Finalizando seus trabalhos com ex-combatentes da guerra civil, Jamil Jamil Zugueib, doutor em Psicologia, registra suas impressões sobre este período e o atual cenário no Líbano.
Os percursos de um pesquisador brasileiro nas terras de suas origens
Eu ainda não encontrei uma faísca de um sentimento nacionalista: tudo é questão de comunidades, de ódios e de religiões. Eu li o livro de missa maronita outro dia. A oração de ser salvo de uma efusão de sangue me pareceu ter um sentido particular nesse país de massacres… E, no entanto, é um país magnífico.”
Freya Stark (1893-1993) que percorreu o O. Médio em dorso de camelo, se referindo ao Líbano em “Cartas da Síria”
Finalizando meus trabalhos com ex-combatentes da guerra civil, quero deixar minhas impressões sobre este período. Mas antes quero escrever algumas linhas para registrar o que se passa atualmente no sul do Líbano.
A mais de um mês da assinatura do acordo de cessar fogo com o Líbano, as forças invasoras de Israel intensificam suas demolições das infraestruturas nas aldeias do Sul. Desde dois de março, o número de mortes ultrapassa 4.000 cidadãos e mais de um milhão de refugiados. Na noite do dia 26 de julho, os soldados demoliram dezenas de casas, arrasando bairros inteiros na região de Marjayoun. O objetivo é dar continuidade à sua limpeza mortífera, sem se importar com palavras escritas em acordos. Como sabemos, toda a área de 10 km de sua fronteira será arrasada paulatinamente e, com o fósforo branco, o solo perderá sua capacidade de germinação. Enquanto as casas são bombardeadas, os habitantes recebem avisos de que não devem retornar. É chocante para mim imaginar esta cena de expulsão, com o exército libanês nas imediações obrigado a aguardar humildemente o momento de ocupar partes destas cidades. Junto com Gaza, é inominável o grau de violência que Israel perpetra. Está sendo programada a criação de jacarés no fosso de uma prisão, logicamente para palestinos. Judeus radicais cospem em cristãos, outros cantam hinos em casas invadidas na Cisjordânia. Começo a ter receios de que as trevas de Belzebu se anunciem no apocalipse que caberá ao Líbano. Membros de um grupo de colonos do movimento de “Uri Tzafon” já invadiram por alguns dias as terras da fronteira no Sul e suas vozes complementam-se com as declarações feitas pelo rabino Eliyahu Zini, que afirma em uma comissão parlamentar, segundo o jornal Haaretz, ser o Líbano parte da herança histórica do país sionista.
Fiz este recorte com a intenção de sublinhar a marcha da catátrofe que não para e que causa o assombro para um cidadão originário de um país, que apesar de suas contradiçoes e injustiças, é integrado, unificado, imaginado bom, bonito e amado por seus habitantes …
Retomando… A primeira observação, devo confessar, é não ter levado em conta a prudência nas interações sociais no Líbano, que eu recomendava em publicação anterior. (1) Nas reuniões sociais de grupos mistos, a cautela é um imperativo. Nunca se deve expor as opiniões políticas abertamente. As piadas e a galhofa, nesses momentos, devem ser escolhidas e nem todas devem ser ventiladas. A franqueza, ao se avaliar um impasse político, deve ser expressa em grupo restrito. Ser comedido em situações semelhantes é regra de sobrevivência.
