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Você está em:Home»ENTREVISTAS»O fundamentalismo como resposta ao reacionarismo europeu e estadunidense do final do século XX
ENTREVISTAS

O fundamentalismo como resposta ao reacionarismo europeu e estadunidense do final do século XX

Icarabe: Como se insere o islã no contexto geopolítico atual?
Christian Karam: Na verdade existe mais de um islã, não existe um islã único. Essa palavra se usa de forma muito generalizada. Existem muitos islãs com vários matizes ideológicos, políticos e mesmo religiosos, que são, na maioria dos casos, não-fundamentalistas, e que em alguns casos acabaram pendendo para esse viés fundamentalista. Principalmente nos últimos 30 anos. Nos anos 70, quando ocorre toda essa crise de crescimento do bloco capitalista, na Europa e nos Estados Unidos, e dessa crise de crescimento no centro surge uma reação conservadora ao final dos anos 70 e início dos anos 80, com, por exemplo, a eleição de Reagan nos Estados Unidos e de Margareth Thatcher nas Inglaterra. Há também a própria revolução islâmica no Irã. Nesse processo de reação conservadora nesse período é que surge o fenômeno do fundamentalismo, no islã político. O fundamentalismo religioso é muito anterior e tem origem nas comunidades protestantes dos Estados Unidos no começo do século XX. E 70 anos depois ele vai se manifestar no seio do islã de uma forma mais violenta. Então, existem vários islãs. Um, esse islã do fanatismo religioso, do fundamentalismo, é um viés dos vários que existem.

Icarabe: Como se dá essa resposta ao reacionarismo de Europa e Estados Unidos?
Karam: Ela surge na periferia do sistema capitalista, que é onde se inserem os países árabes e islâmicos. Existe a revolução islâmica no Irã, que pode ser considerado um estágio, mesmo a ascensão ao poder do Anwar Sadat no Egito, o aprofundamento da ideologia mais conservadora e do regime monárquico na Arábia Saudita. Tudo isso acontece no final da década de 70 e ao longo dos anos 80. Sem deixar aos islãs uma alternativa – que antes eles tinham ao longo dos anos 40 e 50, com as independências e o final dos mandatos francês e inglês na região -, eles tinham uma alternativa que não era somente a de decidir por um capitalismo liberal, de direita, ou seguir para um aprofundamento da religião como única forma de projeto político econômico. Eles tinham uma alternativa, que era a do secularismo, a laicização política dessas sociedades. Ela foi minada pelos fatores internos, os governos locais, e externos, as potências européias. Então, ao final dos anos 60 e início dos 70, os países islâmicos não vêem outra saída, na não ser o fundamentalismo. Em alguns casos, conseguiram manter um caminho político-ideológico intermediário, que não pende nem para a adoção de um fundamentalismo, mas também não vai para uma ideologia socialista, ou nasserista, ou pan-árabe, como era o projeto de alguns países até o começo dos anos 70.

Icarabe: Você acredita que existe a possibilidade de um sistema político laico baseado no islã, que não tenha que recorrer a modelos europeus, para a região?
Karam: Acredito que sim, porque o islã no seu início – desde o período clássico, que vai do século VII até o século XII, quando a Europa passava pela Alta Idade Média -, está imbuído de várias discussões políticas, legais e econômicas que permitem a formação de um projeto político. Tanto que volto a dizer, o fundamentalismo é um fenômeno moderno. Na época do período clássico não havia. Poderia haver uma doutrina teológica e filosófica que defendesse uma interpretação mais literal e purista das escrituras do Corão, mas não representava um fundamentalismo que não pode ser confundido com um movimento que tem sua natureza no século XX, com a modernidade. Este surge como uma resposta, e eu diria que o fundamentalismo é uma conseqüência dessa falta de alternativas que se apresentaram às sociedades islâmicas após a falha de projetos socialistas pan-árabes e também liberais. Acredito que essa falha se deve, em parte, à responsabilidade dessas mesmas sociedades islâmicas e seus governos, mas em grande parte à ingerência e uma herança imperialista que ao longo do século XX se instaurou quando essas regiões conseguiram suas independências e não foram respaldadas por projetos políticos consistentes e hoje vivem nessa situação de penúria em que se encontram. O fundamentalismo é conseqüência, em grande medida, dessas falhas desses projetos políticos e sociais como alternativas. Tanto a alternativa econômico-liberal, mais à direita, ou a social-democrata, mais ao centro, como as pan-árabe e nasseristas ou socialistas, mais à esquerda.

