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Artigo

“A máquina de morte sionista continua seu trabalho no sul do Líbano”

Leia o artigo de Jamil Zugueib (Beirute)[i], professor, doutor aposentado da Universidade Federal do Paraná. Crédito da imagem: Jornal Orient L’Jour, Beirute 8/04/26

Em meio à angústia profunda, que age também sob a indiferença pragmática, os cidadãos de Beirute assistem aos outros que habitam o sul, sua  experiência cataclísmica. Deslocamentos massivos de populações de uma mesma cidade, impasses nesses novos espaços, transformações sociais que se germinam na polarização política crescente. Soma-se a isso o risco de conflitos internos que colocam em jogo o futuro do Líbano.

E segue a catástrofe programada para matar e para provocar estas  tensões.  Até a data de 15 de abril, contavam-se 2.089 mortes, incluindo 165 crianças.

Mesmo que a trégua de uma semana negociada com o invasor não tenha perspectiva definida para sua continuidade, milhares de refugiados festejaram a notícia como se fosse o fim dos combates. E se viram então filas enormes de carros se dirigindo aos povoados do sul. Muitos tinham se hospedado em casa de familiares, tendo ainda certo conforto. Mas estes que mais festejavam eram os cidadãos mais atingidos pela catástrofe. Eram os que perderam seus bens e não tinham parentes ou amigos para lhes acolher e que não contavam com a ajuda do governo nem para comer. Enquanto estavam acampados em Beirute, dormiam em barracas tendo como assoalho os “palets” para se proteger da água da chuva que invadia seus abrigos. Nos testemunhos que colhi, falaram-me que receberam algumas doações ao final do Ramadã (quando a tradição do final do jejum se completa com a oferta de bens e alimentos aos mais necessitados), mas na continuação, poucos indivíduos vinham em seu socorro. Todos, nos lamentosos relatos, falavam da vida difícil em suas aldeias, mas, contando com a solidariedade de amigos, vizinhos e da mesquita, a vida diária seguia mais suportável. E até momentos de prazer podiam ser esperados nessas trocas sociais. Mas sempre rondou um pensamento comum: de que Israel quer tomar suas terras e causar o sofrimento e a humilhação quando isto é possível.

E dias depois, o exército israelense anunciava seu plano para delimitar a região que seria anexada junto às suas fronteiras. Dezenas de aldeias com suas centenas de casas serão destruídas, mesmo as da comunidade cristã. Muitos desses refugiados perderão definitivamente suas casas, outros serão impedidos de entrar na região – mesmo porque todas as pontes das estradas de acesso foram destruídas. A comoção é grande e não se sabe como será resolvida esta questão.

O sofrimento das populações que não têm onde morar acaba com as garantias primárias de cidadania que deveriam ser preservadas pelo Estado. Mas não há recurso para isso.

O problema mobiliza opiniões e acrescenta mais tensão entre cidadãos de diferentes comunidades. O processo judicial movido contra o deputado Camile Chamoun é um exemplo (Orient Le Jour, 27 de mars 2026).  O chefe do Partido Liberal foi processado por incitação à discórdia confessional depois de ter declarado, durante uma entrevista na televisão, que o exército israelense “é o único exército que previne antes do ataque, a zona que ele vai bombardear” e desta forma, saudava o que descrevia como seu “aspecto humanitário”. Isto no momento em que Israel bombardeava, sem aviso prévio, várias regiões do país. E mais tarde, no dia 8 de abril (a quarta-feira negra), mais de 200 cidadãos foram mortos num só dia, em um dos ataques mais mortíferos da história atual.  Os advogados responsáveis pelo processo concluíram que foi uma “incitação à discórdia confessional, provocação de problemas, atentado ao sentimento nacional e  justificativas de mortes e de destruições provocadas pelo inimigo”. A ação do processo, alegavam os advogados, foi movida em nome dos cidadãos libaneses que perderam suas casas, seus bens e foram obrigados a fugir para Beirute em razão dos bombardeios, com mais de três crianças mortas a cada dia. Razão pela qual pedem 500 mil dólares em indenização, em nome dos refugiados e das famílias de soldados libaneses mortos em combate.

