12ª Mostra Mundo Árabe de Cinema: espetáculo musical Al Mut’amid emociona o público e marca a história da cultura árabe no Brasil

seg, 14/08/2017 - 15:19

 

Expressões de surpresa e admiração. O público aplaudiu, bateu palmas junto, emocionou-se. Foi assim que um sonho acalentado desde a fundação do Instituto da Cultura Árabe, há quase 14 anos, foi realizado na noite deste sábado, 12 de junho, quando a Sala São Paulo, no centro da cidade, recebeu o espetáculo “Al Mu’tamid Poeta-Rei do Al-Andalus – Uma viagem por dez séculos de música e interculturalidade”. O concerto é uma das atrações da 12ª da Mostra Mundo Árabe de Cinema, evento realizado pelo ICArabe (Instituto da Cultura Árabe) e pelo Sesc-SP (Serviço Social do Comércio de São Paulo), com o copatrocínio da CCAB (Câmara de Comércio Árabe-Brasileira), que termina nesta quarta-feira, dia 16 de agosto.

Com curadoria de Geraldo Adriano Campos, também curador da Mostra, o concerto marca ainda as comemorações dos 65 anos da Câmara. Um acontecimento histórico para a comunidade árabe no Brasil, para o cenário cultural de São Paulo e para a cultura em geral.

“A Mostra, em sua 12ª edição, vem há mais de uma década cumprindo o objetivo de estudar e promover as várias formas de expressão da cultura árabe”, disse Gabriel Sayegh, vice-presidente do ICArabe, ao público antes do início do concerto. “De certa forma, retribui e agradece esse país maravilhoso que tão bem recebeu imigrantes de várias origens”, comemorou ele, que também agradeceu o apoio da CCAB, Frambas (Federação das Associações Muçulmanas do Brasil), Sesc-SP e Secretaria da Cultura do Governo do Estado.

“Dá-nos extrema satisfação, prazer e orgulho ver esse espetáculo aqui em São Paulo, no Brasil, lotado, com os ingressos esgotados e com a maior a público jovem”, afirmou, por sua vez, o presidente da CCAB, Rubens Hannun, sob aplausos. Ele ressaltou ainda o esforço para a realização do concerto da diretora cultural da entidade, Silvia Antibas, do vice-presidente administrativo da Câmara Árabe, Adel Auada, e do diretor executivo da Fundação Osesp, Marcelo Lopes.

O concerto contou com 13 temas que tiveram como base poemas de Al Mu’tamid, considerado o mais brilhante poeta da região de Al-Andalus, como se chamava a Península Ibérica no século XI. As obras foram interpretadas por músicos de Portugal, Espanha e Marrocos, países que carregam a herança cultural da região.

Foi o primeiro espetáculo árabe na Sala São Paulo e a primeira apresentação do concerto no Brasil. César Carazo (voz e fídula), Eduardo Paniagua (voz, saltério e flautas), El Arabí Serghini (voz e percussão), Filipe Raposo (piano), Jamal Bem Allal (violino), Janita Salomé (voz e percussão) e Quiné Teles (percussão) foram responsáveis por encantar o público por duas horas, por meio de temas como “Ilusão – Muwashshaha de Al-Um’tamid”, feito a partir de poema amoroso do rei poeta. Além dos artistas internacionais, houve participação especial de três músicos brasileiros: Sami BordokanClaudio Kairouz e William Bordokan.

concerto
Concerto foi destaque na mídia

Em entrevista ao ICArabe, o artista português Carlos Gomes, idealizador do espetáculo, contou como a jornada rumo ao Brasil teve início e ressaltou o esforço de mais de dois anos. “Trabalhamos muito, Geraldo e eu, para isso acontecer. Foram dois anos de muitas tentativas frustradas, de muito trabalho, de muita mudança, cá e aí, de muita troca de emails, para chegar aqui” (leia aqui a entrevista completa: http://www.icarabe.org/musica/12a-mostra-mundo-arabe-de-cinema-musica-tem-uma-enorme-importancia-na-propagacao-da-paz-e-no ).