Icarabe: E como a charge do profeta Muhammad se insere nesse contexto?
Karam: A charge é de um desconhecimento histórico quase ridículo. Naquele período, Muhammad, o profeta do islã, nunca foi fundamentalista e nunca defendeu fundamentalismo entre seus companheiros e pessoas convertidas. Sabemos que o profeta foi muito mais um líder político, diplomático e militar importante que congregou,

Icarabe: As charges, que são defendidas como expressão da liberdade de imprensa, poderia ser melhor entendida como um fenômeno do orientalismo, de uma demonização do árabe e do islâmico?
Karam: A gente sabe, no aspecto teórico, que a academia está dividido em duas correntes, duas escolas históricas, para interpretar o islã. Aquela chamada de orientalista, ou internalista, que diz que todos os problemas das sociedades islâmicas são frutos da sua própria inaptidão em lidar com seus problemas, e aquela externalista, que é mais progressista, que diz que em grande medida os problemas do islã são decorrentes da situação geopolítica, principalmente do final do séc XIX, com o imperialismo francês, britânico e italiano, e que não encontraram depois nos anos 40 e 60, um respaldo, ou uma espécie de cooperação que fosse, por parte dos países colonizadores quando essas regiões se tornaram independentes. A posição orientalista é muito xenófoba e racista e vê o islã como único responsável pelos problemas que atingem as sociedades islâmicas.

Icarabe: As questões relacionadas ao Oriente Médio, e especificamente o caso das charges, são retratados exageradamente como uma questão religiosa?
Karam: Sim. A questão de fundo não é religiosa, nem nunca foi, ela é política e econômica. Mesmo na Idade Média, quando a gente sabia que a religião tinha um peso muito grande, inclusive no catolicismo ocidental, não se tratava de um problema de religião, mas de política e economia. A situação dessas charges é algo micro que se insere numa questão mais estrutural e de ordem macro, que é a própria demonização que o islã vem sofrendo ao longo dos anos 80 e pós-guerra fria nos anos 90.

Icarabe: E como ocorre esse processo de demonização?
Karam: Em grande parte isso se origina das reações conservadoras que governos europeus e norte-americanos instauram para se recuperar da crise econômica de crescimento do capitalismo nos anos 70. Isso externamente. Internamente a própria revolução islâmica no Irã, região petrolífera e de recursos naturais. Depois isso se aprofunda ainda mais com a Guerra do Golfo no começo dos anos 90, quando Saddam Hussein, antes aliado, se torna alguém desprezível para os interesses do Ocidente quando invade o Kuwait, que é uma grande fonte de petróleo para os Estados Unidos e Europa, e mesmo o Japão. Daí acontecem os ataques em 11 de setembro. Aí sim, a partir de 2001, é que o islã é demonizado ainda mais. É um problema de fundo político, econômico e social, e não religioso. Veja em que contexto as charges surgem: o Iraque ocupado e em guerra, o Afeganistão ocupado e a questão da Palestina sem resolução.