A memória de um pequeno paraíso das aldeias do sul do Líbano 

Edifícios destruídos em Bint Jbeil, no sul do Líbano, vistos do lado israelense da fronteira, no norte de Israel, em 13 de abril de 2026 (Crédito: Reuters/Florion Goga)
Captura de tela de imagens de drone divulgadas pelo Exército israelense de Bint Jbeil após intensos combates (Crédito: IDF)

O Hezbollah destruirá a “linha amarela” de separação que Israel estabelecerá no sul do Líbano, declarou o deputado Hassan Fadlallah, que reafirma: “E ninguém poderá desarmar esta organização que tem o direito legítimo de defender nosso país”

Desde 2024, o exército israelense sistematicamente vem arrasando uma série de vilas do sul do Líbano, situadas ao lado da sua banda fronteiriça. Bombardeios e dinamitagens cotidianos desde este último dois de abril seguem a ordem de Israël Katz, o ministro da defesa israelense, com o fim de concretizar uma zona amarela despovoada (uma superfície de 602 km² englobando sessenta e duas cidades e aldeias).  Seu destino, segundo o sionista, é esvaziar completamente o terreno de seus habitantes. Consequentemente, serão apagados os traços de um caminho que por séculos viajantes percorriam desde o norte de Trípoli em direção a Bint J’beil.  Em seguida passavam por Acre, e dalí chegavam até Jerusalém,  quando ainda não havia fronteiras no Oriente Médio e nem a criação do Estado de Israel.

Esta estratégia macabra de arrasar todas estas terras levará consigo as tradições da região e a memória de várias gerações de famílias. Pois várias das aldeias situadas neste caminho possuem famílias cujos alguns de seus membros  trabalham no exterior. E os verões abrem a oportunidade de se gozar as férias em conjunto, se congraçarem nos seus fartos almoços e mesmo realizar casamentos. Pois é esta uma das principais intenções desses jovens. Essas casas dinamitadas representam a memória de seus pequenos paraísos (palavras de um habitante) onde cresciam o zatar em seus jardins e acolhiam os vizinhos para um café na hora do poente.

Encerro com a reprodução de trechos de um depoimento que colhi de um jornalista e poeta em 2008[ii]

“Todos os anos, nos verões de minha aldeia, os jovens emigrados retornavam nessa época para casar com uma moça da aldeia. O costume era passear na rua com suas roupas mais bonitas. Os homens trocavam olhares com as meninas, o que em seguida poderia dar início a uma conversa. Mais tarde, se os dois estivessem de acordo, o rapaz pedia a seu pai ou um parente mais velho que fosse até a casa dos pais da moça para propor o casamento.

Iniciava-se a festa. De mãos dadas os jovens dançavam o dabke, e faziam tremer a terra sob seus pés. Enquanto aumentavam as batidas do coração do noivo, até o momento alto da reunião: a sua declaração de amor em público.

Nos dias seguintes organizavam-se os detalhes da cerimônia na noite do casamento. Era o grande dia da alegria, quando todos dançavam na praça da aldeia. Lembro-me das mãos das jovens entrelaçadas com as desses rapazes, sem nenhum constrangimento e usando seus hijabs (véus) conforme a tradição xiíta. Nesses tempos, ainda não haviam chegado as restrições rigoristas iranianas nas relações entre os jovens. O canto, a alegria e o amor podiam se expressar nos passos firmes e cadenciados da dança.  “O casamento atrai casamento”, dizia minha avó”, e isso acontecia durante todos os verões. Uma frase constituía o refrão da Dal’ona e o preâmbulo do dabke, que exprimia o sofrimento da emigração. “… a pátria é doce. Eu não quero meu pai nem minha mãe, eu quero o meu bem amado, aquele moreno ali”. Esses habitantes cantavam também elogios para as colheitas de trigo e a semeadura do tabaco. Essas canções parecem vir de um passado longínquo dessas aldeias. Falavam do fenício, da relação com a natureza e do amor entre o homem e a mulher. Adônis e Afrodite.

Nós, as crianças, não estávamos cientes dessa mistura de culturas, que atualmente se excluem. Nossos pais diziam que além de sermos xiítas, éramos libaneses da velha tradição.

