O Instituto da Cultura Árabe dá continuidade à sua série de verbetes informativos sobre os árabes com o lançamento de um novo conteúdo. A iniciativa busca aprofundar a compreensão sobre o mundo árabe e suas múltiplas nuances, em alinhamento com a missão do Icarabe de difundir conhecimento crítico e bem fundamentado. Em um cenário global marcado pelo intenso fluxo de informações, ainda é comum que termos e conceitos relacionados à cultura, religião, política e história árabe-islâmica sejam mal interpretados ou simplificados. A ausência de informação qualificada, ancorada no rigor analítico, contribui para a reprodução de estereótipos, incompreensões e diferentes formas de violência.
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Revolução Islâmica
Os movimentos político-sociais que ocorreram no Irã no final da década de 1970 e que culminaram com a deposição do regime monárquico passaram, historicamente, a serem tratados como Revolução Islâmica.
O Irã, durante grande parte do século 20, foi governado pela monarquia Pahlevi, alinhada aos interesses imperialistas do Ocidente. Seja pela brutalidade do regime do xá Reza Pahlevi, pela tentativa de suprimir a importância do islã para seu povo ou mesmo pela adoção de políticas econômicas restritivas – que geraram o empobrecimento de parcela substancial da população – a partir de 1977 vários grupos sociais passaram a se mobilizar contra o governo do xá.
Os movimentos possuíam diversos matizes políticas, mas havia uma figura que liderava os iranianos, ainda que vivesse no exílio na França: o aiatolá* Khomeini. O Irã é um país de maioria muçulmana xiita no qual, tradicionalmente, os clérigos exercem papel de relevância na sociedade, atuando inclusive como guias políticos e espirituais. Contudo nem todos se submetiam à monarquia. Khomeini conseguiu abarcar, em seus discursos no exílio, o teor de insatisfação dos iranianos e sensibilizar a mídia internacional, que o percebia como um líder de países do Sul Global.
Com isso, após o violento enfrentamento à monarquia que levou à deposição do xá, os grupos que protagonizaram a vitória buscaram se estabelecer no poder. Esse embate provocou uma ruptura profunda na sociedade iraniana. Porém, os clérigos, mais bem articulados, se impuseram.
Assim, com o retorno do aiatolá Khomeini ao Irã, em fevereiro de 1979, teve início o processo de consolidação do poder político dos clérigos e, na sequência, o estabelecimento do sistema de governo conhecido por wilayat al-faqih (governo de um jurisconsulto), que estaria baseado na experiência do profeta Muhammad.
Apesar de ainda adotar instituições do republicanismo, a República Islâmica do Irã constituiu a figura do Líder Supremo, exercida por um aiatolá, como liderança política máxima da nação. Este sistema político perdura até os dias atuais.
*Aiatolá vem do árabe ‘ayatillah’, podendo ser traduzido como aquele que é detentor do maior conhecimento acumulado pelo universo muçulmano, chefe máximo na hierarquia legal-religiosa. O título honorífico ‘sinais de Deus’ indica que o clérigo é considerado uma representação das manifestações e princípios de Deus na terra, detendo profundo conhecimento da jurisprudência islâmica (fiqh) e autoridade moral, espiritual e ética para interpretação da lei islâmica.
Renatho Costa é bacharel em Relações Internacionais, com mestrado e doutorado em História Social pela Universidade de São Paulo (USP). Realizou pesquisadas de pós-doutorado nos programas de pós-graduação da PPGHS-USP (2017-2018) e do PPGEPM-UFABC (2024-2025) e também atuou como professor visitante na Al-Mustafa International University (Irã) e na Université de Tunis Al Manar (Tunísia). É professor de Relações Internacionais na Universidade Federal do Pampa (Unipampa) e coordenador do Grupo de Análise Estratégica – Oriente Médio e África Muçulmana (GAE-OMAM/Unipampa). É autor de livros sobre o Oriente Médio e dois deles, mais especificamente, sobre o Irã: “Os aiatolás e o receio da República Islâmica do Irã” (Porto de Ideias, 2017) e “República Islâmica do Irã, 40 anos: de Khomeini a Suleimani” (Autografia, 2020).
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