O Instituto da Cultura Árabe lança mais um verbete de sua série especial dedicada à compreensão do mundo árabe. A iniciativa reúne especialistas para apresentar, de forma acessível e fundamentada, conceitos, termos e temas históricos e contemporâneos que ajudam a ampliar o olhar sobre a cultura árabe-islâmica, enfrentando simplificações e estereótipos ainda recorrentes. A cada novo conteúdo, o público é convidado a aprofundar conhecimentos, refletir criticamente e fortalecer o diálogo sobre as múltiplas contribuições dessa civilização à sociedade global.
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Nahda
“Nahda” é o nome dado às transformações intelectuais, culturais e linguísticas que marcaram as províncias de fala árabe do Império Otomano durante o século 19. Essas transformações antecederam e influenciaram, na virada para o século 20, o surgimento de diferentes formas de nacionalismo árabe.
Há um longo debate acadêmico a respeito da tradução da palavra árabe “nahda”. O significado literal do verbo “nahada” é “erguer-se” ou “levantar-se”.
O termo é por vezes traduzido como “renascimento” ou “despertar”, mas essas duas versões têm as suas limitações. A ideia de “renascimento” pressupõe uma comparação com o Renascimento, que foi uma experiência europeia. Já “despertar” dá a entender que existia uma identidade árabe pré-existente em longo declínio, uma interpretação que é hoje amplamente questionada por historiadores.
Mais recentemente, acadêmicos têm preferido manter a palavra “nahda” no seu original árabe, dando conta de suas especificidades, que desafiam as comparações diretas com experiências ocidentais.
Um dos principais eixos da “nahda” foi a tradução. Por meio da circulação e debate de textos sobretudo de matriz europeia, intelectuais formularam novas reflexões sobre a modernidade, a educação, a ciência e a política.
No quesito da língua, os escritores associados à “nahda” promoveram a modernização da prosa árabe, expandindo o vocabulário e adaptando o idioma a novos gêneros literários, jornalísticos e científicos.
Um de seus mais conhecidos expoentes foi o escritor Jurji Zaidan, autor de populares romances históricos. Também foram centrais figuras como Butrus al-Bustani e Ahmad Faris al-Shidyaq.
Vale lembrar que os imigrantes árabes radicados nas Américas — em especial no Brasil, na Argentina e nos Estados Unidos — participaram dessas transformações culturais. Na diáspora, o nome mais frequentemente associado à “nahda” é o de Gibran Khalil Gibran, nascido em Bsharri e radicado em Nova York.
Foram muitos os intelectuais árabes que, do Brasil, participaram dessa rede de intelectuais. Foi o caso de Chucri al-Khouri, Rachid Salim al-Khouri e Chafic Maluf. No entanto, como grande parte dos estudos sobre a “nahda” se concentrou nas comunidades árabes nos Estados Unidos, essa participação ainda é pouco reconhecida.

Diogo Bercito é jornalista, romancista e historiador. Foi correspondente da Folha de S.Paulo em Jerusalém e em Madri e integrou a equipe vencedora do Prêmio Rei da Espanha de Jornalismo de 2018. É doutor em história e mestre em estudos árabes pela Universidade Georgetown. É autor dos livros Brimos e Brimos à Mesa, sobre a história da imigração árabe no Brasil.