O curador Geraldo Adriano Campos também destaca o trabalho conjunto e a importância do espetáculo em uma época de tanta intolerância: “Foi o fruto desse sonho que o Carlos Gomes e eu começamos a desenhar dois anos e meio atrás e aconteceu graças ao apoio e à participação essencial da Silvia Antibas (diretora cultural da Câmara Árabe) e do Marcelo Lopes (diretor executivo da Fundação Osesp), que acreditaram no projeto. O espetáculo é necessário no momento que a gente vive. É baseado na história de um homem que foi um dos mais poderosos no século 11, mas o que sobrevive ao tempo não é o poder mas a arte. Não foi graças ao poder que celebramos este espetáculo, mas sim às poesias que ele foi capaz que produzir. A arte é o grande elemento que sobrevive a todas as coisas.”

Impressões do público

Francisco Miraglia, um dos fundadores do ICArabe, elogiou a realização do concerto. “Havíamos pensado em fazer atividades como essa, mas precisávamos de mais apoio externo na época”, conta ele, que foi o idealizador do Instituto, há 14 anos, quando vislumbrou a ideia da entidade promover um concerto árabe no país. “Há muitos músicos e orquestras espalhadas pelo Mundo Árabe, como no Líbano e na Tunísia. Trazer ao Brasil o espetáculo proporciona às pessoas um contato maior com um estilo de música que é diferente e que tem outras tonalidades e escalas diferentes do que estamos acostumados ouvindo Beethoven, por exemplo”, analisou.

“Foi muito bom e muito impressionante. A música conseguiu mobilizar todo mundo no final”, afirmou Nathanael Braia, editor de internacional do jornal Hora do Povo e autor do livro “O Apartheid de Israel”, sobre as palmas ritmadas do público durante os últimos temas do concerto. “Essa música, como diz o espetáculo, tem uma força muito grande, a força de uma cultura que é o berço da civilização, uma das grandes vertentes civilizatórias da humanidade”, falou sobre a cultura árabe.

“Foi simplesmente maravilhoso. Foi a integração das culturas espanhola, portuguesa e árabe. O som e os instrumentos foram fantásticos”, também disse Celia Sallum, que faz parte do departamento cultural do Esporte Clube Sírio e assistiu ao concerto com um grupo organizado de cerca de trinta sócios.

O 1º secretário do Instituto, Arturo Hartmann, elogiou o trabalho do curador do espetáculo e da Mostra Mundo Árabe, Geraldo Adriano Campos. “Temos que destacar o mérito do Geraldo para a coerência do espetáculo dentro da Mostra. Neste momento crítico que vivemos, politicamente, temos que demonstrar esses elos e conexões sem ignorar as questões políticas que os países árabes vivem hoje”, disse em relação ao tema do festival, “Territórios que nos atravessam”, sobre o fluxo de refugiados árabes e a xenofobia.

A Mostra Mundo Árabe de Cinema termina nesta quarta-feira, dia 16. Para a programação completa, acesse http://www.mundoarabe2017.icarabe.org/

Encontro com convidados

Nesta segunda-feira, 14, a Mostra terá uma atividade especial: exibição dos filmes "Fora do Quadro: Revolução até a Vitória" e "Sanaúd: Voltaremos", com participação de Rami Nihawi, Emir Mourad e Milton Barbosa.

"Arquivos e rastros do cinema palestino revolucionário” é o tema do encontro: a curadoria da Mostra Mundo Árabe exibirá conjuntamente dois filmes, um brasileiro (Sanaud: voltaremos, de Barros Freire) e um palestino (Fora de Quadro: Revolução até a vitória, de Mohanad Yakubi), buscando evidenciar as relações entre eles. Ambos tratam de um momento muito particular da história da produção imagética da Palestina: o período do cinema das organizações, ou cinema revolucionário, que atravessa o final dos anos 1960, toda a década de 1970 e o início dos anos 1980. Qual o papel do cinema e dos arquivos para um povo que enfrenta, simultaneamente, tentativas de apagamento simbólico e material? O que pode uma câmera perante a necessidade de narrar o esforço)de resistência à ocupação territorial?

Participarão Rami Nihawi (produtor do filme Fora de Quadro), Emir Mourad (Editor do Blog Sanaúd e ex-secretário geral da FEPAL - Federação Árabe Palestina do Brasil) e Milton Barbosa (Dirigente do MNU – Movimento Negro Unificado - e membro da delegação brasileira que visitou Yasser Arafat em 1980, cujo encontro é descrito no filme Sanaud).