Por Cristiane Jatene*
Uma das principais premissas do pensamento de Edward Said é que os valores considerados pelo mundo como positivos não são exclusividade de nenhum povo, de nenhuma etnia.
Conhecer um povo pelos olhos e interesse de outros povos, especialmente seus colonizadores, é um falseamento da realidade.
Dentre os méritos da Mostra Mundo Árabe de Cinema, que no último dia 2 de setembro de 2026 entrou na sua terceira década, apresentando sua vigésima primeira edição, é que através da arte cinematográfica expõe a diversidade enorme do “Mundo Árabe”, mostra que os temas humanos são universais (amores, lutos, perdas, encontros, reencontros, deslocamentos, alojamento) e que na História da Humanidade “Ocidente” e “Oriente” estão inexoravelmente unidos.
No silencioso, poético e emocionante filme de abertura da Mostra 2026, o premiado Calle Málaga, vemos o encontro de Espanha e Marrocos, como em Western Arabs (Mostra 2020), vimos o encontro entre Dinamarca e Palestina e em Caixa de Memórias (Mostra 2023) vimos o encontro entre LÍbano e Canadá.
A separatividade é obra de quem odeia. De quem optou em ser desumano ao desumanizar quem considera “os outros”.
Calle Málaga é um filme de silêncios que dizem muito, que dizem tudo. Não à toa uma das partes mais tocantes do filme são os encontros da viúva Maria com sua amiga de infância, uma freira que fez voto de silêncio. A amiga-freira acompanha e escuta todos os passos da vida de Maria. Como dizemos frequentemente no mundo da Psicologia, “a escuta é revolucionária”.
O filme aborda de forma poética e tocante temas contemporâneos. A longevidade, por exemplo, que traz a oportunidade de vivenciarmos experiências que com menos tempo de vida não nos seria possível. Maria reencontra o amor, mais de vinte anos depois de tornar-se viúva. Ser longevo traz desafios que não são oriundos da longevidade, mas sim do nosso tempo. As famílias são pequenas, os movimentos migratórios são enormes, há uma concentração mundial de renda que empobrece a maioria e desvaloriza o trabalho. Nem a solidão é sustentável nem a longevidade sem cuidados é sustentável. Por isso, tanto a OMS como governos do mundo todo discutem como criar estruturas de cuidado para os idoso e garantir a Saúde Mental das pessoas sozinhas. Estes são os desafios presentes e futuros do mundo do individualismo, que tenta matar comunidades e o coletivismo, e da longevidade.
O filme fala de dois tempos distintos da História da humanidade. Maria nasceu no Marrocos, em Tânger, seus familiares haviam se refugiado na cidade, fugidos da ditadura que assolava a Espanha, com Franco. Mudaram-se e estabeleceram-se. O projeto de vida de Maria é morrer onde nasceu e onde ainda faz parte de uma comunidade, tem pertencimento e identidade, todos a conhecem pelo nome.
A filha de Maria, Clara, vive a crise habitacional na Espanha, na qual aluguéis são impagáveis para a maioria e tentar comprar um imóvel afastado nos arredores da cidade onde se trabalha virou assunto corriqueiro entre europeus em idade laboral. A precarização do trabalho é outra questão contemporânea. Clara é enfermeira, recebe 1.700 euros por mês, acabou de se separar e tem duas crianças para criar. Acusa a mãe de nunca ter trabalhado e, por isso, de não entendê-la quando Clara quer vender o apartamento onde a mãe mora para comprar seu imóvel afastado do centro de Madrid, onde trabalha.
Clara quer que a mãe se mude para Madrid, para morar com ela e com os netos, e em dado momento pergunta-lhe: “Quem você tem aqui?” Eu arriscaria dizer que Maria tem a si. No lugar onde nasceu e quer morrer.
No geral, acredita-se que apenas as crianças e os adolescentes são os únicos que durante o ciclo vital vão deixar-de-ser para vir-a-ser. Frequentemente, referem-se aos idosos como os que já foram. A condição humana de ser sonho, de ser projeto, de ser um contínuo deixar-de-ser e vir-a-ser é permanente, do nascimento à morte. Clara tem seus projetos e escolhas dentro do que lhe é possível, assim como Maria.
A diretora Maryam Touzani dedica o filme a sua avó e confessa que só retornou a Tânger, desde o falecimento de sua mãe, cidade onde nasceu e da qual saiu, para filmar Calle Málaga.
Antes de encerrar quero dizer que Siria e Líbano já vinham sofrendo com as invasões do regime e do projeto sionista. Diferente da Palestina que vive sob apartheid, são países estabelecidos, mas sofrem igualmente. Os discursos da abertura da Mostra foram muito pertinentes e eu gostaria de acrescentar que o cerco e a invasão que o Líbano vem sofrendo, para consumar um projeto de roubo de terras e destruição da memória, é um risco para toda a humanidade, como verbalizou a jornalista Hildegard Angel ao falar sobre o regime em questão, ela que teve sua família vitimada por um regime de exceção no Brasil. A destruição no Líbano de construções onde decorreram cenas do Evangelho é a destruição de patrimônio da humanidade. E da humanidade fazemos parte todos nós, os humanizados e os desumanizados, aqueles que ao desumanizar “os outros” se desumanizam.
O cinema garante-nos a existência da humanidade, em sua magnífica pluralidade.
*Cristiane Jatene é psicóloga licenciada no Brasil e em Portugal, Mestre em Sociedade, Risco e Saúde pela Universidade de Lisboa, Especialista em Terapia de Casal e Família (PUCSP), Historiadora (PUCSP), Analista Fenomenológica-Existencial (ABD), Criadora e Facilitadora das Oficinas Autobiográficas.
Atende Online pacientes do Brasil e Portugal. Instagram Blog