Icarabe: O 11 de setembro é um marco que acirra o problema?
Karam: É uma etapa mas em certa medida talvez seja um marco, porque ao longo da década de 80 e até o fim da guerra fria, em 90, já havia a reação conservadora, mas ainda havia o bloco socialista real, o bloco soviético, que representava uma ameaça muito maior e era um problema que devia ser resolvido primeiro. Até que surge naquele período a guerra do Iraque, e talvez essa guerra seja ainda mais representativa da demonização dos povos islâmicos do que até mesmo a revolução de 79. O 11 de setembro acirra ainda mais e aprofunda o problema, só que com um fator novo, que é um neoconservadorismo que surge de uma forma ainda mais violenta que antes, com o governo Bush em marcha, o governo Tony Blair, que a princípio era um governo politicamente e ideologicamente de esquerda , se afasta deste viés político-ideológico. Também a eleição de Ariel Sharon em Israel. Então, na minha visão, o processo no final dos anos 90 e ao longo desses últimos seis anos tem reforçado o período de aprofundamento de políticos de ideologia conservadora e de extrema-direita, tanto nas potências como no interior das sociedades islâmicas, como vimos na eleição do presidente do Irã, o impasse que o governo palestino tem enfrentado depois da morte de Arafat, que antes era mais de esquerda, depois foi para o centro, mas viu que não avançou o processo de paz. O próprio Egito é um regime duro com seus cidadãos. O Marrocos, ainda que com uma espécie de abertura, teve um auge, mas depois se fechou para a liberdade política e social. Vários pontos, tanto no centro do sistema capitalista como na periferia, são políticas de conservadorismo e reacionarismo do governo.

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🇱🇧A Associação Cultural Brasil-Líbano promoverá em 🇱🇧A Associação Cultural Brasil-Líbano promoverá em setembro iniciativas para comemorar os 150 anos da viagem do imperador Dom Pedro II ao Líbano, entre elas, a exposição itinerante, que contará com a apresentação da bandeira e espada de D. Pedro II, cedidas pela Casa Imperial do Brasil, além da Rota da Viagem do Imperador ao Líbano, imagens do seu diário, depoimento sobre as cidades visitadas, além de outras imagens.

🔗Saiba mais em nosso site. Link disponível nos stories.
🎭 Salamaleque em cartaz! Neste sábado, 22 de agos 🎭 Salamaleque em cartaz!

Neste sábado, 22 de agosto, às 16h, o Complexo Cultural Oswald de Andrade recebe o espetáculo “Salamaleque”, da Cia Teatral Damasco.

Fruto de cinco anos de pesquisa sobre a cultura árabe, a peça parte das cartas de amor trocadas pelos avós da atriz Valéria Arbex na década de 1930. Entre memórias, histórias de família e sabores, “Salamaleque” proporciona uma experiência teatral sensorial e intimista.

📅 22 de agosto, às 16h
📍 Complexo Cultural Oswald de Andrade
🎟️ Ingressos distribuídos 1h antes, no local (máx. 2 por pessoa).
🔞 Classificação: 14 anos
📽A 21ª Mostra Mundo Árabe de Cinema, promovida pel 📽A 21ª Mostra Mundo Árabe de Cinema, promovida pelo Instituto da Cultura Árabe (ICArabe) e pelo Sesc – Serviço Social do Comércio, será realizada de 2 a 8 de setembro, no CineSesc (Rua Augusta, 2075, Cerqueira César – São Paulo). A programação apresenta 9 filmes, todos inéditos. A abertura será no dia 2, com o filme “Calle Málaga, de Maryam Touzani.

🔗Saiba mais em nosso site. Link disponível nos stories.

@mostramundoarabedecinema 
@cinesescsp
📚 Fundação Biblioteca Nacional (FBN) lançou edital 📚 Fundação Biblioteca Nacional (FBN) lançou edital para editoras estrangeiras interessadas em publicar no exterior obras de autores brasileiros. 

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@anbanewsagency
✍️Evento reunirá a tradutora Maria Carolina Gonçal ✍️Evento reunirá a tradutora Maria Carolina Gonçalves e a escritora Maria Fernanda Maglio, com mediação de Yasmin Faria, no dia 20 de agosto, às 19h30.

🔗Saiba mais em nosso site. Link disponível nos stories.

@editoratabla
❓ Você sabia que a expressão “conflito árabe-israe ❓ Você sabia que a expressão “conflito árabe-israelense”, muito usada pela imprensa ocidental, não reflete a realidade da luta palestina? O que se retrata como um conflito entre os dois lados, na verdade pode ser descrito por diversas expressões:

🇵🇸 Ocupação colonial sionista
Ocupação militar israelense
Apartheid israelense
A luta palestina
A questão palestina
A colonização da Palestina

Esses e outros termos estão na plataforma “Comunicando a Palestina”, um guia gratuito para uma comunicação mais ética e responsável sobre a Palestina.

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