Artigo - O protagonismo do Brasil na modernização da poesia árabe
Por Thaïs Costa
A poesia sempre foi a principal forma de expressão da alma árabe e também tema aprofundado em duas obras do argelino Slimane Zeghidour: A poesia árabe moderna e o Brasil (São Paulo: Brasiliense) e La poésie arabe moderne entre l’Islam et l’Occident (Paris: Karthala).
Durante a pandemia de covid-19, achei por acaso essa obra em francês e sua leitura me fascinou a ponto de decidir traduzi-la. Os desafios dessa empreitada solitária encamparam pesquisas sobre etimologia, história, mitologia e religião, e a transliteração de termos e nomes próprios em francês para português. Além disso, atualizei os dados biográficos dos 37 poetas de diversas vertentes que figuram no capítulo final – As Aventuras de Uma Voz --, com exemplos de suas criações. Embora dê mais destaque a Khalil Gibran, poeta libanês radicado nos Estados Unidos, cuja obra ímpar inspirou a chamada Geração Beat e continua aclamada mundialmente, esse capítulo também enfoca Adonis, Mahmoud Darwich, Saïd Akl e a pioneira poeta iraquiana Nazik Al Malaïka.
O livro A poesia árabe moderna entre o Islã e o Ocidente finalmente foi lançado em 2024 no Brasil pela Almádena Editora, graças a uma ação vigorosa entre amigos – o próprio autor, Terezinha Féres-Carneiro (PUC-Rio) e João Baptista de Medeiros Vargens (UFRJ).
Aliás, a forte ligação de Zeghidour com o Brasil remonta a 1965, com a chegada de um grupo de exilados da ditadura brasileira. Esse contato despertou seu interesse pela música e a cultura brasileiras, o que o levou a aprender o idioma. Como repórter internacional, esteve várias vezes no país, onde tem amizades sólidas com Raduan Nassar, Filipe Farhat, José Arbex Jr., Cristina Ayoub Riche e outros intelectuais.
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Especialista em mundo árabe, pesquisador e editorialista político na TV5 Monde em Paris, Zeghidour se baseou em dezenas de fontes bibliográficas em vários idiomas para relatar a saga da poesia árabe desde suas origens até a década de 1980. Esse percurso abarca a origem e dimensão da língua árabe, o surgimento do Islã e suas raízes semíticas comuns com o cristianismo e o judaísmo, o confronto e o fascínio mútuo entre Oriente e Ocidente e o grande movimento migratório de libaneses e sírios para o chamado Novo Mundo (Mahjar) a partir do século XIX.
Ao longo de mais de 300 páginas, são também abordados as imbricações dos mitos fundadores das três religiões monoteístas, os modos de vida de beduínos nômades, aldeões e elites no poder no mundo árabe, o convívio pacífico entre pessoas de diferentes credos na Andaluzia, conflitos sangrentos, repressões, o peso sufocante da tradição e as injustiças inomináveis até hoje impostas aos palestinos.
A inspiradora liberdade
Graças à aventura de recomeçar a vida nos Estados Unidos, no Brasil e na Argentina, libaneses, sírios e, em menor número, palestinos deram continuidade ao Renascimento (ou Nahda) da poesia árabe. Longe da repressão, da injustiça e das amarras impostas pela religião e pela tradição, muitos desses imigrantes deram asas à imaginação e à inspiração, sentindo-se livres para ousar na forma e no conteúdo de suas criações poéticas. Ao mesmo tempo, tinham nostalgia e uma consciência crescente dos males que afligiam suas terras de origem, os quais denunciavam em jornais e revistas mantidos por suas comunidades nas novas moradas.
Entre 1890 e 1940, intelectuais que haviam estudado na Universidade Americana de Beirute criaram grupos literários e cerca de 394 jornais, revistas e periódicos árabes pelo Brasil, desde São Paulo e Rio de Janeiro até Manaus e Porto Alegre. Tal número supera largamente a quantidade desses veículos existentes na época nos 23 países árabes. Aliás, no início do século XX praticamente não havia imprensa no Marrocos, na Argélia, na Líbia e no Iêmen.
Os imigrantes árabes também fundaram escolas, clubes, igrejas e hospitais no Brasil, denotando sua ascensão social e forte participação na vida cultural e política. Nesta nação altamente miscigenada, eles abriram mão do tribalismo e do confessionalismo, o que reforçou seu sentimento de arabismo.
O fôlego intelectual de A poesia árabe moderna entre o Islã e o Ocidente, que conta com um prefácio especialmente escrito por Zeghidour para esta edição brasileira, o torna uma obra de referência para estudiosos, a grande comunidade árabe no Brasil e interessados na riquíssima cultura árabe.
Para download gratuito do livro, entre em https://www.almadenaeditora.com, clique em comprar, preencha o formulário e o acesso será liberado.
Ficha técnica:
A poesia árabe moderna entre o Islã e o Ocidente
Título original: La poésie arabe moderne entre l’Islam et l’Occident
Slimane Zeghidour (1953-) Argélia
Tradutora: Thaïs Costa
332 p.
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Thaïs Costa é jornalista, tradutora trilíngue (inglês, francês e espanhol) e revisora de obras acadêmicas. Estudou Letras e Editoração com Mitsue Morissawa, assessorou o poeta Manoel de Barros e foi assistente do fotógrafo Larry C. Price (prêmio Pulitzer). Publicou matérias no Valor Econômico, no suplemento DNA do Diário de Notícias de Lisboa, nas revistas Loop (Itália), Máxima (Portugal), Terre Sauvage (França), Los Aventureros (Espanha), Manchete, Época Negócios, Teoria e Debate e na revista eletrônica do Instituto Cultural Itaú de São Paulo. Traduz para várias editoras, incluindo best-sellers como Zonas Azuis, guias de viagem e outros livros de não ficção da Publifolha e da Folha de S. Paulo. Articulista no blog da Revista Libanus, é acadêmica de honra da Academia Líbano-Brasileira de Letras, Artes e Ciências.
E-mail: thcosta@uol.com.br