O Instituto da Cultura Árabe lança mais um verbete em sua série de conteúdos informativos, reforçando a proposta de ampliar a compreensão sobre o mundo árabe a partir de uma abordagem crítica e fundamentada. Em um cenário marcado pela circulação acelerada de informações e pela recorrente simplificação de conceitos ligados à cultura, religião, política e história árabe-islâmica, a iniciativa contribui para qualificar o debate e enfrentar estereótipos e distorções ainda presentes.
Hamas
Hamas (acrônimo de Harakat al-Muqawima al-Islamiyya — Movimento de Resistência Islâmica) é um movimento sociopolítico islâmico palestino fundado em 1987, sob a liderança de Ahmed Yassin (1936-2004), durante a Primeira Intifada (1987-1993). Sua origem remonta à rede da Irmandade Muçulmana na Palestina e ao Mujama al-Islamiya, centro de caridade criado em Gaza em 1973, cujas atividades foram inicialmente apoiadas por Israel. Sua liderança inicial reuniu jovens universitários e refugiados afetados pela Nakba de 1948 e pela ocupação israelense de Gaza e da Cisjordânia a partir de 1967.
Em contraste com o nacionalismo secular da Organização para a Libertação da Palestina (OLP), liderada pelo Fatah, o Hamas estruturou seu programa político em uma leitura islâmica da questão palestina. Considera a Palestina histórica uma waqf (terra sagrada) e, por princípio, rejeitou a solução de dois Estados, progressivamente aceita pela OLP.
Desde 1997, Estados Unidos e Israel classificam o Hamas como um “grupo terrorista”, rótulo que tem legitimado diversas ações de violência contra a população palestina sob o pretexto da “guerra ao terror”. O Hamas, porém, deve ser compreendido como um movimento sociopolítico que, em determinados momentos de sua trajetória, recorreu a táticas de terrorismo sob um contexto de ocupação, resistência e fragmentação política palestina.
O movimento possui uma estrutura dual, composta por uma Ala Política e uma Ala Militar — as Brigadas Izz ad-Din al-Qassam —, além de uma ampla rede de assistência social e religiosa (Dawah), que inclui escolas, clínicas e instituições de caridade, base de sua legitimidade popular e consolidação de sua influência.
Na medida em que a assinatura do Acordo de Oslo (1993) e a criação da Autoridade Palestina não resultaram na formação de um Estado soberano, favoreceu-se a ascensão do Hamas como alternativa política. A vitória do movimento nas eleições legislativas de 2006, rejeitada pelo Fatah, levou à ruptura política e territorial de 2007 em Gaza, consolidando seu controle sobre a região. Desde então, o Hamas mantém o compromisso com a resistência armada diante da ocupação e do bloqueio israelense.
Apesar da imagem de intransigência, o movimento demonstrou flexibilidade tática. Em 2017, divulgou um novo documento político em que reconhece a criação de um Estado Palestino nas fronteiras de 1967 como “fórmula de consenso nacional”, sem reconhecer Israel, e distingue a oposição ao sionismo da hostilidade ao povo judeu.
O ataque de 7 de outubro de 2023 concedeu visibilidade inédita à causa palestina, inaugurando uma nova fase na luta pela sua autodeterminação. A ofensiva, que incluiu mortes e sequestros de civis, provocou uma reação militar israelense devastadora em Gaza, que tem sido denunciada por especialistas como genocídio contra o povo palestino. O episódio também revelou a dimensão regional do movimento: Irã, Hezbollah e Houthis manifestaram apoio ao Hamas, enquanto o Catar manteve-se como base de parte de sua liderança política, evidenciando seu alcance transnacional.

Rodrigo Augusto Duarte Amaral é professor do curso de relações internacionais da Faculdade de Ciências Sociais da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP). Doutor em relações internacionais no Programa de Pós-Graduação em RI San Tiago Dantas (UNESP – UNICAMP – PUCSP). Membro e assessor do Grupo de Trabajo: Geopolítica: Palestina y Nuestra América, do Conselho Latinoamericano de Ciências Sociais (CLACSO). Pesquisador do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia para Estudos sobre Estados Unidos da América (INCT/INEU). Membro do grupo de pesquisa – GECI PUC (Grupo de Estudos sobre Conflitos Internacionais).
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