Entrevista Especial com Ab’Sáber: a trajetória de sua família

ter, 13/03/2012 - 16:36

Na segunda parte da entrevista realizada pelo ICArabe com o Professor Aziz Ab’Sáber, nosso Presidente de Honra, você vai conhecer  a trajetória de sua família, suas dificuldades, viagens, e conquistas e como todos esses feitos o tornaram o grande estudioso de hoje.

Carinho por sua história, gratidão e amor por suas raízes. Estes sentimentos permearam cada momento da entrevista que o ICArabe realizou com o Professor Aziz.

Sua família vivia em Cafaras (aldeias) localizadas nas regiões agrícolas do Líbano. Impulsionado pelo convite de Dom Pedro II a todos os libaneses para morarem no Brasil, o avô de Aziz e seu tio Nagib viram no país a oportunidade de crescimento e migraram para o Ocidente.

Nacib José Ab’Sáber, pai de Aziz, ficou com sua família no Líbano, que, na época, passava por grandes conflitos religiosos e econômicos. Sempre muito trabalhador, exercia funções no mercadão de Beirute, onde aprendeu diversos ofícios, para ajudar sua família.

Muitos anos depois, preocupada com seu marido, sua avó decidiu mandar Nacib ao Brasil para trazê-lo de volta. “A razão para isto é muito curiosa, minha avó ficou preocupada que meu avô demorasse a voltar e conhecesse outra mulher no Brasil”, relata Aziz.

Em 1911, ‘Nacibinho’, como refere-se Aziz ao seu pai de forma carinhosa, partiu rumo ao Brasil. Partiu sem nada saber, sem conhecer a geografia do país que o esperava, a língua de origem da nova terra. Viajou por dias em um navio, trabalhando durante a viagem até chegar ao porto do Rio de Janeiro.

A única coisa que sabia é que precisava ir a São Luís do Paraitinga, cidade escolhida por seu pai para viver. “Por razões que desconheço, meu avô escolheu esta pequena cidade para morar”. Ainda no porto, Nacib começou a procurar por um rosto árabe, “Os árabes se reconheciam apenas pela sua fisionomia, era possível reconhecer pela pele amorenada e olhos amendoados”, explica o Professor Aziz. Seu avô conseguiu a informação que precisava e seguiu de trem até Taubaté, para depois pegar carona com tropeiros e seguir até São Luís do Paraitinga. No percurso, passou fome por não conhecer a língua do país e ter dificuldades para se comunicar

A busca na pequena cidade não foi longa: logo Nacib encontrou seu irmão Nagib, que o levou até o encontro de seu pai. Nagib decidiu permanecer na cidade, onde já havia montado um pequeno comércio. Nacib e seu pai partiram de volta ao Líbano.

Ao chegar ao seu país, Nacibinho passou as ser visto como um pequeno herói; um garoto de apenas 15 anos, que nada conhecia, atravessou o oceano e trouxe seu pai de volta ao lar.

O Líbano continuava a passar por grandes conflitos e, em uma ida ao mercado de Beirute, juntamente com sua mãe, um militante religioso apontou uma arma à cabeça de Nacib, mas acabou desistindo de disparar. O episódio foi vital para que sua mãe decidisse enviá-lo de volta ao Brasil, terra que seu marido tanto maravilhava.

Em 1913, desta vez pelo porto de Santos, Nacib chegou ao Brasil e foi direto ao encontro de seu irmão Nagib, que agora trabalhava na construção de uma barragem em Sorocaba, após seu pequeno comércio não conseguir sobreviver diante da concorrência da cidade. Nagib estava com a saúde muito debilitada, e foi obrigado a parar suas atividades. Juntamente com Nacib, mudou-se para o Tatuapé, em São Paulo. Na capital, com problemas renais graves, viu-se obrigado a operar para a retirada de um rim e Nacib passou a trabalhar em uma madeireira para poder sustentá-los. “Pela vida difícil que estavam levando, resolveram retornar a São Luís do Paraitinga, cidade que já conheciam bem.”

Nacib passou a trabalhar como mascate, comprava objetos em Taubaté e revendia em São Luís do Paraitinga. Passava o dia vendendo seus utensílios de porta em porta. Em um dia de trabalho comum, em uma das tantas portas que cruzavam seu dia-a-dia, conheceu a brasileira Juventina Maria de Jesus, com quem se casou aos 21 anos de idade. Em seguida, passou do serviço de mascate para comerciante, possuindo seu próprio comércio.

Nacib José Ab’Sáber era católico apostólico romano e Juventina Maria de Jesus era católica, em uma longa e cansativa viagem até Nossa Senhora Aparecida, a primeira filha do casal faleceu no caminho, sua pouca idade não agüentou a viagem. Dois anos mais tarde, em 1924, nasceu Aziz, o mais velho dos irmãos: Iusf e Luís, hoje já falecidos.

No ano de 1930, quando Aziz tinha 6 anos, seu pai Nacib decidiu vender todos seus bens e mudar-se, com sua família, para Caçapava, cidade que julgava ser um melhor lugar para viver. Antes de instalar-se na cidade, Nacib resolveu levar toda sua família para uma viagem a Ubatuba para conhecerem o mar, principalmente sua mulher. Foram dias de viagem, esta que futuramente inspirou Aziz a escrever “Ubatuba, a primeira vez que vi o mar”.

Em Caçapava, Aziz começou a frequentar o ensino primário. Anos mais tarde, para cursar o ginásio, viu-se obrigado a ir todos os dias até Taubaté, uma vez que em Caçapava não existia tal curso. Assim que o ginásio foi inaugurado na cidade, Ab’Sáber resolveu mudar seus estudos para lá. Os cursos eram lecionados pelos primeiros alunos formados pela Faculdade de Filosofia, Letras e Ciencias Humanas (FFLCH) da USP. Ele estudou com grandes professores, em especial a disciplina História. “O professor ensinava a história em cima do espaço geográfico”. Nascia ali a paixão de Aziz por História e Geografia.

Assim que finalizou os estudos no ginásio, decidiu trilhar um novo caminho, ir atrás de seus desejos e, em novembro de 1939, com mais dois amigos, partiu para São Paulo para prestar vestibular na USP, instituição que marcaria sua trajetória.

Na próxima semana, a série com mais depoimentos de Aziz Ab´Sáber continuará a ser publicada em nosso site. Acompanhe.