O rio Litani, anterior à invasão israelense, é o berço da minha memória, foi o local da alegria das famílias ao receberem os visitantes que vinham de longe e dos jogos das crianças nos finais de semana. Meus pais e seus amigos se reuniam todos os domingos para ir até lá, conduzindo-nos em uma caminhonete. Entre as crianças, algumas tinham o nome de líderes de esquerda e também conhecíamos de cor as canções revolucionárias vindas do Iraque e da Palestina, ou aquelas que cantavam Marcel Khalife ou Hamed Ahmad Ka’bour. Entre essas canções que meu pai me ensinou, havia uma canção iraquiana que tinha essas palavras: “Não pergunte meu endereço, todo o mundo é meu endereço. Não me demande jamais, minha casa existe em todo lugar”. E nós, os jovens, que acreditávamos na “Internacional”, jamais tínhamos saído de nosso lugarejo. Nós descíamos até as margens do rio na caminhonete, levando carne de carneiro. Era o dia da carne assada, do tabule e da cerveja para todos. Era o dia de intensa diversão para as crianças e de canto e de dança para os adultos. Homens, esposas, moças e seus camaradas dançando. Hoje quando passo por qualquer curso de rio, sou transportado para essas lembranças e me invade uma tristeza ao ver como o radicalismo religioso e intercomunitário separa nosso país. Havia o odor da cerveja e do tabaco do narguile, as canções pacíficas de meus pais, os amigos da revolução e a felicidade que nos esperava.

Nós, os jovens e crianças, não sabíamos que vivíamos esta mistura de representações que não se excluíam. Nessa visão aprazível, a cada ano em dezembro junto com minha mãe, nós montávamos o pinheirinho de Natal em nossa sala e o enfeitávamos com ornamentos que comprávamos na cidade. Era uma alegria ver nossos presentes colocados ao pé do pinheirinho, trazidos pelo Papai Noel. E nós o imaginávamos tocando o tamborim (tabal) que nos acordava nos tempos de suhur (meia-noite) no Ramadã. Nós festejávamos como se fôssemos cristãos; isto não era monopólio de nossa casa, mas de todas as residências da aldeia. Nós aguardávamos com impaciência esta festa e também outras de nossa religião como Al Fitr e Al Adhaa[1]. Nenhuma dessas ocasiões preponderava sobre as outras. Não deixávamos de lado nenhuma delas e elas eram causa de muita alegria. Foi isso que aprendemos com nossos pais, um convívio tranquilo e solidário. Assim foi nossa vida simples da aldeia. Minha avó colocava a gravura da Virgem Maria (Maryan al Adra) na parede da sala principal, ao lado da imagem do imã Ali. Ela orava para sua santidade e contava muitas histórias sobre essas passagens para nós. Ela colocou o nome de Maria em uma de suas filhas e o nome de Issa (Jesus) em um de seus filhos, como faziam muitos habitantes da aldeia. Esses nomes eram bem populares como eram os nomes Mohamad, Hassan, Ali e Hussein. Minha avó também visitava o santuário (mazar) de Maryam al Adra em Harissa (igreja e monumento mais importante do Líbano), para orar pela cura de seu reumatismo. As diferenças de religião, naquele tempo, não eram motivos de animosidade, como estes funestos preconceitos atuais.

A invasão israelense de 1978 e 1982 foi pesada e mortífera. Seus tanques procuravam fechar as entradas de todas as aldeias da região e se concentravam no combate aos palestinos. Os sionistas deixaram feridas profundas nas aldeias que eles atravessaram, mas não impediram que houvesse comércio transfronteira entre os cidadãos simples de ambos os países. Muitos habitantes resolveram permanecer e suportar esta tensão humilhante, outros se deslocaram para Beirute, nos chamados “cinturões de miséria” na sua periferia. Muitos invadiam as casas abandonadas por seus proprietários e o começo da favelização do entorno da capital. Os anos em que o nosso líder imã Moussa al-Sadr anunciou em um festival de Baalbeque que a arma era o adorno do homem e que Israel era o mal absoluto a ser combatido sem descanso. Com rapidez, os contornos religiosos foram se impondo, como grãos que florescem em uma terra já adubada pela crença.”

[1] No Al Fitr comemora-se o final do jejum do ramadã. As relações sociais ficam mais vivas. Há congratulações e intensas visitas familiares entre a vizinhança – o que acontece também no Al Adhaa. E é claro, muita música nas refeições. No Al Adhaa, a festa do sacrifício, comemora-se a oferta de Abraão, em louvor a Deus, o sacrifício de seu filho Isaac. Em seu lugar, Deus pede o sacrifício de um carneiro. E hoje comemora-se esse dia ao final do Hajj (a peregrinação anual à Meca). Mata-se um carneiro e distribui-se um terço para os familiares, um terço para a vizinhança, e um terço para os pobres.

[i] Professor, doutor aposentado da Universidade Federal do Paraná. Dedica-se às pesquisas no campo da antropologia psicanalítica. Atualmente no Líbano

[ii] Publicado anteriormente em “Psicanálise, catástrofe social e o trauma. Ed. UFPR, 2023.

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