Os curdos constituem um conjunto heterogêneo de uma etnia que soma aproximadamente 25 milhões de pessoas, vivendo majoritariamente entre o que hoje conhecemos como Irã, Iraque, Síria e Turquia, além de uma expressiva diáspora global. São descendentes dos antigos povos Medos e, por isso, frequentemente reconhecidos como um dos povos originários da Mesopotâmia.
Entre seus idiomas, destaca-se o kurmancî, embora outros, como soranî, zazaki, gorani e laki, componham seu universo linguístico. Historicamente, a região conhecida como Curdistão é habitada por curdos, e por árabes, assírios, caldeus, turcomanos, armênios, yezedis e diversas outras comunidades, formando um território de pluralidade étnica, religiosa e cultural, com diferentes formas de organização social, política e econômica.
Ao longo dos séculos XIX e XX, esses territórios foram objeto de disputas imperiais. As comunidades curdas atravessaram quatro séculos de domínio Persa e Otomano (1299–1922). A colonização formalizada no Tratado de Sykes-Picot (1916) reorganizou as fronteiras do Oriente Médio, fragmentando comunidades e famílias curdas que foram divididas em dois territórios, entre a França e Inglaterra.
Entre as décadas de 1940 e 1990, movimentos curdos organizaram-se em torno de duas agendas centrais: a defesa de uma ideia política de povo, capaz de unificar narrativas e disputar o direito à autodeterminação; e a reivindicação de autonomia territorial, fazendo da etnicidade e da territorialidade categorias estratégicas de luta. As tentativas de constituir repúblicas curdas autônomas, como o Reino do Curdistão (1921–24), a República de Ararat (1927–30) e a República de Mahabad (1946), exemplificam projetos de autogoverno politicamente organizados e estruturados, com ministérios e demais cargos distribuídos e que foram sistematicamente reprimidos pelos Estados centrais. Com a formação dos Estados Nacionais da Turquia, Irã, Iraque e Síria, os povos Curdos foram novamente divididos e redistribuídos. Os territórios reivindicados por eles se concentram majoritariamente na fronteira entre esses quatro países.
Em 1978, Abdullah Öcalan e um grupo de jovens ativistas fundaram, em Ancara, o Partido dos Trabalhadores do Curdistão (PKK), inicialmente apoiado em bases marxista-leninistas, posteriormente reelaborado para atender aos princípios políticos e dinâmicas das próprias comunidades curdas. Na década de 1980, mulheres curdas denunciaram práticas consideradas sexistas por parte de homens curdos no interior do Partido e passaram a organizar movimentos próprios, criando organizações como o Movimento de Libertação das Mulheres Curdas (1985), a União Patriótica das Mulheres do Curdistão (1987), o Exército de Mulheres Livres (1993) e o Partido das Mulheres Trabalhadoras do Curdistão (1999). Essa reorganização política consolidou a igualdade de gênero como um dos eixos estruturantes das lutas contemporâneas, com simetria em relação à etnicidade e à territorialidade.
Para muitos ativistas curdos, a luta por autonomia política chamada de “Questão Curda” não seria, de fato, uma questão, mas uma resposta às violências produzidas pelo colonialismo e pelos Estados nacionais. Mais do que um conflito, o termo expressa um guarda-chuva de narrativas sobre deslocamentos, genocídios, resistências cotidianas, formas comunitárias de organização e disputas por autonomia, territórios, narrativas, epistemologias (como a jineolojî, a ciência das mulheres curdas) e reconhecimento. No século XXI, as mulheres curdas se consagraram como protagonistas dessas lutas, redefinindo o horizonte político da autonomia da nação com base na igualdade de gênero.

Flávia X. M. Paniz é pesquisadora de sociologia da Cátedra Edward Said da UNIFESP e Pesquisadora do grupo de pesquisa em decolonialidade e teorias decoloniais da UNESP. Defendeu sua tese de doutorado na UNICAMP (2023), abordando gênero, sexualidade e relações étnico-raciais nas campanhas pela autonomia do Curdistão. Possui interesse de pesquisa nas áreas de gênero, sexualidade, teoria queer, relações étnico-raciais, epistemologias e geopolítica da produção de conhecimento a partir de teorias pós-coloniais produzidas no Oriente Médio e Norte da África.
