Leia o artigo de Samir Barghouti, presidente da Câmara Líbano-Brasileira de Comércio e Indústria do Rio Grande do Sul.
Os grandes intelectuais libaneses do século XX e XXI moldaram profundamente a mentalidade das elites cultas do Líbano. Mais do que escritores ou poetas, foram arquitetos da sensibilidade intelectual de uma sociedade sofisticada, contraditória e profundamente mediterrânea.
Cada um contribuiu de maneira singular. Khalil Gibran universalizou a alma libanesa através de uma linguagem espiritual e humanista que ultrapassou fronteiras religiosas e culturais. Mikhail Naimy introduziu uma reflexão introspectiva e moral, marcada pela busca da elevação interior. Elia Abu Madi destacou-se por sua poesia otimista e filosófica, celebrando a liberdade interior, a beleza da vida e a dimensão humana da existência. Said Akl reforçou o sentimento de singularidade libanesa, exaltando uma identidade fenícia e mediterrânea distinta do nacionalismo árabe clássico.
Amin Maalouf, por sua vez, ajudou gerações de libaneses a compreender a complexidade das identidades múltiplas: orientais e ocidentais, árabes e francófonas, modernas e tradicionais ao mesmo tempo. Sua obra deu profundidade intelectual ao drama da diáspora, do exílio e da convivência entre civilizações.
Elias Khoury ocupou um lugar central na literatura árabe contemporânea ao retratar, com enorme densidade humana e política, as feridas da guerra civil libanesa, do exílio palestino e da memória fragmentada do Oriente Médio. Seus romances introduziram uma narrativa sofisticada, melancólica e profundamente crítica, influenciando decisivamente a formação cultural das elites universitárias e literárias de Beirute.
Entretanto, é impossível compreender a formação cultural do libanês culto contemporâneo sem mencionar a importância extraordinária de Ziad el Rahbani. Dramaturgo, pianista, compositor e intelectual, Ziad transformou a música e o teatro em instrumentos de crítica política, ironia social e reflexão existencial. Filho de Fairuz, ultrapassou a herança artística da própria família ao criar uma linguagem moderna, sarcástica e profundamente beirutina. Sua obra capturou como poucos a melancolia, o caos, a inteligência e as contradições do Líbano urbano. Para gerações de universitários, jornalistas, artistas e militantes, Ziad tornou-se quase uma consciência crítica nacional.
Esses intelectuais floresceram principalmente em Beirute, cidade que durante décadas foi o principal centro cultural do Oriente Médio. Cafés, jornais, universidades e editoras formaram uma atmosfera rara no mundo árabe: cosmopolita, livre e intelectualmente vibrante. Em bairros como Hamra, jornalistas, poetas, marxistas, cristãos orientais, nacionalistas e artistas conviviam em debates intermináveis sobre política, literatura, religião e civilização.
A elite culta libanesa foi formada nesse ambiente. Lia filosofia francesa, escutava Fairuz e Ziad el Rahbani ao amanhecer, discutia poesia até a madrugada e carregava consigo a melancolia típica das sociedades que viveram simultaneamente esplendor cultural e guerras devastadoras.
O Líbano produziu uma intelectualidade singular: refinada, multilíngue, mediterrânea e profundamente consciente das tragédias e grandezas do Levante.
Samir Barghouti
Nascido em Cachoeira do Sul, Rio Grande do Sul, Samir Barghouti é industrial e acadêmico. Bacharel em Direito pela UNISC, possui MBA em Gestão e Marketing, e foi proprietário de uma rede de cursinhos preparatórios pré-vestibular, nos quais lecionava História. Reconhecido por seu profundo conhecimento em filosofia e literatura árabe, é especialista em filosofia, pesquisador em história e literatura árabe e tradutor de diversas publicações do idioma. Palestrante ativo e estudioso da política do Oriente Médio, Samir é fluente em árabe e colabora com vários sites especializados na região, tendo publicado mais de 100 ensaios e artigos sobre política libanesa e levantina. Atualmente, ocupa o cargo de Presidente da Câmara Líbano-Brasileira de Comércio e Indústria do Rio Grande do Sul.
