O Instituto da Cultura Árabe (ICArabe) apresenta um novo verbete da série especial dedicada a ampliar o conhecimento sobre o mundo árabe. Desta vez, o destaque é o arabesco, um dos elementos mais característicos da arte islâmica, cuja riqueza estética e histórica atravessou séculos e influenciou diferentes tradições artísticas. A iniciativa integra o compromisso do Instituto de difundir informação qualificada, combater estereótipos e valorizar a diversidade cultural árabe.
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Hajj
O hajj designa a peregrinação anual à cidade sagrada de Meca, na Arábia Saudita, realizada durante o Dhu al-Hijjah, o último mês do calendário islâmico. Constitui um dos cinco pilares do Islã e é obrigatória, ao menos uma vez na vida, para todo muçulmano adulto com condições físicas e financeiras de realizá-la.
Suas origens míticas remontam a Abraão — patriarca também do judaísmo e do cristianismo — e a seu filho Ismael, que teriam erguido o santuário da Caaba. O hajj recria ritualmente a aliança selada entre Abraão e Deus, reencenando ações atribuídas a ele e sua família. O formato atual dos ritos foi consolidado por Muhammad em 632d.C., na chamada “Peregrinação da Despedida”, após expulsar da Caaba os ídolos pagãos ali cultuados. Há, porém, evidências de camadas pré-islâmicas: o santuário de Meca já era sagrado para os árabes pagãos, e a Caaba abrigava até 360 ídolos, muitos ligados a estrelas e planetas. O ato de girar ao seu redor imitaria o movimento dos corpos celestes e a Caaba seria o eixo entre a terra e os céus, o “umbigo do mundo”. Outra hipótese associa a sacralidade do local ao poço de Zam-Zam, fonte de água no deserto do Hejaz e símbolo de vida e purificação, desde antes da fundação do santuário.
Os ritos se estendem por cerca de cinco dias, entre o oitavo e o décimo segundo dia do mês. Começam com a consagração no ihram — estado de purificação marcado por vestes brancas simples e pela proibição de perfumes, relações sexuais, caça e conflitos — seguido das sete voltas em torno da Caaba tocando ou apontando para a Pedra Negra. Os peregrinos passam então por Mina, pelo Monte Arafat, onde ocorre o rito central de oração até o pôr do sol, e por Muzdalifa, onde recolhem pedras para o apedrejamento simbólico do Diabo em Mina. Segue-se o sacrifício de um animal em memória do gesto de Abraão, celebrado no Eid al-Adha, o corte de cabelo que encerra o ihram, e outras sete voltas em torno da Caaba. O hajj se conclui com a volta de despedida, antes do retorno dos peregrinos a suas casas.
Bibliografia
ALCORÃO. Português. Nobre Alcorão. Tradução: Dr. Helmi Nasr. Complexo do Rei Fahd para imprimir o Alcorão Nobre. Al Madinahal Munauarah K.S.A., 2005.
ASLAN, Reza. No god but God: the origins, evolution, and future of Islam. New York: Random House Trade Paperback Edition, 2006.
GUIA ILUSTRADO PARA O HAJJ, A UMRA E A ZIÁRA. Departamento Feminino da Sociedade Beneficente Muçulmana de São Paulo (SBM) e Associação Liga das Senhoras Muçulmanas para o Centro Cultural Árabe Islâmico do Brasil. Preparação e adaptação: Samir El Hayek. s.d.
PINTO, Paulo Hilu da Rocha. Islã: religião e civilização – uma abordagem antropológica. Aparecida: Santuário, 2014.
PORTER, Venetia (ed.); HALEEM, Abdel M.A.S.; ARMSTRONG, Karen; IRWIN, Robert; KENNEDY, Hugh; SARDAR, Ziauddin. Hajj: journey to the heart of Islam. Londres: The British Museum Press, 2012.
SARDAR, Ziauddin. Mecca: the sacred city. New York: Bloomsbury, 2014.

Paula C. A. Carvalho possui graduações em Jornalismo pela Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (USP) e em História pela Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP. Possui mestrado em História pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e doutorado em História pela Universidade Federal Fluminense (UFF). Atualmente faz pós-doutorado em História na Unifesp. É integrante do Laboratório de Estudos Orientais e Asiáticos (LEOA) do Programa de Pós-Graduação em História da Escola de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Unifesp. É autora do livro “Direito à vagabundagem: as viagens de Isabelle Eberhardt” (Fósforo, 2022). Publicou capítulos em livros e artigos que tratam de Líbano, China, orientalismo e viajantes pelo mundo muçulmano. Por quatro anos e meio foi editora da revista Quatro Cinco Um, onde trabalhou nas mais diferentes áreas, da revista ao podcast até a editora Tinta-da-China Brasil. É tradutora dos livros “Susan Sontag: A entrevista completa para a revista Rolling Stone”, de Jonathan Cott (Bazar do Tempo, 2024); “Cartas escritas durante uma curta residência na Suécia, na Noruega e na Dinamarca”, de Mary Wollstonecraft (Degustadora de Histórias, 2026); e “A ideia de Israel”, de Ilan Pappé (Elefante, no prelo).