Minhas atividades começaram com diálogos cujo entusiamo inicial não levou suficientemente em conta o peso do engajamento político-religioso de meus interlocutores nas tomadas de decisões na crise atual. Aos partidos cristãos mais radicais, quando apresentei minhas publicações anteriores (2) para comprovar minhas intenções de estudo sobre a memória da guerra civil e as disposições psíquicas atuais de ex-combatentes, o resultado foi inverso. Com desconfiança e deboche, fui considerado “amigo” de Nasrallah. Esses dois artigos eu estou enviando para a biblioteca do ICArabe, caso haja interesse do leitor em conhecê-los
Esses impasses serviram de alerta para os cuidados que eu deveria tomar. Após pensar e me informar melhor sobre a mobilização emocional que o assunto despertava, procurei outro grupo. E graças a um associado que já tinha morado em São Paulo, o caminho foi aberto. No encontro “senti” algo de uma identificação entre nós. O português falado nos aproximou, e depois de ele me falar dos bons tempos vividos no Brasil, ele se encarregou de convencer seus colegas. Pude então iniciar os encontros e conhecer, nos diálogos, a memória de fatos da guerra civil, a força da fé nas determinações políticas, na disposição de se viver sob um regime comunitarista. Fato notável foi observar que alguns usavam o rosário como colar por baixo da camisa e quando se referiam a Jesus, se referiam como o “meu senhor”. Estes sujeitos pertenciam ao nó duro da identificação comunitária, e assumiam como sua missão a defesa do cristianismo no Oriente Médio, como tinha pedido o Papa Leão XIV, quando visitou o Líbano em 2025
Ao mesmo tempo procurava momentos oportunos para me deslocar às cidades do Sul de Beirute, como o bairro Dahye, que recorrentemente é bombardeado. Em outros dias me deslocava às belas montanhas do Chouf, onde reencontrei dois ex-combatentes drusos que entrevistei há 28 anos. Encontro de bastante satisfação, no qual o carinho contido e inesperado de suas recepções me deixaram bastante sensibilizado. Pensei mais tarde aqui comigo: “e esses são os homens perigosos que muitos libaneses desconfiam” ?. Ao mesmo tempo lembrei que um estudo no campo da etnologia deve ter como premissa durar no mínimo dois anos, como é consenso entre os antropólogos culturais. É um período necessário para que caiam as formalidades e os discursos de apresentação, para que se revelem os laços sociais, as interações e o jogo do poder que se tecem dentro da comunidade que se estuda. É necessário tecer a sociometria do grupo e revelar a radiografia que existe por trás das recepções de boas-vindas ao pesquisador estrangeiro. Tomava consciência neste caminho de que somente a psicologia social, que se ocupa dessas interações, não dão conta da complexidade da configuraçao comunitária libanesa.
E a cada fatia que eu visitava daquelas montanhas, era possível perceber um sentimento nacional compartilhado, mas com singularidades que os diferenciava entre uma e outra comunidade. E sempre o vetor principal do perfil sociocomunitário era sua tradição religiosa. Para meus deslocamentos era preciso consultar os noticiários de guerra e as ameças de Trump para o dia. Esporadicamente, um míssil poderia surgir em lugares inesperados, para bombardear algum apartamento onde se escondia um combatente do Hezbollah.
Percorrer um território com segurança exigia colher informações com antecedência. Sempre era preciso prestar atenção, estar alerta. Lembrei o que me contava um jovem comerciante: é muito difícil desenvolver uma atividade sólida e lucrativa se não prestarmos atenção ao apoio da comunidade. Somente sua vontade de trabalhar não basta, precisamos do apoio da assabya[i]. Desenvolvia minhas entrevistas e observava os comportamentos, quando me veio à consciência os jovens que entrevistei em uma pesquisa realizada com jovens libaneses xiitas em Foz do Iguaçu em 2012. Seus depoimentos agora ganhavam um realce muito marcante, e eu pude compreender o valor que eles davam à liberdade que tinham no Brasil. A maioria pertencia a famílias de imigrantes vindos depois da guerra civil, e muitos, originários do Sul, viveram o período do domínio israelense e também do da Síria.
Encerro aqui esta crônica de meus caminhos no Líbano, neste período de novos horrores, digo ultra-horrores orquestrados por Trump e Netanyahu. Seriam os dois os conquistadores do apocalipse, que fazendo a guerra trazem a morte. a fome e a humilhação.
É neste cenário que convivi e entrevistei nesses anos jovens e suas famílias que moraram neste ambiente incerto e pleno de surpresas mortíferas.
A esta fatalidade a que são submetidos os habitantes do Sul do Líbano alguns deles se insurgem contra este futuro, imaginado como inevitável. E tomando as rédeas de seu destino, tornam-se construtores de seus caminhos….
… E chegam no Brasil
Como sabemos, Foz do Iguaçu concentra a segunda maior comunidade árabe do Brasil, somente suplantada pela comuniade de São Paulo.
Vou reproduzir trechos do artigo que escrevi, para que se possa ter a compreensão do que eu quero sublinhar.
“Certa noite, em Foz do Iguaçu, observei dois senhores com idade aproximada de sessenta anos passeavam com suas crianças. Cada um empurrava seu carrinho de bebê enquanto falavam (em árabe) despreocupadamente. A cena para mim representava repouso e serenidade, após uma jornada de trabalho. Raramente se veria uma cena como essa no Sul do Líbano. E é esta a imagem que tenho desses muçulmanos. A comunidade xiita mais feliz que já vi fora do Irã.
