O ICArabe lança mais um verbete da série especial criada para ampliar o conhecimento sobre o mundo árabe. A iniciativa reforça o compromisso do Instituto em difundir informações de qualidade, promover a diversidade cultural e colaborar para a desconstrução de estereótipos, incentivando uma compreensão mais crítica e abrangente da sociedade.
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Adab
O conceito de أَدَب [ʾadab] é, ao mesmo tempo, um dos mais fundamentais à história cultural árabe e um dos mais complexos de se definir em poucas palavras. Em língua árabe, o campo semântico da raiz ʾ-d-b abrange significados como “refinamento”, “decência”, “cortesia”, “instrução”, “bons modos” e “urbanidade”. Atualmente, é o termo mais comum para se referir à “literatura” e, quando aplicado no plural آداب [ʾādāb], a noções mais abrangentes como “belas letras” ou “humanidades”.
Desde seu uso medieval, o adab é associado tanto à postura dos indivíduos quanto ao conjunto de conhecimentos valiosos à sociedade da qual fazem parte. Há, ainda, certo consenso quanto ao seu teor “humanístico”: o historiador palestino Tarif Khalidi explica-o como “humanismo literário”, e o arabista escocês James E. Montgomery considera-o sempre em duas dimensões: o comportamento e a imaginação letrada, que confluem para abordar “o valor da ação humana”.
Quando orientalistas se acostumaram a falar em “espelhos de príncipes” ou “enciclopedistas” da história árabe clássica, referiam-se, com frequência, ao adab. Tais nomenclaturas refletem, de fato, processos pelos quais este passou nos primeiros séculos da história islâmica – sobretudo, devido às demandas e circunstâncias de ascensão da vida urbana. Embora sua origem remonte a certa forma de conduta, seu papel na sociedade cortesã se expandiu para incluir o repertório de pensamentos e procedimentos necessários ao trato com os poderosos e, posteriormente, os múltiplos saberes que deveriam compor o arcabouço de uma pessoa “erudita”, “culta” ou “versada”.
De modo geral, é possível entender o adab como fusão de ideias tais quais “decoro”, “etiqueta”, “deleite”, “civilidade” e “educação”, ou ainda como paralelo a conceitos de outras tradições culturais, como a paideía grega ou a humanitas latina. Enquanto prática de escrita, o adab compreende que a literatura tem compromisso artístico, intelectual e moral, fundindo sempre os planos ético e estético; logo, deve conciliar as capacidades de entreter, ensinar e cultivar a boa índole.
Recomendações:
van GELDER, Geert Jan (seleção e tradução). Classical Arabic Literature: A Library of Arabic Literature Anthology. Nova York/Londres: New York University Press, 2013, pp. xiii-xv.
KHALIDI, Tarif. Arabic Historical Thought in the Classical Period. Cambridge: Cambridge University Press, 1994, pp. 83-9.
MONTGOMERY, James E. “Kalilah wa Dimna” (Ep. 7). Classical Arabic Literature Podcast. Upload: 02 de maio de 2026. Última visualização: 09 de agosto de 2026. https://open.spotify.com/episode/5u3X8cOkH6T0RoQdi0YcM0?si=VpJf-BTSTsm9Y6lZLe3WRQ&utm_source=copy-link&sci=spotify%3Acard-config%3A5ibItaryOeRYTGOJFaLAbO

Pedro Martins
Criado é doutor em Letras (Estudos Literários e Culturais) pela USP, onde também obteve mestrado em Letras (Estudos Árabes) e Bacharelado em Letras (Árabe e Português). Realizou ambos os níveis de pós-graduação como bolsista CAPES. Atua como arabista, medievalista, tradutor e professor de língua e literatura árabe clássica. Pesquisa análise e crítica de fontes do período pré-moderno, adab, historiografia árabe, geografia descritiva, relatos de viagem, origens do Islã e relações entre muçulmanos e cristãos. Atualmente, é pesquisador da Cátedra Edward Said da UNIFESP.