O ICArabe apresenta um novo verbete de sua série especial, iniciativa dedicada a ampliar o conhecimento sobre o mundo árabe por meio de informações aprofundadas e de fontes confiáveis. A série reforça o compromisso da instituição com a valorização do saber, o combate a estereótipos e a promoção de uma compreensão crítica e fundamentada da realidade árabe.
Confira a lista completa de verbetes neste link.
Ibadismo
Ibadismo é uma vertente minoritária do Islã que emergiu nos períodos iniciais do Islamismo e que se diferencia tanto do sunismo quanto do xiismo. Apesar de ser muito antiga, é pouco conhecida por muçulmanos e não muçulmanos. Hoje, é praticada em partes da Líbia (Nafūsa), Tunísia (Djerba), Argélia (Mzāb) e Zanzibar, sendo o principal grupo religioso do Sultanato de Omã.
Originou-se do movimento khārijita, grupo dissidente que abandonou cAlī na batalha de Ṣiffīn, 657 d.C., quando o califa concordou em submeter o motivo de sua disputa com o governador sírio Mu’āwiya à arbitragem de delegados especiais. Os khārijitas se dividiam entre ativistas, aqueles que advogavam a favor da rebelião contra os infiéis, e os quietistas, ramificação moderada e tolerante. Do último ramo descendeu o ibadismo, única vertente remanescente desse movimento. Os ibaditas consideram-se pertencentes a uma escola islâmica moderada, reservam o termo muçulmano/crente aos membros piedosos e observantes, e não acreditam que pecadores ou não ibaditas mereçam a morte, como pregavam os ramos radicais e extremistas dos khārijitas. Por essa razão, rejeitam firmemente qualquer associação com esse movimento, apesar de reconhecerem uma origem comum ocorrida a partir da batalha de 657 d.C.
Os ibaditas viveram em Basra, Iraque, durante a segunda metade do séc. VIII, onde se desenvolveram em segredo (kitmān). Eram comerciantes e almejavam a liberdade de comércio e a de opinião. Por esse motivo, criaram um conselho, “A assembleia dos muçulmanos”, para governarem a si mesmos, sem a intenção de competir com a estrutura burocrática do califado Abássida (750-1258 d.C). Como opunham-se ao governo de Bagdá, passaram por todo tipo de supervisão, o que tornou sua vida desconfortável. Por isso, emigraram para Omã e o norte da África.
Há dois conceitos fundamentais que regulam as relações entre os membros dessa comunidade religiosa, pelo menos, em teoria. São eles, walāya, que se refere à lealdade, solidariedade e associação espiritual que os ibaditas mantêm com fiéis piedosos e retos; e barā’a, que é justamente o oposto do primeiro, uma vez que pressupõe o rompimento e o distanciamento espiritual e social de pessoas que tenham cometido falta grave ou adotado doutrinas consideradas inaceitáveis, mas sem chegar ao extremo de classificá-las como “incrédulas”
Referências Bibliográficas
HOURANI, Albert. Uma história dos povos árabes. São Paulo: Companhia das Letras, 1994.
HOFFMAN, Valerie J. The essential of Ibadi Islam. New York: Syracuse University Press, 2012.
ESS, Josef van. “Introduction: The beginning of Ibadi Studies.” In: On Ibadism. Germany: Georg Olms Verlag, 2013, vol. 3.
WILKINSON, John C. “Ibadism: Some reconsiderations of its origins and early development.” In: On Ibadism. Germany: Georg Olms Verlag, 2013, vol. 3.

Paula da Costa Caffaro é professora adjunta do Setor de Estudos Árabes da Faculdade de Letras da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Mestre e Doutora em Letras pelo Programa de Estudos Judaicos e Árabes da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo. É graduada e especialista em Letras Português-Árabe pela UFRJ. Atualmente, cursa o estágio de pós-doutorado pelo Programa de Pós-Graduação em Linguística da FL/UFRJ, sob a supervisão da Profa. Dra. Maria Carlota Rosa, em que desenvolve um dicionário bilíngue da terminologia gramatical árabe-português. Participa da oficina de tradução árabe-português do Setor de Estudos Árabes da FL/UFRJ. Durante três anos, atuou no Programa Internacional de ensino da língua árabe da Fundação Internacional do Qatar, ensinando a língua e a cultura árabes a alunos de escolas públicas do Município e do Estado do Rio de Janeiro. Seus principais temas de pesquisa são: linguística árabe, ensino da língua árabe a falantes brasileiros, tradução árabe-português.
