publicação como a Tiraz? M: Acho que as revistas espelham o que está acontecendo no mundo. É curioso, por exemplo, que até o terceiro número nunca houve mais do que um artigo de literatura na Tiraz. Não é curioso que uma revista editada por um curso de Letras não fale muito de literatura? Isso porque não é o que as pessoas querem saber sobre o mundo árabe hoje. Embora as pessoas queiram saber também sobre literatura, elas querem saber sobre a política, a religião, a língua, a filosofia, a história, a arte. I: Se pudesse indicar um assunto central para um artigo de literatura árabe, qual seria? M: Talvez o mais interessante da literatura árabe hoje é que ela não é árabe. Insisto nesse ponto. A literatura árabe contemporânea é uma literatura que, traduzida, não deixa a possibilidade de que seja percebida sua origem, pois estamos num mundo cada vez mais desterritorializado. As pessoas estão conectadas no mundo inteiro, na mesma hora, e as questões são cada vez mais as mesmas.