E é esta liberdade e o respeito cidadão, independente do status e da religião, que vai deslumbrar o imigrante árabe. Constatando-se que o preconceito não é mortífero como em suas terras, o imigrante, relaxando, dá os primeiros passos na aproximação com o caráter do “homem cordial”. Ele observa o homem da rua, junto ao povo que transita sem finalidades em frente à sua loja e talvez não se dê conta do olhar de curiosidade de que é objeto. Para o brasileiro de Foz do Iguaçu, é divertido observar esses estrangeiros vestindo camisolões, turbantes e mulheres cobertas com véu. Ele não encontra explicação para esse exotismo e, no entanto, não se sente ameaçado pelo estranho. Entretanto, é bom lembrar, essa atitude simpática e benevolente não significa necessariamente, segundo Holanda (1983), “boas maneiras e civilidade”.
Na sua ética emotiva e no desejo de proximidade, ele é bem capaz de oferecer algum auxílio ao “turco” para abrir sua lojinha. No entanto, esse fundo emotivo rico e transbordante sinaliza na verdade um horror ao distanciamento. E se ele se sente rejeitado nesta ação, sobe à sua cabeça um sentimento de ser desprezado… e o amor fraternal desaparece.
Os testemunhos que recolhi destes jovens permitiram constatar que as suas recentes conquistas individuais na nova sociedade abriram a produção de novas cadeias de significações que induzem relegar ao passado as experiências traumatógenas anteriores. Se não existe mais a chance de elaboração de antigos sofrimentos, a nova sociedade de Foz do Igauçu irá contribuir pelo viés dessa experiência, seu recalcamento. Os investimentos da pulsão aos novos objetos ofertados pelo Outro permitem o remanejamento de sua economia psíquica e sua recomposição simbólica. Compensar, criar fantasticamente ou esconder no subsolo da memória um passado de carências é o que esses viajantes esperam. É deste estágio que eles poderão estar aptos a retificar suas próprias narrativas e de se reorganizar subjetivamente – e nós insistimos- de tentar suturar, pelo menos em parte, suas divisões psíquicas. À diferença de suas terras de origem, novas perspectivas de autonomia se abrem no Brasil. O direito de livre circulação, o direito à palavra e a crítica social sem riscos à sua integridade.
Um jovem louva a sua liberdade: “Na comunidade árabe de Foz do Iguaçu não tenho papel ativo e não participo das festas religiosas, uma vez que não a pratico. Gosto mais é de interagir na política brasileira, sou filiado ao Partido Comunista do Brasil e trabalhei bastante nas últimas eleições. Posso dizer não às coisas que não quero fazer. Eu vivo meu dia como os brasileiros, se eu quero fazer uma coisa hoje, eu vou e faço porque me deu na cabeça. Penso juntar dinheiro e comprar uma casa própria para morar aqui. Quando eu estava morando no Líbano no ano da sua guerra de libertação (de Israel) em 2000 e as bombas caíam ao lado da nossa casa, eu sofria bastante. Vim do Líbano com 10 anos de idade e é claro que houve coisas que me marcaram negativamente. Mas gostei de Foz do Iguaçu e não vou mais sair daqui. Gosto de ser brasileiro por ser livre. (Ali M., 20 anos, estudante universitário).
A nova cidadania augurada pelo jovem e sua procura de uma solidariedade idealizada é um cenário construído que lhe permite compartilhar um novo nacionalismo. É adotar uma nova afiliação, uma nova lei advinda de um novo pai simbólico e com ela participar de um sentimento de irmandade acolhedor. É a exata passagem intercultural quando a realidade interativa favorece o recalque e a metabolização contínua da diferença cultural.
1 Psicanálise, catástrofe social e o trauma (2023). Curitiba, Ed. UFPR
2 Ressentimento e os sofrimentos identitários de um jovem xiita sob os bombardeios no sul do Líbano cometidos por Israel em 2006. Revista Brasileira de Psicanálise. Vol. 54, n 2 2020
3 A emigração muçulmana xiíta à Foz do Iguaçu. Uma memória de traumas e a busca de uma nova afiliação. Ou a comunidade xiita mais alegre fora do Iran. Jamil Zugueib 1 Artigo publicado na obra coletiva: Cognition sociale, formes d’expression et interculturalité. Paris: L’Harmattan, 2017
Buarque de Holanda S. (1983), Raízes do Brasil. R. de Janeiro: Livraria José Olympio, 16ª ed.
[i] Assabya Termo que Ibn Khaldun utiliza para designar grosso modo, a solidariedade, defesa de interesse e orgulho de uma comunidade ou grupo com interesse comum
