Leia o artigo de Bruno Echebeste Saadi, doutorando em Educação pela Universidade Federal de Pelotas (UFPel); e membro afiliado da Academia Líbano-Brasileira.
O Líbano volta a ocupar o noticiário internacional em meio a uma escalada de violência que, mais uma vez, atinge de forma brutal a população civil. Mais uma vez, Israel impõe uma cadência geopolítica mais robusta depois dos ataques realizados entre Estados Unidos e Irã.
Mas, para entender isso, devemos ser mais práticos. Que tal jogar uma partida de xadrez? No tabuleiro, os Estados Unidos e o Irã são os dois jogadores principais. Cada movimento é calculado não apenas pelo impacto imediato, mas pelas possíveis respostas do adversário. Nenhuma peça é movida sem considerar o equilíbrio geral da partida. Ainda assim, diferente do xadrez clássico, aqui não há regras claras — o que torna o jogo mais perigoso e imprevisível.
Os Estados Unidos funcionam como um jogador com maior quantidade de peças e alcance global — algo semelhante a alguém que domina o centro do tabuleiro desde o início. Já o Irã, por outro lado, joga de forma mais indireta e posicional.
É nesse ponto que entram as “peças intermediárias”. Israel pode ser comparado à dama avançada no tabuleiro dos Estados Unidos. Quando Israel avança sobre o sul do Líbano, esse movimento carrega múltiplos objetivos simultâneos. Não se trata apenas de destruir o Hezbollah, mas de redefinir as regras do jogo na região.
Nesse movimento enxadrístico, há também um elemento estratégico específico: o interesse na região do Rio Litani.
No tabuleiro, isso equivale a disputar uma casa-chave, cuja ocupação oferece vantagem territorial, controle de recursos e maior profundidade defensiva. Sob essa ótica, esse tipo de movimento — no xadrez e na vida real — pode ser interpretado como uma tentativa de expansão de influência, ou até de reconfiguração territorial, ainda que não declarada formalmente nesses termos.
O sul do Líbano, nesse cenário, torna-se uma casa estratégica do tabuleiro — uma posição disputada onde o controle não é apenas simbólico, mas decisivo para o andamento da partida. Cada ataque nessa região não é apenas um movimento ofensivo isolado, mas parte de uma tentativa mais ampla de reposicionamento estratégico.
O problema da nossa partida de xadrez começa a aparecer quando lembramos que, no xadrez tradicional, as peças não têm vontade própria – e, principalmente, não sofrem. Na vida real, o “tabuleiro” é habitado por milhões de civis. Quando Israel avança alegadamente sobre o Hezbollah, não atinge apenas uma peça adversária; afeta cidades, infraestrutura e vidas humanas. Em uma partida de xadrez, sacrificar uma peça pode ser uma jogada calculada para obter vantagem futura. Na vida real, o sacrifício é muito maior. Só nessa partida de xadrez, já há mais de 700 mil deslocados e mais de 2.000 mortos.
Além disso, os ataques israelenses no Líbano têm provocado um colapso preocupante no sistema de saúde do país. Diversas unidades médicas foram atingidas, comprometendo o atendimento à população em um momento já crítico. Muitos profissionais de saúde foram mortos nesses bombardeios. Além disso, ambulâncias foram destruídas, e hospitais tiveram de encerrar suas atividades, agravando ainda mais a crise humanitária e reduzindo drasticamente a capacidade de resposta a emergências.
Para quem acompanha de longe, pode parecer apenas mais um capítulo de um conflito complexo na região. Mas, por trás das explosões e dos números, há um país já fragilizado que vê suas estruturas sociais, políticas e humanas sendo colocadas à prova.
Em novembro de 2024, eu escrevi um artigo para o blog da Academia Líbano-Brasileira com o seguinte título: “Sala de abrigo ou sala de aula?”, onde discuti como as salas de aulas deixaram de serem os lugares de ensino, para se tornarem refúgio para os deslocados. É ali que, enquanto em diversos lugares ao redor do mundo, as
crianças nas salas de aula sonham em ter suas profissões como advogadas, médicas,engenheiras, as crianças das “salas de abrigo” sonham em simplesmente permanecer vivas (Saadi, 2024).
A crise instaurada no Líbano atualmente gera consequências irreversíveis. É triste ver um país caracterizado por um sistema confessional único, baseado em seu peso demográfico e na distribuição geográfica (Calfat, 2018), repleto de belezas históricas como Baalbeck e rico em locais religiosos como Harissa, ser tão devastado.
No jogo, o peão é a peça mais limitada. Ele se move devagar, casa por casa, sempre exposto. No entanto, ele carrega uma possibilidade única: se conseguir atravessar todo o tabuleiro, superando obstáculos e sobrevivendo às ameaças, pode ser promovido — transformar-se em uma dama, a peça mais poderosa do jogo.
A metáfora do peão também traz uma lição importante para o tabuleiro do conflito: mesmo as peças mais vulneráveis não estão condenadas a permanecer assim.
Com persistência, estratégia e alguma abertura no tabuleiro, elas podem alcançar uma posição completamente nova.
Talvez a esperança para o país dos cedros esteja justamente nisso — não em uma vitória rápida e decisiva, mas na capacidade de continuar avançando, casa por casa, até transformar sua condição. Porque, no fim, o verdadeiro “xeque-mate” não seria derrotar um adversário, mas conquistar algo muito mais maior: um futuro em que o país deixe de ser palco de disputas e passe a ser protagonista da própria história.
Referências:
CALFAT, Natalia. The Frailties of Lebanese Democracy: Outcomes and Limits of the Confessional Framework. Contexto Internacional, Rio de Janeiro, v. 40, n. 2, p. 269-292, 2018.
SAADI, Bruno Echebeste. Sala de abrigo ou sala de aula? Revista Libanus (Blog), 2024. Disponível na Revista Líbanus.
